26 de dezembro de 2011

BELIEVE OU NOT BELIEVE

Agradeço a todos os que se lembraram de mim com simpatia, mandando-me mensagens e votos de bom Natal.
Talvez gostasse de acreditar na história de Jesus – um belo romance com um personagem indiscutivelmente arrebatador. Mas as igrejas que falam em seu nome são todas perigosas. As igrejas e todas as instituições que queiram incutir o pensamento único. As igrejas roubaram-nos os bons exemplos, assim como os governos.
Não acredito em governos. Não acredito em quem queira me governar sem me conhecer. Não acredito em governos, nos políticos que os compõem e em seu braço armado: a polícia. Também não acredito na sinalização, no futuro do petróleo, do pré-sal, na Justiça, na Receita Federal, na sustentabilidade, no voluntariado, na OEA ou na ONU. Em resumo, não acredito na lei e muito menos em carta de intenções.

Já acreditei na evolução do ser humano. Mas o tempo me mostrou que é sem chance. O que vejo é regressão. A ganância, a tv, a imprensa em geral, a mediocridade, a indiferença, o medo foram mudando a essência dessa estranha espécie que é a nossa e que, como todas, é parte da natureza. No entanto, resolveu matar a mãe. Está doente, portanto. E a doença não foi diagnosticada precocemente. Está sem tratamento. O futuro é a degeneração.

Em que momento passamos a involuir? Não tínhamos a ciência, a tecnologia, a filosofia – tudo à disposição? Tínhamos, mas todas essas áreas de conhecimento quiseram sobrepor-se à poesia. Deu no que deu.
O tempo passou e as tendências mudam.
As coisas vão endurecendo na crise. Para o extermínio, é um passo.
Quem fica? Quem sobra? Quem pula?
O mundo acaba quando apagar a luz?
E como ficarão as conexões jamais perfeitas?
No que acredito: cada um no seu rumo, cada um com seu papel, na sua missão, grande ou pequena, no diário dever de viver para um dia ir-se. Para outro planeta, para outro plano, para o encontro com os afetos verdadeiros que a violência da vida deixou separar? Sabe-se lá.
Uma coisa em que acredito inevitavelmente é na morte. Sobre o seu advento não pairam dúvidas. E ela traz consigo o mistério - o único mistério cercado de milagres.




Mas não vou deixá-los sem a Poesia, que permite todas as crenças (e descrenças) e onde mora a liberdade.

LITANIA DO NATAL



José Régio


A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus…»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

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9 de dezembro de 2011

MAIS FUTEBOL




Não quero que o ano acabe sem deixar aqui um modesto registro. Nada de gigantesco como os cifrões da Copa nem tão cínico como a crise econômica. Um registro, apenas, de quem observou durante anos a permanência de João Havelange na FIFA.

Sabe-se que Havelange renunciou há dias, pressionado por denúncias de corrupção. E que a situação de Ricardo Teixeira também não anda boa. Por mim, nunca tive dúvidas e não preciso de provas. Só fico pensando que deve ser uma vergonha chegar aos 93 anos e afinal ver revelado o fato de que passou a vida mentindo para milhões. Mandando e desmandando como um rei. Aliás, pediu até à Fifa para que a neta "ocupasse o seu lugar".

Caem, cedo ou tardíssimo, como é o caso, os exploradores de ilusões.


Não houve, durante todo esse tempo, um outro João. Um João que se levantasse, mesmo que apenas com a voz.

Não nasceu nenhum outro João Saldanha.


Obs: A postagem ia sem foto, que eu não sou louca de botar aqui Havelange e Saldanha. Preferi buscar Afonsinho, seja lá onde esteja, para enfeitar o plantel dos bons.


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4 de dezembro de 2011

SÓCRATES













Hoje morreu Sócrates.
Não o filósofo, tampouco o meu gato.

Sócrates foi o único jogador a me fazer interessar por futebol.
Era a graça, a elegância, as pernas de um galgo,
(no tempo em que podíamos ver
as pernas dos jogadores).

No campo, era a beleza em movimento
Quando falava – pensamento.
Foi-se tão cedo, o Doutor Sócrates
e leva consigo um par de pernas magistral.
Podia ter sido um filósofo
E era um gato.




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6 de novembro de 2011

A GRÉCIA PARA OS GREGOS

Viva Melina!

por: Vera Maria Lopes



Pensando em dívida, não posso deixar de dizer que não entendo por que a Grécia não manda a conta para todos os museus (Londres, NY, Paris, Berlim...) que expõem aquelas estátuas de nariz quebrado, pau de fora e sem braços, ânforas, vasos, colunas jônicas !
E os direitos autorais das tragédias, e o esporte olímpico, as táticas militares e religiosas? E a cidade de Maratona por que não cobra royalt sobre o uso do nome a cada competição que se realiza em cada canto do planeta?
Ah e tem as fórmulas de Pitágoras, Arquimedes e as tábuas de logarítimos. Já pensou o que seria da engenharia e da arquitetura sem as fórmulas mágico-lógicas que os gregos nos deixaram?
E o arroz à grega?
Já pensou se eles resolvem apresentar as contas dos direitos autorais e royalties? Acho que Merckel, Sarkozy e Obama, no ajuste geral, teriam que passar mais algum para os gregos.
Acho que esta sugestão merece ser publicada no "Integrada e Marginal." Afinal a crise financeira da Grécia é uma preocupação global e esta é a modesta colaboração de uma endividada de carteirinha.





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31 de outubro de 2011

DRUMMOND TODOS OS DIAS







Não importa que há anos eu observe com tristeza a importação da festa do dia das bruxas para dentro das escolas brasileiras. Não importa que queiram dar a um dia, o dia de aniversário de Drummond, o nome de Dia D, o que na verdade significa o dia da invasão da Normandia. Talvez tenham esquecido, não sei. Talvez não ensinem mais isso nas escolas, ou ninguém mais veja filmes de guerra.


No dia do aniversário de Drummond, eu pensava. Que vergonha! É assim que querem ser primeiro mundistas?


O que importa mesmo é que nesse dia o melhor a fazer é buscar, na memória, nos livros ou na internet, a maravilha que Drummond nos deixou, em que pese alguns acharem que tem muita coisa ruim. Não importa nada. Só que do melhor que fez, fez grande e isso deveria isentá-lo de críticas daqueles que, infelizmente, não acharam o seu melhor.




Outro abuso do pessoal sem noção é trazer a sua (assim mesmo, sua, e não a imagem dele) imagem para o programa do PCdoB. Primeiro, que a sigla do PCdoB não é a verdadeira. Segundo que Drummond passou apenas pelo Partido. Passou meteoricamente.
O que não passa é a poesia.
Não importa que hoje já seja novembro e seu primeiro dia será também de buscá-la, a poesia de Drummond, e ler todos os dias, ler na madrugada, como reza. A poesia da humanidade. A ela pertencem todos os dias.



MÃOS DADAS



Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.





28 de outubro de 2011

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA





Houve um tempo em que as mulheres não votavam. Houve um tempo em que o samba era reprimido, assim como os terreiros de candomblé. Houve um tempo em que a a cocaína e outras drogas circulavam livremente pelos salões do Brasil, quando a elite copiava os hábitos europeus e falava francês. Usavam-na os ricos e as putas e movimentavam os casarões da rua Alice. A prostituição era proibida.
Houve um tempo em que o divórcio era proibido. Houve um tempo em que o amor homossexual era proibido.
Houve um tempo em que a bebida foi proibida e depois novamente permitida. Houve um tempo em que todo o mundo fumava, nos aviões, nos trens, em casa, no cinema.
Tudo passou. Sempre chega o tempo em que as coisas mudam, as necessidades se impõem, os interesses variam. A lei, sempre atrasada, chega lentíssima. Agora mesmo ouço dizer que os herdeiros do trono britânico já podem casar com católicos. Que bobagem! Mas até isso mudou.
A únca coisa que não muda é a polícia.
Vejamos o caso da USP: A Reitoria e a polícia fazem um acordo para manter a segurança no estacionamento do campus, onde já aconteceu um assassinato, estupros, espancamentos, assaltos e furtos em geral. Combinado isso, a polícia resolve prender três pessoas que estavam fumando maconha, no que se pode identificar uma ação conhecida popularmente como "mostrar serviço".
Por que motivo não ficam quietos e seguem observando a ver se não aparece algum ladrão, assassino ou estuprador? Quem é que não sabe que em todos os campus do Brasil os estudantes fumam maconha? Toda a faculdade, todo o parque toda a praia tem o seu fumódromo. Que palhaçada é essa? Vão prender quantos, para enfiar onde? No maravilhoso sistema carcerário brasileiro? Para uma temporada de recuperação? Para integrar o usuário na sociedade? Desculpem, mas às vezes ainda me irrito. Que bobagem!
Tudo passa.

E outra: é pela força que se dirimem os conflitos na USP? A Universidade não é um lugar para a formação das idéias? E elas precisam ser todas iguais? Então não sei para que servem. Melhor abrir uma fábrica de robôs.


