28 de junho de 2017

PRECISAMOS CONVERSAR - Introdução

Caros Amigos,

Apresento, afinal, o livro que me prometi em fevereiro e só agora aparece. Não está atrasado. Estava apenas esperando, quem sabe, dias melhores. Mas os dias melhores não chegam. E portanto aqui vai ele, sem saber como será o futuro, mas seguindo, tentando, armando-se de algum otimismo. Como um brasileiro. 
O comício de lançamento será no dia 25 de julho no Espaço Cultural Olho da Rua, na rua Bambina 6, em Botafogo, a partir das 19h. 



Abaixo segue o texto de introdução, uma conversa que eu sempre imagino ter com os leitores. Uma toque de crônica, gênero pelo qual nutro grande admiração, e outro toque de aproximação.  


Para início de conversa...


Agradeço aos poetas que estiveram comigo ao longo dos anos, aos que encontraram o caminho da poesia, aos grandes poetas e também aos médios, categoria em que me incluo. Isso não me diminui, no entanto, acreditem, leitoras e leitores que por acaso andarem por esses versos. José Saramago disse que a cultura é feita pela mediania, mais do que pelos gênios. Concordo com ele. Por isso tenho meu lugar.
Esperei que passasse o ano de 2016. Não queria publicar num ano tão tenebroso. O ano em que as instituições, já tão desacreditadas, realizaram um strip-tease moral, ferindo de morte os frágeis preceitos constitucionais e dando relevo a ambições insaciáveis.
Durante todo o ano esperei que neste nosso vasto País se levantasse alguém e desse um basta a esse golpe com ares de ópera-bufa, fazendo-nos voltar à razão. Quisera que fosse o poeta; que uma voz nova, forte e convincente se levantasse e nos levasse a todos a um mundo diferente. Mas não foi, e penso que ao menos agora, neste momento em que há um vazio de esperança, não será.
Houve um tempo em que a poesia chamada “de protesto” saiu de moda e passou a ser olhada com desdém. Mas não me importa a moda, é assim que sou, fui (e ainda vou) em frente. O que é o ser humano sem que o mova o desejo de mudança, a transposição de um limite, um eterno querer?
Este livro pretende apenas deixar registrados os poemas que fiz num período grande e coincide com os 70 anos que alcanço. Incluí alguns poemas de outros livros, de que gosto. Nunca é demais afagá-los. O que fazemos ou não constrói a nossa história. Podemos falhar, mas não sempre. E de tanto tentar, às vezes acertamos.
Os grandes temas da história humana com os quais sempre se ocuparam os escritores se tornaram banais ante a escalada da violência e da ameaça global do totalitarismo. O mundo inteiro se brutaliza.
Nenhum de nós esperava um futuro de trevas, mas de alguma forma deixamos que se concretizasse. É por isso que


Precisamos conversar outra vez.

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29 de maio de 2017

A CHACINA DO PARÁ (mais uma)

Estou aqui pensando na chacina do Pará. Não há nada que eu possa pensar mais do que na chacina do Pará.
A autoridade do Estado mata ou deixa matar. Mendigos, viciados, ladrões, índios, negros e assentados. Para ela não há diferença. São destinados a morrer porque são pobres. E como o capitalismo cria muitos pobres, que mal faz em morrerem uns, de vez em quando? Ninguém vai dar pela falta.
A chacina é um dos recursos fortes do poder do Estado autoritário porque desperta de imediato nossa indignação e, logo depois, nossa impotência.
É um jeito de fazer a gente acreditar que, de fato, a justiça não existe.

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5 de maio de 2017

OS QUERERES
Bom, há um assunto paradoxalmente polêmico: a legalização das drogas.
O paradoxo é que não existe razão para polêmica. Todos não somos por uma sociedade segura, pela paz, idealmente falando? Não queremos que acabem as guerras diárias nas favelas e periferias de todo o Brasil? Não queremos que as crianças vão e voltem da escola com segurança e os acidentes sejam apenas aqueles de menino caindo da laje porque está sonhando nas asas de uma pipa?
Não queremos, por acaso, que se acabe a sedução do tráfico sobre os meninos iludidos? Não queremos deter a corrupção na polícia?
Não queremos que a polícia pare de invadir casas e intimidar as pessoas?
Não queremos revisar as prisões de 130.000 pessoas, na maioria negras e pobres, porque portavam pequenas quantidades ou tiveram o flagrante forjado?
Não queremos que o Brasil cresça economicamente, e para isso use o grande potencial (terra e clima) para concorrer com a matriz?
Se até a Albânia - a Albânia !- criou emprego e renda com a maconha por que, ó Deus, não aprovamos a legalização das drogas?
Não queremos o pleno exercício dos direitos individuais?
Fico cismando. Mas não muito. A beleza do Brasil gerou seu
ônus: sofre de provincianismo crônico.

