16 de março de 2013

TIA LOLA




Quando tia Lola ficou doente e foi de emergência para o hospital, o quadro logo se mostrou grave.
A mãe começou a falar no assunto para a filha, Cora, que não completou 4 anos.
Cora é a princesa da família, a única criança de uma família de adultos, na maioria mulheres. Cora é a filha de todos, a super-amada, e a todos responde com carinho e cuidado. 
A mãe disse que tia Lola tinha ficado doente e fora para o hospital.
Que rezassem para ela ficar boa. Cora interrompeu: ... Ou morrer, não é mamãe?  

Tia Lola foi para o hospital, esteve ainda poucos dias lúcida, foi para o CTI e logo se foi.
A mãe foi ao enterro, que estava tão triste, e na hora das despedidas, num impulso, sob muita emoção, contou essa história que lhes conto.

Quando soube da morte de Lola, precisei dizer à Cora. Ela então me disse que não ficasse triste; que a tia Lola tinha ido para um palácio muito lindo que existe no céu, onde as pessoas deixam suas asas quando vêm ao mundo. Quando morrem, elas partem outra vez para lá, recuperam as asas e viram anjos.

Em seguida apontou para o céu e exclamou, muito alegre: Olha lá mamãe, a tia Lola! Tchau, tia Lola! Tchau!

Mamãe, você não vai chamar ninguém para ver?

Tchau tia Lola!




Fev/2013     

18 de fevereiro de 2013

O CARNAVAL DO PAPA

E então, quando menos se esperava, no meio de um desfile sofrível que levantou até a questão se o carnaval deve continuar como está ou piorar, eis que entrou um bloco não inscrito e roubou a cena: na comissão de frente, sem comissão, sozinho, único e infalível, o Santo Papa mudou o rumo do carnaval e dividiu o noticiário. Muito mais interessante porque afinal, digamos que vestir-se com luxo, aparecer na janela, abanar para o rebanho não é lá uma coisa muito exaustiva. O que deve ter cansado foram as intrigas palacianas. E então, o que não acontecia há 600 anos: a renúncia.
O Papa, absolutamente contemporâneo, fez um cópia, incluiu uns elementos novos (a corrupção, sempre) e agradou aos fiéis. Os fiéis são tão fiéis que não importa quem vista as vestes papais. Eles serão sempre fiéis. Serão humildes. Mas só para as câmeras.
O problema maior será decidir se daqui para a frente o Papa usará vestes brancas, vermelhas ou pretas. Ora veja! Eu me lembrava de Roma, de Fellini, e daquela cena genial do desfile de moda para o clero. Nunca pensei que um dia o desfile ia rolar. Claro, as roupas do desfile eram apenas a tendência. Nenhum padre ousaria tanto, por mais que desejasse. Embora ousem para outras, mais secretas, mas desculpáveis.
O reacionarismo do Papa incomodou muita gente mas não chegou ao sucesso. Sucesso é assim, aparecer em todas as mídias, mesmo que seja para desaparecer. 
Sempre de fantasia.


Escrevo isso porque é um fato realmente inusitado, tão inusitado quanto a queda de um meteoro.
Tão inusitado quanto, ao que parece, é o tráfico de pessoas, incluindo meninos que vão para jogar futebol sabe-se lá onde. Tão inusitado quanto a polícia escoltar traficantes ou ficar com a metade da droga apreendida para vender. Tão inusitado quanto tortura na prisão. Tão inusitado quanto o Brasil.


Mas o Papa me deu uma boa idéia. Também me demito. 

Tudo o que tinha para escrever, já escrevi. Todos os assuntos que merecem denúncia, já denunciei. Tudo o que pude defender, defendi. Não quero começar a me repetir, e não sou assim tão criativa para escrever diariamente sobre a mesma coisa. Olho o mundo e a impressão que tenho é de que perdi todas as lutas, sempre uma voz dissonante que não encontrou eco, nadando contra a corrente, buscando a fonte.
Agora será diferente. 
Melhor viver o dia inteiro, o minuto inteiro, esperar que a flor se abra, que a aranha teça, incansavelmente, a sua obra-prima, esperar, como Joaquim Cardozo



Quando a luz surgir de novo, quando amanhecer
E o primeiro sol nascer
Sobre o dilúvio



