2 de setembro de 2014

IVAN JUNQUEIRA


Há um mês morreu Ivan Junqueira. Como assim, morreu? Se na segunda-feira mesmo o vi, com Antonio Carlos Secchin e Alexei Bueno, passeando em Copacabana, falando do tempo em que vivem e da poesia?

Não é todo o dia que vemos um trio desse quilate assim, misturado ao povo. Só podia mesmo ser um documentário. Mesmo assim, gostei de vê-lo, gostei do entusiasmo, ainda que contido, com que sempre fala em poesia. Gosto da sua voz cavernosa falando poemas, uma voz que parece vir da tumba; da extrema preocupação com a morte, com o mistério da morte que ele, um ateu convicto, não reconhecia.
Gosto de ver como defende a sua devoção à poesia metrificada que, ao contrário do que dizem os que a rechaçam, o faz sentir-se absolutamente livre, sem que o incomodem os limites do metro. 
Ivan Junqueira, jornalista de profissão, poeta, crítico e tradutor foi uma inteligência brilhante que passou por aqui sem receber o reconhecimento (e mesmo o conhecimento) devidos aos poetas de vulto, o que é comum. 
Depois que entrou para a Academia IJ ficou ainda mais sério, mais sisudo, mas seus companheiros sempre o acharam uma ótima companhia, e engraçada, com gosto pelas tiradas surpreendentes. 
A poesia não, a poesia é tão exageradamente soturna que em algum momento pode-se até achar (eu, pelo menos, acho, algumas vezes) uma certa graça na maneira como penetra nos temas mais íntimos e sombrios conservando uma postura intangível.
Muito mais coisas há que dizer sobre o poeta, mas isso o documentário já fez, ainda que tenha sido curto para tanta vida e obra. 

Até mais, Ivan Junqueira. E que te encontremos outras vezes. Nos livros, na memória, na calçada ou na tela da tv, e tua poesia estará ainda mais viva porque a morte está sempre em ação, esta que tanto te consumiu e da qual agora estás livre, assim como estás livre da vida, que tantas dúvidas e desassossego te trouxe, mesmo que tenhas vivido também alegrias. Para um poeta, viver é sempre um ato extremado.

ELEGIA ÍNTIMA

Minha mãe chorando no fundo da noite
rachou o silêncio do quarto adormecido.
Meu pai olhava o escuro e não dizia nada.
Um relógio preto gotejava barulho.

Lá fora o vento lambia as espáduas do céu.

Minha mãe chorando no fundo da noite
apunhalou o sono de Deus.

(do livro Os mortos, 1964)


MORRER


Pois morrer é apenas isto:
cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;

é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;

é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;

é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir

é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;

é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.

(do livro O grifo, 1987)




Esse punhado de ossos

a Moacyr Félix

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esquilo e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ali, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram.

(do livro A sagração dos ossos, 1994)

20 de agosto de 2014

POESIA PERNAMBUCO



A vida é isso que já constatamos: um nascer e morrer sem fim. No intervalo, os membros da espécie encontram o quê fazer nesse caldeirão de pratos feitos que é o dia-a-dia. Desde que somos pequenos nos ensinam coisas: regras de convivência, o que pode e o que não pode, o que se deve e o que não se deve. O resto da vida levamos para saber o que realmente procede e nos mantém dentro dos limites e o que nos mentem para nos explorar. Levamos, portanto, uma vida para saber que a coisa não era bem assim, e quando sabemos, ela já vai acabando.

No meio da multidão da espécie nascem os poetas. Iluminados, enigmáticos, proféticos. Não é fácil sê-lo, e menos ainda nesses pobres tempos em que o deus mercado se apropria de tudo o que é original, e, quando não há, cria alguma coisa que pareça. Os poetas ficam à margem. Alguns, por geniais, se agigantam; outros se deixam cooptar por um sonho vencido e ainda outros sabem que sua voz não é ouvida mas não deixam de escrever porque essa é sua necessidade. 
O Brasil inteiro é berço de altíssimos poetas, mas talvez seja em Pernambuco onde eles mais proliferam, movimentam-se, encontram-se (porque são muitos) nas ruas e nos bares. E tem o cinema, a música, tudo é original em Pernambuco, em especial em Recife. A única coisa que não muda são as oligarquias e suas hordas.
Há pouco tinha morrido Eduardo Campos e recebo do meu querido amigo e poeta Joca de Oliveira uma cesta-poesia. (Que tal, Dilma?). Na cesta, os Quase Haicais II de Joca, a edição nº 13 do Balaio de Gato, obra do incansável Jorge Lopes, o livro de Manoel Cardoso Esmerilho-me na lâmina do dia, Do moço e do bêbado, de Erickson Luna e por fim o CD Digitais, onde estão 360 poemas de Malungo que, sempre ligado, encontra a poesia e traduz o sentimento das ruas que cruza, igualzinho ao que canta a Nação Zumbi: Quanto vale um Malungo/ Malungo vale uma vida/ um samba de muitas cores, passos, bits, vibrations, uma rajada de notas viradas, equilibradas, partidas.
E chega de papo e viva Jorge Lopes, Chico Espinhara, Tarcísio Pereira e a Letra 7 e todos os poetas que criam a cultura brasileira com alma pernambucana. Viva Joca e Wilson Vieira, Viva Jomard Muniz de Brito, que não pode ficar de fora de qualquer coisa. Muito menos de poesia. Muito menos de Recife.



