22 de novembro de 2015

O CRIME FOI EM MINAS


Visões 


O poeta escreve por sua terra,
Itabira, Rio de Janeiro, União dos Palmares
Cajueiro.
Escreve quase sempre triste, quase sempre certo
de que a sorte reservou-lhe apenas
a visão e as chamas do futuro que prevê.
Sabe que seu tempo é outro
por isso escreve por si e pelos homens
Mas quem são os homens?
O vizinho, o homem da banca de jornais, o entregador de água?
Terão sido eles que secaram os rios
e não destruíram os detritos?
A moça à janela não sonha
As grades são grossas
Os tiros apavoram a moça
A lua (a lua, senhores!) foi explodida.
Em vão sofreu o poeta e o mundo segue
obsceno e mudo.
Os homens indiferentes cogitam sobre museus
do mar
do mato
do ar.


O poema não é novo. De 2009, eu acho. Mas lembrei dele e resolvi deixar aqui para marcar um dos acontecimentos mais terríveis dos últimos tempos, no Brasil. Um fato terrível demais para que eu possa agora buscar as palavras certas. Meu corpo já velho e um coração abatido talvez acolham bem a viagem para o fim, mas não aguentam o assassinato de um rio.

Minha barragem (aquela que a gente vai criando com o tempo, aceitando, engolindo, distanciando-se, sabendo-se que os desastres se repetem ciclicamente) também transbordou. O que há agora é um caudal de lágrimas que estiveram retidas, controladas, apaziguadas às vezes, mas que estavam ali, prontas para a maior tristeza dos últimos tempos: um desastre ambiental sem volta, um rio sem futuro, uma população entregue ao medo, vítima do drama terrível que é ser abarcada por uma lama viscosa e fétida, sem que ninguém a anunciasse.

Parece que estou sempre prestes a explodir a cada vez, e cada vez é sempre. Não consigo atinar com outra coisa que não seja a lama invadindo tudo, matando, destruindo, inutilizando para sempre um Rio Doce inteirinho que corria lá pelas bandas das Minas Gerais.
Há minas e minas. Para extração de minérios, para explodir pessoas na guerra. Mas outra Minas, maior que tudo, é feita de gente, de terra e de rios, que infelizmente não existem para o lucro - síntese da exploração desenfreada e irresponsável.

O terrível acontecimento ainda sofreu o agravante do descaso dos responsáveis, da omissão da Justiça, da falta de determinação de quem podia tomar a decisão que mostrasse ao País que sim, o governo existe para nos extorquir, mas quando precisamos ele está lá. Não estava. Não esteve. Não estará. 
O crime foi em Minas. 
Perdão, Carlos.

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6 de novembro de 2015

A CEGUEIRA

Quem lembra do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago? Trata de fenômeno transitório em que as pessoas passam a ficar cegas sem razão aparente, mas por temor do sistema frente à epidemia de origem desconhecida, são postas em quarentena em situações que se agravam na medida em que mais e mais pessoas vão ficando cegas.
Pois eu acho que está acontecendo coisa parecida com a polícia do Rio. Algo está acontecendo para que a polícia passe a não identificar, às vezes de muito perto, alguns objetos como furadeira, macaco hidráulico, peças para carro, agora até um skate e principalmente, pessoas.  Na dúvida, já que não enxergam bem, os pulícia, como se diz no vulgo, atiram e matam. Será sempre legítima defesa, isso já se sabe, de onde se conclui que uma pessoa de qualquer sexo, (cresce a população carcerária feminina) é sempre um inimigo para a polícia. Um inimigo que precisa ser exterminado todos os dias, doa a quem doer.
Antigamente a polícia só atirava em pobres e agora, - vejam só - acabou essa desigualdade. Que exemplo está dando essa valorosa corporação! Idade, raça, credo, sexo - nada disso pesa na hora de tomar uma decisão que é sempre a mesma: exterminar.

Há uma outra hipótese para tanta ineficiência, uma hipótese vigorosa de que esses movimentos abruptos que tanto assustam os policiais a ponto de fazê-los perder o controle são reflexos do medo, do medo terrível do ódio que despertam, da dor que causam, da consciência oprimida por terríveis ordens, mais letais que as armas.

Quem quer paz não faz a guerra.

4 de novembro de 2015

OS FINADOS

OS FINADOS
Antes, antigamente, em outros tempos que nem sei quais são a pessoa morria só uma vez. Hoje, se a morte é violenta, ela não morre uma, mas repetidas vezes. Morre incansavelmente na tela da tv, na famigerada reconstituição do crime, enquanto o inquérito demora (outros casos virão e esqueceremos o mais atual) e ainda quando os delegados, (o Secretário sumiu) por meio de uma linguagem rebuscada e escandalosamente parcial, informa com a maior desfaçatez que um menino de 10 anos foi morto pela polícia a menos de cinco metros de distância e que isso foi um "erro de execução", isto é, o policial pensou em fazer uma coisa e fez outra. Estou falando do delegado Rivaldo Barbosa, que se especializou em desculpar todas as ações policiais extremas sem nenhuma compaixão. Sem nem pedir desculpas, o que aliás é um comportamento desconhecido do braço armado do Estado.
O policial foi encaminhado para tratamento psicológico.
A família fica sem o filho e vemos crescer a lista daqueles que, por serem pobres, estão na linha de frente da chamada "guerra às drogas", que já nasceu perdida. Os governos, no entanto, teimam em agir em seu nome, e isso significa milhares de jovens (incluindo aí as crianças) morrendo diariamente por conta de nada.
As drogas, sabemos, são apenas pretextos para outros interesses. Há pobres demais no Rio.
Não esqueçamos, no entanto, que a polícia segue ordens. Extrapola, quase sempre, por conta da má formação profissional. E quando isso acontece o Estado a protege.
Democracia, igualdade, inclusão - histórias que inventam para nos acalmar.
Não está dando certo. Todos nós sabemos que o Estado é o nosso algoz, e direta ou indiretamente morreremos por suas ordens.

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30 de outubro de 2015

DRUMMOND PARA SEMPRE

Antes de desaparecer sob os escombros do Halloween quero lembrar a todos que o dia 31 de outubro deveria ser a data a festejar-se o nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade, que fez mais pelo Brasil do que toda essa cultura imbecil importada (estarei errada?) principalmente por escolas particulares.
Alguns dizem: é divertido, as crianças gostam. Enrolações.
As crianças não sabem tudo. É preciso, antes de tudo, que os pais saibam, já que as escolas se omitem, e depois ensinar às crianças que a importação da cultura norte-americana está fazendo com que o Brasil deixe de ser o Brasil. A língua é nossa pátria?
Se já importamos o idioma e a cultura, o que falta mais? O gosto pelo terrorismo?

Não serei soterrada com bobagens do dia das bruxas dos americanos do norte. Resistirei empunhando a rosa do povo.
Deixo-lhes aqui a palavra de Drummond. É um poema de 1938, no entanto parece tão novo. Mas talvez mais novo ainda seja o medo sempre crescente de que essa invasão não termine mais. Ou termine pior.

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO
(Carlos Drummond de Andrade)

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe a penas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo.
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

18 de outubro de 2015

UMA CARTA PARA JOAQUIM

Querido amigo Joaquim,

Como estás em terras de além-mar?