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27 de outubro de 2011

ORLANDO SILVA, O PRIMEIRO






O Orlando Silva que conheci foi "o cantor das multidões", que minha mãe ouvia no rádio e cantava. Eu achava meio empolado, mas gostava. O que era engraçado é que ela imitava os excessos.




Quando apareceu o outro Orlando Silva, na cabeça do Ministério dos Esportes (coisa que eu também acho um excesso) olhei praquela cara que nunca tinha visto antes e pensei: legal! É negro, é baiano - cumpram-se as cotas.
Depois fui sabendo uma coisa e outra, mas a mais enfática é, ao que parece, o fato de que o Ministro não pratica nenhum esporte, assim como Ricardo Teixeira. Agora entra Aldo Rebelo. Mais fraquito, impossível, mas está sempre no banco para tapar o buraco dos titulares. Um soldado do partido, como se diz.


O que importa dizer é que justamente neste escândalo, formatado como todos os outros ou melhor, tenha ficado mais explícito o jogo político da direita e seus meios de comunicação. O policial federal acusou mas não mostrou nada. E quando ia mostrar, afinal, ao saber que o Ministro se demitira, desistiu de mostrar as ditas provas. Agora o ex-ministro Orlando Silva sabe que o fato de ser negro só faz com que, na hora da saída, ele seja tripudiado mais do que os brancos, como fez Antonio Carlos Magalhães, o Neto, a mais perfeita encarnação de um dos maiores quadrilheiros que o Brasil já teve. Como diria Milton Santos, "Tente ser negro e pegar um táxi em Nova Iorque".

E o que é um Orlando Silva (o segundo) perto de Antonio Carlos Magalhães? Faz lembrar a pergunta de Brecht: "O que é um assalto a banco perto da fundação de um banco?"
É a mesma coisa. Foi-se Orlando Silva ( o segundo, porque o primeiro ficará) mas e o resto? Aqueles em quem ninguém fala e fica isso por isso? Ninguém se lembra do Sarney na hora do Basta?
Sarney é o nosso Berlusconi. Ninguém quer mas ninguém tira.

O Ministro Orlando Silva vai cumprindo o seu inferno. Resta cantar " Aos pés da Santa Cruz / você se ajoelhou / e em nome de Jesus/ um grande amor você jurou / jurou mas não cumpriu / fingiu e me enganou...


Assim é o poder.


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20 de outubro de 2011

CASA DAS MÁQUINAS - UMA INVENÇÃO











Caros amigos, dei-lhes folga no mês de outubro. Terá sido porque não aconteceu nada? Aconteceu muita coisa, mas como são as coisas de sempre, me abstive de comentá-las. O mundo vai ficando muito repetitivo, e segue no caminho da mediocridade - é possível? Venho, no entanto, com uma novidade formidável. Trata-se do livro de estréia de Alexandre Guarnieri, CASA DAS MÁQUINAS, que a Editora da Palavra revela aos leitores que querem, antes de tudo, acreditar que sim, o novo é possível, embora cada vez mais raro.


Anos atrás, quando li pela primeira vez a poesia de Alexandre Guarnieri fiquei impressionada. Talvez não tenha nem entendido, de pronto. Mas me valeu a intuição. Por algum motivo que nem eu sabia, tinha certeza de que estava diante de uma coisa nova, bem construída e, além de tudo, (fui ver depois) absolutamente poética, profunda, bela e terrível.

Não é leitura para quem pensa que conhece tudo. Há que seguir. Vai aqui a instrução do autor, contida na contracapa:
tome o livro ao alcance do olhar, ( a leit- / ura é o combustível), tome-o pois, à mão,/ o tal dispositivo, livro ( é no bunker de/ neurónios o mistério, à senha ), que ninguém sabe, ainda, ao certo, ao torque/ da chave na ignição , se ligará ou não


O livro de Guarnieri impressiona não só pelo conteúdo, mas também porque o objeto livro é também uma criação do autor. Não só a Casa produz poesia como cada engrenagem foi observada, detalhadamente azeitada para que tivéssemos a chance de ver a máquina, várias máquinas, cada compartimento de cada uma delas, em pleno funcionamento. A organização, seleção, as imagens, o projeto gráfico - tudo é obra do poeta. E ainda traz às páginas temas, palavras e procedimentos que poucos ousam utilizar, dando-lhes nova face, despertando-lhes novo sentido.


Outros já fizeram? Tudo o que fazemos é feito do que os outros já fizeram, se formos inteligentes o bastante para captar o que nos salva ou o que apenas nos serve. Guarnieri soube fazer, e não sou eu, uma diletante, que garanto. Poetas e conhecedores indiscutíveis, Marcus Fabiano Gonçalves, autor do texto da orelha e Mauro Gama, poeta e crítico, autor do posfácio, me dão razão.
Eis o que escreve Marcus Fabiano Gonçalves:

Das esferas celestes ao computador, de Ptolomeu ao robô, o homem pensa o mundo como máquina. Mas como pode a máquina, que é morta, servir de metáfora da vida? Parte dessa resposta está no livro de Guarnieri: pertencendo ao domínio do movimento, a máquina empenha-se em aproveitar a energia, tal como o corpo humano. Recém as mão do hominídeo deixavam o solo e já estavam dadas as condições para a aparição da ferramente e da linguagem: o gesto, a ostensão, a figura rupestre, ímpetos de comunicação da técnica e das coisas, dos sentimentos e das sensações. De fora o homem se inventava um dentro e não tardaria para que o artesanato forjasse arranjos cada vez mais complexos, capazes de moldar a matéria em sistemas de partes combinadas pelo acúmulo de sucessivas conquistas da inteligência e sensibilidade.
A máquina subrodinou o mundo à transformaçao pelo homem, que, mudando o seu entorno, mudou também a si mesmo. Da lança à alavanca, do utensílio ao aparelho, as idéias de causa e finalidade aperfeiçoam-se na noção de funcionamento, esta espécie de vida das máquinas que, à diferença do homem, nascem na eureka e morrem no ferro velho desde sempre sabendo do seu para quê.
Há nos poemas de Guarnieri uma insólita capacidade de maravilhamento com essa argúcia dos engenhos, mesmo quando não possamos compreendê-los completamente. Há um fascínio perscrutante, uma atenção agudíssima vislumbrando por entre parafernálias a eclosão daquele instante em que a mão, a mente e a circunstância juntas inventaram ou descobriram a ferramenta.
(...) Hoje, entretanto, as máquinas colossais também se tornaram mais que minúsculas: nanométricas, moleculares. A química e a física são as novas engenharias dessas máquinas mínimas. Aparentemente sólidas e tão suavemente tácteis elas doravante em nada lembram a pesada empunhadura do machado de sílex.
Do botão à tecla e desta ao ícone digital (e logo à voz, ao olho e quiçá ao pensamento) nossas bugigangas de efêmera elegância envelhecem tão rapidamente que suas carcaças obsoletas soterram a memória da graxa dos motores e do carvão que tisnava o rosto dos mineiros no alvorecer da Revolução Industrial. Tudo isso parece já pertencer a um passado remoto e longínquo. Todavia, apenas parece. Enquanto o homem tiver corpo, a máquina não morre nem se torna virtual. Ela somente se oculta, prolonga-se em próteses, protege-se em caixas e carenagens, aloja-se em compartimentos no ventre da urbe ou circula subterrânea por suas artérias tubulares. Ela enfim sobrevive na Casa das Máquinas, recinto de acesso restrito ao qual somos agora convidados por esse formidável livro de Guarnieri. Em poemas de sofisticado alcance rítmico e imagético, ele revela parte desse enigma das máquinas a nossos espíritos tão precariamente fascinados por mecanismos e automatizações, signos maiores da própria inconsciência nossa da cada dia. Afinal, é do paradoxos de uma robusta e delicada maquinaria da linguagem que Guarnieri nos fala. E como ela é blindada por um invólucro viscoso contra as investidas de decifração pela reflexividade, só mesmo à poesia ela porderia entreabrir-se assim, majestosa e circunspecta.


... E Mauro Gama:
(...) Guarnieri percorreu todas as trilhas de seus antecessores e informou sua compulsão expressiva com a tradição que o precedeu: com a tradição, esclarecemos, naquele sentido histórico e dinâmico em que Eliot insistiu e pelo qual sugeriu "a concepção da poesia como um todo vivo de toda a poesia já escrita". (...) Guarnieri trabalha sua linguagem com uma consciência integrada não propriamente de suas qualidades e resultados "literários", mas físicos e fisionômicos, indissociáveis do desenvolvimento interno e concreto, gráfico, de sua escrita.


