22 de fevereiro de 2022

27 de outubro de 2018

OUTUBRO

Outubro passou desesperado. E a perplexidade com os fatos e mentiras de todo o dia enlouqueceram todo o mundo. Os textos e textões, os vídeos, as mensagens, as contramensagens, que turbilhão!
Muitos já disseram que esta não é uma eleição qualquer. E não é mesmo. Porque tudo nela é duvidoso, uma vez que é duvidosa a Justiça. Corrompida, não terá coragem de agir. E logo estará de quatro.
E se Haddad ganhar, poderá assumir? Tudo se pode se esperar de uma Justiça corrupta. Ou de um governo que se declare de cara ditatorial. O outro já declarou que não aceita um resultado que não seja a própria vitória. Não sei se desmentiu. Gente irresponsável está sempre se desmentindo.
E se a direita achar que já deu para o boquirroto Bolsonaro e mandá-lo para o outro mundo? E se Mourão assumir? E as urnas darão o resultado real ou terão sido fraudadas?
E se Bolsonaro assumir? Já teremos as hordas nas ruas, atacando as minorias ou a polícia vai se encarregar de eliminá-las? Quem serãoos escolhidos para as 30.000 mortes prometidas? Quem legalizará o "estupro corretivo"?
Quem escapará da sanha dos psicopatas?
No entanto, amanhã será outro dia, como sempre.
Acorda, amor. 

26 de setembro de 2018

LEGALIZAÇÃO OU MORTES

Que eu vou votar em Haddad e Manuela é certo. É uma questão de lealdade à democracia; de juntar os pedacinhos da Constituição e tentar a reconstrução de um país sem abusos.
Agora, lamento muito que nenhum dos candidatos apresente em seu programa um projeto para a legalização das drogas. Todos falam em segurança, e quando falam em segurança estão falando em repressão. Ninguém quer chegar perto do assunto. Têm medo do moralismo, do conservadorismo e da burrice. Preferem seguir na guerra.
E todos sabemos contra quem é a repressão. Sabemos que o modelo fracassou e que é preciso tentar outra coisa. Sabemos que cada vez mais gente fuma e qual o tratamento dado a brancos e negros, ricos e pobres. Sabemos que cada vez mais países se organizam para tornar o plantio uma atividade produtiva e saudável e curativa, além de lucrativa.
Lamento muito que prossigamos nesta política de "combate" às drogas, sabendo muito bem a quem estamos protegendo, quem são os nossos policiais,quem são os nossos juízes e a quem interessa a proibição.
Agora vem o Meirelles dizer que vai liberar a maconha. Ó surpresa, mas vindo dele, é uma daquelas piadas que a gente faz no auge do desespero.
Vai embora Meirelles. Ninguém te chamará.
E aos presidenciáveis, que revisem seus programas. Quem ignorar a necessidade da legalização está autorizando a morte como rotina. E já temos mortes demais.


...

PONTO DE POESIA

e informações. Por duas horas estaremos nesse outro mundo, de fruição da poesia, como devotos, limpando nossa mente de informações inúteis, elevando os sentidos para a produção poética universal.
Em todas as terças de outubro, às 20 horas, dois poetas convidados lerão seus poemas. Em seguida, o palco será aberto para mais três poetas da plateia: quem quiser mostrar a sua poética deve se inscrever tão logo chegue ao evento para participar do sorteio.
Assim, o PONTO DE POESIA pretende ser não apenas mais um encontro de poetas consagrados, mas também um espaço democrático e aberto a novas leituras.

19 de agosto de 2018

IMAGENS FALSAS

É lamentável como as mulheres, enfrentando qualquer risco, entregam-se às mãos de cirurgiões ou trambiqueiros para modificar-se, para tentar mais beleza, para vencer o tempo, para viverem mais uma ilusão de que durarão mais se forem mais belas. Iludidas quanto ao tempo, que não pára, não poupa nem perdoa.
Uma a uma foram mordendo as iscas das indústrias farmacêuticas e de cosméticos, e entregando-se às cirurgias para "corrigir" isso ou aquilo, que não combinava com o modelo. Qual modelo? Um modelo ditado pelos capitães da moda, que resolvem o que é preciso para fazer jus a um lugar na passarela? Qual passarela? Da homogeneidade. Da cópia mil vezes reproduzidas que transformou mulheres bonitas em criaturas bizarras, parecidas entre si, garotas bem proporcionadas em mulheres estranhas, senhoras de 60 em ex-mulheres de 30. Não percebem que isso é mais uma forma de dominação, que se estende ao corpo de cada uma e a vaidade fortalece.
Fodam-se as características pessoais. A ditadura da moda não quer saber se aquele nariz era tão parecido com o de sua mãe, que os seus cabelos crespos eram belos e livres e agora parecem uma vassoura; que as bocas, as sedutoras bocas têm hoje o mesmo traço e modificam o rosto.