Foi muito gentil da tua parte sentir (e reclamar) da falta de postagens no blog. É verdade. Agora escrevo textos mais curtos e posto no facebook. É por aí. Essa necessidade de estar "atualizado" não pede pensamento, só impulso.

Espero que tudo ande bem contigo, que também te movimentas nesse espaço em que somos completamente livres, que é o da poesia, e nos outros, tão diferentes, relativos ao capitalismo de que somos reféns.

Também porque vejo o mundo caminhar, histérico, para uma outra guerra, que não sei como será, mas certamente será pior do que tudo o que já houve. E de novo acontecerão atrocidades que pensávamos nunca mais e que prematuramente se anunciam. Morrerão jovens, a pátria agradecerá o sacrifício, etc. etc. Ninguém se importará. Os poderosos já estão tratando de mudar-se (e destruir) Marte.

Sabes que no Brasil temos uma guerra particular. É do Estado contra os pobres. A escandalosa diferença de classes e raças é tratada a tiros. Muitos vão para as cadeias, que são infernais. Esquece-se o Estado de que a pena é a privação da liberdade,  mas não a destruição da dignidade. É isso que se faz na cadeia. Tudo em nome da guerra às drogas, pretexto para um aparato policial raivoso e incontrolável, que ninguém ousa enfrentar.

O braço armado do Estado não tem cansado de atirar, meu amigo.
Há poucos dias foi morto um policial que também era dublador, o que lhe deu uma certa notoriedade póstuma. Os parentes informam que ele sempre sonhou ser policial e que morreria feliz defendendo a sociedade.
A família chora.
A sociedade não teve tempo de guardar seu nome.
Só ele foi feliz.

Todos os dias há um ou mais enterros gritados, um desconsolo sem fim, uma revolta que cresce e que explodirá como previsto, mas cuja intensidade ninguém adivinha.

Se vemos na televisão, tudo está bem. A pujança do Estado, as novas obras monumentais e seus canteiros intermináveis, os bloqueios, os buracos, a confusão, os shows, as estréias, as festas.
As grandes obras inúteis.

Como fazer poesia? E no entanto, fazemos. Faremos. E isso é o que podemos fazer. Assim é que nos salvamos.

Anda com o livro. O tempo é cada vez mais curto. 24 horas não bastam para nada. E publicar é a maneira de dizer sim ao que se fez, além de encerrar uma etapa.
Terminei, afinal, o livro de Padura. Não gostei do título, achei banal. A menina que, o menino que, chamariz de best seller.
Os críticos que me perdoem, mas um romance é algo mais do que contar uma história bem montada, mesmo que seja a de Trotski.

Essa carta parece triste e queixosa? Não temas, meu amigo. Sei me consolar. A poesia está sempre por perto, assim como um bolo de chocolate, um sorvete de tangerina, um suco de pitanga - as coisas todas da natureza - de frutas a ervas - tudo faz bem. Não dói nada nem ninguém. Alguns dias de azul completo compensam as sombras. E tu sabes que é possível, quando a luz surgir de novo, quando amanhecer, e o primeiro sol nascer sobre o dilúvio


Pensei em te mandar um poema brasileiro e escolhi Joaquim Cardoso, nascido em 1897, no Recife, encantado em Olinda em 1978. Não sei se conheces, mas é um dos nossos grandes. Pernambuco, aliás, é berço de muitos poetas de primeira grandeza.



Poema do Amor Sem Exagero

Joaquim Cardoso


Eu não te quero aqui por muitos anos

Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto Corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
Do teu corpo de nuvem.


Um abraço tropical da amiga certa
Helena

12 de setembro de 2015

A CAMINHO DO FIM

Já não compareço ao blog com a assiduidade de antes, movida a espantos. Já não vejo muito sentido. Tantas pessoas escrevem, mais e melhor do que eu. Tantas vezes os assuntos que me interessam são comentados, analisados, replicados e compartilhados. Não precisam de mim.
Além disso, confesso: sou uma perdedora. Perdi o bonde e a esperança.
Sou contra a maioridade penal: perdi.
Sou contra o armamento geral: perdi.
Sou contra desmatamento: perdi.
Sou contra frases feitas: perco diariamente.
Sou contra a reforma ortográfica: perdi, embora ainda resista.
Sou a favor dos índios, dos sem-terra e dos sem-teto. Venho perdendo.
Sou a favor da legalização das drogas. E antes que os senhores ministros decidam, já sei que perdi.
E ainda venho acumulando perdas quando digo que a polícia é o principal agente da violência, e não da segurança.

Concluo portanto que este não é o meu tempo, que este não é o mundo que esperei transformar, assim como vocês, e só o que consegui foi assistir a quanto ele piorou. Só consegui, afinal, mudar a mim mesma - tarefa ainda não terminada.
Tudo que está acontecendo os livros nos revelaram. Todas as loucuras, os crimes, as retaliações não se repetiriam. Acreditamos na boa vontade dos homens que trabalhariam para que a terra desse seus frutos para todos.
Pois esses terríveis acontecimentos que envergonham a história se reeditam. E piores, porque estão sendo vividos agora, sofridos agora,
O futuro, afinal, chegou.
E como sempre, não estávamos preparados.


PS. A foto também é de algo que perdemos: os rios limpos.


12 de julho de 2015

BICICLETAS - O APITO DA VEZ


A coisa está assim: prioridade para os pedestres é o que dizem as placas, mas as obras, os buracos, as inquietações amedrontam os pedestres e não constrangem os ciclistas da Rua das Laranjeiras, onde a prefeitura executa uma obra para tirar uma via daquela rua já apertada (dois pra lá dois pra cá) via de passagem para a zona sul e para o centro, ainda mais parada nos horários de entrada e saída dos colégios.
Os motoristas de carros (que nos últimos anos pilotam pequenos caminhões), assim como os fumantes, são os perseguidos da vez. Tiraram-lhe as vagas e as ruas para transitar e não se tem onde ir se não houver estacionamento pago. Muito bem pago.
Mas quem mandou comprar? Quem facilitou? Quem permite a propaganda?
Quem deu desconto? Quem? Quem? Quem?
De repente, a cidade é invadida pelas bicicletas do Itaú. Quatro, às vezes cinco vagas são exterminadas para dar lugar ao... estacionamento do Itaú.
É moderno? É a tendência? É ecologicamente correto? Não acredito em nada, mas aceito. Os carros enferrujarão nas garagens com velhas coisas inúteis. Os gatos morarão neles. Ali ficarão também as cadeirinhas que nos obrigaram a ter, mesmo que a criança não fique confortável, nem segura, a cabeça balançando para os dois lados e o material seja muito quente. Já não temos o kit socorro. Não precisou, por demais escandaloso.
Ficarão por aí os comprovantes do IPVA, as multas em lugares nunca dantes, os pardais escondidos, os pedágios escancarados, os conselhos de confiar na sinalização. Os contratos.
Pátria e liberdade - coisa mais antiga.
Sei o que vocês estão pensando. Que tanta coisa acontecendo e eu... Bom, acontece que isto também está acontecendo. E é mais uma mostra da manipulação de que somos vítimas, aos ventos dos negócios.
Eu, francamente, não andaria numa bicicleta do Itaú. Nem que me pagassem, como se dizia há muito tempo e agora não se diz mais.
E tem mais: com essa valorização do "ciclismo", os ditos estão cheios de razão. Conquistaram seus direitos e seus espaços. A mídia os apóia, a indústria das bicicletas vai muito bem. Daí vem o ego. Só que dessa vez vem de bicicleta.
E os motoristas?  Aos leões.
Como sempre, continuamos a trocar direitos por apitos enquanto vamos morrendo, seja em que tipo de transporte for. Já se morre no ônibus, no trem, nos carros, no metrô, embaixo das marquises, de um edifício que, cansado, cai, de uma ponte e até andando de bicicleta.
Há alguma escolha?