Ao encerrar sua primeira coletânea, o poeta instala o leitor entre paredes a um tempo gráficas, fonológicas e semânticas sem saída, sem horizonte além do que, inquietantemente, pode estar sendo gerado na seção terrificante de "A ânima da máquina": sua esperença centrífuga é o desastre final, ou a energia libertadora? Há algo de esmagador e apocalíptico em seu "Blecaute". A propósito, não esqueçamos o Brecht capaz de nos ensinar, que " de um rio que tudo arrasta/ se diz que é violento,/ mas ninguém diz violentas/ as margens que o comprimentem". É como no texto de Guarnieri: ali se consubstancia, na recriação de um universao verbal, a maior violência dos nossos dias: a da perda de qualquer sentido das atividades humanas emocionalmente dissociadas e em condições de crescente confinamento.

Eis aí:

Casa das Máquinas terá lançamento no dia 08de novembro, no Centro Cultural Justiça Federal,às 18 horasAv.Rio Branco, 241 - Sala de Leitura da Biblioteca - 2º andar.
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25 de setembro de 2011

MACONHA PARA A SAÚDE






Há alguém fumando maconha no Rock in Rio? Os seguranças pegam-nos pelo pescoço, dão-lhes uns tapas, levam para a delegacia, aceitam qualquer prenda ou o cidadão é convidado a apagar o cigarro? O que é que vocês acham? Entre 300 milhões de usuários de drogas no mundo ninguém está, neste momento, acendendo um cigarro de maconha no meio de tudo?
Não me chama atenção o rock in ruínas. Há muito tempo o rock é um mito a derrubar. Pois derrubaram. Cláudia Leite e Ivete Sangalo e por aí, incluindo sertanejos e padres, já mostraram. Faltou Luan Santana. Drogas legalizadas, que fazem um mal horrível e que os jovens, e não só eles, são incentivados a consumir, sem saber que a ditadura dos dias de hoje é o consumismo. Fora isso, má informação (ou má intenção?) porque Martinho da Vila, Sandra de Sá e Bebel Gilberto nunca foram roqueiros na vida.
O jornal O Globo mais uma vez (lenta e gradualmente) traz a sua opinião de "vanguarda" em editorial, seguindo a idéia do exmo.sr.ex.presidente.e.agora.comandante da Comissão Global de Política sobre Drogas, Fernando Henrique Cardoso (aquele!) o que equivale a dizer que defender a descriminalização da maconha é também uma política do jornal.
E eu? Como é que eu fico? É ele o meu comandante, agora? Tomou a minha bandeira? E O Globo é meu porta-voz? Meu Deus! Estou enlouquecendo, me ajudem.
Li muitas vezes o texto. Reparei, por exemplo, que foi abordado o aumento do consumo global de drogas, os bilhões que gera e que nem a Coca-Cola iguala, o caso mexicano, o da Colômbia, do Afeganistão, de El Salvador mas não fala, em nenhum momento, na questão das armas. Estranho, não? Também não fala na extinção dos pobres entre 18 e 25 anos, nem nos milhares que se espremem nas cadeias.
E tem mais: de repente, uma frase solta, assim, como quem pousa, quase no fim do texto "Se é fato que muitas pessoas caem na armadilha das drogas é justo dar-lhes também o direito de sair". Fiquei pensando no que isso podia significar. Armadilha? Justo? Dar-lhes o direito? Que é isso, afinal?
"Cada vez é mais evidente o fracasso da guerra às drogas declarada há cerca de 40 anos pelo presidente Nixon", diz o editorial. Ora, Nixon caiu, mas a guerra continuou. Não seria o caso de interromper por aí?

O Estado prefere abrir mão desse absurdo de dinheiro para poupar-nos a saúde? Que bonzinho! Mas o Estado não precisa de dinheiro para a saúde? Quem sabe? Imposto direto sobre comercialização, venda e consumo. Quer fonte melhor?
Acho que a idéia não é má, afinal, há dois editoriais na edição do globo de 25 de setembro. Um se refere à CPMF; outro, à descriminalização da maconha. Editoriais não são escritos por acaso, vocês sabem.
E agora? Mas até hoje se dizia que a maconha era ruim para a saúde?
Quer dizer que agora não é mais? É a mesma coisa que o açúcar, o café, o chocolate?
Ah, bom.
Então dá para pensar em caixas de cigarros vendidos na banca com fotos dos âncoras de O Globo dizendo, sorridentes: Maconha não faz mais mal à saúde.




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12 de setembro de 2011

OLHA O BICHO QUE DEU

Leio no jornal que o Governador Sérgio Cabral acha que o jogo do bicho, se aberto e legalizado, poderia ser uma fonte de financiamento importante para muita coisa. Ora, que eu saiba, o jogo do bicho é aberto (o cidadão pode apostar em qualquer esquina), e legalizado. Já vi policiais e guardas fazendo a sua fezinha. E nunca vi ninguém preso por exercer o seu direito ao azar.
Os apanhadores de jogo do bicho, pessoas aceitas pela sociedade, trabalham na calçada, democraticamente, às vezes sentados em cadeiras cedidas pelo comércio local. Não há programas para recuperação e reabilitação de pessoas viciadas em jogo do bicho.
Há os jogadores contumazes e os eventuais. Todo o brasileiro já jogou no bicho um dia. Se não jogou, pensou em jogar. Sem culpa.

Finalmente, fonte de financiamento sempre foi, para políticos e escolas de samba em geral, que tudo é carnaval.
Está tudo tão acertado no jogo do bicho que sobre ele não há desavenças. Não existe tiroteio que tenha como fonte o jogo do bicho. Os banqueiros do bicho são mais limpinhos, dá para conversar com eles numa boa. Têm avião e mansão. Gente fina. Recebem super bem e às vezes rola um pó puríssimo, como há muito não se via. Não tem baixaria, baile funk, essas coisas. Às vezes tem até canja de sambista.

Ninguém conhece o valor do mensalão do bicho. Já em relação às drogas já se sabe que a patente é determinante para estabelecer o valor. E os envelopes já vêm com o nome dos destinatários. Nada de banco. O dinheiro sai direto do cofre da empresa para os funcionários (no caso, terceirizados).
Você pode pensar que são os antigos policiais, a rebarba da corrupção, que ainda não foi treinada em moldes mais modernos para a integração com a comunidade que está fazendo essas barbaridades. Nada disso, amigos, os policiais afastados são recrutas. A idéia (diz o jornal) era justamente impedir a contaminação dos agentes com esquemas de corrupção. Foram formados pelo Centro de Aperfeiçoamento de Praças (Cefap), que é, ao que tudo indica, uma ótima formação. O recruta já sai sabendo o que os antigos levaram anos para organizar. Talvez pudesse haver um critério para aumento por antiguidade, por exemplo. Há que estudar.

Claro que a pacificação é possível! O jogo do bicho, por exemplo, está totalmente pacificado.



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29 de agosto de 2011

POESIA ESSENCIAL




Caros amigos



Não comentarei aqui o triste acidente ocorrido em Santa Teresa. (Alguém tem dúvida de que essa é uma maneira de acabar com os bondes?) nem a declaração de um chefe de polícia de que "A Milícia mata mais que o tráfico"; a morte por atropelamento causada pelo ex-responsável pelo projeto da Lei Seca ou a cassação da carteira da Diretora do Detran. O que hoje é notícia, amanhã é estatística, principalmente em relação às mortes. Foram-se as pessoas. O governo lamenta, mas dá três dias de luto pela morte de um funcionário da Rede Globo.


Eu não sei bem o que isso significa, e talvez não alcance jamais.


É que sozinha, no meu retiro, às vezes quero comentar os acontecimentos. Mania de ser gregário que ainda subsiste. Mas os acontecimentos de agora são também os não acontecimentos, tipo: "A notícia de última hora é para informar que o terceiro filho do ditador NÃO foi preso". Ou "A vitória ainda NÃO foi alcançada. Coisas assim, do avesso.
Melhor é manter distância e partir para o que é alto, para o que nos estimula e encanta. Falo aqui do volume da Série Essencial editada pela Academia Brasileira de Letras sobre o poeta Raimundo Correia, de autoria do poeta e ensaísta Augusto Sérgio Bastos.


A melancolia, que acompanhou Raimundo Correia durante toda a vida, mais a doença e o desgosto causado pelos invejosos ante às suas qualidades de versejador se dissipam durante a leitura do texto que lhe dedicou Augusto Sérgio Bastos, também um poeta essencial. A voz que ouvimos é a de quem compreende, de quem fala com tanta naturalidade e conhecimento sobre a vida, profissão e poesia de RC que bem poderia ter sido um contemporâneo, um amigo, uma testemunha daqueles tempos.


Raimundo Correia todo o mundo conhece, ou quase todo o mundo que gosta de poesia, mas Augusto Sérgio Bastos não é devidamente conhecido e eu, que gosto de homenagear os vivos, quero informar também que ele é um grande contador de histórias. E estará no próximo dia 5 de setembro falando sobre Raimundo Correia, não só sobre o que está no livro, mas também contando casos interessantes da vida do poeta. No Pen Club, às 18 horas, na Praia do Flamengo 172- 11º andar. É para não perder. Como disse o próprio Augusto em seu poema



Cotidiano



Há que se vender jornais:
isso o jornaleiro faz.
Há que se controlar o trânsito:
isso o guarda na esquina faz.
Há que se varrer as ruas:
isso o gari agora faz.