Há quanto tempo? Dez, vinte (?) anos começou a loucura. Meninas de 18 anos querendo fazer cirurgia nos seios, aumentando-os, diminuindo-os, modificando-os. Aos 18! Meninas de classe média, mimosas e mimadas mandando olhares e súplicas aos pais. Por favor, papai! E lá vão os papais acompanhar (e pagar) as despesas da filhinha em cirurgias que, infelizmente, às vezes não dão certo. Também as mais pobres entraram no negócio e talvez até com mais apetite. Endividam-se para isso, enganam-se com isso.

Quando se pensa que a mulher está no caminho da independência do mundo masculino, eis que ele se apresenta, tão possível, tão promissor, tão mau como sempre foi.

E não são só as mulheres. Os homens (alguns homens) presas da vaidade e do amor pelo poder modificaram sua imagem, tornaram-se não sei que bicho estranho que impede até de que sejam reconhecidos. Mas penso que mesmo que tenham aderido à farsa das aparências perdem para as mulheres. Perdem feio.

Sei que cairão em cima de mim as mulheres que se deram ao direito de serem outras. Posso entender. Cada uma tem seus desejos. E dinheiro para pagá-los. Além do dinheiro, até com a vida.

31 de julho de 2018

A ELEITA



Carente de eleições, resolvi fazer uma, só eu como eleitora, e alguns nomes (poucos) como candidatas. 
A minha candidata, no entanto, bateu todas. Nasceu grande. E destemida. Durante toda a vida observou (e sentiu) o preconceito que até hoje neutraliza a obra das mulheres. Nasceu poeta e contestadora.
Há muitas mulheres poetas, casadas, que ficam toda a vida na sombra do marido. Vai-se ver, a poesia delas é maior que a deles, a quem também aplaudem. Há inúmeros exemplos disso. 
A minha eleita não se casaria com um homem assim. O seu companheiro, Afonso Felix de Sousa, era um homem de verdade, além de grande poeta, e a estimulava, escreviam poesia e trabalhavam juntos em traduções, em alguma época necessárias frente às durezas do regime militar, ao qual se opôs na primeira hora.
Por sua obra vária e prolífica, por seu destemor e convicções, por sua luta, por sua sinceridade e modéstia, elegi-a como A Grande Dama da Poesia Brasileira. 
Autora de uma obra extensa, e na condição também de professora, domina a norma culta, de um jeito que se vai perdendo. Conhecedora da alta poesia, tem ali um espaço de liberdade que foi e ainda é estímulo e escudo para construir o seu mundo interior, ao mesmo tempo em que registra revolta com a iniqüidade, protesto e espanto com a injustiça.
Elegi, com o título de A GRANDE DAMA DA POESIA BRASILEIRA, a poeta  Astrid Cabral, não só pela extensa obra em poesia, prosa, ensaio, tradução e conhecimento, como por seu caráter íntegro e sua simplicidade. Seu livro recém reeditado, Transanteontem, que traz crônicas escritas Brasília, entre 67 e 68, é absolutamente imperdível, e é em acontecimentos aparentemente domésticos que a autora já demonstra suas convicções humanísticas. 
ASTRID CABRAL bate bonito vários nomes da Academia, no entanto não está lá. Já se sabe o porquê. 
Fiquemos com a sua sabedoria e os seus encantos. Astrid não privilegia clubes. Vai ao lançamento dos amigos, prestigia os novos, encanta-se com a convivência com os poetas e os ajuda em sua caminhada. Grande poeta, grande mulher, grande mãe. E sempre rejuvenescendo.

13 de julho de 2018

UNS FATOS QUE REGISTREI


MULHERES

I
Ele ordenou: “Não nesta cama”
Foram 17 anos sem poder deitar
na cama de casal
sem soutien


II
Descobriu que tinha sido molestada
quando viu na televisão o que era
Já tinha 82.
Mesmo assim chorou


III
Até que um dia
quando ele dormia
enfiou-lhe no ouvido a agulha
e ficou ali, ouvindo
até que tudo se calasse


