4 de novembro de 2015

OS FINADOS

OS FINADOS
Antes, antigamente, em outros tempos que nem sei quais são a pessoa morria só uma vez. Hoje, se a morte é violenta, ela não morre uma, mas repetidas vezes. Morre incansavelmente na tela da tv, na famigerada reconstituição do crime, enquanto o inquérito demora (outros casos virão e esqueceremos o mais atual) e ainda quando os delegados, (o Secretário sumiu) por meio de uma linguagem rebuscada e escandalosamente parcial, informa com a maior desfaçatez que um menino de 10 anos foi morto pela polícia a menos de cinco metros de distância e que isso foi um "erro de execução", isto é, o policial pensou em fazer uma coisa e fez outra. Estou falando do delegado Rivaldo Barbosa, que se especializou em desculpar todas as ações policiais extremas sem nenhuma compaixão. Sem nem pedir desculpas, o que aliás é um comportamento desconhecido do braço armado do Estado.
O policial foi encaminhado para tratamento psicológico.
A família fica sem o filho e vemos crescer a lista daqueles que, por serem pobres, estão na linha de frente da chamada "guerra às drogas", que já nasceu perdida. Os governos, no entanto, teimam em agir em seu nome, e isso significa milhares de jovens (incluindo aí as crianças) morrendo diariamente por conta de nada.
As drogas, sabemos, são apenas pretextos para outros interesses. Há pobres demais no Rio.
Não esqueçamos, no entanto, que a polícia segue ordens. Extrapola, quase sempre, por conta da má formação profissional. E quando isso acontece o Estado a protege.
Democracia, igualdade, inclusão - histórias que inventam para nos acalmar.
Não está dando certo. Todos nós sabemos que o Estado é o nosso algoz, e direta ou indiretamente morreremos por suas ordens.

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30 de outubro de 2015

DRUMMOND PARA SEMPRE

Antes de desaparecer sob os escombros do Halloween quero lembrar a todos que o dia 31 de outubro deveria ser a data a festejar-se o nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade, que fez mais pelo Brasil do que toda essa cultura imbecil importada (estarei errada?) principalmente por escolas particulares.
Alguns dizem: é divertido, as crianças gostam. Enrolações.
As crianças não sabem tudo. É preciso, antes de tudo, que os pais saibam, já que as escolas se omitem, e depois ensinar às crianças que a importação da cultura norte-americana está fazendo com que o Brasil deixe de ser o Brasil. A língua é nossa pátria?
Se já importamos o idioma e a cultura, o que falta mais? O gosto pelo terrorismo?

Não serei soterrada com bobagens do dia das bruxas dos americanos do norte. Resistirei empunhando a rosa do povo.
Deixo-lhes aqui a palavra de Drummond. É um poema de 1938, no entanto parece tão novo. Mas talvez mais novo ainda seja o medo sempre crescente de que essa invasão não termine mais. Ou termine pior.

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO
(Carlos Drummond de Andrade)

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe a penas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo.
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

18 de outubro de 2015

UMA CARTA PARA JOAQUIM

Querido amigo Joaquim,

Como estás em terras de além-mar?

Foi muito gentil da tua parte sentir (e reclamar) da falta de postagens no blog. É verdade. Agora escrevo textos mais curtos e posto no facebook. É por aí. Essa necessidade de estar "atualizado" não pede pensamento, só impulso.

Espero que tudo ande bem contigo, que também te movimentas nesse espaço em que somos completamente livres, que é o da poesia, e nos outros, tão diferentes, relativos ao capitalismo de que somos reféns.

Também porque vejo o mundo caminhar, histérico, para uma outra guerra, que não sei como será, mas certamente será pior do que tudo o que já houve. E de novo acontecerão atrocidades que pensávamos nunca mais e que prematuramente se anunciam. Morrerão jovens, a pátria agradecerá o sacrifício, etc. etc. Ninguém se importará. Os poderosos já estão tratando de mudar-se (e destruir) Marte.

