25 de outubro de 2016

PERDEU, PLEIBÓI

PERDEU, PLEIBÓI


Há algum tempo todos louvavam a eficiência das UPPs, a tranquilidade dos cidadãos, o acesso das crianças à escola. Claro que os jornais omitiam grande parte dos fatos, sintetizado no desprezo da polícia pelo favelado. O caso Amarildo foi o mais emblemático, o de tortura e morte por prazer.
Mas a coisa ia. Em muitas comunidades cessaram os tiroteios. Os traficantes se retiraram para outros lugares ou foram para a milícia, onde convivem com policiais expulsos. O mercado de emprego está difícil.
E assim fomos vivendo, com o Secretário de Segurança José Maria Beltrame fazendo sempre as mesmas declarações: sem a presença de outros órgãos da prefeitura não seria possível controlar a situação por muito tempo. Não haveria UPPs para todas as favelas, mais de mil favelas. Mais de mil. Uma força de exército contida pela pobreza e pela violência. O appartheid.
Mas a prefeitura não está interessada na segurança do cidadão favelado e por isso não mandou os outros serviços de que o favelado precisa para se tornar cidadão.
O Secretário Beltrame entregou os pontos. Tal qual Elliot Ness, durante a Lei Seca nos Estados Unidos, depois da polícia matar um monte de gente e ainda abrir caminho para a máfia.
Outra coisa que o Secretário fazia era afastar, quando era escandaloso demais, os policiais corruptos. Imagino o que seria nesse momento para ele, que tinha que brigar com uma força absolutamente corporativa e violenta. Algumas vezes conseguia. Nas outras, preferia acreditar nos falsos laudos.
A saída de Beltrame só provou o que já está mais do que provado. A guerra contra as drogas fracassou. Até a obsessão do Secretário Beltrame foi vencida. Penso nisso como sempre penso nas pessoas, no momento da sua derrota pessoal e profissional. Saber que é possível realizar um projeto e não vê-lo realizado porque foi feito de mentira, foi feito sem a intenção de que desse certo. Um imenso projeto de desocupação de traficantes das favelas acabou. Já era. Venceu a PM. Venceu o crime. As invasões começaram. No Alemão já são constantes os tiroteios. E não é só isso. Os assaltantes estão na rua. Andam de Honda, estacionam, roubam os passantes, embarcam em seu veículo e partem. Aumentou o número de assaltos em ônibus. O crime impera.
Eis no que deu a “guerra às drogas” – mais um apito que os norte-americanos nos deram a partir dos seus tratados e negócios de chantagens “comportamentais”.
Mas ninguém quer pensar numa saída. Matar é bom. Resolve logo. Qualquer neguinho com dois baseados morre ou vai pra cadeia enquanto a cocaína anda de avião. A cadeia é o inferno em vida. As galés do navio negreiro. Não éramos abolicionistas?
Será sempre assim? É isso?
Haverá anistia, retratação, indenização para as vítimas das drogas? Quantos morreram, quantos morrerão ainda enquanto policiais treinados para a tortura obedecem (e extrapolam no cumprimento) uma lei inócua e ultrapassada? E outra: que poderia, como qualquer outro investimento, trazer divisas?
Não vou trazer aqui todas as provas das novas formas de lidar com as drogas. Elas estão nos exemplos, livros, blogs, vídeos, no cinema, mas milhões de pessoas estão na marginalidade por conta de leis obsoletas, geradoras de violência entre classes.
É uma prova da falta de coragem dos poderes constituídos não reconhecer isso.
Essas perdas não se calculam em dinheiro.
Vou terminando. Na real, não sei como terminar. Dizer que no futuro? Quem sabe? Que milagres acontecem?
Está difícil de acontecer a legalização. Está difícil até do Brasil acontecer.


Muitos morrerão ainda nessa guerra civil que não quer dizer o nome.
Todos perderemos.
Não é assim que se constrói uma Nação.

17 de outubro de 2016

ASTRID CABRAL - 80 ANOS

A escritora Astrid Cabral completou 80 anos. Autora de uma obra importante, onde transita à vontade entre a poesia, o conto, o ensaio, a crítica e a tradução, é uma das maiores escritoras brasileiras, da estatura de Lygia Fagundes Telles ou Nélida Piñon.  Ou seria de Gilka Machado ou Henriqueta Lisboa?
Dezenas de pessoas, críticos de verdade (sabem o que eu quero dizer) já escreveram sobre a sua obra fundada na justiça e na liberdade. Nasceu poeta. E sábia.
Casou jovem com o também jovem e poeta Afonso Félix de Sousa, companheiro da vida inteira. Juntos levaram uma vida de amor e trabalho, e sobretudo de poesia para que os filhos se formassem íntegros e enfrentassem um mundo tantas vezes vil.
Astrid Cabral é uma poeta extraordinária e disciplinada que conhece e usa a fundo seus instrumentos. Como poderia, a professora que foi, não fazer o que tão bem ensinara? Poesia faz-se trabalhando. E Astrid atendeu a esse chamamento entregando-se resoluta à construção de sua prolífera obra.
O pessoal da Academia todo a conhece, tenho certeza. O que estarão esperando? Ainda discutem sobre até onde as mulheres podem ir?
Esperam por alguma graça? Será a morte uma graça? É verdade que ela talvez não aceitasse, É demasiado sincera, avessa a elogios fáceis. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é a falta de visibilidade merecida, até mesmo no momento em que completa 80 anos, sendo ela uma artista desse porte. E ainda mais: uma cidadã brasileira, que todos precisariam conhecer porque não se isenta de abordar temas tabus ou posicionar-se politicamente ante a hipocrisia do sistema. Talvez por isso seus pares relutem: criatura esquisita: mãe exemplar e poeta de excelência, não só possui o conhecimento do seu material de ofício mas tem o olhar original e crítico sobre as coisas do mundo. Que mulher é essa? Nós a queremos aqui?