15 de junho de 2018

IMPUNIDADE CEM




Quatro meses de intervenção federal das forças armadas no Rio de Janeiro
Três meses do assassinato de Marielle Franco.
As forças federais foram chamadas para combater o que não tem combate. Mas vieram para o mis-em-scène, enquanto Marielle morreu de verdade. 
A polícia investiga. E quando vai investigar esbarra nos privilégios – sabe que daí não pode passar. 
O Gen. Braga Netto sabia que veio para lutar contra uma guerra sem sentido. Mas entrou dizendo que ia fazer e acontec
er. Não fez nada, a não ser barulho e provocar medo nas comunidades. Das “intervenções” pegava 3 fuzis, 15 trouxinhas, e na oportunidade, três ou quatro jovens negros, para dar um saldo “positivo”. As estatísticas sobre o crime só marcam diminuição por falta de combustível.
O Estado militar é assim: resolve que vai fazer a guerra e não importa como, nem contra quem. Há que cumprir ordens. Mesmo que as ordens sejam de um narcisista desequilibrado feito Temer. Mesmo que este desequilibrado, reconhecidamente um usurpador, seja protegido por um judiciário vergonhosamente comprometido com o golpe. Mesmo que o povo odeie o ditador, mesmo que agora, somente agora, a população tenha se dado conta (terá?) do quanto ela é racista e indiferente aos problemas mais prementes da sociedade, mesmo assim o Estado se mantém cego e surdo frente às urgências que precisam ser regulamentadas para dar, elas sim, apoio real e humanitário às vítimas, que são, em qualquer análise, parte da nossa população.
A legalização das drogas torna-se cada vez mais urgente. Não é assunto de segunda linha, não é para passar batida (porque há coisas mais importantes), não é do ramo do entretenimento. A legalização das drogas é a única esperança de menos mortes, menos guerra, menos corrupção na polícia, menos chances para os traficantes, menos penitenciárias – escolas do crime.
A legalização das drogas no Brasil é o primeiro passo para a paz na cidade, no País e o mundo. Há muito mais o que fazer do que invervir (também) na vida privada das pessoas, cidadãs como quaisquer outras.
E Marielle Franco? Marielle Franco ficará como uma brasileira sacrificada pelas máfias que pululam em legislativos que são mais um covil de bandidos do que um lugar de representação.
Ficará como uma morta que também era nossa, e não soubemos defender.
Infelizmente, a nossa cultura, hoje, é de ataque.

31 de maio de 2018

SOCORRO, URUGUAY!


SOCORRO, URUGUAY





SOCORRO, URUGUAY


Para quem não sabe, há muitos anos um uruguaio mantém uma barraca na praia de Ipanema.
Hoje, ao chegar à praia, vi tremular, não muito longe, a azul e branca.
Me deu um aperto no peito, engoli em seco, mas os olhos teimaram em chorar e eu me entreguei. Sol a pino, mar azul, e eu ali chorando porque a gente não é como eles, e nunca será.
Tive vontade de andar até lá e cumprimentar o uruguaio. Talvez num aperto de mão viesse uma centelha que acordasse o Brasil.
Depois pensei: Não. Não vou lá revelar nossa vergonha. Não vou lá reconhecer que o Brasil está de joelhos enquanto o vizinho faz tremular, na nossa praia, orgulhosa, a bandeira celeste da democracia.

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19 de maio de 2018

MARCHA DE SAMPA - 10 ANOS DE LUTA

No sábado, 26, é o dia da Marcha da Maconha de São Paulo, fechando maio. São 10 anos daquela que é hoje a maior Marcha do Brasil. 
Um sonho assumido conscientemente é assim: cresce e se espalha como fumaça. E não importa se é ilegal. Importa se é justo. E a liberdade individual é algo justo, a ser protegida pelo Estado.
Mas o que faz o Estado? 
Por isso faz-se necessária a legalização das drogas. Quem não quer a paz?
A paz não é proibicionista nem armada. A paz é fraternal e compassiva.
Algumas pessoas não querem nem ouvir falar nisso, mas fatalmente, e cada vez mais, a proibição das drogas atua no dia-a-dia da cidade e no recrudescimento da violência, de que tanto se queixam.
Sei que muita a gente é contra, por isso e por aquilo, mas se trata de um preconceito tão grande quanto o racial ou de falta de "nobreza de sangue", aproveitando o casamento quase real. Quem quiser de fato saber sobre o assunto sabe onde buscar.
De qualquer forma, sejam contra ou a favor, isso em nada me afasta da causa. A causa é alguma coisa que se põe à frente, como estrada a seguir, aprovada por corpo, mente e espírito. 