Sabes que no Brasil temos uma guerra particular. É do Estado contra os pobres. A escandalosa diferença de classes e raças é tratada a tiros. Muitos vão para as cadeias, que são infernais. Esquece-se o Estado de que a pena é a privação da liberdade,  mas não a destruição da dignidade. É isso que se faz na cadeia. Tudo em nome da guerra às drogas, pretexto para um aparato policial raivoso e incontrolável, que ninguém ousa enfrentar.

O braço armado do Estado não tem cansado de atirar, meu amigo.
Há poucos dias foi morto um policial que também era dublador, o que lhe deu uma certa notoriedade póstuma. Os parentes informam que ele sempre sonhou ser policial e que morreria feliz defendendo a sociedade.
A família chora.
A sociedade não teve tempo de guardar seu nome.
Só ele foi feliz.

Todos os dias há um ou mais enterros gritados, um desconsolo sem fim, uma revolta que cresce e que explodirá como previsto, mas cuja intensidade ninguém adivinha.

Se vemos na televisão, tudo está bem. A pujança do Estado, as novas obras monumentais e seus canteiros intermináveis, os bloqueios, os buracos, a confusão, os shows, as estréias, as festas.
As grandes obras inúteis.

Como fazer poesia? E no entanto, fazemos. Faremos. E isso é o que podemos fazer. Assim é que nos salvamos.

Anda com o livro. O tempo é cada vez mais curto. 24 horas não bastam para nada. E publicar é a maneira de dizer sim ao que se fez, além de encerrar uma etapa.
Terminei, afinal, o livro de Padura. Não gostei do título, achei banal. A menina que, o menino que, chamariz de best seller.
Os críticos que me perdoem, mas um romance é algo mais do que contar uma história bem montada, mesmo que seja a de Trotski.

Essa carta parece triste e queixosa? Não temas, meu amigo. Sei me consolar. A poesia está sempre por perto, assim como um bolo de chocolate, um sorvete de tangerina, um suco de pitanga - as coisas todas da natureza - de frutas a ervas - tudo faz bem. Não dói nada nem ninguém. Alguns dias de azul completo compensam as sombras. E tu sabes que é possível, quando a luz surgir de novo, quando amanhecer, e o primeiro sol nascer sobre o dilúvio


Pensei em te mandar um poema brasileiro e escolhi Joaquim Cardoso, nascido em 1897, no Recife, encantado em Olinda em 1978. Não sei se conheces, mas é um dos nossos grandes. Pernambuco, aliás, é berço de muitos poetas de primeira grandeza.



Poema do Amor Sem Exagero

Joaquim Cardoso


Eu não te quero aqui por muitos anos

Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto Corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
Do teu corpo de nuvem.


Um abraço tropical da amiga certa
Helena

12 de setembro de 2015

A CAMINHO DO FIM

Já não compareço ao blog com a assiduidade de antes, movida a espantos. Já não vejo muito sentido. Tantas pessoas escrevem, mais e melhor do que eu. Tantas vezes os assuntos que me interessam são comentados, analisados, replicados e compartilhados. Não precisam de mim.
Além disso, confesso: sou uma perdedora. Perdi o bonde e a esperança.
Sou contra a maioridade penal: perdi.
Sou contra o armamento geral: perdi.
Sou contra desmatamento: perdi.
Sou contra frases feitas: perco diariamente.
Sou contra a reforma ortográfica: perdi, embora ainda resista.
Sou a favor dos índios, dos sem-terra e dos sem-teto. Venho perdendo.
Sou a favor da legalização das drogas. E antes que os senhores ministros decidam, já sei que perdi.
E ainda venho acumulando perdas quando digo que a polícia é o principal agente da violência, e não da segurança.