10 de abril de 2017

A TRAIÇÃO DA HEBRAICA


A Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro, por meio do comunicado oficial que fez publicar em sua página, não convence.
Sob a desculpa de querer conhecer a "pluralidade de idéias" dos políticos, convidou o Deputado Jair Bolsonaro para fazer palestra, como se fosse necessário convidá-lo para ouvir as opiniões que há muito tempo ele não cansa de emitir, e por mais racistas e sexistas que sejam, ainda não encontraram nas autoridades alguém com coragem suficiente para prendê-lo, uma vez que estão protegidos por lei os direitos de mulheres, negros e índios..
O que não dá para entender é porque justamente a sociedade que congrega cidadãos judeus, cujos antepassados tanto sofreram com o Holocausto, seja justamente aquela que dê visibilidade e, evidentemente, apoio a uma criatura nefasta, tão intolerante, tão absurdamente violenta e arbitrária como um Hitler revivido.
Tivéssemos quem cumprisse a lei, Bolsonaro estaria cassado por injúria e difamação e preso por insuflar a população à violência e ao ódio contra aqueles que ele combate.
Imagino como se sentiram as mulheres presentes à "palestra" do Deputado Bolsonaro; se elas mesmas não estariam odiando seus maridos por obrigá-las a assistir, caladas, as ofensas de um inimigo.
Houve depois desse abominável evento uma manifestação de judeus que não aprovaram o convite. Mas aí era tarde. É preciso não deixar acontecer. É preciso lembrar que o Brasil, que sempre recebeu bem os imigrantes conviveu pacificamente com os judeus, foi traído por todos aqueles que aprovaram o "evento".
Não se sabe o motivo pelo qual, depois de tanto sofrimento, os judeus possam ter simpatia pela guerra e pela intolerância num país que os recebeu quando foram perseguidos e onde fizeram suas vidas.
Pode haver mais, atrás disso, não sabemos. Os negócios de armas andam em mãos que nem imaginamos. Mas sempre serão os mais lucrativos. Nunca houve, no Brasil, tantas armas fabricadas em Isrrael. Talvez seja fruto da velha história do "toma lá, dá cá".
Sobre isso não se sabe bem. O que se sabe é que a Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro traiu o Brasil. Planejou, fez executar e ainda, mesmo depois das declarações escabrosas do Deputado (que devem ter sido recebidas como piadas pelo público conivente) ainda se justificou em nota, ao invés de se retratar.
Estamos, de fato, muito mal. Até aqueles que tratamos como amigos são hoje nossos inimigos. E se congregam para levar a cabo mais uma ditadura à la mode: violência, opressão e, é claro, negócios.

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3 de abril de 2017

O REPOUSO

O REPOUSO
O homem acorda. Senta-se na beira da cama, coloca os óculos. Vai ao banheiro, barbeia-se. Está vestido e bebe um café de ontem. Olha pela janela. Há um sol armado. O homem tem 70 anos. Pega a pasta que está sobre a mesa. Vai enfrentar o dia. É um homem sério, este que fecha a porta e espera o elevador. Desce à rua e chama o táxi.
Tem encontro com o tradutor, tem almoço com a agente. Há uns textos a que gostaria de voltar, mas sobretudo, enorme, a pergunta sempre pronta: em quantas vezes, até os 70 anos, pensou sobre a morte, sua hora e suas formas, e em quantas vezes (todas as noites da sua vida) entregou-se a ela sem pudor e sem crença? Todas as noites uma morte possível, tremenda, desesperada. Terá sido o labirinto da noite que estancou a surpresa do novo dia? Mas ali está ele, o novo dia. E então levanta, barbeia-se, vai aos compromissos.
Agora é manhã e nada existe. Nem aquele movimento regular e sistemático: levantar, colocar os óculos, ir ao banheiro. Nada mais. Só a luz barrada pela cortina imóvel.
Assim, discreto, vai-se o escritor João Gilberto Noll.

1 de janeiro de 2017

Adeus 2016

2016 - deste não esqueceremos. Foi um terrível ano de frustrações e indignação com o golpe organizado. Vimos coisas e ouvimos outras que jamais pensaríamos. Assistimos as ofensas contra Dilma Roussef, sempre mais violentas porque se trata de uma mulher e o País é essencialmente machista e controlador. Acordamos em sobressalto, dormimos inquietos com os próximos desmandos, do qual participam juízes e Rede Globo. Depois de tudo ainda veio o pior - as medidas de um governo ilegítimo. desmontando o que diz respeito à educação, à cultura e ao trabalho, a que as Cortes assistem indiferentes e desdenhosas.
Tornamo-nos beligerantes orais e escritos. Rompemos relações, na maioria das vezes não por discordar ideologicamente, mas porque a informação é falha, é falsa, é pura farsa da mídia oficial.
O que nos pode salvar? A poesia, apenas.
Deixo-lhes aqui, amigos, o sonho do poema de Murilo Mendes, que eu já não sou capaz de sonhar mas que é, apesar de tudo, o
OFÍCIO HUMANO
(Murilo Mendes)
As harpas da manhã vibram suaves e róseas.
O poeta abre seu arquivo - o mundo -
E vai retirando dele alegria e sofrimento
Para que todas as coisas passando pelo seu coração
Sejam reajustadas na unidade.
É preciso reunir o dia e a noite.
Sentar-se à mesa da terra com o homem divino e o criminoso.
É preciso desdobrar a poesia em planos múltiplos
E casar a branca flauta da ternura aos vermelhos clarins do sangue.
Esperemos na angústia e no tremor o fim dos tempos,
Quando os homens se fundirem numa única família,
Quando se separar de novo a luz das trevas
E o Cristo Jesus vier sobre a nuvem,
Arrastando por um cordel a antiga Serpente vencida.