Há que se tirar o pó das palavras:
isso só o poeta faz.







Deixo-lhes, portanto, um dos mais famosos poemas de Raimundo Correia e, naturalmente, um do poeta Augusto Sérgio Bastos.


Mal Secreto .
Raimundo Correia




Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Cruzes
Augusto Sérgio Bastos


Cruzes são braços magros
Braços que nunca se fecham
Braços que nunca se tocam

Vigiam do alto do morro
Acolhem na torre da igreja
Espantam no milharal

Alguns carregam às costas
A outros servem de culto
Que a elas pedem socorro

Com esses vão para o túmulo.




Obs: Não resisto dizer que reparei, na capa, tratar-se de uma edição impressa pela imprensa oficial. Pensei logo que a imprensa oficial seria a do Estado do Rio de Janeiro. Não mesmo. É a do governo de São Paulo que faz imprimir a coleção. Alguma surpresa nisso? ...

12 de agosto de 2011

DETALHES DE UM CRIME

A polícia afasta a hipótese de um crime passional no caso de assassinato da juíza Patrícia Acioli.
A juíza não tinha escolta policial.
- Os pedidos de escolta, disse o ex-presidente do Tribunal de Justiça, Luis Sveiter, são analisados pela diretoria de segurança do TJ. Na minha gestão, não houve nenhum pedido de escolta para a juíza. O que me consta é que ela preferia a segurança do próprio marido, que era policial militar. Como assim, preferia?
Um marido servindo de escolta? As notícias mostram: o amante de hoje é o matador de amanhã. A justiça não tem autonomia para decidir a quem deve proteger?
Um juiz, e mais ainda uma juíza tem noção do que o crime prepara enquanto ela manda bandidos para a cadeia? O marido, policial militar, não temia que ela sofresse algum tipo de atentado? Quanta calma nessa família! Quanta confiança na lei!
O fato é que a juíza chegou em casa na madrugada, numa região deserta, sem a companhia do marido, que em princípio seria a sua escolta.
Onde estava ele? E quem sabia a que horas ela chegaria?
E se os bandidos já estavam esperando, conforme disse um porteiro que observou a movimentação, por que não tomou providências?
Fico pensando no que leva uma juíza a casar com um policial.
Quem mexe em facções, nunca sabe o que irá encontrar.
A polícia está ocupadíssima. Depois do menino morto pela polícia, do seqüestro do ônibus e da matéria abordando o governo como quadrilha, vamos ver o que nos espera.
Já a juíza, não espera mais nada.
Se é essa a segurança para os juízes, imaginem o que pode esperar o povo miúdo que labuta nas ruas para garantir a sobrevivência do dia seguinte.


E outra: a juíza estaria numa lista de 12 marcados para morrer. O crime será desvendado antes ou depois da morte dos próximos? O nome sai no sorteio da Caixa Federal?


Tudo o que era impossível agora é previsivel.




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6 de agosto de 2011

DEFESAS EM BAIXA

Depois de dois meses, sendo que o último praticamente incomunicável, transportada agora para Piratininga, região oceânica de Niteroi, (de quem o governo solapou a dignidade, depois da fusão do Estado do Rio de Janeiro e Guanabara), eis que apareço, ainda confusa frente aos meios de comunicação, depois de tanto tempo de convívio com o simples.

Abro um parêntese para justificar a expressão "solapou a dignidade" que se usava muito nos discursos do passado e que era considerado de grande efeito porque ninguém sabia o que era "solapou" e poucos sabiam o que era "dignidade". Mas o palanque, os correligionários, o talento para o assombro funcionavam que era uma beleza.

Volto à pauta:

Demorei a ter televisão, mas foi o que veio primeiro. Até esse momento eu e Sócrates, o gato que me acompanha, vivemos uma vida absolutamente frugal, distante de aparelhos ruídos e conflitos. Uma sensação de quase não pertencer ao planeta. Luas auroras estrelas surpreendentes, pendurar o tapete, quarar o guardanapo, molhar as plantas, colher os côcos que caem como um dia caíram as nozes e noutros tempos floriram os maracujás. Telhados e chão, terra. Mas também pedras, espinhos, insetos. E naturalmente, esperar os técnicos das operadoras. Que não vinham.

Enquanto isso, livros que esperavam a vez. E eu por eles. Chovia, e entre um chá e outro, numa casa de piso frio, eu aguardava por tempos melhores.

E então veio o sol.

Muitas coisas aconteceram nesse tempo, para mim e para vocês. Alguém nasceu alguém casou alguém separou alguém morreu. As prisões estão cheias e o bandido diz: Nós aprendemos com a polícia. Aprendemos as táticas e eles ainda nos trazem a munição. Como é que eu vou sair daqui para comprar armas? Alguém tem que trazer. A guerra se intensifica. Há sempre uma guerra de extermínio divulgada de forma a que "a justiça se faça". Essa é a nossa guerra. Em outros países elas têm outra forma, mas nunca cessam.


Durante um mês não tive telefone nem estive conectada. Estava mais próxima do caminho das formigas do que dos conflitos mundiais. Querem soluções pacíficas? Aprendam com as formigas. Mas eis que me surpreendo com a publicação dos princípios editoriais das Organizações Globo. Terão alguma coisa a ver com a fase infeliz do Governador Sérgio Cabral, que também necessita de um código de ética por escrito? Será um tempo de desculpas?

Do nada, sem ninguém esperar ou exigir, as Organizações Globo divulgam os seus princípios editoriais, que deixam perplexos aqueles que, como eu, consideram que se trata de uma organização criminosa responsável pela divulgação de programas que deterioraram a educação, a cultura e o comportamento dos brasileiros, em que pese ter levado a cabo projetos de "recuperação" de crianças e áreas carentes.

Pelo que sei, as Organizações Globo sempre estiveram ao lado do poder, e o poder sempre se interessou em mascarar a educação, fingindo que faz sem fazer. Fazem parte da burrificação Xuxa, Trapalhões e, mais modernamente, BBBs.


Será que preparam uma defesa já pensando em que um dia a casa cai, como ensaia cair, por exemplo, (e antes da Copa), o castelo do Governador? Mistério. Alguma coisa há que não me contaram.
E falando em defesa, mais uma que caiu: a de Nelson Jobim. Deve ser mesmo uma fase astral propícia a quedas.




...

3 de julho de 2011

DE RÉPTEIS E PEÇONHAS

Os amigos me cumprimentam em função da decisão do Supremo relativamente às possibilidades de realização de marchas pela liberdade de expressão. Acho graça da boa intenção. Mas não me iludo mais.
Para mim, os políticos e seus representantes (afinal os juízes defendem o direito de quem?) aproveitam-se ao máximo dos assuntos que estão em pauta para colocarem-se, eles mesmos, também na mídia. Sei de gente que ouviu todos os votos com emoção.

A imagem que tenho usado para desfazer tal ilusão é a de duas filas. Uma é de pessoas contra, outra de pessoas a favor (de qualquer coisa: legalização das drogas, aborto, direito à moradia - o que não temos). As filas engrossam, mas não andam. No entanto, todos acreditam que sim, porque está na mídia. Segue o barco, só que está ancorado.
Agora me digam vocês, e os senhores supremos, como é que uma pessoa pode se manifestar livremente sem dizer o nome (O NOME!) daquilo que defende?
Usemos o exemplo da maconha: Como é que você pode pôr a sua cara na rua sem dizer que acha que é uma coisa que lhe faz bem? O que faz com que as autoridades considerem ilícito o uso de uma droga em relação a outra? A lei? Pensei que a lei servisse para regulamentar os costumes demandados pela sociedade, e não para reprimi-la, prendê-la, chantageá-la. Ou será que se baseiam em relatórios de saúde para constatar, por A + B, que maconha faz mal? Quem pode me dizer o que é bom para mim?



Às vezes também lamento por mim, pela repetição dos argumentos, pela esperança que vai, fraquinha, fraquinha, se desvanecendo.

Acreditem, amigos. Sonho não é ilusão. Quando as autoridades tomam a frente das nossas idéias, consideram que dá pra discutir sobre nossos direitos individuais, alguma coisa está mal.
Vejam Fernando Henrique, por exemplo, festejado em seus 80 anos. Querem matéria sobre legalização? Chamem Fernando Henrique. Mas prestem atenção: Ele antes falava que era a favor da legalização, hoje diz que é a favor da regularização, que é coisa bem diferente. Serão os 8O anos ou ele sempre foi escorregadio? De repente me veio a palavra réptil. Logo eu, que prefiro cobras e lagartos a FH.


Dar a Fernando Henrique um papel de ativista da legalização é, no mínimo, mau caratismo da mídia. Oportunismo dos dois lados. Gabeira ninguém procura mais. Por que? Gabeira desertou mas não fica mentindo para ninguém, não fica se aproveitando da situação. Quem faz isso são aqueles que não podem deixar de espreitar, sorrateiros, a hesitação da presa, dar o bote e arrastar-se pelas charnecas do poder com a carniça entre os dentes.








