16 de fevereiro de 2013

A RELIGIÃO E A FÉ

Não me incomoda a saída do Papa. Não me incomoda nem um pouco. Gostaria até que não houvesse outro. Nunca gostei de papas. Nada pessoal. É porque nunca gostei que o cristianismo se fizesse representar com tanta pompa, luxo e decadência. Nem admito que alguém venha dizer que representa Deus na Terra. Por quem me tomam?
Os fiéis acreditam. Para isso são fiéis. Os padres, os bispos, os cardeais - poucos são os que se dedicam a ajudar os pobres e os perseguidos. E omitem-se com soberba, vestidos com aqueles modelitos que inspiraram Fellini a criar um genial desfile de modas de vestes para o clero, do coroinha ao papa.
Todas as hierarquias se mantém por um fio. Intrigas, comprometimentos, traições - eis o alto escalão da Igreja. E agora mais essa, de contratar um banqueiro nos últimos minutos, antes de ir, demissionário, para Castelgandolfo passar uns dias.
A verdade é que se diz muita bobagem nas táticas de exploração. Uma delas mantém o povo cego e ignorante  usando dogmas e regras para o poder tentacular da igreja, que muitas vezes é suporte de governos arbitrários e violentos. Em outra a igreja mantém-se a si mesma ignorando os cegos e ignorantes.
O Papa nunca foi santo, e isso todo o mundo sabe. É preciso ser muito cínico para fazer de conta que não não existe vida sexual no clero. Talvez se os padres pudessem casar. Mas não. Preferem ir contra a natureza, desonrar e desonrarem-se e permanecerem padres pela glória da Igreja. E não há só isso. Há muito mais coisa na política palaciana.
A corrupção na Igreja é tão antiga quanto o tráfico de pessoas, tema que o novelão da Globo vem apresentando como grande novidade. Nem uma nem outro acabarão porque assim é o mundo, o mundo da exploração. Explora-se o corpo e o imaginário das pessoas. Pode-se apresentar provas e o fiel não lhes dará crédito. A fé é inabalável.

5 de fevereiro de 2013

RUBENS PAIVA (1929-1971)

É estranha a notícia de que afinal foi provada a tortura seguida de morte do Deputado  Rubens Paiva, nas dependências do DOI-CODI, em 1971. Parece estranha porque é uma verdade antiga. Um dia alguém disse: Rubens Paiva morreu torturado nos porões da ditadura. E não só eu soube, vocês também, todos, até aqueles que não estavam ligados ao movimento militar, nem sabiam que existia, souberam simplesmente porque leram no jornal. E foi manchete, obrigatoriamente, porque se tratava de um homem importante. E investigava coisas que não deviam ser investigadas.  
A verdade, todos souberam em seguida. O corpo desapareceu. Mas sempre tem alguém que vê, alguém que escuta, alguém que sabe. Só assim a notícia teria se propagado tão rápido, tão alto. Rubens Paiva foi preso, torturado e morreu. Não há corpo. Não há pistas sobre o seu desaparecimento. Mas alguém soube. O médico do Exército, por exemplo, soube. Terá dito a quem? Ou foi uma morte deduzida? Quem sabe algum torturador não tenha agüentado o peso na consciência. Quem sabe outro preso, esperando a vez, ligado nos movimentos, nas vozes, nos gritos, nos silêncios, de novo os movimentos, os passos, as chaves, as vozes, as botas, os olhos vendados, os ouvidos bem abertos, os golpes, a brutalidade. Tudo por causa do "avanço comunista". 
Nunca houve dúvidas em relação a esse fato. Só a justiça precisava de provas. Vejamos agora o que irá fazer com elas. Prenderá os algozes? Conseguirá levá-los a um tribunal que os condene ou ao menos humilhe-os e desmascare publicamente, do primeiro ao mais alto escalão? 
Talvez não. Com sorte, contam com as manchetes atuais, novíssimas, onde policiais armados jogam spray de pimenta e balas de borracha em presos seminus, ajoelhados, de costas. É uma imagem aterradora.
Mas os policiais não se importam nem com câmeras de segurança. Eles têm as armas. E é com elas que fazem justiça. Sempre foi.
Uruguai e Argentina, com ditaduras muito mais sanguinárias pagaram seus pecados. Nós não, nós não temos pecados. Cada um estava fazendo o seu dever.