16 de fevereiro de 2013

A RELIGIÃO E A FÉ

Não me incomoda a saída do Papa. Não me incomoda nem um pouco. Gostaria até que não houvesse outro. Nunca gostei de papas. Nada pessoal. É porque nunca gostei que o cristianismo se fizesse representar com tanta pompa, luxo e decadência. Nem admito que alguém venha dizer que representa Deus na Terra. Por quem me tomam?
Os fiéis acreditam. Para isso são fiéis. Os padres, os bispos, os cardeais - poucos são os que se dedicam a ajudar os pobres e os perseguidos. E omitem-se com soberba, vestidos com aqueles modelitos que inspiraram Fellini a criar um genial desfile de modas de vestes para o clero, do coroinha ao papa.
Todas as hierarquias se mantém por um fio. Intrigas, comprometimentos, traições - eis o alto escalão da Igreja. E agora mais essa, de contratar um banqueiro nos últimos minutos, antes de ir, demissionário, para Castelgandolfo passar uns dias.
A verdade é que se diz muita bobagem nas táticas de exploração. Uma delas mantém o povo cego e ignorante  usando dogmas e regras para o poder tentacular da igreja, que muitas vezes é suporte de governos arbitrários e violentos. Em outra a igreja mantém-se a si mesma ignorando os cegos e ignorantes.
O Papa nunca foi santo, e isso todo o mundo sabe. É preciso ser muito cínico para fazer de conta que não não existe vida sexual no clero. Talvez se os padres pudessem casar. Mas não. Preferem ir contra a natureza, desonrar e desonrarem-se e permanecerem padres pela glória da Igreja. E não há só isso. Há muito mais coisa na política palaciana.
A corrupção na Igreja é tão antiga quanto o tráfico de pessoas, tema que o novelão da Globo vem apresentando como grande novidade. Nem uma nem outro acabarão porque assim é o mundo, o mundo da exploração. Explora-se o corpo e o imaginário das pessoas. Pode-se apresentar provas e o fiel não lhes dará crédito. A fé é inabalável.

5 de fevereiro de 2013

RUBENS PAIVA (1929-1971)

É estranha a notícia de que afinal foi provada a tortura seguida de morte do Deputado  Rubens Paiva, nas dependências do DOI-CODI, em 1971. Parece estranha porque é uma verdade antiga. Um dia alguém disse: Rubens Paiva morreu torturado nos porões da ditadura. E não só eu soube, vocês também, todos, até aqueles que não estavam ligados ao movimento militar, nem sabiam que existia, souberam simplesmente porque leram no jornal. E foi manchete, obrigatoriamente, porque se tratava de um homem importante. E investigava coisas que não deviam ser investigadas.  
A verdade, todos souberam em seguida. O corpo desapareceu. Mas sempre tem alguém que vê, alguém que escuta, alguém que sabe. Só assim a notícia teria se propagado tão rápido, tão alto. Rubens Paiva foi preso, torturado e morreu. Não há corpo. Não há pistas sobre o seu desaparecimento. Mas alguém soube. O médico do Exército, por exemplo, soube. Terá dito a quem? Ou foi uma morte deduzida? Quem sabe algum torturador não tenha agüentado o peso na consciência. Quem sabe outro preso, esperando a vez, ligado nos movimentos, nas vozes, nos gritos, nos silêncios, de novo os movimentos, os passos, as chaves, as vozes, as botas, os olhos vendados, os ouvidos bem abertos, os golpes, a brutalidade. Tudo por causa do "avanço comunista". 
Nunca houve dúvidas em relação a esse fato. Só a justiça precisava de provas. Vejamos agora o que irá fazer com elas. Prenderá os algozes? Conseguirá levá-los a um tribunal que os condene ou ao menos humilhe-os e desmascare publicamente, do primeiro ao mais alto escalão? 
Talvez não. Com sorte, contam com as manchetes atuais, novíssimas, onde policiais armados jogam spray de pimenta e balas de borracha em presos seminus, ajoelhados, de costas. É uma imagem aterradora.
Mas os policiais não se importam nem com câmeras de segurança. Eles têm as armas. E é com elas que fazem justiça. Sempre foi.
Uruguai e Argentina, com ditaduras muito mais sanguinárias pagaram seus pecados. Nós não, nós não temos pecados. Cada um estava fazendo o seu dever.