Não contarei agora o que devo à maconha, na saúde e na doença, nos bons e melhores momentos, no entendimento do outro e na realidade da marginalização, da vida em dois mundos. Preparo, isso sim, um livro com as crônicas que escrevi desde o início do blog www.integradaemarginal.blogspot.com.br, em 2009, defendendo a legalização, abominando a repressão, as mortes e as prisões desenfreadas. Imagino que de tudo que escrevi, cerca de 300 textos, 20% é sobre isso. 
Este livro marcará meus 50 anos de usuária.

Era maio de 1969, e o Rio de Janeiro era outro. A polícia estava focada em matar subversivos da ditadura. Ignorava outros tipos de subversão.
Aqueles mortos ainda existem, e a eles se juntaram outros, e os fantasmas de uns e outros. Mas sempre há a juventude, que vibra com palavras de ordem pela liberdade, com humor satírico e criatividade. Os jovens estão apoiados por seus camaradas. Comungam das mesmas idéias. E lutam juntos. É a força do coletivo que os impele para a frente. Outros virão. 
São Paulo prepara os 10 anos.
Eu, aos 71, preparo os 50.
Todos ao vão do Masp, no sábado, pelo fim da fracassada guerra às drogas.



4 de maio de 2018

AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA






AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA 

MARCHA DA MACONHA 2018

Já não sei há quantos anos escrevo pela legalização das drogas. Não só da maconha, mas de todas, em situação de igualdade com as lícitas. Já nem sei há quantos anos espero isso, e pensei que morreria sem ver, principalmente agora, quando estamos vivendo um tempo de retrocesso e obscurantismo.
Mas não. O movimento da sociedade é muito mais rápido que o da lei. A lei demora. A Justiça mais ainda. E enquanto isso vão acontecendo coisas, como a aceitação da maconha como fonte de economia de muitos países, a aceitação de que ela é também um remédio, a aceitação de que ela é uma companhia e de que promove a fraternidade entre pessoas e povos. Há um tácito entendimento entre os que seguem a seita da paz.
Então, por que a guerra?
A guerra é porque somos atrasados e subservientes. E não nos importamos de espalhar a morte e o medo pela cidade.
Morrem traficantes. Morrem policiais. Morrem crianças. (Leio, horrorizada, sobre o projeto de blindagem das escolas municipais) Afinal, guerra é para matar e morrer. Por que seguir com essa política fraticida?

Foi Galeano quem disse, se me lembro, respondendo a uma pergunta sobre para que serviam as utopias: "As utopias servem para caminhar".
Caminhemos, pois, de mãos dadas, para acabar de uma vez por todas com esse flagelo que é a tal "guerra às drogas", na qual só existem vencidos.

8 de abril de 2018

O DIA 7 DE ABRIL DE 2018

São Bernardo do Campo, SP.


Não resisti. Não resisti àquele bolo na garganta, à angústia que me oprimia e, nos últimos dias, me punha a chorar a qualquer hora. Não um choro copioso, mas lágrimas que vinham, de repente, sem pedir licença.
E ontem, quando vi, estava recrutando os amigos Lena Brasil e Victor Colonna para irmos a São Bernardo. Não era mais possível ficar em frente ao computador, numa outra trincheira, é verdade, mas não numa em que eu não me entregasse, não entregasse meu corpo à causa. E a causa foi a prisão arbitrária de Lula, dentro do quadro de arbitrariedades que se pode esperar de um sistema que, com o impeachment de Dilma, fez a sua escolha.
E foi então que corremos a São Bernardo com o ânimo renovado, o coração apaziguado pela certeza de estar fazendo o que era certo, a partir da nossa consciência, e que era pouco, mas era o que podíamos dar.
Tinha menos gente do que eu pensava, é verdade, mas teria menos ainda se não tivéssemos ido, os três, ratificando nossas convicções na defesa do homem que pela primeira vez nos acenou com um Brasil menos desigual.
O magnífico discurso de Lula ouvimos muito mal. Helicópteros da PF e da Globo, parados no ar, abafavam a sua voz. Mas do que podíamos ouvir, e do que podíamos ver subia uma emoção coletiva, e essa energia não é pouca nem é rasa.
Lula saudou a presença dos jovens, mas o que eu mais vi foi uma geração mais velha, militantes antigos e fiéis que viveram o Brasil antes e depois de Lula, e sabem das conquistas duramente conquistadas. Os jovens a que se referia eram Manuela D´Ávila e Guilherme Boulos, as lideranças emergentes, e presentes ali.
Depois de declarar que se entregaria, findo o ato, voltamos para o Rio. (precisávamos voltar) e viemos acompanhando os desdobramentos.
A luta não acabara, a luta não acabará jamais. E é preciso que nos aproximemos cada vez mais das ações de resistência.
Temos um legado a defender. Este legado é uma idéia de justiça e igualdade social. .
Ontem foi dia 7 de abril, aniversário do meu filho Gabriel.
E tenho certeza de que olhamos para o mesmo céu.