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13 de junho de 2015

QUANTO VALE OU É POR QUILO?

"O homem morre sem ainda saber quem é.
A morte coletiva apodera-se da morte de cada um."


Murilo Mendes



Ontem o Secretário de Segurança comemorou o aumento da pena para matadores de policiais. Que eles (os bandidos) se convençam de que não vale a pena matar policiais.
Estranha tática de convencimento, que dá peso diferente à morte de iguais. 

A lei recém aprovada, festejada pelas forças de segurança, não significa nada, no entanto, para os criminosos atuais, que matam sem motivo, impulsionados por históricos estarrecedores, pelas drogas ou pela frequência às melhores universidades do país - as penitenciárias.
E também não significa nada para os policiais. É consolo saber que o autor da sua morte pegará, daqui para a frente, uma pena maior? Estará morto e enterrado e nem aí para o castigo do assassino.
Além disso, há uma contrapartida na medida. Simbolicamente, a lei diz ao policial que ele vale mais do que outra pessoa. A atitude agressiva de abordagem com certeza dará um salto. Afinal, o policial é agora ainda mais poderoso. E o bandido mais raivoso. Mais mortes vêm por aí.
  
Uma questão que me intriga é: o que leva alguém a decidir que será policial? Exemplos na família, desejo de estabilidade no serviço público, cabecinha deformada pela televisão, maus-tratos na infância, sede de justiça ou de vingança? Não se sabe. O que se sabe é que aqueles homens e mulheres oferecem suas vidas em troca de um salário morto.
Todos tiveram mãe, isso também é certo. E pai, irmãos e vizinhos. Alguns não tiveram nada disso.
Mas sempre aparece uma avó, uma tia, e o garoto vinga.
Normalmente oriundos das zonas de pobreza, os policiais se oferecem para fazer parte do braço armado do Estado. Para isso recebem treinamento que os transformam em matadores. E frios.
Já atuando na corporação, percebem os meandros do mal em que se meteram em que a humilhação dos treinamentos vai se transformando num ódio concreto, denso, que mais tarde vai explodir nas favelas, no mesmo lugar de onde vieram. E por aí vão se desencantando, endurecendo e se um dia houve ternura, ela some totalmente no convívio com a presunção, a farda, o revólver.
Agora, então, que o policial morto vale mais do que o de qualquer um.... 
Talvez uma outra tática fosse possível: ao detectar os crimes cometidos por policiais a cúpula da segurança deveria simplesmente expulsá-los, e não transferi-los para áreas administrativas e depois inocentá-los para que cometam outros crimes.
Que garantia tem um favelado ao testemunhar contra um policial? Garantia nenhuma, e se não morrer por um tiro distraído vai pegar o primeiro ônibus pra Pasargada.
A única certeza é que diariamente ficamos sabendo dos desmandos da polícia por omissão, despreparo ou crueldade. Não importam as provas ou as evidências, o policial é sempre absolvido no final. 
A guerra às drogas fortalece a idéia do Estado repressor. Que tal dar prioridade às unidades que, em tese, são destinadas a encarcerar menores, e transformá-las em verdadeiros centros de reabilitação?

Mas ninguém quer tentar nada de novo. Todo o mundo quer conservar o que tem a todo o custo. Não estão preocupados nem com o bandido nem com a polícia e morrer é coisa que acontece com todo o mundo
Se a moda pega, daqui a pouco teremos outras leis protegendo diferenças. Quanto vale um doutor, um estudante ou um catador de lixo? 
Acautele-se. Os dias não prometem bons ventos. É por isso que deixo aqui o poema de Murilo Mendes, do qual sempre me lembro quando vejo avançar a força da ignorância. 


OS POBRES

Chegam nus, chegam famintos
À grade dos nossos olhos.
Expulsos da tempestade de fogo
Chegam de qualquer parte do mundo,
Ancoram na nossa inércia.

Precisam de olhos novos, de outras mãos
Precisam de arados e sapatos,
De lanternas e bandas de música,
Da visão da licorne
E da comunidade com Jesus.

Os pobres nus e famintos
Nós os fizemos assim.

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5 de junho de 2015

PRÉMIOS E COMENTÁRIOS

PRÊMIOS E COMENTÁRIOS
Adília Lopes - poetisa portuguesa 
(in Caras Baratas - antologia, 
Relógio D´ Água Editores - Lisboa, 2004)








A avó Zé e a tia Paulina
deram-me os parabéns
e disseram
agora já é uma senhora!
a Maria dise
parabéns por quê?
é uma porcaria!
quanto a comentários
a poesia e a menarca
são parecidas

Em 72 recebi
o prêmio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta 
para eu cair
e ter de comprar pensos rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral

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27 de maio de 2015

Ahã! Quando acabar o maluco sou eu (Raul Seixas)

Passei ontem na Praça XV e não pude deixar de ver (nem o meu nariz de cheirar) uma dessas coisas horríveis que a Prefeitura houve por bem instalar na cidade como se fossem banheiros e que chamou, desgraçadamente, de UFA, ou Unidade de Fornecimento de Alívio. A sigla pode ter sido considerada um achado para publicitários, mas é, a meu ver, um deboche. Como é que uma pessoa pode se aliviar numa "unidade" em que ela fica praticamente exposta enquanto faz as suas necessidades? Líquidas, naturalmente, que correm pela rua (porque não funcionam como deveria funcionar) e, sob o céu a pino, trazem aos logradouros o cheiro do Rio imperial, que não é muito diferente do cheiro da Av. Brasil há 100 anos, e assim há de piorar. Cheiro de uma cidade que apodrece.
Quando falo que o instrumento/aparelho/banheiro é ruim para todos, falo principalmente nas mulheres porque se uma mulher quiser fazer xixi terá que baixar as calcinhas. Ao baixá-las, elas ficam aparecendo porque há um grande vão entre o aparelho sanitário(?) e o chão. Vai daí...
Não se sabe até hoje quem foi que inventou as tais ufas, mas deve ser um imbecil total. E mais imbecil ainda é a prefeitura que não se envergonha de dar(?) à população há tanto tempo sem banheiro a alternativa de continuar pedindo para usar os banheiros de bares e restaurantes que teimam em informar que "o uso dos banheiros é só para clientes". Às vezes, pobres clientes, também eles não têm direito a banheiros limpos.
Depois de uma colossal e cara campanha para que as pessoas não façam xixi nas ruas, principalmente no carnaval; da  instalação dos também degradantes banheiros químicos; das multas para quem faz e, finalmente da adoção das unidades degradantes e nojentas denominadas UFA, já vi que a prefeitura não tem idéia sobre a solução a buscar.
Proponho, portanto, a contratação de um arquiteto de verdade, de um engenheiro, de um designer ou dos três juntos para que pensem o banheiro público como um lugar em que a pessoa, já premida pela necessidade, sinta-se acolhida com privacidade e higiene. Se não for exigir muito, que o projeto leve em conta a paisagem e não a degrade também, como acontece com as lixeiras e containers de todo o tipo.
Parece fácil. Mas não é. Para a prefeitura, pelo menos, tem sido bem difícil. Talvez porque os motivos que levam o poder público a pensar em banheiros não sejam exatamente aqueles para os quais eles se destinam.
Sugestão: quem sabe a AMBEV, responsável pela grande maioria do xixi do carioca resolva entrar nessa e se responsabilizar pela instalação de banheiros públicos?
Recado: banheiros não são utilidades de temporada, sr. prefeito. Chova ou faça sol, com ou sem festa, todo o mundo precisa de banheiros.
Conclusão: talvez indireta, gentil e decisivamente o prefeito esteja apenas nos dizendo:
Vão à merda.