Concluo portanto que este não é o meu tempo, que este não é o mundo que esperei transformar, assim como vocês, e só o que consegui foi assistir a quanto ele piorou. Só consegui, afinal, mudar a mim mesma - tarefa ainda não terminada.
Tudo que está acontecendo os livros nos revelaram. Todas as loucuras, os crimes, as retaliações não se repetiriam. Acreditamos na boa vontade dos homens que trabalhariam para que a terra desse seus frutos para todos.
Pois esses terríveis acontecimentos que envergonham a história se reeditam. E piores, porque estão sendo vividos agora, sofridos agora,
O futuro, afinal, chegou.
E como sempre, não estávamos preparados.


PS. A foto também é de algo que perdemos: os rios limpos.


12 de julho de 2015

BICICLETAS - O APITO DA VEZ


A coisa está assim: prioridade para os pedestres é o que dizem as placas, mas as obras, os buracos, as inquietações amedrontam os pedestres e não constrangem os ciclistas da Rua das Laranjeiras, onde a prefeitura executa uma obra para tirar uma via daquela rua já apertada (dois pra lá dois pra cá) via de passagem para a zona sul e para o centro, ainda mais parada nos horários de entrada e saída dos colégios.
Os motoristas de carros (que nos últimos anos pilotam pequenos caminhões), assim como os fumantes, são os perseguidos da vez. Tiraram-lhe as vagas e as ruas para transitar e não se tem onde ir se não houver estacionamento pago. Muito bem pago.
Mas quem mandou comprar? Quem facilitou? Quem permite a propaganda?
Quem deu desconto? Quem? Quem? Quem?
De repente, a cidade é invadida pelas bicicletas do Itaú. Quatro, às vezes cinco vagas são exterminadas para dar lugar ao... estacionamento do Itaú.
É moderno? É a tendência? É ecologicamente correto? Não acredito em nada, mas aceito. Os carros enferrujarão nas garagens com velhas coisas inúteis. Os gatos morarão neles. Ali ficarão também as cadeirinhas que nos obrigaram a ter, mesmo que a criança não fique confortável, nem segura, a cabeça balançando para os dois lados e o material seja muito quente. Já não temos o kit socorro. Não precisou, por demais escandaloso.
Ficarão por aí os comprovantes do IPVA, as multas em lugares nunca dantes, os pardais escondidos, os pedágios escancarados, os conselhos de confiar na sinalização. Os contratos.
Pátria e liberdade - coisa mais antiga.
Sei o que vocês estão pensando. Que tanta coisa acontecendo e eu... Bom, acontece que isto também está acontecendo. E é mais uma mostra da manipulação de que somos vítimas, aos ventos dos negócios.
Eu, francamente, não andaria numa bicicleta do Itaú. Nem que me pagassem, como se dizia há muito tempo e agora não se diz mais.
E tem mais: com essa valorização do "ciclismo", os ditos estão cheios de razão. Conquistaram seus direitos e seus espaços. A mídia os apóia, a indústria das bicicletas vai muito bem. Daí vem o ego. Só que dessa vez vem de bicicleta.
E os motoristas?  Aos leões.
Como sempre, continuamos a trocar direitos por apitos enquanto vamos morrendo, seja em que tipo de transporte for. Já se morre no ônibus, no trem, nos carros, no metrô, embaixo das marquises, de um edifício que, cansado, cai, de uma ponte e até andando de bicicleta.
Há alguma escolha?

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13 de junho de 2015

QUANTO VALE OU É POR QUILO?

"O homem morre sem ainda saber quem é.
A morte coletiva apodera-se da morte de cada um."


Murilo Mendes



Ontem o Secretário de Segurança comemorou o aumento da pena para matadores de policiais. Que eles (os bandidos) se convençam de que não vale a pena matar policiais.
Estranha tática de convencimento, que dá peso diferente à morte de iguais. 