Vivêssemos num país culto e civilizado haveria vários eventos programados em torno da autora. A imprensa, a reedição da obra, destaque nos suplementos literários. Mas não. Nosso País não é culto nem civilizado e vivemos um momento em que perdemos até a esperança dessa possibilidade.
É por isso que escrevo, minha querida poeta: para declarar que te admiro não só pela obra, mas pelo caráter, pela fidelidade às ideias que te sustentam, pela ausência de preconceitos e pela compreensão do mundo, que é sempre maior ao teu lado.

24 de junho de 2016

JESUEL MIRANDA - 80 ANOS

A velocidade dos acontecimentos que levaram o Brasil a essa enrascada política em que o golpe  se firma dia a dia, apesar das más escolhas e de decisões ainda piores, do pretenso presidente e sua gang, não nos dá tempo para quase nada. É sempre uma nuvem cinza e fria que paira sobre nossas cabeças como ameaças conspiradas enquanto dormimos.
Não obstante, vivemos a vida, amamos os amigos e a natureza e lutamos contra a corrente. Alguns correm mais. E há mais tempo.  É o caso de Jesuel Miranda, uma criatura que se destaca no universo das nossas afinidades porque é, de fato, um destaque. Foi, literalmente, destaque de Escola de Samba, desses que entram sozinhos porque o seu desempenho é notável e único, e para ele abre-se o espaço e a admiração. Destacou-se na pintura, na confecção de doces, no calor com que se oferece, sábio e bem humorado, tendo enfrentado como um herói da resistência a difícil vida do negro que se destaca.

O que importa, no entanto, e quero registrar aqui, como se fosse o meu diário de ocorrências especiais é a festa de aniversário com que o amigo Zezé Cunha reuniu os amigos de Jesuel.
Hoje é normal chegar aos 80. Mas o que aconteceu naquela noite é que todos estávamos velhos e Jesuel ressurgiu como há 20 anos, deixando-nos perplexos a pensar que a felicidade, que poucas vezes percebemos, havia se instalado ali, naquela festa, e rejuvenescido o aniversariante para que nós, e não ele, ganhássemos um presente, que era ele, inteiro, bonito, ágil, disponível com a mesma atenção e sorrisos para todos. Um estado de graça.
E não sou eu quem digo, apenas. Apenas relatado o que muitos sentiram e manifestaram.


Registro também as palavras que lhe dediquei na noite de 18 de junho, e das quais alguns convidados pediram cópia, juntamente com o poema.

"Fui convidada pelo organizador dessa festa, Zezé Cunha, para saudar o aniversariante, Jesuel Miranda, na comemoração dos seus 80 anos.
Aceitei, é claro. Com alegria e honra. Afinal, assinei também a apresentação no convite da primeira exposição individual de Jesuel, há mais de 40 anos, nesse  mesmo Hotel Manta em que nos encontramos agora. 
Mas depois tive receio. E agora? Como ser porta-voz de todas as pessoas que estãoaqui, da família, dos amigos, novos e antigos?
Como dizer a ele que mais do que celebrá-lo estamos celebrando a nós mesmos, porque o conhecemos, em algum momento da nossa caminhada?
Cada um tem uma visão particular de Jesuel, cada um de nós tem algo a dizer sobre ele; um episódio a lembrar, uma história de que foi testemunha. Mas algumas características, imagino, são reconhecidas por todos. Por isso penso que posso afirmar que:

Jesuel Miranda é um artista: da pintura, da dança, dos sabores da mesa;

que cresceu enfrentando toda a sorte de dificuldades impostas pelos preconceitos, antes mais do que hoje, mas ainda, numa luta sem fim;
que a tudo isso resistiu e resiste, e mesmo assim divertiu-se, diverte-se, e segue alimentando-se da arte.
As histórias que me contou foram motivo de alguns contos que escrevi. Também de um poema que nasceu depois de uma tarde de conversas, entre bolos e chás, quando ríamos das pequenas desgraças que nos afligem e que são sempre substituídas por outras.

O tempo passou. Éramos outros? Ainda somos nós.
Dos incômodos do tempo nos consolamos. Aceitar é preciso. Seguir, cair, levantar. Seguir o sonho acreditando nas pernas.