Essa é uma das mil coisas que me fazem pensar em Raul.
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26 de maio de 2015

MACONHA ESQUECIDA

O título é estranho, reconheço, e a notícia não é nova, mas vale a pena registrar.

Não tem ninguém "esquecendo" maconha assim, no más. Alguém pode fingir que esqueceu ou mesmo abandonar a carga, quando é caso extremo. Mas esquecer...? Nem muito doidão. 

A história é doida também, mas simples. Em 2010 a Receita Federal apreendeu um veículo que foi doado à prefeitura de Santa Vitória do Palmar, RS, que por sua vez utilizou-o para transporte escolar.
Cinco anos depois, quando o veículo (um ônibus) foi para a oficina descobriu-se que havia 137 quilos da erva escondida num tanque falso de gasolina. 

O que pensar disso? Muita coisa:
1. que o veículo não foi devidamente examinado pela Receita. Foi apreendido apenas porque era roubado. 
2. que o veículo não foi vistoriado antes de servir para o transporte escolar.
3. que durante cinco anos TAMBÉM não foi vistoriado.
4. que é mais estranho ainda que ninguém tenha visto um tanque recheado, como mostra a foto.
5. que prejuízo!  
6. quando o caso vem à tona, as autoridades constituídas acabam fazendo a "iniciação" das crianças com a maconha, uma vez que a divulgação do fato levou-as a saber que durante 5 anos sentaram-se sobre os quilos. Quem diria? 
E agora, depois de iniciadas serão indiciadas?  

7. Alguém tem algo a acrescentar?

Essa piada vem se somar a uma lista de aberrações que acontecem na terrinha, como aquela da polícia algemando pés de maconha. É por essas e por outras que não resolvemos um problema tão sério, mas que já poderia há muito tempo ter encontrado uma solução, não fosse a ignorância, a submissão, o fanatismo e a falta de visão da maioria (da imensa maioria) dos políticos.

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24 de maio de 2015

O INFERNO

Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivada na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo. 
(Marcola - líder do PCC - entrevista concedida ao jornal O Globo em março de 2014)

Pois aí está. O pessoal da Lagoa, que há alguns anos pendurava faixas com "Basta", não se organizou suficientemente. Não acreditou suficientemente que estava alimentando o monstro. E agora está preocupado com a fome insaciável e cruel dos ladrões de bicicletas que os esfaqueiam e matam.
É horrível? É. 
Mas é horrível que aconteça em qualquer lugar. 
O Rio de Janeiro não é mais a cidade partida. É uma cidade estilhaçada. Agora não importa se são ricos ou pobres, a violência apoderou-se  de todos os espaços.   
Isso, já sabemos, é fruto da desigualdade social. Essa desigualdade social passa por falta de moradia, educação, oportunidade e respeito. Também por conta da indiferença com que os ricos olham os pobres em tragédias que parecem ficcionais e que aparecem, de relance, em suas grandes telas de tv. Agora (que susto!) esses bandidos mirins invadiram o território dos ricos. Daí a perplexidade. Os bandidos mirins já não são só figurantes na tv. Eles são protagonistas da vida alheia. Da morte alheia.
O que eu digo é tão antigo, tão repetido que às vezes também me parece banal.
Há poucas chances de diminuir essa discriminação que nos acompanha desde a escravidão e que não terminou com a abolição. Somos um país misturado governado por brancos cujo braço armado, a polícia, tem especial preferência por negros (para bater, prender e matar) sem que sequer reconheçam  a própria cor e a sua condição de discriminados: por serem pobres, por serem negros e por serem polícia.
Sim, a culpa não é toda da polícia. Não há uma política de Estado que se dedique a esse grande problema social. Não há ninguém que queira resolver nada. Todos estão confortáveis em seus lugares reservados.
E repetindo Marcola: Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi cheentrate!" - Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.
  

15 de maio de 2015

POLÍCIA POLÍTICA

"Os nossos jovens vão ter que morrer sempre assim? A polícia vai chegar e matar todo mundo assim? Quem vai criar meu neto de três anos agora?" 

Desde domingo próximo passado já morreram 12 pessoas na guerra gerada pela repressão ao tráfico. Outra vez. De novo. Ainda. Até quando?
Morro de São Carlos, Fallet, Fogueteiro são as favelas da vez.  E eu fico aqui me perguntando, o que faço todos os dias, como uma sociedade pode se apegar a uma lei tão perversa, baseada em argumentos tão fracos, que escolhe reprimir a liberar; matar a educar; entender ao invés de eliminar. É disso que somos feitos?
Infelizmente, o Brasil continua sendo um país atrasado que ainda se curva aos delírios norte-americanos. Por causa deles, tememos a nós mesmos. Aos Estados Unidos pouco importa quantos de nós morremos todos os dias. Somos menores, misturados, facilmente manipulados. E se não se preocupam com as próprias guerras, por que se perturbariam com a nossa? É claro que não estamos isentos de culpa. A classe política é burra, conservadora e fanática e por causa disso ninguém pensa em dar andamento no processo de legalização (esse sim, de pacificação, sem armas, sem confrontos), apenas a lei dando ordem a uma demanda do mercado que é também um direito individual.

Há pouco tempo li uma manchete que considerei uma piada: a PM reprime pouco o jogo do bicho. Mas não houve comentários. Nem precisava, porque do jogo do bicho também sai muito dinheiro, assim como das drogas. Mas algum entendimento há com a cúpula do jogo do bicho porque ela não é perseguida, assim como não são perseguidos e presos os apontadores e viciados (ou o jogo não é vício?)
Todo o mundo mais crescidinho sabe o que aconteceu com a Lei Seca, nos Estados Unidos. Quanta gente morreu naquela guerra sem noção. E para quê? Para que as histórias rendessem filmes de ação?
A situação se complica e vejo outra vez as autoridades informarem displicentemente que a política é essa e continuará sendo. A Justiça segue indiferente ao conflito.
A guerra às drogas não terá vitórias. Terá apenas mortos para contar.
Só há uma solução: legalizar. Mas isso as autoridades não querem. Por algum motivo será. E com certeza não é a preservação da saúde pública porque para ter saúde é preciso estar vivo. Assim como devem estar vivas e protegidas as fontes de dinheiro que alimentam os "negócios de Estado".