...

FLORISVALDO MATTOS E A POESIA ETERNA



Estou pensando tudo o que pensam as pessoas que são contra o Golpe. 
Mas não quero pensar. Prefiro postar este poema do poeta baiano Florisvaldo Mattos, que nesta semana completa 86 anos e que copiei do poesia.net, elaborado pelo incansável poeta Carlos Machado.

A EDIÇÃO MATUTINA
À memória de Glauber Rocha,
artista, amigo e companheiro de jornal
Nada sei além do que me contam
os hebdomadários perseguidos
os diários desaparecidos
os livros burocraticamente censurados
os discursos jamais pronunciados
Muito
de dor enclausurada
de raiva contida
de memória desesperada
Muito
de petrificado esterco
de martírio indevassado
fel de carcomida flor
Como em toda experiência humana
como em toda verdade proclamada
há a marca indelével do sofrimento
nas páginas enfurecidas
(...)
Nada sei além do que me contam
furiosas páginas dos diários mudos
Morreu o Chefe de Reportagem
E ficamos todos tristes
A penumbra da noite avança pelo amanhecer
A neblina é densa e os automóveis
entram em choque de faróis apagados
Queremos uma pauta
um roteiro qualquer
Não o que leve ao esclarecimento
de todas as culpas
Não buscamos desvendar o impossível
Queremos uma pauta
um caminho (por exemplo)
Oue comece pelos itens das lojas de brinquedos
prossiga com a listagem para as horas de lazer
Oue enumere os chopes de todos os botequins
Oue reproduza todas as gargalhadas do perímetro urbano
Oue forneça o mais seguro boletim meteorológico
Oue informe o que se passa nos cinemas
Oue esconda os dejetos lançados sobre os monumentos
Oue estimule o Ba-Vi das ilusões primeiras
Oue abra os corações aos ritos do candomblé
Oue dê verso às canções dos trios-elétricos
Oue vista a mortalha dos foliões de todos os dias
Oue prepare o espírito de todos para o Carnaval
E assim seguindo apenas
o curso luminoso
de cada signo morto
perfurando o arenoso
das páginas desertas
bobinas de horror
manchas de tinta fresca
chumbo e insone rastro
chorarei então
por entre os escombros
da edição matutina.

POBRES MUHERES SUBMISSAS

Estou ouvindo o voto de Rosa Weber e pensando no que a oprime. Sua voz é de empáfia e denota perfeito controle. Ela se orgulha de seu lugar no Olimpo do funcionalismo público. No entanto, de tanto aprender foi ficando ainda mais prolixa do q seus pares. Estou aqui há bons minutos e ñ entendi porra nenhuma.
Fico me perguntando por que ñ dá logo esse voto e se cala. Será porque seus colegas tbm fazem votos extensos? Ah, o que fazem as mulheres para pertencerem a um meio quase exclusivo de homens. É duro. É assim.

10 de março de 2018

O MAIOR INIMIGO

O Judiciário é o maior inimigo das mulheres. É ele, com suas sentenças machistas, que aponta para a impunidade dos homens violentos. 
Exemplifico com o caso de Tatiane, que foi condenada a 27 anos pela morte do filho, assassinado pelo pai. Já o pai teve o julgamento anulado.
O juiz queria que Tatiane tivesse "previsto a agressão".
Ocorre que mesmo que a agressão seja prevista (e registrada na delegacia) a polícia diz que não há "um fato". Aconteceu isso em Santa Teresa, onde a mulher depois de registrar 7 vezes as ameaças que vinha sofrendo morreu no meio na rua, com o filho nos braços, a tiros, pelo previsível ex.
Naomi, de 30 anos, foi condenada a 30 anos pela morte do estuprador da filha.
E assim vão se somando os casos em que a mulher é culpada, quando na verdade é vítima.
Ó medo é a arma desses homens violentos. Batem, ameaçam, matam na certeza de que para eles o castigo é brando e, se mataram, é porque "alguma coisa ela fez" e se estupraram é porque "ela provocou".
Esta é a cultura, para cuja mudança ainda haverá muita luta, e muitas mulheres presas, quase todas pretas, quase todas pobres.