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30 de janeiro de 2013

FOGO FRIO


Em todas as veias do sistema alguma coisa conspirava para que aquela noite não desse certo. Toda a teia burocrática se movia rumo à catástrofe. Ninguém sabia de ninguém. Mas todos deram a sua cota de desleixo para que o fato acontecesse. Impossível impedi-lo.
O princípio que rege a burocracia é: onde puder parar, paremos. Se pudermos complicar, compliquemos. E se pudermos lucrar um pouquinho, melhor. Pode dar problema? Claro que pode. Mas pode não dar.
Mesmo aqueles que montam um negócio como casas noturnas precisam cumprir a lei até determinado ponto. Abriu a casa, o resto se resolve. E a grana começa a entrar.
O que querem os jovens? Os jovens não sabem mesmo o que querem. Querem mesmo é estar juntos, dançando, namorando, fazendo planos para o futuro. A moda é essa? Vamos lá.
Disso tudo se aproveita o empresário: ingresso a 15 reais. Gurizada universitária. Quem se importa com a lotação?
Imagino que dos celulares e afins partam mensagens: está bombando! 
Algumas famílias têm medo que seus filhos se aproximem das drogas. Entretanto, sem que ninguém as prevenisse, as novas gerações estão sendo assolados por um vírus muito mais grave e devastador que é o envolvimento com a breguice. A mídia, como sempre, reconheceu a breguice, promoveu-a a “elemento nacional” e massificou-a para vender.
Gurizada Fandangueira, que tem como “diferencial” apresentações com fogo em recinto fechado já está dizendo a que veio. É, no mínimo, uma vigarice, conforme se viu.

Há momentos em que a crise de inteligência sofre uma explosão. É o momento em que as pessoas se põem a pensar e a buscar responsabilidades. Mas os mortos estão mortos.  

Certamente muitos pais já tinham falado sobre drogas com seus filhos. Mas quem tentou dissuadi-los dessa escolha arriscada, que é da cafonice, da vulgaridade, da enrolação? Quem lhes apresentou outra saída?
Por outro lado, quem de nós, algum dia, foi verificar se a balada que seu filho freqüentava tinha condições de segurança? Ninguém faz isso e será considerado neurótico se o fizer.

A tragédia estava escrita. A autoria é de um conjunto de fatores que, mal constituídos, falharam num mesmo momento. Quem articulou? Difícil captar o sentido de certos acontecimentos terriveis. A morte impressiona. E mais: a morte violenta. E ainda: a morte violenta de jovens, mais de duzentos. O fogo que os consumiu, como se uma espada implacável golpeasse os que vão e os que ficam.. 
As vítimas são brancas, bem nutridas, têm seus lares, são “o nosso bebê” e deveriam estar fora da frente de guerra diária que enfrentam as populações pobres e morrem, sem nome e sem foto, nas quebradas do Brasil. Eis a nossa guerra: contra a ignorância. E como em qualquer guerra, vão-se os jovens primeiro.
Que seus espíritos tenham paz. Que os que ficaram possam suportar esse frio que vem depois, quando tudo silencia, e fica ali doendo, queimando, e nunca, nunca mais vai embora. 



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13 de janeiro de 2013

UMA CARTA PARA ALCIR


Querido Alcir,
Há um mês deixaste este mundo de malucos. Eu não consegui escrever na hora, pra te louvar. Não deu, velho. Por que é que a gente chora? Em vez de ficar aliviada porque te livraste de um final ingrato, fico aqui, chorando por mim mesma. Tu já não estás.  E eu fiquei menos do que era. 
Mas como a minha convicção é maior que a tua, uma vez que não tinhas nenhuma acerca de depois da morte, quero te dizer que a Dilma deu prazo de mais três anos para a adoção  do acordo ortográfico. Tu sabes que esse acordo significa um retrocesso no aprendizado da linguagem já tão combalida. O que todos sabiam, deixam de saber, e os que aprenderem, com certeza o farão com mais dificuldade porque também o ensino fica mais difícil. Os acentos, ao contrário do que muitos pensam, servem muitíssimo para gravar uma grafia. Numa sociedade de imagem, por que combater os símbolos gráficos no idioma?
Ideia sem acento nunca será uma boa idéia. Ante-sala sem hífen e ainda por cima com dois ss não significa a espera. O hífen é o espaço da pausa. Como em auto-retrato é o espaço do ego.  Divagações. Minúcias, dirão alguns. Mas sei que para ti eram coisas essenciais. O idioma é essencial para a soberania, embora a noção de Nação também não esteja muito em moda. 
Portugal, tu sabes, não deu a mínima, pediu prazo maior, mas no Brasil logo acatamos as normas. Sem pensar, apenas por obedecer. Um mau costume de colonizados. 
Onde estão os grandes autores, os intelectuais, os filólogos, os  guardiões do idioma, não sei. Não me perguntes. Sei de um homem do meio que  se posicionou contra e foi despedido. Lobby forte. 
Imagina que a Globo comemora 30 anos de RJTV e sabes qual é a grande chamada? Filma eu. Filma nós. 