Alguns poemas estão em






17 de agosto de 2014

AOS QUE SE VÃO


Ariano Suassuna não existe mais no mundo dos vivos. Há de criar outros mundos, onde estiver, ou outros movimentos, que sua vitalidade ainda era para muito. A sua morte, e as outras que vieram depois ainda tentam se encaixar na realidade quando Eduardo Campos explode no rol das improbabilidades, atropelando todas as outras que se ofereciam a ela: a dos agonizantes, dos suicidas, dos desnutridos. A morte, no entanto, não dá a mínima para probabilidades. Ao contrário, prefere surpreender. Dessa vez concretizou-se numa explosão que impactou o Brasil, trouxe a trágedia para a realidade da família de cada vítima e mexeu profundamente com o processo eleitoral. Não nos queixávamos da apatia? Pois aí está o fato que nos faz cair sentados, sem entender nada, ou pelo menos sem entender por muito tempo, até que chegam as notícias, os analistas, a nossa própria elaboração do que aconteceu. 
Nada muda. Nesse momento há novos filhos sem pai, conhecendo a morte irreparável,  trazendo-lhes uma sombra que pesa para quem tinha a certeza de um futuro promissor. Depois do enterro, a pergunta: e agora, o que vai ser de mim? O tempo, dirão uns, o tempo tudo aplaca. às vezes até cura. 
Passado isso, preparo-me para a morte de amanhã e me pergunto: o que ficou? O presidente do partido e Marina fizeram um pacto de não falar em sucessão antes do enterro, Entretanto anteontem mesmo os jornais já levantavam a possibilidade da viúva de Eduardo Campos ser vice de Marina. Ora, isso quer dizer que a viúva deve ter sido consultada e que portanto não houve pacto nenhum. O pacto era só para figuração, sentimentalismo. E com essa mentira iniciam uma campanha, uma nova campanha. 
Ah espécie humana, tão especial. Chora, ri, sofre e tortura.  Uns são políticos, outros são poetas. Uns riem sempre. Outros têm um cantar estranho.


LÁPIDE

Ariano Suassuna


Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

...

10 de agosto de 2014

URUGUAY - A LIBERDADE É AZUL




Houve Copa? Já ninguém se lembra. 
Naquele tempo fui ao pampa, cujas fronteiras são linhas imaginárias, uma terra só, como no livro de Aldyr Schlee, uma terra a que pertencem todos os gaúchos, muito, muito antes das fronteiras e das cercas de arame farpado. A planície, o pôr-do-sol, o frio, o frio.
Mas quando se chega de viagem, tudo não é mais. Parece até um sonho o que foi vivido há tão pouco tempo, a realidade com a qual convivemos durante dias: ruas, clima, idioma, pessoas que se tornam conhecidas, que passam a nos cumprimentar. Tudo vai se diluindo na memória.
Mas tem uma lembrança que não quero deixar de registrar: estar cara a cara com a liberdade. 