Obs: Devo uma resposta ao leitor Diniz, que me considerou pouco sensível em relação aos comentários sobre a morte do ex-ministro Paulo Renato de Souza. Talvez a imagem tenha sido perversa, Diniz, mas veja bem: eis que se torna branda frente à administração do dito ministro, muito mais abrangente, muito mais deletéria, muito mais destruidora do que qualquer adjetivo que eu possa, mesmo levianamente, ter usado, tendo em vista que foi sentida por uns tantos milhões de brasileirinhos, na época vítimas da má educação implantada no governo FH.



Devo uma outra resposta a outra leitora que me escreveu perguntando se "na minha idade" eu não tinha coisa melhor para defender?


Não usarei o exemplo de FH, claro, que aos 80 nem se lembra mais se tragou ou não, mas quero dizer que não vejo causa maior do que a luta pela liberdade, tenha ela o formato que tiver. E nunca é demais lembrar Simone: Para ser livre é preciso que os outros sejam livres.


Isso, de sermos um e sermos todos, Murilo Mendes disse melhor:





Somos todos poetas


Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.




In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.

27 de junho de 2011

O SOL MORRE PARA TODOS (Victor Colonna)

Aos caros amigos leitores, informo: voltei. Trinta dias viajando dá para cansar, ainda que seja preciso viajar para reciclar algumas coisas que só ao vivo, não só em relação aos lugares visitados como em relação ao universo que mais nos importa, que somos nós mesmos. Também para gravar algumas imagens a mais na retina, aquelas que para sempre.
Tinha algumas coisas para contar, coisas inusitadas como o meu encontro com Fernando Pessoa em Lisboa, num sítio impensável para o poeta (e ainda mais para mim), mas eis que chego ao Brasil, e aqui, vocês sabem, as coisas, as nossas coisas tomam conta de nós, exacerbadamente.
Junto com os 15 anos da parada gay que tanto entusiasmo causa aos apresentadores de telejornais, fiquei sabendo da morte do ex-Ministro Paulo Renato de Souza. Morreu dançando, que lindo! Nas rodas de sambistas diz-se, quando morre um artista, que "cantou para subir". No caso, o ex-ministro dançou para descer.
Amigos e leitores mais antigos hão de lembrar que sempre tive o ex-Ministro (e o seu presidente) na lista das minhas antipatias mais fortes. Em que pese as lamentações dos tucanos e até dos petistas (obrigatórias como autoridades de governo) relativas à extinção da validade do seu passaporte para a vida, tenho a dizer-lhes que o Sr. Paulo Renato de Souza foi um dos tantos maus ministros de educação que o País suportou, com a diferença de que exagerou.




Ele foi o responsável por enfiar (não sem bem a troco de quê ou se era só má intenção) aparelhos de televisão em todas as escolas públicas que possuíam teatros ou auditórios. Para o alto o teatro, para o canto o canto, vamos ver Xuxa e dançar sobre o gargalo. Eis aí um mal cujas consequências não poderemos avaliar nem em 20 anos.
Que mais mesmo fez o ex-Ministro? Criou o ENEM. E alguém me diga, por favor, para que é que serve o ENEM a não ser para avaliar a cada ano a nossa sempre desclassificada classificação no prontuário da qualidade de ensino.
Paulo Renato de Souza foi apenas um dos pavões do séquito de FHC. Bem apessoado, enrolador, fingindo que é grande coisa o nada que está fazendo, um bom discípulo, digamos.
E para que não pensem que só eu penso assim, fecho com o comentário sobre o "passamento" relatando o pensamento de um amigo, tão logo leu no jornal: ""Foi enterrado hoje o corpo do ex-ministro Paulo Renato de Souza.
Ao que ele pensou: Pena. Poderiam ter enterrado vivo

No entanto, ah, no entanto, deixo aqui, por sua alma


As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.


Sophia de Mello Breyner Andresen
(Livro sexto)

20 de maio de 2011

"PASSA, AVE, E ENSINA-ME A PASSAR" (Alberto Caeiro)



Vou à corte, que é como o Brasil trata Portugal até hoje, haja vista o ridículo tratado ortográfico implantado. Portugal não deu a mínima. O Brasil rasgou dinheiro.
Não encontrarei Pessoa ou Almada Negreiros no Martinho da Arcada, caminhando pelo Chiado, por Lisboa inteira, mas saberei que está ali, definitivamente ancorado.
Andarei pelo Bairro Alto, pleno de promessas, e ouvirei um sotaque de que nunca gostei muito. Lembra-me sempre um pouco o português de José Cardoso Pires, sempre a se queixar. Sério demais, rabugento quase sempre. A verdade é que em contraponto aos nossos ronaldinhos Portugal tem como ícones Camões, Fernando Pessoa e Saramago. É uma diferença. Talvez aquela que nos coloca sempre em terceiro mundo.

Parece que em Portugal não gostam muito de que Saramago tenha sido internacionalmente maior do que Cardoso Pires. Não sei, ouvi falar. Todas as generalizações são arriscadas. Gostaria de encontrar António de Almeida Santos, mas que sei eu? Sou o que posso, transeunte inútil de ti e de mim, transeunte de tudo, até da minha própria alma.

"Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser."

Vou , pela noite adentro, e por meu pé entrarei.
Vou e volto. Espero voltar. Alegria enorme de voltar e encontrar, desde o alto, o Rio de Janeiro, meu primeiro amor, renovada alegria perseguida. Voltar e encontrar o que há de mais belo, grandioso e surpreendente e também terrível, feio e assustador. Ainda assim, cultuado - pobre grande amor!

"Assim, impossível, o nosso amor será eterno."

Pois vou, e espero que estejam todos aí, meus caros leitores amigos (e também os desafetos), firmes, lutando diariamente, escapando dos abismos, evitando as torrentes ou qualquer coisa que, de repente, sem aviso nenhum, mude o curso do rio que pensamos conhecer. Que tenham a revelação que esperam, e não recebam aviso nenhum do prazo que expira.
Vou (é quase certo) e volto (não sei ao certo), mas deixo-lhes o poema. Que mais posso deixar?


Humanu


há sempre aquele que em silêncio nos ausculta
sonda nossos gestos
avalia a profundidade dos líquidos
em que nos movemos

há sempre alguém que perscruta
e sem cautela
investiga (e condena)
a nossa alma despida

joga a rede de palavras e quer
por que?
nos apanhar

há sempre alguém que não contente
quer sentir também
a nossa sede

...

9 de maio de 2011

TU ÉS RESPONSÁVEL PELA CANNABIS QUE SATIVAS

















Com essa frase criativa, cujo autor não identifiquei, e em clima de muito humor, aconteceu no sábado, na praia de Ipanema, a edição 2011 da Marcha da Maconha, que resultou em um número substancialmente maior de pessoas do que nos outros anos. Falam em cinco mil. Pode ter sido mais, ou menos, mas era mesmo muita gente.
Isso se deve ao movimento organizado que trabalha durante todo o ano para que a Marcha aconteça, não só no Rio e em outras capitais, mas neste ano também em outras cidades como Niterói, Rio das Ostras, Jundiaí, Atibaia e Campinas. Também pelo reforço da banda Planta na Mente, que estreou no Carnaval e já vem fazendo história, com letras divertidas e grande animação.
Reforço político, só mesmo o de Carlos Minc, porque coragem, vocês sabem, é coisa escassa. Minc falou, falou muito bem, reportou-se à aprovação da lei pela união estável dos homossexuais e disse que que "É chegada a hora de haver este mesmo avanço em relação à legalização e descriminalização de todos os usuários. O usuário não é criminoso. As prisões do País estão cheias. Não temos que gastar mais dinheiro com prisões. Temos que gastar com escola, esporte, cultura e estágios, dando alternativas à juventude." O discurso completo está no Youtube, para quem quiser. Não só mandou bem, mas também participou da caminhada ao lado dos militantes, exibindo um bonito colete de cânhamo, naturalmente.

Maconha mesmo não tinha. Só a fumaça de um baseado gigante que os manifestantes levaram e também uma fantasia de baseado. Fora isso, bebês com seus pais alegrando a parada, cartazes reivindicatórios, música, felicidade mesmo de quem pode por um dia expressar-se livremente por força de um habeas corpus. Mas acender um ... isso não podia.

E agora me diga: como é que você pode organizar um movimento em favor de alguma coisa sem fazer apologia? Se você pensa que alguma coisa é boa e deve ser legalizada, como não falar bem dessa coisa?
E quanto à polícia? Bom, a polícia estava lá com muitos carros e aquelas caras feias que eles usam permanentemente. Se não estivesse, ninguém teria colado uma adesivo na moto de um deles - o que resultou no único incidente registrado. Coisa pouca. O bom, o bom mesmo seria é que os homossexuais, que já estavam tão alegres com a vitória legal, fossem levar solidariedade aos que ainda permanecem na marginalidade por força do preconceito.Mas não foram. Pelo menos, não foram todos os que fumam
Ainda não aprenderam que quem sofre UM preconceito deve lutar contra TODOS os preconceitos. ...