Tua dedicação, tuas idas constantes ao dicionário, tua busca pela clareza aprendidas com Houaiss resultam inúteis. Foco nos 100 anos de Rubem Braga, mas nada sobre a importância da linguagem.
Bem vês, meu caro amigo, a ignorância grassa. A burrice se alastra.

Outra notícia que te dou do Brasil, Planeta Terra, é de que a mídia está indignada com um caso de tortura na cadeia. Francamente, tortura nas cadeias? Que coisa absurda! 

De tortura tu entendes, né, Alcir? Mas tu és forte, és um touro nascido e criado em Rocha Miranda, suportaste a tortura na Barão de Mesquita 425 - A fábrica do medo. Mas quando te conheci não consegui te imaginar conspirando, fugindo da polícia da ditadura. Tu eras todo dedicado à vida.
Quando te conheci tudo já era passado, o Brasil respirava. Tinhas voltado do exílio, o Rio era novamente jovem e se despia das mortalhas, as moças passavam douradas e foi maravilhoso voltar a viver. Alcir e Lena, Lena e Alcir - uma lenda. 
Amor e literatura.


Os amigos seguem te amando.
Anna manda lembranças para ti e para Álvaro e se consola sabendo que tu, ele e o Sebastião devem se encontrar para contar intermináveis piadas de sacanagem. 
Sempre há questões a serem resolvidas. Mas não mais por ti, Alcir, não mais por ti. 
Estás gravado no cenário das praias intensas, do sol vermelho de verão, da linha curva do horizonte no mar de Ponta Negra, das vitórias do Vasco. Do amor, Alcir, do amor.



Alcir Henrique da Costa (1940-2012) - ativista, sociólogo, um dos fundadores do Grupo Tortura Nunca Mais, autor de Barão de Mesquita, 425, a fábrica do medo e do livro de contos Contramão.

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2 de janeiro de 2013

O VERDADEIRO ESPETÁCULO


Pois fui novamente, depois de muitos anos, ver os tais fogos de Copacabana. O motivo é que desta vez os veria de longe, sem o barulho e sem a fumaça, e de um ângulo contrário, do outro lado da baía.
Outras pessoas pensaram a mesma coisa. Aliás, normal. Com tanta gente coexistindo no planeta, fica difícil ter pensamentos originais e lugares vazios. Mas não apareciam. Eram vultos, apenas, que se moviam na praia sem vocação nenhuma para a fraternidade.
Saibam vocês que na praia de Camboinhas não entra ônibus, nem mesmo para transportar a massa trabalhadora que mantém limpas as grandes mansões, onde não se vê ninguém, e os únicos viventes são os empregados. Não importa quão longe seja o local do emprego, os operários têm que caminhar, sob sol e chuva. Os patrões pensam que assim se livram das hordas que invadem as praias gerais, nos finais de semana.

Pois bem. Começaram os fogos. Aos cinco minutos eu já estava entediada. Afinal, por mais tecnologia, o que resulta mesmo é a repetição.
Deitei, então, sobre a canga, e fiquei olhando um outro espetáculo, aparentemente mudo, silencioso, misterioso e (oh!) gratuito. Se a vida é um show, os fogos da meia-noite são estupendos, você ri até sentir o maxilar, de tanta obrigação de ser feliz, repare: é o que não olhamos, que não contemplamos devidamente, que não valorizamos com a convicção dos privilegiados, que nos traz a proximidade e o encontro com a  beleza, o brilho e a eternidade. 

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