Cheguei muito cedo a Montevideo. Fui de ônibus de São Paulo até lá. Não queria me aborrecer com revistas em aeroportos. Detesto ser revistada em aeroporto e muito por causa disso vou dispensando os aviões. Um frio de dois graus e o ônibus parado na alfândega, horas, nada acontecendo, só homens caminhando, no frio, todos com a cabeça enfiada no pescoço, como se adiantasse. E ainda mais quatro cachorros farejadores e feios, daqueles de corpo gordo e pernas curtas e finas. Que merda, pensei. Mas então o ônibus saiu, afinal.
Em Montevideo a entrada no hotel era só às 14h. Deixei mala, tomei café e saí pra 18 de julho rumo à feira da Tristan Narvajo. Longe, para quem está com frio. Mas era preciso, além de tudo, fazer hora. 
Domingo, o centro vazio. Caminhar, caminhar, o vento cortando pele e lábios, até chegar às mesmas bancas de sempre, nessa hora apenas poucas armadas. Fui até o fim, andei pra lá e pra cá à procura de uma nesga de sol que fosse, mas o sol não vencia o frio.
Na volta já havia bancas arrumadas e foi quando vi umas coisinhas com a folha da maconha: cinzeiros, cachimbos, maricas, quimeras. Finda a compra perguntei: e o produto? Quer também? perguntou o vendedor ao lado (que era artesão de Uberaba) Eu disse que sim e ele me mostrou, dentro de um pote de vidro, uns camarões que há tempos eu não via. Quer fumar? me perguntou o outro. Agora pode. Quer dizer, eu e o amigo aqui já fumamos há 40 anos, mas agora pode mais.
Ele fechou um baseado ali mesmo, fumamos, a maconha era boa, eu fiquei por ali, o povo chegando, o sol demorando, um frio de matar, una charla. Ele me disse que estava indo para Punta del Diablo, se eu queria ir... Eu? Presa às reservas e às datas? Me despedi e segui meu caminho. Que caminho? Sozinha em Montevideo, um frio de lascar, os uruguaios vendendo coisas inacreditáveis ou trocando entre si as coisas velhas que se acabam, mas continuam à venda.
Caminhei muito naquela manhã, agarrada às minhas valiosas compras, aproveitando efeitos que um café ou uma cachaça não me dariam. E nem poderiam. Estava tudo fechado.
Perto do meio-dia achei um restaurante. De cara tomei dois chocolates espessos. Depois vieram os chivitos. De postre: torta de maçã. Tudo junto para aliviar o frio, a fome e a sede.
Perdi a vez em Amsterdam, mas ao Uruguay eu fui. E depois: Parque Rodó, Rambla, Malvín, Pocitos, porto. Tudo livre, tudo limpo. 

Agora vejo Dilma de mãos dados com os evangélicos. Cabeça e pés voltados para o passado. A cabeça quente com a pressão dos votos. Onde está o ímpeto revolucionário? Só houve, desde aquele tempo, um ideal a alcançar? Como se o homem não fosse uma máquina de querer...?
Onde está a vontade de acabar com a guerra às drogas, (a que chamam a guerra aos pobres) a prisão arbitrária, o abuso de autoridade, a milícia, a tortura nas cadeias, a desumana superlotação? 
No Uruguay, que eu saiba.

Quem tem essa coragem?
Pepe Mujica, que eu saiba 


 ...

7 de agosto de 2014

O CHEIRO DA MENTIRA

Vocês já repararam como o Aécio está parecido com o Toni Ramos? A nobreza rural e o Friboi andam de mãos (ou patas?) dadas. Há mais tempo, antes da Copa, o Aécio dizia na televisão que queria falar comigo. Fiquei apreensiva. Que coisa! O Aécio querendo falar comigo. Que teria ele para me dizer? Bom, por via das dúvidas desativei meu celular.

No governo FH, quando o Serjão morreu (alguém se lembra do Serjão?) e Arruda despontou como liderança eu vi de cara: um canalha. E não me decepcionou.


Também há alguns anos quando houve eleições e eu, motivada pela possibilidade de representar os interesses dos escritores, me candidatei pelo Partido Verde (sim, eu fiz isso), conheci na convenção do partido (mas não fui apresentada a), Rodrigo Bethlem, egresso do PFL, se não me engano, e senti logo o cheiro de corrupção. Pensam que não tem? Trabalho com eles há muitos anos. É possível sentir.


Pois bem, o que eu quero mesmo dizer é que as eleições estão aí,diferentemente da Copa, sem paixão alguma, sem sacrifício de ninguém, sem torcidas que não sejam pagas. Isso é democracia, dizem. É como ver um filme fraco com alguma complacência, ainda que nos doa a perda de tempo e, seriamente, a complacência.


Havia uma ditadura. Queríamos votar. Finalmente chegou o dia. Votamos. E votamos de novo. E os milicos foram se recolhendo aos quartéis.  E já eramos uma democracia outra vez. E agora? Ninguém nos entusiasma. Mas as eleições existem. Não era o que queríamos?