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29 de agosto de 2017

CONDIÇÃO DA MULHER

Condição da mulher, por Helena Ortiz



Discute-se, no Brasil, onde o aborto é proibido, o estupro conjugal. Uma coisa está ligada à outra, é claro, porque desses estupros conjugais também nascem crianças. 
Há países que já superaram o estágio primitivo, que pune a mulher que aborta. Mas aqui não. Aqui a lucidez não aportou. Pode-se calcular, portanto, a multidão de mulheres que abortam, ainda correndo o risco de serem presas, de terem seus filhos na prisão, vivendo ali a primeira infância. É um risco. 
Por outro lado, tem a sorte. E a fé. Que tudo saia bem, que Deus me perdoe, mas o que é que eu posso fazer? Deus está vendo a minha situação. Ele vai me perdoar.
E lá se vai o quase bebê. Sofre menos do que sofreria se vivesse, o pobrezinho, de mãe pária, de pátria cruel.
Haverá, para cada uma, um porto que acolherá, na solidão absoluta, a dor do aborto?
Não, não há. É uma dor funda que se divide em duas: abortar ou não abortar. Tudo é profundo e triste. Tudo faz parte de uma política dominadora e ridiculamente estipulada por igrejas e governos – todos sexistas.
Todavia, a mãe também tem uma vida. Ela não tem direito de opinar sobre si mesma, ela a estuprada, ela a vítima?
A sociedade masculina repete cinicamente que as mulheres devem ser protegidas porque sem elas, a família, a sociedade, os valores morais, etc. É mentira. Desprezam-nas. Riem delas, das dedicadas esposas. Mesmo que algumas mulheres ascendam a postos importantes exclusivos dos homens isto será, inegavelmente, visto como concessão. Aceitam-nas porque nas ruas elas estão gritando, e estudando mais. Aceitam-na. Mas na sua ausência a chamarão “puta!” e “vagabunda!”. E o filho será sempre o da puta que o pariu, nunca do puto que fugiu.
A criança deve nascer, é o que dizem a Igreja e os moralistas de sempre. Não importa sob que condições emocionais, não importa que a mãe não tenha onde morar, nem tenha alimento para dar ao filho ou que o pai tenha ido embora. Não importa que à mãe não reste muita coisa a não ser a escravidão.
A proibição do aborto é apenas uma parte da farsa que não sai de cartaz: proteção à vida. Esquecem os legisladores que são sempre as mulheres (elas também significam vidas) que enfrentam as consequências da sua condição de grávida e abandonada. Elas formam uma multidão desorganizada que suporta submissão e martírio a que são obrigadas a bem de “pertencerem” à sociedade. Só que elas não pertencem à sociedade. Elas nem ao menos pertencem a si mesmas, se não podem decidir sobre os rumos da sua vida.
Em que súbito momento, lapso, hora má, com espanto ou horror, cada menina que nasce ou já nasceu, desde os tempos em seus inícios, terá entendido que a sociedade ainda a classifica como uma pessoa menor, mesmo depois das retratações da ciência?
Cada menina nascida viveu, inapelavelmente, o instante em que afinal descobriu: ainda se acredita que a mulher existe para servir.
Soa duro, soa triste, depois da grande ilusão do amor, das promessas, dos planos de casamento, do filme único e inesquecível que todas, tolamente, querem protagonizar.
Mas depois, passada a festa, as mulheres se defrontam com a sua “missão”: servir, cuidando, cozinhando e abrindo as pernas. A qualquer hora, à vontade do dono. Parece antigo? Nada é tão atual do que os segredos entre quatro paredes. Nada é tão sofrido do que suportar um invasor e esperar, passivamente, entre lágrimas, não um orgasmo, não uma maravilha do amor, apenas um estertor, que para a mulher é o alívio. Temporário, é certo, mas um alívio.