6 de maio de 2015

"NÃO SEI POR QUE PENSAS TU, SOLDADO..."

Não houve panelaço para protestar contra os 61 milhões de bônus para policiais civis e militares que cumpriram metas. Quais metas? Não me perguntem, porque o que vejo a polícia fazer cruelmente é matar. Como se brincasse, apenas. Como se maltratar, agredir, humilhar e mentir fosse a coisa mais inocente do mundo.
Premiar a polícia é premiar a brutalidade, os maus-tratos, os "arranjos", os bondes, o abuso de autoridade.
Hoje morreu um polícia e recebeu honras militares. O civil que morreu não teve nem nome divulgado.
Mas ninguém deu a mínima. Estão todos fazendo a direita festiva, o inocente útil. Vamos dar um panelaço e voltar para ver o jogo.
Ninguém se importa com a quantidade de dinheiro que se gasta em segurança e o dinheiro gasto em educação. Ainda não viram que uma depende da outra. Ainda não.
Meus protestos são inúteis. Por isso deixo aqui algo maior, que ofereço à polícia, como uma bandeira branca, uma pedra ou uma foice - algo mais forte que a forma - que remete à coragem - de Nicolás Guillén, poeta cubano (1902-1989).



      No sé por qué piensas tú
        No sé por qué piensas tú,
        Soldado, que te odio yo,
        Si somos la misma cosa
        Yo,
        Tú.

        Tú eres pobre, lo soy yo;
        Soy de abajo, lo eres tú;
        ¿De dónde has sacado tú,
        Soldado, que te odio yo?

        Me duele que a veces tú
        Te olvides de quién soy yo;
        Caramba, si yo soy tú,
        Lo mismo que tú eres yo.

        Pero no por eso yo
        He de malquererte, tú;
        Si somos la misma cosa,
        Yo,
        Tú,
        No sé por qué piensas tú,
        Soldado, que te odio yo.

        Ya nos veremos yo y tú,
        Juntos en la misma calle,
        Hombro con hombro, tú y yo,
        Sin odios ni yo ni tú,
        Pero sabiendo tú y yo,
        A dónde vamos yo y tú Y
        ¡No sé por qué piensas tú,
        Soldado, que te odio yo!

30 de abril de 2015

BRASIL E CUBA


Quem não soube, leu, desejou, sonhou com Cuba? Pelo menos quem acreditou na Revolução, na possibilidade de um mundo mais humano e igualitário?
Conhecer Cuba era para mim um sonho que pairava, mas não fora alcançado, como acontece com alguns amores que por isso passam a ser eternos.
Ir a Cuba era um sonho que até já se esvaía quando afinal tive a oportunidade. E vi: os escombros estão lá. O Malecón está lá. O Hotel Nacional, Cuba, Fidel, o Che, Raúl, Camilo Cienfuegos, a guerrilha, Sierra Maestra, uma luta pensada e desejada pela história, que é feita por seus heróis. Tudo está lá, num retorno aos anos 50.
Como não pensar nos desígnios de dois latino-americanos de berços tão distanciados geograficamente para se reconhecerem, num determinado momento, como irmãos e juntos mudarem o rumo da história? Essa história, especificamente, instiga qualquer um, mesmo os que não tenham simpatia pelo regime.
A cabeça era Fidel, o Che era a alma. Mas ao Che, traíram e mataram covardemente; conspurcaram sua imagem usando-o como  chamariz do consumo, que é o que o capitalismo costuma fazer com os inimigos. Logo ele, que só sabia dividir.
A falta que faz o Che!
Fidel manteve-se como pôde em função do vil embargo dos exploradores de sempre, que gostavam de ter Cuba como seu puteiro. O povo cubano também se manteve como pôde, em situação precária, até hoje. E resiste.
Estão lá os escombros de uma antiga Cuba, em sendo a mesma. Estão lá a Bodeguita del Medio, a Plaza Vieja, a onipresença de José Martí. Hemingway está em todos os lugares, assim como a música.

Fui a Santa Clara, onde está o Memorial do Che e me emocionei ante os registros e as fotos, como se a história estivesse ainda sendo feita, e estivéssemos muito perto da guerrilha, das dificuldades, dos mosquitos, mas também da camaradagem, da esperança, da certeza na vitória.
Não sabemos o que teria sido Cuba se não houvesse o embargo. Mas concluí que existem dois mundos: um, aquele onde há pobreza mas também honradez; outro, da fartura e da corrupção.
É preciso firmeza de princípios para enfrentar a escassez. Nós, brasileiros, nunca passamos por isso. Reclamamos por ter tanto, isso sim. A oferta nos consome. As possibilidades nos nocauteiam.

Cuba não tem propaganda estragando a paisagem.
Cuba é limpa.
Em Cuba ninguém passeia cachorros
e os gatos são magros
Enquanto aqui
não nos cansamos de engordá-los

Espero que a partir das negociação entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos - esse vilão internacional - não tenha sido em vão a luta e o sacrifício do povo cubano.
E que a chuva, que ora cai com força na ilha, não a sacrifique ainda mais.

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6 de abril de 2015

QUANDO O ESTADO É O AUTOR

Bernardo


Todas as pessoas que são atingidas pela tragédia, que pode ser um assassinato, um acidente de trânsito ou um assalto - querem justiça.
A justiça, no entanto, não se faz. O menino Eduardo de Jesus, 10 anos, morto no Complexo da Maré, foi levado para o Piauí para ser enterrado. Tem coisa mais triste do que viajar com o cadáver do filho? A família está destroçada.
O policial que o matou não sabemos que destino terá. A polícia diz que havia um tiroteio. A mãe diz que não havia nada e que o policial atirou porque...por que mesmo? Porque foi mal preparado, porque estava nervoso, porque pensou que...
Eu acredito na mãe, até porque atirar primeiro é uma prática policial frequente.

A promotora responsável pelo caso de assassinato do menino Bernardo, em Três Passos, no Rio Grande do Sul, chegou à conclusão de que "há indícios suficientes" para condenar o monstro chamado pai. Isso já faz um ano.
O caso de Bernardo foi ainda mais impressionante, em se tratando de omissão da justiça porque meses antes ele havia procurado o Ministério Público para pedir proteção contra maus tratos e negligência por parte do chamado pai e da madrasta. E não achou quem o ajudasse.
Morreu barbaramente, dois meses depois.

No primeiro caso, o de Eduardo, a polícia fará tudo para livrar o criminoso de uma condenação.

No segundo, a Justiça se omitiu ao não levar a sério o pedido do menino Bernardo. Para esse caso não houve "averiguações".

Com esta justiça e esta polícia há ainda quem queira diminuir a maioridade penal.
Talvez fosse melhor divulgar o cronograma: hoje vamos matar na Rua B; amanhã, na viela do Calvário. Afinal, é esse o serviço que a polícia aprendeu. E a justiça acoberta.

A resposta do Governador ao recrudescimento do conflito no Complexo da Maré, onde já morreram 30 pessoas desde a ocupação é de mais armas, mas polícia e, naturalmente, conforme a política pública adotada, mais mortes.
O Governador diz que novos policiais foram treinados por três meses. Ora, e o que podem aprender em três meses, a não ser atirar?
Forças de ocupação. Sem educação, sem treinamento, sem compaixão.
E o Estado? Nada. Sempre outras mortes vão substituir, como notícia, as mortes de crianças que nasceram destinadas a vítimas. Não é preciso que sejam delinquentes.
Qualquer morte é medalha.