O chato ao se escrever sobre eleições é que as postagens vão sem fotos. Vocês hão de concordar que não dá pra poluir um espaço onde se quer verdade.


...

17 de julho de 2014

POESIA CONTRA A GUERRA

Tenho abandonado meu blog, que é como um diário, sem muitas normas, que escrevo com a estufa ligada e uma outra chama, que reconheço minha. Enfraquece, a chaminha azul.  
Deixei-o pela indiscutível eficácia do facebook, mas volto, como se voltasse a mim mesma, menos pública, de pantufas, na árvore longínqua em que vou me transformando - um tronco, pronto a se observar por centenas de anos.
A guerra me atravessa. Mas eu sei, e vocês também, que sempre há tempo de guerra em algum lugar. Umas são mais midiáticas, todas são contra os pobres.
Houve o tempo da resistência pelas idéias, da resistência armada, dos radicalismos. Dos hiatos a que chamaram paz. Tratados desonrados do aperto de mão a assinaturas intraduzíveis. Sempre há. 
Não devemos incorrer nos mesmos erros. Guerras não são partidas de futebol que nos levem a torcer por um ou outro time. Nada de raças, bandeiras ou religiões de preferência. Estamos tratando da mesma humanidade. 
O que não devemos nunca esquecer é o que já aprendemos pela voz do poeta. E a poesia é a alma da paz.


A Guerra que Aflige com seus EsquadrõesA guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo, 
É o tipo perfeito do erro da filosofia. 

A guerra, como tudo humano, quer alterar. 
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito 
E alterar depressa. 

Mas a guerra inflige a morte. 
E a morte é o desprezo do Universo por nós. 
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa. 
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar. 

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs. 

Tudo é orgulho e inconsciência. 
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto. 
Para o coração e o comandante dos esquadrões 
Regressa aos bocados o universo exterior. 

A química directa da Natureza 
Não deixa lugar vago para o pensamento. 

A humanidade é uma revolta de escravos. 
A humanidade é um governo usurpado pelo povo. 
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito. 

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural! 
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem, 
Paz à essência inteiramente exterior do Universo! 


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa




2 de julho de 2014

MORDIDAS E BEIJOS


Pois eu, que não me interesso por futebol e não sei nem os horários dos jogos acho que a punição de Suárez foi exagerada. Gostei de Suárez porque achei que se assemelha a Ricardo Darín, um pouco, só, mas reparem bem. Aqueles dentinhos...  Uma associação, no entanto, é pouco para fazer juízo.
Fiquei sabendo depois que já tinha havido um antecedente, de modo que melhor será abandonar a prática antes que se transforme num hábito porque a coisa pode evoluir para outras mordidas e outras formas de ataques, e quando menos esperarmos o amor selvagem estará aceito e poderemos dizer que um jogador é mais gostoso do que outro; que um é melhor com molho e o outro, assado, é melhor que um gol.
Talvez a Fifa não aceite churrasquinho no campo, ou na arena, que é mais propícia, se conseguirmos esquecer que um dia arena também foi sigla de matadores. Mas quem sabe a Fifa também vai se abrasileirar depois dessa?
Simpatizo com Suárez, mas minha preferência foi para Cavani, que parece furioso mas talvez não seja, e vem ilustrar esse texto que parece sobre futebol mas também não é  E já começa rindo.

Isso porque, confidencialmente, conto-lhes: alguma coisa está acontecendo que passa longe da Copa, das confusões de sempre, do desentendimento mundial e das brutalidades religiosas. Alguma coisa tem me pacificado e posto, sem mais nem por quê, a adorar, cada vez mais, o sol, e então me ocorreu que não é a primeira vez e que sim, às vezes a divindade nos olha, nos apresenta um poema ou apenas uma sensação de estar que não se assemelha a nada parecido e que se é tão rara de ser vivida é porque talvez seja raramente percebida.


Uma sensação apenas. Um sentir-se bem, diferente, escolhido, premiado.

Por isso esse poema que recordo (e recorto). O poema pode não ser, mas a sensação que o criou foi melhor que os melhores beijos de todos os amores inaugurados.


SETEMBRO

não me ocorreu 
(ou talvez sim)
por medo
ou vergonha (um pouco)
dizer que sou
estou sendo
tenho sido
tenho estado
(perdão)
                    feliz

outro dia

e acordo ainda
perceptivelmente
(até quando?)
feliz 


* este blog não segue as normas da reforma ortográfica.

...