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5 de maio de 2011

"FAÇAM COMPLETO SILÊNCIO, GARANTO QUE UMA FLOR NASCEU." (CDA)

As drogas não estão proibidas por serem perigosas; são perigosas por serem proibidas

(George Apap)










O ano passou rápido. De novo está aí a Marcha da Maconha que se realizará no próximo dia 7 de maio, sábado, saindo do Jardim de Alah na direção do Arpoador.
Os jovens engajados acreditam que um dia a legalização se fará, assim como está perto de se tornar legal a união estável entre homossexuais, o direito ao aborto para as mulheres que não se consideram aptas a ter filhos, o direito à moradia e ao trabalho para todos. Utopias? Nem tanto.
Cresce o número de pessoas que consideram natural fumar maconha, que reconhecem suas propriedades terapêuticas, valor econômico, e necessária a legalização, tendo em vista a cadeia de corrupção e violência que a proibição acarreta. Mas os interessados na corrupção e na violência não querem ouvir porque ouvir (e respeitar) é o mesmo que diminuir os lucros.
A Justiça, infelizmente, é cega e retardada. Sempre vem atrás das necessidades da sociedade. Com a desculpa de que quer ouvir a todos, não satisfaz a ninguém.
No ano passado houve praticamente um levante em defesa da legalização, que se alastrou pelas capitais e chamou a atenção de todos pelo grande número de pessoas que se mobilizaram em defesa da causa. Normal. Quem pensa, lê, ouve os argumentos favoráveis, não pode deixar de pensar que é muita repressão para uma prática que nasceu justamente no momento em que se buscava a paz entre as pessoas. E talvez essa seja a característica mais marcante da maconha: o fato de que usada coletivamente, nunca induz à agressividade, mas à harmonia entre os adeptos, como um exercício de aceitação do outro.
Talvez seja justamente isso que uma sociedade violenta não quer. Os violentos querem plantar a violência, enquanto os maconheiros querem distância disso. Pregam a paz e praticam o amor. Pode parecer passadismo, não é. Paz e amor podem ter saído de moda, mas não desapareceram como desejo profundo da humanidade que ainda não adoeceu. Todo o mundo quer ser feliz. Só não sabe como. E o uso da maconha não é uma fuga, como muitos dizem, é um encontro. É o encontro com a sensibilidade aprisionada pela sociedade repressora, que quer controlar pensamentos e atitudes de todos para mais facilmente manipulá-los.
A luta contra o preconceito não tem fim. E quanto mais politicamente correta se torna a sociedade mais se acirram os ânimos contra as diferenças. É crime o racismo, a homofobia, a agressão às mulheres e às crianças ? Pois nunca houve tantos casos. É proibido beber e dirigir? Até as autoridades fazem isso. É proibido matar sem julgamento? Auto de resistência neles.

Não é a lei que planta a consciência. A lei só estabelece a obrigação.

Chega de hipocrisia. As idéias crescem, se fortalecem e criam asas. Impossível alcançá-las e dizimá-las, como se faz com as plantações. Uma idéia é livre e imprevisível. Ilude a polícia, rompe o asfalto. E um dia, como queria Drummond, se fará completo silêncio, os negócios serão paralisados, porque uma planta nascerá para ser livre como as outras.




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30 de abril de 2011

ERNESTO SÁBATO (1911-2011)



Foi-se mais um dos grandes escritores do século XX. Aos 99 anos, perto de completar os 100, deixa o mundo em que padeceu de dúvidas e desencantos e escreveu sua grande obra.

Ernesto Sábato nasceu em Rojas, província de Buenos Aires, em 1911. Doutor em física pela Universidade de La Plata, trabalhou no Laboratório Curie, em Paris, e em 1945 abandonou a ciência. Sofreu por isso, porque a ciência ainda muito esperava dele, mas ao entregar-se à literatura teve sua obra reconhecida por Camus e Thomas Mann. Em 1983 foi eleito presidente da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, cujo trabalho originou o relatório Nunca más, conhecido como "Informe Sábato". Entre seus ensaios, destacaram-se Nós e o universo, Homens e engrenagens e O escritor e seus fantasmas. Publicou os romances Sobre heróis e tumbas, Abadón, o exterminador e O túnel.

E como é comum acontecer, teve a seu lado uma mulher, Matilde, que o acompanhou, esperou e amparou (ela sim, sem dúvidas que a abatessem) durante toda uma vida de incertezas.


O trecho abaixo é do livro Antes do fim, uma autobiografia triste publicada em 1999, em que fala da morte de Matilde.

"Em seus anos finais, quando a vi abatida pela doença é quando mais profundamente a amei. E penso na valentia com que padeceu minha vida complicada, incerta, contraditória. A seu lado passei momentos de perigo, de amor, de amargura, de pobreza, de desilusões políticas e de tristíssimos distanciamentos, em que ela sempre esperava que o navio sacudido por obscuras tempestades regressasse à calma e eu voltasse a divisar o céu estrelado, esse Cruzeiro do Sul que indicava novamente o rumo, o mesmo que tantas vezes, quando éramos moços, contemplamos sentados em algum banco de praça. E muitos, muitíssimos anos antes, o supremo mistério, recordo-a sussurrando para mim aqueles versos de Manrique:

como se passa a vida

como se achega a morte

tão calando...
...


5 de abril de 2011

O QUE É O CRIME?



» 7 DE MAIO

  • BELO HORIZONTE
    Praça da Estação, 15h30
  • RIO DE JANEIRO
    Jardim de Alah, 14h

  • VITÓRIA
    UFES, 14h

» 8 DE MAIO

  • ATIBAIA
    C. de Conv. Victor Brecheret, 15h

» 15 DE MAIO

  • NITERÓI
    Praia de Icaraí, 14h

» 21 DE MAIO

  • SÃO PAULO
    MASP, 14h

» 22 DE MAIO

  • CURITIBA
    Santo Andrade, 15h
  • JUNDIAÍ
    Estação de Trem, 14h

  • PORTO ALEGRE
    Parque da Redenção, 15h

  • RECIFE
    Recife Antigo - Torre Malakof, 14h

» 27 DE MAIO

  • BRASÍLIA
    Catedral, 14h

» 28 DE MAIO

  • CAMPINAS
    Largo do Rosário, 13h

  • FLORIANÓPOLIS
    Trapiche - Av. Beira Mar, 16h

  • FORTALEZA
    Praça da Bandeira (Dq. de Caxias), 14h

  • NATAL
    Largo do Bar Astral, 14h

  • SALVADOR
    Campo Grande, 14h20

» 25 DE JUNHO

  • RIO DAS OSTRAS
    Concha Acústica/Praça São Pedro

Um ano passado, e eis que a Marcha da Maconha vai acontecer outra vez. Vai acontecer enquanto houver pessoas que se insurjam contra a proibição dos seus direitos individuais. Neste ano o movimento avançou bastante (você pode ver pelo número de cidades em que ela vai acontecer) com a criação do bloco Planta na Mente, que trouxe à cena carioca uma forma bem humorada de lutar pela causa. Também deu os seus passinhos para trás, quando as vaidades entraram em confronto diminuindo o que se deve somar. É da vida.
Você pode dizer que há muitas coisas pelas quais lutar, e achar que isso não tem importância.
Tudo tem importância quando se trata de uma lei da qual se aproveitam corruptos de várias vertentes, impedindo o livro plantio e o livre consumo.
Querem campanha de desarmamento? É necessário antes desarmar os espíritos, proporcionar uma educação que não seja para digitar senhas e baixar a cabeça, alguma coisa que resulte em resgate da dignidade há tanto tempo perdida, quando a escola pública foi desmantelada para dar lugar às escolas caça-níqueis. É com a educação que se criam as consciências para escolher isso ou aquilo. O que temos hoje são lugares muito bem pagos onde se aprendem coisas que ajudam (mas não garantem) as pessoas a acharem um emprego. Educação é outra coisa.
De Realengo, já vimos tudo. A Sra. Leilane Neubarth diz que agora é apagar os sinais e esquecer tudo. Pode? A Sra. Cláudia Costin achou uma solução ótima: vai pintar a escola. O senhor pároco já rezou a missa. Está de alma leve.

E aí, ó, quando tudo parecia meio que andando, com as UPPs instaladas e até mesmo o exército se retirando antes do tempo previsto do Complexo do Alemão, eis que os fora-da-lei surpreendem a todos (principalmente a polícia) com o assalto a uma agência do Bradesco na Rocinha. Nem se deram ao trabalho de se esconder. Foram de cara limpa mesmo, porque afinal, quem é que tem medo de uma política de firulas?
Muito assunto para pouco espaço? É assim mesmo. Tudo parece solto mas está ligado. As famílias de Nova Friburgo, do Bumba, de Teresópolis aguardam até hoje recomeçar a vida. Mas a vida não recomeça nunca. Segue, apenas.
Não se sabe como, mas um cartola da CBF afirma que espera o auxílio de poderes sobrenaturais para construir dentro do prazo o projeto que vai substituir a Granja Grumari como hospedeira da seleção, mais um Museu do Futebol e sei mais o quê.
E assim vai o Brasil: chutando.