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3 de abril de 2015

PÁTRIA ATERRADORA

Entre os mortos de hoje há um menino de 10 anos, Eduardo. Ontem uma menina perdeu a mãe, Elisabeth, que estava dentro de casa quando o polícia entrou atirando sem saber pra onde.
Hoje morreu Silvia, 49 que andava pelo comércio na Tijuca.
Quem são essas pessoas que se vão, que morrem assim, sem que possamos guardar-lhes ao menos o nome? Amanhã haverá outras mortes com outros nomes, alguns sem sobrenome, que desaparecem num estampido. Às vezes lembramos deles, quando sabemos que os policiais indiciados foram absolvidos, como aconteceu recentemente no caso Raíssa e como acontece sempre.

Mas hoje foi diferente. Hoje também morreu o filho mais moço de Alckmin, num acidente de avião. Desse saberemos tudo, em breve. Para essa morte há alvoroço. Com essa morte de gente importante a mídia fica consternada, como na expressão de William Waack, da Globo, ao dar a notícia. Afinal, tinham lá as suas coisas em comum. A presidente Dilma lamentou, todo o mundo lamentou. Mesmo que seja um lamento social.

No Rio, o governador Pezão diz que lamenta muito os episódios mas que não haverá recuo.
Dessa maneira informa que vão continuar essas mortes sem consolo.

A mãe de Eduardo, Terezinha, diz que marcou bem o PM que matou seu filho.
Talvez Terezinha também morra, breve e bravamente.

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31 de março de 2015

"SEGURANÇA PÚBLICA É UM PACIENTE EM ESTADO FEBRIL "


O autor do diagnóstico é o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Maria Beltrame.
A declaração foi feita a partir dos últimos episódios em que a polícia mostra que está perdendo espaço em favelas ditas pacificadas. A política equivocada, depois de uma certa histeria, já mostra sinais da doença.
A obsessão não o deixa ver claramente a realidade. E a realidade é que chefia uma secretaria que inclui a polícia, há tanto tempo viciada em maus tratos e corrupção.
Penso que deve ser mesmo difícil ter pensamentos claros quando se atua no lado escuro da sociedade. Imagino as emanações entre esses indivíduos covardes que saem por aí às vezes para matar jovens pobres, principalmente negros.
O pretexto é a guerra às drogas. Mas isso, já se sabe, é armação. O objetivo é manter a guerra para poder matar os negros, quase todos pobres.
Imaginem se de repente, como aconteceu com a Lei Seca, nos Estados Unidos, a proibição às drogas fosse abolida, como foi. Que vexame! Mas aquilo foi em 1933! E o modelo é o mesmo?
Aqui é um pouco pior, porque com a desculpa da guerra às drogas (que mesmo os estados norte-americanos já abrandaram) a polícia continua matando quem estiver pela frente, porque não respeita ninguém que não tiver a autoridade que ela tem, uma autoridade armada; porque não respeita o morador.
Agora, conforme o previsto, a polícia está acuada. Não demorou e as quadrilhas se organizaram mais, armaram-se ainda mais, ousam ainda mais. E o inferno voltou às favelas.
Desde que existe mundo o homem quis alguma coisa mais por meio de substâncias diversas. É assim e pronto. É uma escolha que cada um faz. Isso é motivo para o massacre? Ou não é o caso de legalizar?
Mas se legalizar, como é que vão matar, invadir, humilhar a gente pobre, o público-alvo da política de eliminação?
É importante manter o pretexto, a desculpa, a mentira. E sobretudo, os lucros, as propinas, as intimidações.
E agora ainda vem a Bancada da bala (nunca pensei em ver isso) trabalhando pela redução da maioridade penal.  Cada vez mais jovens morrerão ou irão para as galés - onde sempre estiveram.

Diferente do Secretário, penso que a Secretaria de Segurança é um paciente terminal.

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29 de março de 2015

VOLUME VIVO


Sempre vi o golfe como um jogo para ociosos. Posso estar errada. E ociosos são os desempregados e os ricos. Como nunca se vê desempregados jogando golfe, suponho que seja mesmo para os ricos. (Até que deixem de sê-lo, do jeito que as coisas estão).

Os dominantes sempre ficam muito tempo sem ter o que fazer. Precisam se distrair. Já nosotros não podemos nem cantar o refrão da música no banho.
Nos campos de golfe são feitos grandes negócios, que também causam buracos.
A foto é do parcão do prefeito, para que venham ao Brasil nas Olimpíadas os maxi-ricos, que são os que interessam, tendo em vista o alto potencial do turismo de golfe brasileiro, que ficará mais evidente com o retorno do golfe às Olimpíadas em 2016, no Rio de Janeiro.
Lá atrás aparece uma cidade. Uma fatia da cidade, como um bolo mal repartido.
Falta água, mas que importa, se a grana está verde?
Grana? Desculpem, eu queria dizer grama. 
Bom domingo para todos

14 de março de 2015

EU SOU GARI

greve dos garis rio de janeiroEU SOU GARI

Do que eu me lembro, comida era para comer e o resto era para as galinhas. A carne era embrulhada em jornal e o pão vinha num saco de papel.
Hoje as galinhas não precisam mais de comida porque também não são mais as galinhas que eram e a gente nem tem mais quintal e muito menos galinheiro. Além disso, os jornais também estão contaminados e os sacos de papel custam os olhos da cara em lojas de embalagens.
Nada era descartável. Nem a palavra existia. A ordem era guardar. Sempre havia como aproveitar. E é claro que havia oficinas de consertos que consertavam mil vezes o mesmo aparelho.
E então chegou a palavra: descartável. E as embalagens, indestrutíveis.
Fomos inapelavelmente invadidos pelas embalagens em nome da higiene. 
Até para tomar um côco tem que ser na garrafinha de plástico, para gelar. E lá vem o canudo com envelope. E tudo para o mesmo lixo.
Faço compras na feira. Um abacaxi descascado vem envolto num plástico dentro de uma sacola de plástico.
No supermercado: frios em bandejas de isopor cobertos por plásticos. Para doces, dois docinhos só, uma caixa (com tampa, de plástico) Se você quiser comprar uma salada pronta, ela vem até com bandeja (descartável) para comer na cama.
Li recentemente que nos restaurantes, até mesmo os pratos (os talheres já são) terão que receber invólucros de plástico.
Se você resolve comprar um equipamento eletrônico ou eletrodoméstico levará dois séculos para se livrar da caixa de papelão, do isopor, do plástico bolha, da fita colante. Mas você pensa que é só botar na lixeira e tudo está bem. O problema não é mais seu.  
Toda essa sujeira foi inventada para resguardar a sua saúde, amigos. Para livrá-los das bactérias, dos vírus, dos coliformes fecais e outros resíduos – enfrentados diariamente por quem? Pelo gari. Aquele mesmo, que passa correndo, suando, sentindo o cheiro infecto da sua comida, do seu cocô, ouvindo buzinas e desaforos de pessoas que “precisam” chegar em casa para fazer mais lixo.
Onde foi que tudo isso começou? Porque esse deslumbramento com o lixo plástico? Coisa de subdesenvolvidos. A gente vira e mexe e dá sempre nesse lugar-comum. Emergentes, só se conseguirmos romper a camada de plástico e metais que infestam lagoas e mares.
A única coisa certa é que foi tudo uma armadilha.
Os garis estão em greve no Rio de Janeiro. Mas nem por isso as pessoas deixarão de consumir o “seu” iogurte, a “sua” água com gás, “o seu” refrigerante favorito. Brasileiro não junta uma coisa com a outra.
E francamente: Alguém precisa se desfazer da tampa do vaso sanitário, daquela poltrona velha ou do entulho da obra no banheiro justamente quando os garis estão em greve? Isso é sujeira.
A coisa mais importante dos últimos tempos foi a invenção de uma máquina, por um japonês, que converte plástico em petróleo, resolvendo dois problemas de uma só vez.
Muita gente fala até hoje em como o Japão conseguiu recuperar as cidades bombardeadas na guerra. Verdade que recebeu uma montanha de dinheiro. Mas e daí? Não fosse o povo empenhado na ação coletiva, nada teria acontecido.
Mas aqui é o Brasil, um país que cultua o lixo. E esquece o lixeiro.