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30 de janeiro de 2013

FOGO FRIO


Em todas as veias do sistema alguma coisa conspirava para que aquela noite não desse certo. Toda a teia burocrática se movia rumo à catástrofe. Ninguém sabia de ninguém. Mas todos deram a sua cota de desleixo para que o fato acontecesse. Impossível impedi-lo.
O princípio que rege a burocracia é: onde puder parar, paremos. Se pudermos complicar, compliquemos. E se pudermos lucrar um pouquinho, melhor. Pode dar problema? Claro que pode. Mas pode não dar.
Mesmo aqueles que montam um negócio como casas noturnas precisam cumprir a lei até determinado ponto. Abriu a casa, o resto se resolve. E a grana começa a entrar.
O que querem os jovens? Os jovens não sabem mesmo o que querem. Querem mesmo é estar juntos, dançando, namorando, fazendo planos para o futuro. A moda é essa? Vamos lá.
Disso tudo se aproveita o empresário: ingresso a 15 reais. Gurizada universitária. Quem se importa com a lotação?
Imagino que dos celulares e afins partam mensagens: está bombando! 
Algumas famílias têm medo que seus filhos se aproximem das drogas. Entretanto, sem que ninguém as prevenisse, as novas gerações estão sendo assolados por um vírus muito mais grave e devastador que é o envolvimento com a breguice. A mídia, como sempre, reconheceu a breguice, promoveu-a a “elemento nacional” e massificou-a para vender.
Gurizada Fandangueira, que tem como “diferencial” apresentações com fogo em recinto fechado já está dizendo a que veio. É, no mínimo, uma vigarice, conforme se viu.

Há momentos em que a crise de inteligência sofre uma explosão. É o momento em que as pessoas se põem a pensar e a buscar responsabilidades. Mas os mortos estão mortos.  

Certamente muitos pais já tinham falado sobre drogas com seus filhos. Mas quem tentou dissuadi-los dessa escolha arriscada, que é da cafonice, da vulgaridade, da enrolação? Quem lhes apresentou outra saída?
Por outro lado, quem de nós, algum dia, foi verificar se a balada que seu filho freqüentava tinha condições de segurança? Ninguém faz isso e será considerado neurótico se o fizer.

A tragédia estava escrita. A autoria é de um conjunto de fatores que, mal constituídos, falharam num mesmo momento. Quem articulou? Difícil captar o sentido de certos acontecimentos terriveis. A morte impressiona. E mais: a morte violenta. E ainda: a morte violenta de jovens, mais de duzentos. O fogo que os consumiu, como se uma espada implacável golpeasse os que vão e os que ficam.. 
As vítimas são brancas, bem nutridas, têm seus lares, são “o nosso bebê” e deveriam estar fora da frente de guerra diária que enfrentam as populações pobres e morrem, sem nome e sem foto, nas quebradas do Brasil. Eis a nossa guerra: contra a ignorância. E como em qualquer guerra, vão-se os jovens primeiro.
Que seus espíritos tenham paz. Que os que ficaram possam suportar esse frio que vem depois, quando tudo silencia, e fica ali doendo, queimando, e nunca, nunca mais vai embora. 



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13 de janeiro de 2013

UMA CARTA PARA ALCIR


Querido Alcir,
Há um mês deixaste este mundo de malucos. Eu não consegui escrever na hora, pra te louvar. Não deu, velho. Por que é que a gente chora? Em vez de ficar aliviada porque te livraste de um final ingrato, fico aqui, chorando por mim mesma. Tu já não estás.  E eu fiquei menos do que era. 
Mas como a minha convicção é maior que a tua, uma vez que não tinhas nenhuma acerca de depois da morte, quero te dizer que a Dilma deu prazo de mais três anos para a adoção  do acordo ortográfico. Tu sabes que esse acordo significa um retrocesso no aprendizado da linguagem já tão combalida. O que todos sabiam, deixam de saber, e os que aprenderem, com certeza o farão com mais dificuldade porque também o ensino fica mais difícil. Os acentos, ao contrário do que muitos pensam, servem muitíssimo para gravar uma grafia. Numa sociedade de imagem, por que combater os símbolos gráficos no idioma?
Ideia sem acento nunca será uma boa idéia. Ante-sala sem hífen e ainda por cima com dois ss não significa a espera. O hífen é o espaço da pausa. Como em auto-retrato é o espaço do ego.  Divagações. Minúcias, dirão alguns. Mas sei que para ti eram coisas essenciais. O idioma é essencial para a soberania, embora a noção de Nação também não esteja muito em moda. 
Portugal, tu sabes, não deu a mínima, pediu prazo maior, mas no Brasil logo acatamos as normas. Sem pensar, apenas por obedecer. Um mau costume de colonizados. 
Onde estão os grandes autores, os intelectuais, os filólogos, os  guardiões do idioma, não sei. Não me perguntes. Sei de um homem do meio que  se posicionou contra e foi despedido. Lobby forte. 
Imagina que a Globo comemora 30 anos de RJTV e sabes qual é a grande chamada? Filma eu. Filma nós. 