Por tudo isso,o querido, expresso aqui todo esse carinho multipliciado pelo da tua família, dos amigos presentes ou não que vivem em ti.



VIDA DE ARTISTA


não importa que eu não faça amor como antigamente
não importa que eu já não seduza
mas é bom que vez por outra alguém se encante
com quem sou

não tenho conta das vezes em que fui rainha
 no real palco das ruas
e se hoje o carnaval
vejo na TV
ainda há muito espaço para alegoria
que crio entre telas pincéis
e potes de ambrosia

os moços bonitos vejo de binóculo
para que não se intimidem
moços bonitos e feios
que eu sempre fui cristão

Vou à missa e canto minha sorte
Fome – eu sempre tenho -  de arte
Não gosto de polícia
Não gosto de bandido


Sofri o que era meu.
Agora
só entrego meu corpo
à glória

E vou terminando porque esse encontro dos nossos, na nossa terra, na nossa idade, véio, não é coisa recomendável. Recomendável é rir e aproveitar a vida que se oferece e fortalece nos abraços.

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8 de junho de 2016

PROVENIENTES DO AZUL



A vida muitas vezes deixa de ser surpreendente para ser apenas assustadora. Mas as maldades, as más intenções, as conspirações ficam em suspenso ante ao que é, de fato, surpresa. E deliciosa surpresa.
Frente a ela tudo fica em suspenso, e depois, transformação e encantamento.
Isso é para realçar e louvar o livro provenientes do azul, de Regina Pouchain, a quem encontrei numa livraria depois de muito tempo, com grande alegria.

Para quem não sabe, Regina Pouchain, além de ser poetisa e uma bela mulher, também é companheira de Vladimir Dias-Pino, nome importante no panorama das artes, cuja obra se encontra atualmente em exposição no Museu de Arte do Rio de Janeiro. Digamos que o casal seria mais ou menos como Saramago e Pilar, o amor constante e leal, com a diferença de que Regina Pouchain tem obra própria.

Foi nesse momento de encontro que ela me presenteou com um exemplar de provenientes do azul,  livro de poemas, fotos e aforismos, de que cito alguns

o devir é uma impressão
               que deixa rugas

a memória nos provê de translúcidos fotogramas

a terra é a flor incandescente
                        que cega o sol

o homem, um hiato entre duas cores:
nascimento e morte

viver hoje: uma avenida que tangencia
                            os perigos da cratera

um poeta desdobra enigmas e morre de perguntas 

o pânico é a loucura que escapa

o desequilíbrio é a nossa obra irresistível.


Aí está uma amostra do que provém do azul, perpassa e pousa na nossa sensibilidade. 


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25 de maio de 2016

STF - SUSPEITO TRIBUNAL FEDERAL


Delação premiada. Que triste figura jurídica! Eu sempre conheci por traição. No entanto, agora atingiu outro sentido. Uma "interpretação da lei" desses tempos de mentira.
Como é que se pode acreditar em quem entrega um parceiro, seja de que atividade for? Roubos, negócios, negociatas, segredos íntimos... Quem entrega é traidor e pronto. Não há motivo para que lhe seja dado crédito, a não ser que "interesse". É uma tática policial, quando não conseguem encontrar um culpado, arranjam alguém para "confessar".
Na delação premiada o delator é duas vezes covarde porque dedura e o faz em troca de um favor, o que faz dele um corrompido.
E quem oferece vantagem a um suspeito (preso ou não) por dedurar alguém é o quê?
Um corruptor, é claro.
E é assim que, dizem, vão acabar com a corrupção.

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O LADO BOM




Agora também caiu a minha ficha. Não recebo mais nada a favor do golpe. Somos, afinal, todos da mesma ideologia.
Somos todos harmonia.
Os equivocados foram se retirando devagar, postando foto de cachorrinho, voando para NY ou São João del Rey. Não acreditaram que a luta ia continuar. Não sabem de fato o que é luta popular, coisa que já os secundaristas sabem tão bem.
A solidariedade anônima das ruas na luta por causas comuns é que forja a cidadania, no encontro com o outro, na vivência das vitórias miúdas e das pesadas derrotas. Na chuva, no vento ou na vontade máxima de um simples café. Na alegria de um sanduíche amassado.
O ânimo do povo se agiganta, levanta bandeiras e sustenta faixas
em defesa do próprio poder. Assim é que se faz uma Nação.


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21 de maio de 2016

MULHER - Lenilde Freitas

Enquanto guincham as hienas, em algum lugar há uma voz resistente e sábia, de mulher, como esta que se ergue, de Lenilde Freitas, que nos representa.


 













Mulher 
Lenilde Freitas


Escolheram-me rainha
e com doçura de fada
puseram em minha cabeça
uma coroa   — enferrujada.
Depois, sentaram-me num trono
de dor. Daquela dor não dosada
— mas tudo quase com amor
e com doçura de fada.
Deram-me também um cetro
não dado — só emprestado;
vestiram-me então de preto.
E ao julgarem que me convinha —
deixaram-me  — ali  — sozinha —
rainha e soberana
de um mundo despovoado.