E agora me lembro: de Brecht, claro:

"Que é um assalto a um banco diante de um banco?"







1 de abril de 2011

O DIA DA RAÇA


A guerra é a coisa mais abominável que há. Dizendo assim, parece ser uma frase do senso comum. Não é. Poucas pessoas acham que a guerra é abominável. Dizem que acham, mas mentem. Os que mandam, por exemplo, em toda a sua hierarquia, não acham. Tanto é que ordenam. E os que lutam também não, caso contrário não lutariam.

Se eu não lutar sofrerei represálias, diz o jovem candidato a soldado. E daí? Oferecer-se para morrer na juventude não é pior que sofrer qualquer represália?

Mães recebendo os corpos dos filhos, homenagens, medalhas, salvas de tiros. Grande merda! Já lá se foi o filho. O que fazer com essas bobagens?

Malgrado isso (legal, malgrado isso, quase nunca uso) as guerras continuam. E seguem com agravantes que são os estupros de sempre, os assassinatos por hora, os incestos socialmente aceitos e os avanços dos malucos em geral. Não se preocupem homossexuais e negros. Os ataques às mulheres cobrem muito bem os das outras duas categorias (?), segmento, vá lá.

Felizmente acabou o famigerado "mês da mulher", substituindo o Dia Internacional da Mulher.

As mulheres se homenageiam, aceitam homenagens, relembram a trajetória das que morreram vítimas por ousarem se insurgir. Mulheres e insurreição não são muito bem vistas na sociedade dos homens.

Para isso existe a repressão. E falando em repressão, eis que a polícia ocupa parte substancial do noticiário em que ela, isso mesmo, ela, é a criminosa. Francamente? Que coisa, hem?

Essa polícia é que botaram lá nas favelas pra se "integrar" com a comunidade? Deus do céu. Chama o ladrão!

Aos inocentes que acharam que as UPPs eram sinais de uma mudança de comportamento na polícia, devo dizer: pra que tanta ilusão?

A polícia tem cada vez mais fome. É o bicho solto. E com muita fome. Ando de um lado para outro, com o peito arfando de raiva e de fome (a raiva que a fome dá) e ruge, e caminha e ruge. Ao menor vacilo, do carcereiro ou da borboleta, ele se atirará sem pensar. Mas um leão é um leão. É um rei aprisionado. E um policial... bem, um policial é o que chamaríamos de ... de quê mesmo? Enfim, um policial é outra coisa.

A delegada Martha Rocha é pessoa muito corajosa, para enfrentar o dia-a-dia sinistro. Mas só enfrenta porque não vai além do que a deixam ir. Se alguém precisa de uma investigação solene para interpretar o fato de um policial ter jogado, sem motivo, spray de pimenta no olho de um homem que assistia a uma discussão sobre o pagamento de um aluguel prometido, isso é hesitar. Hesitou, perdeu.

Se a delegada acha que é preciso intaurar uma investigação para constatar o que mostra uma imagem tão nítida, tão absurdamente explosiva, então ela está fazendo o que a corporação quer que faça: que espere, que esprema, que evite que a situação se altere.

Eis os fatos, amigos: a mulher avança até onde pode avançar, se quiser avançar mais terá as pernas cortadas.

E frente a essa constatação nos despedimos do famigerado dia das mulheres (e este ano ainda se estendeu por todo o mês), quando as mulheres recebem agrados do sistema para que o seu "lado maternal" se enterneça e ela não vá até onde deve ir.

O recado às mulheres é: se você se rebelar e morrer, tudo bem, você será uma heroína. Mas se você se rebelar durante muito tempo e pior ainda, se tiver seguidoras, saiba que vamos destruir você.
E essa deve ser a primeira guerra a acabar.

Por oportuno, vai aqui o poema


O DIA DA RAÇA

(Ed. O Mirante - Portugal)


de José Niza

(Angola)




Todos os povos têm uma pátria

excepto os que andam a lutar por ela

e todas as pátrias têm o seu dia

e decretou um decreto que seria

O Dia de Camões Dia da Raça

e que o povo se juntasse

numa praça



no Terreiro do Paço

na tribuna

à sombra

estão sentados

O Governo o Cardeal

Generais a granel poucos Almirantes

e algumas catatuas bem falantes

de chapéus e leques

tudo como dantes

em salamaleques


mais abaixo

no asfalto

ao sol

formam os heróis

coxos e manetas

em cadeiras de rodas

ou de muletas

estropiados

mas condecorados.



muitos não estão lá

estão nos cemitérios

mas vão os filhos

receber os prêmios,

ou os pais

vestidos de naftalina

ou as viúvas

de negro vestidas

todos a oferecerem

suas dores sentidas

ao grande espectáculo dos demais


não bastou apenas que morressem

a Pátria ainda quer mais


...

20 de março de 2011

MATAR E JEJUAR




"Só amadurecem aqueles que experimentam a imensa amplidão da sua vulnerabilidade"- Rose Marie Muraro


Vejo com tristeza que abandono o ofício para o qual pensei ter sido escolhida, com o qual me alimento e resisto. Vou me tornando, creio, uma ex-escritora. Todos passam por isso, me dizem os escritores, mas não tenho consolo. Até mesmo a crônica, que é tão parceira, abandonei, ou me abandonou. Fui ver, a última postagem era de 28 de fevereiro. Estamos em 20 de março. Fora isso, nenhum poema que salte aos olhos, nenhum sonho que se revele poema.
Estarei endurecida, não me sensibilizo com mais nada, abalada com tanta realidade? Já fui mais forte, confesso.

Vou contar uma coisa aparentemente corriqueira, que me desorientou.
Recebi de uma senhora, por email, um texto (sem citar a fonte) que falava em Singapura. Eu, de Cingapura, só sabia que era um dos Tigres Asiáticos, e com C, mas não. Agora é com S por conta de um tratado imbecil, como são os tratados que modificam o idioma sem nenhuma necessidade.
Dizia o informe que em Cingapura (resisto) um militar com mão de ferro resolveu os problemas do país matando os prisioneiros (deixou apenas 50) assim como mandou matar ou banir os drogados. Que agora Cingapura é um país seguríssimo, mais do que “os arrrogantes Estados Unidos”. Todos os que entrarem no país sabem que drogas resultam em MORTE (assim está no carimbo).
Em compensação, em Cingapura as mulheres são 100% protegidas e se você cumprir corretamente as regras de trânsito o governo lhe paga prêmios em dinheiro. A política é de extirpar o câncer. Qualquer câncer. É da sua família? Desculpe, mas é a política.
Pois bem. Na mesma semana quase, recebi da mesma pessoa uma mensagem sobre Jejum na Quaresma que dizia:
“Jejua (abstém-te) de julgar os outros e descobre Jesus Cristo que vive neles.
... Jejua de palavras críticas, mordazes, e enche-te de frases que purifiquem
... Jejua de irritação, ódio e cólera e enche-te de mansidão e paciência.
... Jejua de rancores e enche-te de atitudes conciliadoras.
Se todos procedermos assim, o nosso dia-a-dia irá se inundando de paz, de amor e confiança”.

Ora, de que maneira poderemos inundar o mundo de paz e amor se a todo instante estamos matando um Jesus Cristo?
Se eu matasse algumas pessoas por quem não tenho nenhuma simpatia, feito alguns políticos em particular, financistas, policiais em geral, motoristas de táxi, o vizinho e “aquela lá” poderia viver depois na certeza de uma sociedade segura e tolerante? Mas até quando? E se resolverem matar os carecas? Ou os poetas?
Fico estarrecida em constatar que as pessoas fazem propaganda ideológica sem nem se dar conta, sem perceber o que lêem, sem entender o que se passa. Isso tudo depois de tanta história, velhas e novas guerras, tanta literatura.
Pessoas educadas e pretensamente cultas distribuem propaganda ideológica sem nenhuma responsabilidade, como se estivessem enviando apenas paisagens do sul da França.
Não lêem o que está escrito, não percebem o que não está, mas está incluído. Não fosse ela a propaganda – essa agente perniciosa do capitalismo.
Ninguém ignora que o preconceito – qualquer um – vem crescendo desde que inventaram o politicamente correto, que é a hipocrisia varrida para debaixo do tapete. Mas o que tivermos que fazer por pressão não nos modificará. A única coisa que modifica é a tomada de consciência de que o que fazemos contra a sociedade é também contra nós.
E isso tudo é muito difícil e perigoso. Frente ao noticiário cada vez mais violento perguntamos: como é possível isso?