Tua dedicação, tuas idas constantes ao dicionário, tua busca pela clareza aprendidas com Houaiss resultam inúteis. Foco nos 100 anos de Rubem Braga, mas nada sobre a importância da linguagem.
Bem vês, meu caro amigo, a ignorância grassa. A burrice se alastra.

Outra notícia que te dou do Brasil, Planeta Terra, é de que a mídia está indignada com um caso de tortura na cadeia. Francamente, tortura nas cadeias? Que coisa absurda! 

De tortura tu entendes, né, Alcir? Mas tu és forte, és um touro nascido e criado em Rocha Miranda, suportaste a tortura na Barão de Mesquita 425 - A fábrica do medo. Mas quando te conheci não consegui te imaginar conspirando, fugindo da polícia da ditadura. Tu eras todo dedicado à vida.
Quando te conheci tudo já era passado, o Brasil respirava. Tinhas voltado do exílio, o Rio era novamente jovem e se despia das mortalhas, as moças passavam douradas e foi maravilhoso voltar a viver. Alcir e Lena, Lena e Alcir - uma lenda. 
Amor e literatura.


Os amigos seguem te amando.
Anna manda lembranças para ti e para Álvaro e se consola sabendo que tu, ele e o Sebastião devem se encontrar para contar intermináveis piadas de sacanagem. 
Sempre há questões a serem resolvidas. Mas não mais por ti, Alcir, não mais por ti. 
Estás gravado no cenário das praias intensas, do sol vermelho de verão, da linha curva do horizonte no mar de Ponta Negra, das vitórias do Vasco. Do amor, Alcir, do amor.



Alcir Henrique da Costa (1940-2012) - ativista, sociólogo, um dos fundadores do Grupo Tortura Nunca Mais, autor de Barão de Mesquita, 425, a fábrica do medo e do livro de contos Contramão.

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2 de janeiro de 2013

O VERDADEIRO ESPETÁCULO


Pois fui novamente, depois de muitos anos, ver os tais fogos de Copacabana. O motivo é que desta vez os veria de longe, sem o barulho e sem a fumaça, e de um ângulo contrário, do outro lado da baía.
Outras pessoas pensaram a mesma coisa. Aliás, normal. Com tanta gente coexistindo no planeta, fica difícil ter pensamentos originais e lugares vazios. Mas não apareciam. Eram vultos, apenas, que se moviam na praia sem vocação nenhuma para a fraternidade.
Saibam vocês que na praia de Camboinhas não entra ônibus, nem mesmo para transportar a massa trabalhadora que mantém limpas as grandes mansões, onde não se vê ninguém, e os únicos viventes são os empregados. Não importa quão longe seja o local do emprego, os operários têm que caminhar, sob sol e chuva. Os patrões pensam que assim se livram das hordas que invadem as praias gerais, nos finais de semana.

Pois bem. Começaram os fogos. Aos cinco minutos eu já estava entediada. Afinal, por mais tecnologia, o que resulta mesmo é a repetição.
Deitei, então, sobre a canga, e fiquei olhando um outro espetáculo, aparentemente mudo, silencioso, misterioso e (oh!) gratuito. Se a vida é um show, os fogos da meia-noite são estupendos, você ri até sentir o maxilar, de tanta obrigação de ser feliz, repare: é o que não olhamos, que não contemplamos devidamente, que não valorizamos com a convicção dos privilegiados, que nos traz a proximidade e o encontro com a  beleza, o brilho e a eternidade. 