O homem vira-se para o outro lado e ronca, como o bicho que é. A mulher respira. Acabou a tortura. Sobrou-lhe esperma entre as pernas, dentro, fora de si. A angústia é toda. Engole a raiva e a humilhação. Precisa levantar. Precisa lavar-se. Daqui a pouco é manhã. Precisa trabalhar.  Deve seguir. Não pode, não deve protestar. Pode ser pior. Pode ser muito pior. E as crianças. Por que as crianças vêm para juntar inapelavelmente o que nunca deveria estar junto? Castigo sobre castigo. Nascimento, menstruação, estupro, parto, feridas sobre feridas. Sempre o sangue nos acontecimentos.
Pobre menina nascida para o mundo. Agora já sabe. Agora já sofre. Esta é a sua missão. Ser de alguém, pertencer a alguém. Poderá falar, sair, pensar ou vestir-se como quiser desde que o dono permita.  Para tanto só é preciso obedecer. Para tanto ela só precisa servir. Para ele basta ser vil. Eis a base da harmonia do casal.
A mulher não pertence à classe nenhuma, nem ao menos é classificável, como os infelizes dalits, na Índia, porque daqueles o destino está definido. No mundo das mulheres, não. Tudo é secreto, ela é negociada, vendida, comprada para depois chorar sobre os escombros dos sonhos: o casamento. Uma armadilha. Uma verdade mentirosa. Mas daí a saber, daí a rejeitar o amor, a criação de uma família (é assim que falam as mães das penitentes chamadas noivas) ... Eis a propaganda enganosa. Só que é tarde. Demasiado tarde. Agora é engolir em seco, arrumar o cabelo, pegar as crianças e ir em frente.  
Estranha espécie: a mulher procria e o homem é o seu predador.
As mulheres, no entanto, seguem na luta. E essa é uma luta com muitas mortes. No Brasil, 13 mulheres são mortas por dia. Outras tantas apenas apanham sistematicamente, até se tornarem uma das 13 do outro dia. Sem chance, sem saída.
As ações governamentais que pretendem conter essa violência não são suficientes nem sinceras. O sistema está impregnado de preconceito. Não só o trabalho, mas a palavra da mulher vale menos.
Somente agora, nos Estados Unidos e na Islândia, discute-se a obrigatoriedade de salários iguais entre homens e mulheres. Essa diferença é uma desonra, uma ofensa, um deboche. Esta lei não está escrita. É fruto apenas de um “costume” graças ao qual as empresas se locupletam ao mesmo tempo em que mostram às mulheres “o seu lugar”.
Alguém já viu empenho de homens no sentido de que suas colegas ganhem o mesmo que eles? Entra na pauta? Nem se cogita. As questões das mulheres sempre são secundárias. Isso é histórico.
Isso não acontece apenas em sociedades que castigam mulheres com base na religião e na fúria. Também nas sociedades ocidentais, onde, aparentemente, as mulheres alcançaram alguns direitos. Quais direitos? O direito ao assédio. O direito de usar terno. O direito de não ter família, de estar “disponível” como os homens para os negócios da hora. O direito à guerra. O direito a se tornar sexista. O direito à vingança através dos mesmos métodos? O que é pior, um homem ou uma mulher sexista?
Digo aparentemente porque estou falando de mulheres que estudaram, que alcançaram postos desde sempre guardados para os homens. Digo aparentemente porque ao serem aceitas também precisam se sujeitar aos gracejos, às mãos sujas, à certeza de que se ela não estiver presente será chamada “aquela vaca”, “a vadia”. A conquista de direitos acontece através do rompimento com os valores sexistas.
As ações governamentais que pretendem conter essa violência não são suficientes nem sinceras. Elas são parte do sistema que acha bom manter a mulher “no seu lugar”. Que não ousem. Eles logo se encarregam de denegri-la.
A outra dificuldade é que homens e mulheres não querem a mesma coisa. Elas querem paz, eles querem guerra. Elas querem amor, eles querem vitória. Elas querem ser livres. Eles não sabem o que querem. Não fosse assim, o mundo não estaria em máxima combustão.

