Querido Alcir,
Há um mês deixaste este mundo de malucos. Eu não consegui escrever na hora, pra te louvar. Não deu, velho. Por que é que a gente chora? Em vez de ficar aliviada porque te livraste de um final ingrato, fico aqui, chorando por mim mesma. Tu já não estás. E eu fiquei menos do que era.
Mas como a minha convicção é maior que a tua, uma vez que não tinhas nenhuma acerca de depois da morte, quero te dizer que a Dilma deu prazo de mais três anos para a adoção do acordo ortográfico. Tu sabes que esse acordo significa um retrocesso no aprendizado da linguagem já tão combalida. O que todos sabiam, deixam de saber, e os que aprenderem, com certeza o farão com mais dificuldade porque também o ensino fica mais difícil. Os acentos, ao contrário do que muitos pensam, servem muitíssimo para gravar uma grafia. Numa sociedade de imagem, por que combater os símbolos gráficos no idioma?
Ideia sem acento nunca será uma boa idéia. Ante-sala sem hífen e ainda por cima com dois ss não significa a espera. O hífen é o espaço da pausa. Como em auto-retrato é o espaço do ego. Divagações. Minúcias, dirão alguns. Mas sei que para ti eram coisas essenciais. O idioma é essencial para a soberania, embora a noção de Nação também não esteja muito em moda.
Portugal, tu sabes, não deu a mínima, pediu prazo maior, mas no Brasil logo acatamos as normas. Sem pensar, apenas por obedecer. Um mau costume de colonizados.
Onde estão os grandes autores, os intelectuais, os filólogos, os guardiões do idioma, não sei. Não me perguntes. Sei de um homem do meio que se posicionou contra e foi despedido. Lobby forte.
Imagina que a Globo comemora 30 anos de RJTV e sabes qual é a grande chamada? Filma eu. Filma nós.
Tua dedicação, tuas idas constantes ao dicionário, tua busca pela clareza aprendidas com Houaiss resultam inúteis. Foco nos 100 anos de Rubem Braga, mas nada sobre a importância da linguagem.
Bem vês, meu caro amigo, a ignorância grassa. A burrice se alastra.
Outra notícia que te dou do Brasil, Planeta Terra, é de que a mídia está indignada com um caso de tortura na cadeia. Francamente, tortura nas cadeias? Que coisa absurda!
De tortura tu entendes, né, Alcir? Mas tu és forte, és um touro nascido e criado em Rocha Miranda, suportaste a tortura na Barão de Mesquita 425 - A fábrica do medo. Mas quando te conheci não consegui te imaginar conspirando, fugindo da polícia da ditadura. Tu eras todo dedicado à vida.
Quando te conheci tudo já era passado, o Brasil respirava. Tinhas voltado do exílio, o Rio era novamente jovem e se despia das mortalhas, as moças passavam douradas e foi maravilhoso voltar a viver. Alcir e Lena, Lena e Alcir - uma lenda.
Amor e literatura.
Os amigos seguem te amando.
Anna manda lembranças para ti e para Álvaro e se consola sabendo que tu, ele e o Sebastião devem se encontrar para contar intermináveis piadas de sacanagem.
Sempre há questões a serem resolvidas. Mas não mais por ti, Alcir, não mais por ti.
Estás gravado no cenário das praias intensas, do sol vermelho de verão, da linha curva do horizonte no mar de Ponta Negra, das vitórias do Vasco. Do amor, Alcir, do amor.
Alcir Henrique da Costa (1940-2012) - ativista, sociólogo, um dos fundadores do Grupo Tortura Nunca Mais, autor de Barão de Mesquita, 425, a fábrica do medo e do livro de contos Contramão.
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