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31 de dezembro de 2012

MARAVILHAS


O calor, a doença, a morte, o vazio, um defeito no computador, o sangue fraco, o trânsito. Isso tudo foi dezembro. O mundo, o que era o meu mundo,  vai se esvaziando de gente e se enchendo de lembranças, de fotografias, de risadas que se perderam no passado mas às vezes ecoam, na intimidade do silêncio. 
Tudo bem, sempre há as vitórias nessa luta pela sobrevivência. Como viver sem bandeiras e estandartes? A causa da legalização deu seus passos e entrará, a partir de amanhã, no circuito oficial da representação política, graças à eleição de Renato Cinco - desde o início a figura que catalizou tantos adeptos. 
Pra quem pensa que maconheiro é deitado, saibam todos que uma grande convicção move o Vereador eleito, ao longo dos anos, planejando, executando e ainda administrando idiossincrasias, e assim conseguiu com que o movimento se alastrasse pelo Brasil. 
Também a galera que o acompanha é de gente forte, firme nas idéias libertárias. André Barros, um dos companheiros mais antigos e leais, além de advogado dos perseguidos revelou-se um talentoso articulista. Ainda com uma pegada de advogado, mas necessária, porque as pessoas demoram a compreender e também ignoram quase tudo. É preciso citar as leis, mas antes de tudo é preciso fazê-las, ou revogá-las. Renato Cinco estará lá, em terreno perigoso, presa de pressões e constrangimentos, mas estará lá. 
Eis a tal esperança, literalmente verde. 
E alegre. Não são mais os maconheiros temerosos e circunspectos do PT bebê. Esses foram extintos pela realidade. Hoje a repressão é outra. Um grupo festeiro fundou o bloco carnavalesco Planta na Mente, famoso ao nascer, como são as coisas hoje. São jovens, são bonitos, fazem seus estudos, trabalham e ainda têm tempo para a militância. 

Mujica, no Uruguai, também teve que dar um passo atrás, atendendo à maioria conservadora. Uma missão norte-americana esteve no Uruguai, sabe lá do que ainda são capazes. 
Os conservadores celebram a bandeira de que na Holanda o governo restringiu a venda de maconha aos estrangeiros. Um erro. Sempre haverá maneiras de um holandês descolar um troco e vender para os gringos, chamando primo e sobrinho pra aumentar na transação. A mente humana não tem barreiras quando quer alguma coisa. E é só para isso que existe a repressão: para estimular a idéia do convicto de burlar a lei e atingir o fim pretendido. Como os hackers, por exemplo. Esses, no entanto, são bem-vindos ao mercado.
Eu poderia pertencer a um movimento pelo fim do estupro. Mas como assim, o fim do estupro, a partir de uma educação machista e descabida? Nem a religião ou a lei, que ameaçam com a culpa ou a cadeia, resolvem o problema. Lavagem de honra, pura bobagem. A honra é manchada a toda a hora. Vamos ficando tisnados de tanta desonra. Quantas mulheres casadas não são estupradas regularmente por seus caros consortes? Mas essa luta precisa que as mulheres se levantem. É dura a caminhada.

Mas a luta pela legalização da maconha também abrange a luta pela  liberdade da mulher e a de todos os oprimidos. É a luta pela liberdade de alimentar, plantar e colher o prazer. Coisa que muitos não entendem.

Desejo a Renato Cinco que não lhe falte o bom senso e que isso não signifique perder a coragem. É preciso firmeza frente a bispos e pastores,  coronéis e poderosos de qualquer hierarquia.
Confira, quem quiser  ter opinião mais substancial sobre o assunto, o blog do André. Ser contra ou a favor por ouvir falar é pouco, muito pouco para formar opinião. 


E a poesia? Bem, está aí para quem quiser senti-la. Mas quando Ela escolhe o poeta, olha na sua direção, toca-lhe corpo e alma, ele sabe o que vale a pena na vida. O sentido da vida, sobre o qual muito se especula, é apenas sentir, compreender e aguardar. Ninguém sabe o que virá.

E a cidade? E o reveillón? Isso vocês podem ver ao vivo ou pela televisão.
O que só verão aqui é o texto magistral que fala de uma outra cidade, que só o poeta percebe.

Maravilhosa

* por Daniel Santos



Nada cala os tambores da cidade fatigada. Os dias entram pelas noites com insônia de profundas olheiras, numa convulsão requebrosa pelo divertimento a todo custo, ansiedade sem o cabresto do recato.

Houvesse um colapso, as tensões se aliviariam, mas recorrente é o frenesi que toma todo o sítio das promoções vantajosas, das produções milionárias, das platéias que se convulsionam roufenhas à exaustão.

Sempre prestes, incapaz de escapar ao incessante gerúndio, a cidade atrai turistas, forasteiros, curiosos e os imiscui na rotina da alegria ruidosa que preenche todos os horários, sem noção de prazo nem de limites.


Canta, dança, sua e emite à atmosfera eflúvios da própia alma, da sua inquieta essência. Assim, o delírio em suspensão volta a se depositar, grão após grão, sobre essa que desconhece descanso, tranqüilidade.