11 de março de 2015

A ESTÁTUA DOS BRANCOS

Juro que não acreditei quando recebi a informação de que Eduardo Paes teria feito ou já fez uma estátua para o brasileiro morto por condenação de tráfico na Indonésia. Mas procurei na Internet e lá estava: outros blogs publicavam.
Como é que numa cidade onde a polícia mata tanto (e agora também morre) por conta (em termos) do tráfico de drogas, como é que ele vai fazer uma estátua para o traficante? Desportista, é verdade, mas traficante.
E onde estão as estatuazinhas devidas aos milhares de surfistas da vida, que estão nas cadeias brasileiras, o que equivale a dizer nas galés? Onde estão as estátuas para os cultivadores de maconha, que se negam a participar do tráfico e querem exercer um direito inquestionável, que diz respeito à sua vida privada, assim como uns comem biscoitos?
Aí tem coisa. Como sempre.

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24 de fevereiro de 2015

O FIM DOS BLOGS

Alguém declarou o fim dos blogs. Não sei se acabarão. Para mim já são como um diário, às vezes sem registro, das coisas que estou vivendo, de como me sinto em relação a elas. Tento apenas organizar o pensamento. Mas o caso de outros blogs, de jornalistas famosos e conceituados, não sei. Não entendo porque a Presidente, que está tão necessitada, não convoca bons jornalistas para resistir aos ruídos (e golpes) do golpe.
Não estou gostando nem um pouco desses tempos. Mas já houve mudanças soturnas outras vezes. A história vai se repetindo com pequenos, pequeníssimos movimentos.
Que mais? Beltrame. Sempre ele. Reclamou que é tudo com a polícia. Que a lei não ajuda. Queixas. Será que agora, que estão morrendo tantos policiais, ele descobrirá que essa guerra é irreal?
A violência nasce nos quartéis, sai para as ruas e vai se formar na prisão.
Também nasce para quem não é polícia e segue pobre, na favela.
Favelado contra favelado, negro contra negro, pobre contra pobre.
É uma guerra, sim. Mas será contra as drogas?

12 de fevereiro de 2015

OS DEDOS-DUROS

Muito se fala em corrupção. No entanto, a ordem jurídica criou uma lei que chamou de "delação premiada". É com base nessa lei, que oferece não sei quê nem sei quanto aos delatores, que o sistema sai a campo fazendo o maior espalhafato e prendendo pessoas que tiveram seus nomes ligados, em algum momento, às atividades do delator, ou mesmo sem que isso tenha acontecido. Um delator pode inventar qualquer coisa que lhe peçam para garantir privilégios. Principalmente calúnias. Por que não? Já fez o acordo com a Lei, pode dizer qualquer coisa.
A lei, alegam os legisladores, é para facilitar a investigação de quadrilhas. Pode ser, mas também afeta de morte uma norma moral. A lealdade cai por terra. Cai também a noção de honra. E nessa queda levam na enxurrada a dignidade de homens e mulheres. Fica institucionalizado o "Roube, mas conte." Cada um faz a sua parte.
Em outros tempos muitas pessoas foram torturadas e morreram para não delatar os companheiros. A degeneração dos torturadores foi vista como "o cumprimento do dever".
A justiça não se fez, portanto, é era previsível que a corrupção aumentasse sem freio.
A criação da "delação premiada" é a aceitação social da deduragem. Os delatores são traidores não só de pessoas, mas de uma causa, seja ela por dinheiro ou poder. A delação premiada, a meu ver, incentiva a corrupção, ao invés de combatê-la efetivamente.
Mais uma vez, a estratégia está errada.

7 de fevereiro de 2015

CARTA À MÃE

Rio de Janeiro, 7 de fevereiro 2015.


Oi Mãe,
Esta carta é para te mandar notícias no dia em que completarias 100 anos. E se tivesses conhecido de perto o tal de facebook verias que tuas filhas e netos estavam ligadas no mesmo pensamento e na mesma saudade.
Aqui a vida anda e eu mesma, a caçula, já estou velha. Nós, as tuas filhas, que já posamos na linha de frente das fotografias de família, agora estamos na última, a de espera. Mas vamos, enfrentando as agruras da velhice e a carga de desequilíbrios que o corpo denuncia. Antes fossem só os do corpo. Mas já temos idade para reconhecer os momentos em que a felicidade, rápida, nos ilumina e nos dá combustível para ir além.
Agora não preciso mais medir a gravidade das coisas que te conto. E nem mentir.
Eu não queria, mãe, eu nem sabia mentir direito, mas aprendi. O clamor das ruas me seduzia, o cinema, o teatro, os passeios que nunca fiz com a escola. E eu chorava mãe, quase o dia inteiro enquanto as colegas iam a lugares que eu não veria mais, sem qualquer experiência de uma outra vida que não fosse estar protegida.
Tu dizias que o pai não deixava. Mas sabias, como eu soube depois, que era por ti que passavam aqueles nãos, que ele respeitosamente também obedecia.
Não incomoda o teu pai. E o teu reino, a casa, era dedicado a ele. Acho que nunca pensaste se estavas certa ou se poderias ter errado em algumas coisas. Na família não se discutia sobre educação de crianças como hoje. Era do jeito que cada mãe achava que era. Mas a curiosidade me chamava às ruas e eu não podia deixar de ir. Tu não querias. Mas o teu reino era a casa. Do que vinha de fora pouco sabias, com tantos encargos da casa e das filhas, com irretocável dedicação ao pai - amor sem medida.
Lembro que a gente ria porque tinhas ciúme das freiras que iam à nossa casa no dia do aniversário dele com as órfãs do Asilo N.Sra.da Conceição e lá cantavam loas ao seu diretor, modestamente envaidecido.
Lembro que nunca na vida eu vi um beijo, um abraço, um afago que não fosse apenas simbólico. O carinho era embutido nas comidas, nos doces, na casa impecável, na lealdade irrestrita, e principalmente poupando o pai de qualquer malfeito nosso, (ou eram apenas meus?) e esmagando qualquer tentativa de descobrir por mim mesma as coisas além da casa.
Eu dei trabalho, sim, mãe. Me perdoa. Mas sei que a minha rebeldia aumentou por conta da repressão Sei que era porque naquela época eu ainda não podia sair para lugar nenhum sem um adulto, enquanto as moças da minha idade já andavam na garupa das motos.
Ter ficado em casa por tanto tempo por conta de tantos nãos, no entanto, me levou aos livros. Ali encontrei o amor enjoadinho dos romances para moças, mas depois, com um tempo absoluto e disponível, alcancei outros níveis de qualidade e posso dizer que os livros me salvaram.