É possível porque qualquer coisa pode detonar o ódio aprisionado.
Melhor não fazer jejum de ódio. Melhor senti-lo aos pouquinhos, liberá-lo todos os dias do que armazená-lo sob a capa de uma tolerância falsa até que um dia, invencível, ele se liberte. Enorme, bem nutrido, louco de sede, e inicie a matança.
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28 de fevereiro de 2011

VIDA CACHORRA


Por que vida cachorra? Por que não "vida de cachorro", que é o que se usava para designar uma vida perdida, de fome, de abandono e solidão? De ataques perversos, às vezes, sem razão aparente. Vida de quem anda na rua, sem lugar certo, sem saber de amanhã.

É que os tempos mudaram muito. A vida de cachorro agora é luxo. Já a vida cachorra significa ainda menos, que ela foi rebaixada para o gênero feminino, onde se destaca mais o que é viver com a força do nada, pensando em coisas que não são próprias, deixando-se levar apenas pelos acontecimentos, que é o que acontece hoje com as mulheres.

As cachorronas aceitam seu papel. Não o discutem e vão até as últimas consequências.

Mas um dia a casa cai : incesto, aborto, despejo, expulsão, alcoolismo, prostituição - a tragédia usual de milhões de janaínas, suelis, e suellens.

Os homens também sofrem, os pobres homens pobres. Uns são jogadores de futebol. Elas são as mulheresquequeremcasarcomumjogadordefutebol.


Tudo isso é para falar do livro de Mariel Reis, VIDA CACHORRA. Será que a vida ainda tem lugar para a ficção? Em Mariel, tem. Trata-se de um escritor de verdade, salvo pela literatura, a quem corresponde igualmente, uma vez que é também seu dedicado divulgador. Lê tudo, comenta tudo, faz contatos e cria laços. Grande leitor, escritor inquieto e talentoso, Mariel está aí tomando lugar, com honra, entre os novos contistas brasileiros. Desde Linha de Recuo, de 2006 a John Fante trabalha no esquimó, de 2008, trabalha sem parar. O resultado vem. Os 12 contos de Vida Cachorra são tacadas difíceis de aguentar. Vê-se logo que as feridas são feias. Há que suportá-las e ir em frente, ou entregar-se. Mas os personagens de Mariel se entregam por paixão e deixam sangrar.

Depois de publicar uma série de poemas na plaquete Cosmorama, em 2009, surpreendentes poemas que produziu num espaço curto de tempo, poemas que chegavam em sonho, ele escrevia e mandava para os mais chegados, Mariel volta, agora, aos contos, seu gênero preferido, com o texto mais firme, mais enxuto. As palavras precisas, as falas absolutas. Não há lugar para sobras e gordurinhas. Escrita resoluta, sem vacilos, de quem perdeu todo o medo. Aprendeu na luta. E há diferença entre Dalton Trevisan, Marcelino Freire ou Rubem Fonseca, de quem Mariel traz referências e influências. É que ele sabe por dentro do que está falando.


Aí está. Essa opinião não é só minha, eu acho, porque o livro vendeu bem no lançamento, num sinal evidente de que a qualidade do autor já se alastrou. E que siga!
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CARNAVAL HIDROPôNICO


Não me perdoem por não trazer aqui as fotos que alegraram o desfile do Planta na Mente, ontem, na Lapa, na sua primeira aparição pública. Eu mesma não me perdoo.
Já falei sobre ele lá embaixo, e agora quero contar minha experiência.
Carnaval, quanto menos coisa levar, melhor. Não levo nem documento.
Roupa leve, desci a Ladeira das Carmelitas às 16h até chegar aos Arcos. Dali caminhei até a Escadaria do Selaron e encontrei com o que poderia vir a se tornar um bloco.
Nenhum polícia.

Muita gente ainda via o jogo, outros tocavam noutra banda, a coisa começava. Chegavam os fantasiados, os turistas, os disfarçados, os vagabundos de costume.
E entre uma conversa e outra a reunião foi crescendo até que se transformou no tal bloco tão esperado. Já eram quase 18h.
Estavam lá todas as tendências existentes no movimento, cada um com a sua proposta e sua colaboração. Estavam lá os agitadores naturais, garotos e garotas que sabem muito bem o que querem e não abrem mão disso. Estavam felizes, em paz e (pude observar), bebendo muito menos do que se vê nos blocos comuns.

A banda Erva ainda claudica. Inventou de inserir uma linguagem panfletária em músicas conhecidas. Só os integrantes sabem as letras, que nem são tão boas assim.
Minha opinião é de que deveriam ter formado um repertório com músicas já conhecidas, relativas à maconha, e que todo o mundo sabe cantar. Mas não tem nada. Foi tudo paz e alegria.

A polícia nem liga. A mídia não está nem aí. É pelo desdém que se esvazia o movimento. Daqui a pouco vão deixar a maconha de lado. O crack terá avançado tanto, e com tal rapidez que não haverá mais como combatê-lo. E aí, quem sabe, as autoridades percebam a diferença entre uma coisa e outra.
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A VIÚVA

Morei durante um ano em 2008 num chalé no Laranjal, na rua Mostardas. Na esquina da Santo Ângelo, em diagonal à minha casa, morava um casal de velhos, daqueles que estão sempre juntos. Um levanta, o outro levanta. Um sente frio, o outro sente frio. Vamos? Vamos. Voltei em 2011 e revisitando a área familiar soube que o velho tinha morrido. Lembrei, então, dos dois sentados na varanda, todas as tardes. Não conversavam, não liam o jornal nem mateavam. Ficavam, apenas, de ficar sem reparo, o tempo disfarçando, no eco da buzina do sorveteiro. Quando me instalei lembro que ensaiei cumprimentos. Bom dia, boa tarde. Não percebi muito interesse. Deixei pra lá. Aos domingos vinham os filhos e embicavam os carros no terreno em volta para o churrasco. Saíam à tardinha. No outro dia lá estavam os dois, nas suas vidas cadeiras. A casa está irreconhecível. Puseram grades nas janelas, na varanda. E não contentes cercaram também o muro, ou seja, enjaularam a velha. Terá ela coragem agora de sentar-se à varanda e observar o nada e a poeira? Será vista como um bicho enjaulado. Tornou-se perigoso? Não. Tornou-se frágil demais, sem a presença do homem. Claro que com boa intenção os filhos enjaularam a mãe. Quem quer uma velha de repente em casa alterando as rotinas já tão mal administradas? Melhor mantê-la na própria casa (o que ela certamente preferiu) mas mantê-la "protegida" dos males externos, tais como ladrõezinhos e viciados. Até um velho, tão velho quanto era o marido, era capaz de "impor respeito"? A mulher inicia uma outra fase da sua vida: não só de viúva, mas de carniça. ...

26 de fevereiro de 2011

PLANTA NA MENTE - UM CARNAVAL LIBERTÁRIO




A postagem é para apresentar-lhes o bloco Planta na Mente que se lança no Carnaval de 2011 com um manifesto pela legalização da maconha. O bloco nasceu para buscar mais um caminho para a ampliação da discussão, derrubar os preconceitos e esclarecer sobre os efeitos do uso.

Em poucos meses a moçada se organizou, promoveu ensaios e festas para arrecadar fundos e, com o auxílio das redes sociais e muita conversa arregimentou músicos e animadores para esse que seria o primeiro Carnaval do bloco.

Vai o manifesto aí.
O bloco saiu ontem.
Quem não foi, perdeu.





Somos o Planta na Mente, o primeiro bloco carnavalesco do Rio de Janeiro a levantar bem lá no alto a bandeira da legalização da maconha.
Defendemos a legalização da maconha , seja para o uso recreativo, medicinal, religioso, industrial, entre outros. Nossa missão é tirar o usuário do armário criado pela repressão policial e social!

A atual política proibicionista joga usuários e traficantes no mesmo balaio. Não somos criminosos! Não somos perigosos! Enquanto estudantes e trabalhadores forem presos simplesmente por fumar maconha e os verdadeiros bandidos estiverem soltos, de gravata ou farda, O PLANTA NA MENTE NÃO PODE PARAR.

O Carnaval é festa e curtição, mas é também uma oportunidade de discussão social. Usamos nossa irreverência e música para disseminar a cultura canábica. Maconha é remédio, é fibra, é estado de espírito. Sua proibição gera segregação social, dá poder a uma pequena parcela que controla seu comércio, criminaliza a mão de obra barata usada em seu ciclo, leva violência e preconceito às áreas mais pobres e torna pessoas inocentes reféns de suas vizinhanças.


Acusam-nos de fazer apologia às drogas. Tivemos até um membro do bloco processado pelo simples fato de carregar nossas letras. Mas estamos amparados pelo Artigo 5º da Constituição, Item IX, que diz: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença!”

Nossas marchinhas são manifestos. Nossas apresentações são ações diretas! Viemos fazer história, construir novas pontes, adubar e plantar sementes positivas de tolerância e de viver-e-deixar-viver. Nascemos para exercer nosso poder de criar, recriar e transformar essa realidade que nos foi dada e concebida antes de nossa existência. Nosso carnaval libertário veio para ficar!
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