Quando a fadiga beira a ruína, o troar dos tambores anima criaturas quase esgotadas, sem licença para a pausa. E prossegue assim, o permanente show das multidões sem consciência do próprio desespero. 


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Eis aí. Aos meus caros apoiadores, amigos e leitores das minhas divagações, agradeço.
Ao jornal O Cometa, que me sustenta na sede do sonho de um jornal de verdade. 
A todos aqueles que, gentilmente, me chamaram para serem seus amigos em redes sociais, explico: não posso. Sou muito contida em minha intimidade, acostumada ao que chamam de solidão, e eu chamo de paz.
Consegui-a, em momento de desespero, num pacto com Deus. A qualquer vacilo, lembro da palavra empenhada e agradeço a vida que tenho, os amores que mereci ou despertei, os filhos que tive e os que me tiveram
E numa homenagem ao amor, à paz e à divindade eu, certamente, já apertei um.  

E para terminar esse texto que já vai comprido enquanto o calor aumenta, uma piada de maconheiro:

O cara estava indo pra casa, numa quebrada, quando surge o policial e pergunta: 
- Tá levando uma parada aí?

O cara, pego de surpresa com um polícia saindo da moita, responde:
- Ainda não.



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9 de dezembro de 2012

DEUS ESTÁ SOLTO (Ítalo Rovere)

Alegrem-se todos, o sol voltou, Deus está solto.

E eu estou feliz porque neste final do ano de 2012 haverá dois lançamentos de livros de amigas, poetas de fé, acima de tudo. 
Astrid Cabral e Márcia Cavendish Wanderley lançam seus novos livros. Márcia autografa  A Idade do entendimento no dia 10, na Blooks; Astrid, Palavra na berlinda, dia 13, na Livraria do Bardo. 
As maçãs de antes é o título do livro com o qual Lila Maia venceu o concurso de poesia do Estado do Paraná e no dia 10 estará viajando para Curitiba para receber o prêmio. 
Todos sabem como é difícil a vida do escritor, e mais ainda do poeta, ainda mais se for mulher. Não basta que o poeta seja reconhecido por seus pares. Não basta que dedique todo o seu esforço para que sua voz seja ouvida, publicando em antologias, concorrendo a concursos, às vezes pagando as próprias edições em pequenas editoras. 
Os concursos, por sua vez, não facilitam. Exigem sempre inéditos. Enquanto a música pode percorrer todas as ondas e os quadros viajem para serem vistos, e os filmes vencedores de festivais concorram a outros,  e o ballet, e a ópera se repitam pelos séculos - do escritor é exigido o ineditismo. Como se aquele poema vencedor não pudesse e não devesse ser mil vezes executado, lido, ouvido. Os músicos têm até a sua "música de trabalho", que são as mais importantes, as de maior sucesso.
Na literatura, não. Poema ou livro que vence concurso não pode concorrer a outro. A trajetória do poema que gerou o agrado de todos os jurados é também a sua sentença de retiro.
Poema bom é poema morto, para os organizadores dos concursos. 
Além de tudo, o velho e alquebrado descaso do mercado editorial, que determinou num certo dia que poesia não vende. Mesmo num momento histórico de consumo excessivo, parece que o padrão não mudou.
É difícil para todos, e sempre mais para as mulheres.
Mas há um dia em que a estrela brilha, Deus passa por perto e acende uma luz na vida daquelas que não contam com facilidades, mas que se mantém resistentes e firmes em suas trajetórias diversas. 
Por isso abraço sinceramente essas três mulheres plenas que se comprometeram com o que há de mais sério e abrasador: o amor e a poesia.
E isso se torna mais importante quando se sabe que num mundo de homens, mesmo que as mulheres sejam maioria, ainda é pequeno, muito pequeno, o universo dessas estrelas não reconhecidas, mas que brilham porque esse é seu destino.
Por tudo isso estou feliz, e também por outros milagres que me chegam, diretos ou indiretos, 
que aprendi a identificar desde que passei a observar mais céu e lua. E amar, ainda mais, sol e mar.







ASTRID CABRAL 

Atraso de vida

Por causa da poesia
o feijão queima
o leite entorna
esquece-se o troco
vai a roupa do avesso
chora o bebê com fome
perde-se o trem.
Mas viaja-se.

Sabe-se lá para onde
que anônima nuvem.


No meio do caminho

No meio do nosso caminho
tinha também uma pedra.
Não a pedra do poeta
verbal abstrata alegórica.
Tinha sim, uma pedra renal
concreta crônica sólida.
Tinha uma pedra plural:
extraída uma, outra surgia.