A lei recém aprovada, festejada pelas forças de segurança, não significa nada, no entanto, para os criminosos atuais, que matam sem motivo, impulsionados por históricos estarrecedores, pelas drogas ou pela frequência às melhores universidades do país - as penitenciárias.
E também não significa nada para os policiais. É consolo saber que o autor da sua morte pegará, daqui para a frente, uma pena maior? Estará morto e enterrado e nem aí para o castigo do assassino.
Além disso, há uma contrapartida na medida. Simbolicamente, a lei diz ao policial que ele vale mais do que outra pessoa. A atitude agressiva de abordagem com certeza dará um salto. Afinal, o policial é agora ainda mais poderoso. E o bandido mais raivoso. Mais mortes vêm por aí.
  
Uma questão que me intriga é: o que leva alguém a decidir que será policial? Exemplos na família, desejo de estabilidade no serviço público, cabecinha deformada pela televisão, maus-tratos na infância, sede de justiça ou de vingança? Não se sabe. O que se sabe é que aqueles homens e mulheres oferecem suas vidas em troca de um salário morto.
Todos tiveram mãe, isso também é certo. E pai, irmãos e vizinhos. Alguns não tiveram nada disso.
Mas sempre aparece uma avó, uma tia, e o garoto vinga.
Normalmente oriundos das zonas de pobreza, os policiais se oferecem para fazer parte do braço armado do Estado. Para isso recebem treinamento que os transformam em matadores. E frios.
Já atuando na corporação, percebem os meandros do mal em que se meteram em que a humilhação dos treinamentos vai se transformando num ódio concreto, denso, que mais tarde vai explodir nas favelas, no mesmo lugar de onde vieram. E por aí vão se desencantando, endurecendo e se um dia houve ternura, ela some totalmente no convívio com a presunção, a farda, o revólver.
Agora, então, que o policial morto vale mais do que o de qualquer um.... 
Talvez uma outra tática fosse possível: ao detectar os crimes cometidos por policiais a cúpula da segurança deveria simplesmente expulsá-los, e não transferi-los para áreas administrativas e depois inocentá-los para que cometam outros crimes.
Que garantia tem um favelado ao testemunhar contra um policial? Garantia nenhuma, e se não morrer por um tiro distraído vai pegar o primeiro ônibus pra Pasargada.
A única certeza é que diariamente ficamos sabendo dos desmandos da polícia por omissão, despreparo ou crueldade. Não importam as provas ou as evidências, o policial é sempre absolvido no final. 
A guerra às drogas fortalece a idéia do Estado repressor. Que tal dar prioridade às unidades que, em tese, são destinadas a encarcerar menores, e transformá-las em verdadeiros centros de reabilitação?

Mas ninguém quer tentar nada de novo. Todo o mundo quer conservar o que tem a todo o custo. Não estão preocupados nem com o bandido nem com a polícia e morrer é coisa que acontece com todo o mundo
Se a moda pega, daqui a pouco teremos outras leis protegendo diferenças. Quanto vale um doutor, um estudante ou um catador de lixo? 
Acautele-se. Os dias não prometem bons ventos. É por isso que deixo aqui o poema de Murilo Mendes, do qual sempre me lembro quando vejo avançar a força da ignorância. 


OS POBRES

Chegam nus, chegam famintos
À grade dos nossos olhos.
Expulsos da tempestade de fogo
Chegam de qualquer parte do mundo,
Ancoram na nossa inércia.

Precisam de olhos novos, de outras mãos
Precisam de arados e sapatos,
De lanternas e bandas de música,
Da visão da licorne
E da comunidade com Jesus.

Os pobres nus e famintos
Nós os fizemos assim.

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5 de junho de 2015

PRÉMIOS E COMENTÁRIOS

PRÊMIOS E COMENTÁRIOS
Adília Lopes - poetisa portuguesa 
(in Caras Baratas - antologia, 
Relógio D´ Água Editores - Lisboa, 2004)








A avó Zé e a tia Paulina
deram-me os parabéns
e disseram
agora já é uma senhora!
a Maria dise
parabéns por quê?
é uma porcaria!
quanto a comentários
a poesia e a menarca
são parecidas

Em 72 recebi
o prêmio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta 
para eu cair
e ter de comprar pensos rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral

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