Foi sempre difícil a nossa convivência. Mas as mães (agora eu sei) fazem sempre o seu possível pensando fazer o seu melhor. Mas que melhor é esse? E para quem?

Sinto a tua falta, mãe, principalmente do teu humor ácido e da tua expressão sapeca de quem diz o que quer e espera os efeitos. Esse humor substituiu, com vantagem, o efeito ameaçador do teu olhar com que nos imobilizavas em crianças.
Não sei exatamente como sentem minhas irmãs. Só posso falar por mim. Mas me despeço para não chorar mais. Não sou tão durona como pensavam, e com a idade os sentimentos vão chegando com lágrimas. Não sei se é porque não estás mais, ou se porque eu também já quase morri.
Talvez porque seja carnaval, e meu coração esteja muito, mas muito perto de explodir na maior felicidade.
A melhor novidade deixei para o final: Corinha, que não conheceste neste mundo, fará seis anos em março e Gabriel é um pai dedicado. Ele e Gisa são adeptos da liberdade que vem do brinquedo e da arte, e por isso posso te dizer que é grande a alegria do Sim.
da tua filha integrada e marginal, embora cada vez mais
desintegrada

Helena



27 de janeiro de 2015

MEDO DA SEGURANÇA



Respeito o Sr. José Maria Beltrame. Gosto de vê-lo e ouvi-lo. Ele tem aquele jeito de gaúcho que sabe o que quer, mas não tem paciência para o mundo que se apresenta, apesar dos seus esforços e das suas crenças. Precisa o tempo todo se conter. 
É um visionário, o Sr. Beltrame, e contra essa força ninguém pode. 
Às vezes parece que ele vai fazer uma grande denúncia, mas segura, pensando que a política que segue está certa. Sabe-se lá quem ensinou isso pra ele lá em Santa Maria, que até hoje ele tem aquela cara de inocente lidando com bandidos dos dois lados. Isso é coragem. E não tenho certeza, mas acho que realmente sofre com os desmandos da polícia.
Há que respeitar um homem que acredita no que faz. Nas últimas aparições públicas, no entanto, Beltrame já não estava tão seguro. Ficou enrolando, ele que sempre falou com tanta clareza. Acho que começou a tomar consciência da situação, tal qual o Capitão Nascimento, quando finalmente constatou o que se passava na polícia.

Evidente que as armas apreendidas por policiais nesse janeiro fatídico não foram compradas na loja com desconto. Alguém forneceu essas armas oficiais. E certamente não foi na fronteira. É ali mesmo, no nariz do Secretário, que se fazem os negócios. 
A maioria das favelas aguarda as UPPs, mas as UPPs já dão mostras de cansaço. E os bandidos gostam de diversificar.
Está difícil para o Secretário acreditar que esta não é a política adequada para a pacificação; que os Estados Unidos, que nos obrigam a essa repressão, estão dando risada com os dinheiros que estão ganhando com o plantio e a comercialização da maconha. E nós ainda estamos aqui, matando e morrendo por nada.
Não, claro que não fiquei com pena do Secretário. Também não sinto pena dos mortos, que se livraram mais cedo. Tenho pena das famílias, que choram uma vida em que apostavam.
E talvez sim, eu sinta pena (ou será espanto?) pelo fato do Sr. Secretário de Segurança somar a cada dia, na sua consciência, a co-autoria de uma política equivocada, as mortes nossas de cada dia.

E como se tudo isso não bastasse, a Secretaria ainda sofreu cortes no Orçamento. Pode ser que assim o Secretário pense numa saída. Que é apenas uma:
LEGALIZA!
Parece que não encontra eco a afirmação dos especialistas: a guerra ao tráfico fracassou. Vamos pensar em outra coisa.
Ou contar diariamente as vítimas.

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8 de janeiro de 2015

HUMOR E INTOLERÂNCIA

Ventos de selvageria sopram de todos os lados. Ondas de calor que vêm da fúria dos fanáticos, perigosamente fervorosos que acham que o mais importante que têm a fazer é explodir aquilo de que não gostam. São seres escuros, que só olham numa direção, que só aceitam uma idéia. Que querem impor uma só crença
Foi-se o jornal que tinha em seus quadros os melhores humoristas da França, uma resistência que pensávamos imbatível. Foi-se um contingente de artistas, políticos, lúcidos apresentadores de verdades  que a grande imprensa não ousa. Imprensa é oposição, já dizia Millôr, o resto é armazém de secos e molhados. O jornal poderá se reerguer, quem sabe, mas é difícil, sobre os cadáveres dos que sustentavam. Os franceses devem estar perplexos. O mundo está perplexo.
Já não basta matarem em casa, os malucos religiosos avançam.
Guardo comigo o primeiro exemplar da revista "Grilo", que saiu em 1973 no Brasil, onde conheci o trabalho de Wolinski, Feiffer, Reiser, Robert Crumb e toda a galera que surgiu nos Estados Unidos nos anos 60, a partir da revista Zap, idealizada por Crumb. Para mim foi um deslumbramento ver aquele humor cáustico, com traços tão diferentes e criativos. Foi uma época de ouro dos quadrinhos.

O radicalismo traz em si esse mau humor crônico, essa impossibilidade de ver os outros lados de uma questão. E seus adeptos não suportam serem provocados, ainda mais no que concerne à religião. Como não têm argumentos inteligentes, usam as armas, argumentos dos boçais.


6 de janeiro de 2015

ÁRVORES

Li, consternada, sobre o abate de 298 árvores no aterro do Flamengo para facilitar as obras de um estacionamento na Marina na Glória, de olho nas Olimpíadas. Nada mais triste. A decisão teve aprovação de todas as instâncias de governo, inclusive ambientais. A Marina, como se sabe, é tombada, mas o IPHAN também não achou nada de errado na obra. E assim sendo, serra elétrica nelas, cuja importância e beleza ainda não foram descobertas pelos donos do dinheiro, a não ser para enfeitar maquetes.

Foi quando me lembrei desse poema:


ÁRVORES
Joyce Kilmer
(Trad.de Olegário Mariano)

Sei que nunca verei um poema mais belo e ardente,
Do que uma árvore; uma árvore que encerra
Uma boca faminta, aberta eternamente
Ao hálito sutil e flutuante da terra.
Voltada para Deus todo o dia, ela esquece
Os braços a pender de folhas, numa prece.
Uma árvore, que ao vir do estio morno, esconde
Um ninho de sabiás nos cabelos da fronde.
A neve põe sobre ela o seu níveo diadema
E a chuva vive na mais doce intimidade
Do tronco, a se embalar nos galhos seus:
Qualquer néscio como eu sabe fazer um poema.
Mas quem pode fazer uma árvore? - Só Deus.

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