A luta é permanente. De cada uma de nós deve brotar a coragem de pôr fim à dominação. É possível que esta mudança não seja de toda a sociedade, mas a libertação individual estará pesando nessa busca. 

27 de agosto de 2017

O dia em que o morro descer...

O dia em que o morro descer e não for carnaval
(Wilson das Neves / Paulo César Pinheiro) 

O dia em que o morro descer e não for carnaval 
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final 
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu 
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil 
(é a guerra civil) 

No dia em que o morro descer e não for carnaval 
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral 
e cada uma ala da escola será uma quadrilha 
a evolução já vai ser de guerrilha 
e a alegoria um tremendo arsenal 
o tema do enredo vai ser a cidade partida 
no dia em que o couro comer na avenida 
se o morro descer e não for carnaval 

O povo virá de cortiço, alagado e favela 
mostrando a miséria sobre a passarela 
sem a fantasia que sai no jornal 
vai ser uma única escola, uma só bateria 
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria 
que desfile assim não vai ter nada igual 

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga 
nem autoridade que compre essa briga 
ninguém sabe a força desse pessoal 
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria 
senão todo mundo vai sambar no dia 
em que o morro descer e não for carnaval

...

1 de agosto de 2017

PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE TUDO

Aconteceu, afinal, o lançamento (mais um chamamento) do livro PRECISAMOS CONVERSAR.
A noite foi absolutamente harmonia. Estavam os amigos de sempre e os novos, que sempre há, e crianças, que estão sempre a chegar. Teve abraços, espantos e alegria. Poesia, discurso e a certeza. Precisamos continuar. Precisamos ter mais momentos como aquele em que concordamos sobre a necessidade de estarmos juntos, de não nos separarmos e nos encontrarmos não só pela poesia, mas por nós mesmos, para que busquemos no outro, naquele que afina conosco, um suporte para enfrentar o que acontecerá a mais nesse nosso País que agoniza.
Agradeço a todos a presença, a participação, o convívio. Tudo isso se faz necessário como se nos juntássemos, como antes, em aparelhos de resistência fazendo frente ao poder usurpador.

Por pertinente, deixo aqui um poema do livro.

alternância

inútil celebrar vitórias
que consagram só a vaidade
celebremos também os fracassos

passada a primeira frustração
logo ali desponta
a fria análise dos fatos

e eis que vislumbramos a vitória
que se mostrará novamente
provisória


28 de junho de 2017

PRECISAMOS CONVERSAR - Introdução

Caros Amigos,

Apresento, afinal, o livro que me prometi em fevereiro e só agora aparece. Não está atrasado. Estava apenas esperando, quem sabe, dias melhores. Mas os dias melhores não chegam. E portanto aqui vai ele, sem saber como será o futuro, mas seguindo, tentando, armando-se de algum otimismo. Como um brasileiro. 
O comício de lançamento será no dia 25 de julho no Espaço Cultural Olho da Rua, na rua Bambina 6, em Botafogo, a partir das 19h. 



Abaixo segue o texto de introdução, uma conversa que eu sempre imagino ter com os leitores. Uma toque de crônica, gênero pelo qual nutro grande admiração, e outro toque de aproximação.  


Para início de conversa...


Agradeço aos poetas que estiveram comigo ao longo dos anos, aos que encontraram o caminho da poesia, aos grandes poetas e também aos médios, categoria em que me incluo. Isso não me diminui, no entanto, acreditem, leitoras e leitores que por acaso andarem por esses versos. José Saramago disse que a cultura é feita pela mediania, mais do que pelos gênios. Concordo com ele. Por isso tenho meu lugar.
Esperei que passasse o ano de 2016. Não queria publicar num ano tão tenebroso. O ano em que as instituições, já tão desacreditadas, realizaram um strip-tease moral, ferindo de morte os frágeis preceitos constitucionais e dando relevo a ambições insaciáveis.
Durante todo o ano esperei que neste nosso vasto País se levantasse alguém e desse um basta a esse golpe com ares de ópera-bufa, fazendo-nos voltar à razão. Quisera que fosse o poeta; que uma voz nova, forte e convincente se levantasse e nos levasse a todos a um mundo diferente. Mas não foi, e penso que ao menos agora, neste momento em que há um vazio de esperança, não será.
Houve um tempo em que a poesia chamada “de protesto” saiu de moda e passou a ser olhada com desdém. Mas não me importa a moda, é assim que sou, fui (e ainda vou) em frente. O que é o ser humano sem que o mova o desejo de mudança, a transposição de um limite, um eterno querer?
Este livro pretende apenas deixar registrados os poemas que fiz num período grande e coincide com os 70 anos que alcanço. Incluí alguns poemas de outros livros, de que gosto. Nunca é demais afagá-los. O que fazemos ou não constrói a nossa história. Podemos falhar, mas não sempre. E de tanto tentar, às vezes acertamos.
Os grandes temas da história humana com os quais sempre se ocuparam os escritores se tornaram banais ante a escalada da violência e da ameaça global do totalitarismo. O mundo inteiro se brutaliza.
Nenhum de nós esperava um futuro de trevas, mas de alguma forma deixamos que se concretizasse. É por isso que


Precisamos conversar outra vez.

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29 de maio de 2017

A CHACINA DO PARÁ (mais uma)

Estou aqui pensando na chacina do Pará. Não há nada que eu possa pensar mais do que na chacina do Pará.
A autoridade do Estado mata ou deixa matar. Mendigos, viciados, ladrões, índios, negros e assentados. Para ela não há diferença. São destinados a morrer porque são pobres. E como o capitalismo cria muitos pobres, que mal faz em morrerem uns, de vez em quando? Ninguém vai dar pela falta.
A chacina é um dos recursos fortes do poder do Estado autoritário porque desperta de imediato nossa indignação e, logo depois, nossa impotência.
É um jeito de fazer a gente acreditar que, de fato, a justiça não existe.

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