Nunca esqueceremos o lar mudado em hospital.
Dentro do corpo tinha um cálculo
obstáculo à união carnal.
Tinha uma pedra no caminho
do paraíso real.


Com a palavra o poema

Não ponha outra música no verso.
Seria equívoco, seria excesso.
O poema pede silêncio.
Quer proclamar o próprio som.
É canção de outro universo.
Cordas? Bastam as vocais.
Ouça, sua música de outro tom
avança em cortejo de vogais
jorra da fonte dos fonemas.
Não destrone a palavra.
De outra lavra a música do poema. 





MÁRCIA CAVENDISH WANDERLEY

 Shakespeare


Ferozes na poesia como feroz no amor foi Lear.
Paixão, intensidade, medo, ultraje, obstinação,
nada lhes falta, 
a estes personagens criados pelo bardo
como disfarces de seu próprio ego. 
Inventor da estranheza e insanidade 
que carregamos como prêmios 
ingratos
à nossa humanidade.



EROS HOSPITALAR

Ela chegou com medo de morrer, 
ele tomou-a nos braços com carinho.
Tudo vai dar certo, lhe disse baixinho.
Deitou-a numa cama branca com cortina
e repousou a cabeça em seu peito, gravemente.
Pensou que fosse amá-la ali mesmo!
porém alguém gritou na cama em frente:
Está doendo !!!!!!!!!
Ele correu para outro paciente.



SUBMERSA


Dizer que a vida é sempre possível 
mesmo quando a terra está por cima 
hoje não me serve pra nada.
Não me anima ver Derinkuyu
cidade submersa 
não no mar, mas no sonho de homens que beberam 
o vinho do inverno sob caves, 
quando lá fora a primavera explodia.
Já me enganaram os fatos,  
extraí seiva da História 
embarquei desenganada no entusiasmo dos loucos 
ou de quem estava perto.
Agora prefiro o negror onde a verdade paira, 
e o coração não sonha mais.   
Quando setembro chegar,  
beberei com você o vinho do afeto sem espinhos
mas hoje, estou para poucos. 


Os poemas do livro vencedor ainda não foram divulgados. Mas esses que lhes dou são do também premiado
Céu Despido.

LILA MAIA







Relíquia

Feito um menino que guarda seus segredos num cofre profundo,
escrevo cartas que jamais enviarei.
Estou convencida de que herdei da minha avó Palmira
o mesmo silêncio de pôr o rosto onde chove muito,
de entrar na casa da infância pela janela.
Nunca acreditei naquele cigarro que permaecia horas e horas aceso.
E fui adestrando asas para me ter por inteiro.
O limite era não desaguar
nem ficar nu.

Feito um adulto que menino olha o espelho,
continuo molhando minha coragem
e me permito cantar um blue

Quase lamento

Desses sonhos mais simples Deus não sabe
Nunca sentirá o prazer de ter livros na estante
e da falta que fazem uma mesa, quatro cadeiras,
um colchão de casal
Ele não compreende aquela janela inquieta,
as paisagens que transbordam livres

Deus é o que há de mais interminável em mim: a dor
Mas eu bebo do cálice
como do pão
às vezes ofereço a outra face por amor

O tempo segue com seu fogo milenar
Eu passo o pente nos cabelos sobriamente
Sobrevivo diante dos mistérios,
e desta claridade que não salva

Meu anjo

Avança decidido pela porta da noite
Ajoelha-se como se precisasse conhecer
o sistema de minhas artérias
Depois descobre os pontos
onde me sinto limitada
e só a mim seu alvo fere
Se grito três vezes seu nome
o perdido é uma cidade que amanhece
Se sussurro, mais fome desfere

Meu anjo quase sempre pintado de vermelho
me arrasta para o tanto que não sei
Não é nenhum Gabriel
mas seu cheiro, seu corpo calcinado
de águas e mistérios
além dessas rajadas
tem pétala de flor aberta


Quarto alugado


Tudo tem a dureza de muitos degraus.
Um esgrimir que corta aquele feeling
de perceber encantamentos.
Até a cama não comporta o meu desejo par.
É ímpar a saudade dos livros espalhados na mesa.
Hoje, Clarice e Drummond continuam na mala.

E aquela voz que lapidava
escuridão e chama,
quando eu tinha o direito de dar
nomes ao silêncio, 
agora vive como se estivesse
olhando a presa.


...