30 de janeiro de 2012

POBRE MUNDO

Ao abrir o blog encontrei um aviso sobre mudança nas regras de privacidade do Google. Sabe-se lá o que significa e quem sabe algum dia serei enquadrada em alguma coisa. Mas isso já não importa, com a vida correndo por um fio.
A cada momento o fio se rompe em algum lugar: a cidade grita. O edifício cai, o bueiro explode, o oleoduto fura, a terra desliza, treme, se transforma em lama, o navio naufraga, o poste, o gás, o avião, o gás, a estrada que se parte, os cabos, os guindastes, a fumaça, o arame que segura o parafuso, o bonde desgovernado, tudo acabado.
Cada vez mais ficamos marcados por uma tragédia que se não chegou a nós, esteve muito próxima. Até no teatro você está por um fio. Ou por um cabo. Não há tempo para fôlego. Ninguém é poupado de sumir, no meio de uma palavra ao telefone. Sem pensar que isso não está acontecendo. Sem tempo até para um último pensamento.
E se você ainda encontra a polícia? Deus do céu! É isso a vida? Isso é o progresso em nome do qual destruímos tanto? Estávamos destruindo o mundo pensando que o construíamos.
Agora os milagres acontecem às avessas. Não trazem epifanias, mas perplexidade e dor.
Lamento, com vocês, esse janeiro, que antes era uma estação tão propícia ao amor, às noites quentes, pesadas de estrelas, em que nos alongávamos nas conversas, sem medo do amanhã. Hoje em dia, por mais que abusemos dos superlativos, sabemos que o tempo encolhe. Não nos enganemos.
O mundo vai ficando cada vez mais cinza.
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POBRE MUNDO

Idea Vilariño
trad. de Sérgio Faraco

Vão desfazê-lo
vai voar em pedaços
no fim rebentará como uma bolha
ou explodirá glorioso
como um paiol de pólvora
ou mais simplesmente
será apagado
como se uma esponja molhada
apagasse seu lugar no espaço.
Talvez não o consigam
talvez venham a limpá-lo
E perderá a vida como a uma cabeleira
e ficará girando
como uma esfera lisa
estéril e mortal
ou menos belamente
andará pelos céus
apodrecendo lentamente
como uma chaga só
como um morto.



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16 de janeiro de 2012

O CRIME DA FURADEIRA

Ao povo, nada. Eis o critério de justiça no nosso estado "de direito". Entre um policial, que é "dos nossos"
e que está vivo, a um politicamente pobre, que inclusive já morreu, fiquemos com o primeiro. Sai a sentença: o policial é inocente. A viúva não fala em recorrer. Recebe uma pensão do Estado e foi indenizada. De novo a mesma premissa: Hélio (o marido) está morto e ela está viva.
Ninguém diz quanto custou a vida de Hélio Barreira Ribeiro, de 46 anos, morto por um tiro de fuzil quando pregava uma lona no terraço de sua casa, no Andaraí, usando uma furadeira. Convenhamos, não é comum morrer assim. Ele estava no terraço de sua residência, diz a notícia. O policial estava a aproximadamente 30 metros de distância, segundo laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, quando atirou contra a vítima. O fiscal de supermercado foi atingido no pulmão e no coração.

Quem era Hélio Barreira Ribeiro? A quem interessa esse personagem de bastidores que aparece apenas para mostrar que até disso, uma coisa inverossímel, a polícia é capaz?


Lá se foi - um brasileiro - estava pregando uma lona. Estava na sua folga. Ou era fim de semana. A mulher tinha insistido para colocar a lona. Ele se dispôs, tudo bem, vamos lá. Quem poderia supor?

E qual foi a arma do crime? Uma furadeira, amigos. Uma prosaica furadeira levou (eu ia escrever deu cabo) o cabo do BOPE a atirar contra Hélio.
O juiz diz que a justiça foi feita. Que o cabo estava nervoso.
Não é o único caso de brasileiro que morre pelas mãos do Estado. Não será o último. A polícia está alerta para que casos assim se repitam.


O inusitado do caso é a furadeira.

Mas a culpa, a culpa mesmo, foi dos vasos de xaxim.



A FATALIDADE
Murilo Mendes

Quem me conduz meio tonto
Sobre esses campos noturnos
E as florestas de cristal?

Inventaram minha infância
Nas asas da proporção
Por isso aqui neste mundo
Não cheguei a me destruir.

Por isso aqui neste mundo...
Mas o outro mundo, quem sabe?

Batem-se ângulo e esfera
Na minha cabeça azul:
Guerra ou paz, quem vencerá?

Sairei despovoado
Deste amor e desencanto,
Desta amargura sem véu.

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26 de dezembro de 2011

BELIEVE OU NOT BELIEVE

Agradeço a todos os que se lembraram de mim com simpatia, mandando-me mensagens e votos de bom Natal.
Talvez gostasse de acreditar na história de Jesus – um belo romance com um personagem indiscutivelmente arrebatador. Mas as igrejas que falam em seu nome são todas perigosas. As igrejas e todas as instituições que queiram incutir o pensamento único. As igrejas roubaram-nos os bons exemplos, assim como os governos.
Não acredito em governos. Não acredito em quem queira me governar sem me conhecer. Não acredito em governos, nos políticos que os compõem e em seu braço armado: a polícia. Também não acredito na sinalização, no futuro do petróleo, do pré-sal, na Justiça, na Receita Federal, na sustentabilidade, no voluntariado, na OEA ou na ONU. Em resumo, não acredito na lei e muito menos em carta de intenções.

Já acreditei na evolução do ser humano. Mas o tempo me mostrou que é sem chance. O que vejo é regressão. A ganância, a tv, a imprensa em geral, a mediocridade, a indiferença, o medo foram mudando a essência dessa estranha espécie que é a nossa e que, como todas, é parte da natureza. No entanto, resolveu matar a mãe. Está doente, portanto. E a doença não foi diagnosticada precocemente. Está sem tratamento. O futuro é a degeneração.

Em que momento passamos a involuir? Não tínhamos a ciência, a tecnologia, a filosofia – tudo à disposição? Tínhamos, mas todas essas áreas de conhecimento quiseram sobrepor-se à poesia. Deu no que deu.
O tempo passou e as tendências mudam.
As coisas vão endurecendo na crise. Para o extermínio, é um passo.
Quem fica? Quem sobra? Quem pula?
O mundo acaba quando apagar a luz?
E como ficarão as conexões jamais perfeitas?
No que acredito: cada um no seu rumo, cada um com seu papel, na sua missão, grande ou pequena, no diário dever de viver para um dia ir-se. Para outro planeta, para outro plano, para o encontro com os afetos verdadeiros que a violência da vida deixou separar? Sabe-se lá.
Uma coisa em que acredito inevitavelmente é na morte. Sobre o seu advento não pairam dúvidas. E ela traz consigo o mistério - o único mistério cercado de milagres.




Mas não vou deixá-los sem a Poesia, que permite todas as crenças (e descrenças) e onde mora a liberdade.

LITANIA DO NATAL



José Régio


A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus…»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

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9 de dezembro de 2011

MAIS FUTEBOL




Não quero que o ano acabe sem deixar aqui um modesto registro. Nada de gigantesco como os cifrões da Copa nem tão cínico como a crise econômica. Um registro, apenas, de quem observou durante anos a permanência de João Havelange na FIFA.

Sabe-se que Havelange renunciou há dias, pressionado por denúncias de corrupção. E que a situação de Ricardo Teixeira também não anda boa. Por mim, nunca tive dúvidas e não preciso de provas. Só fico pensando que deve ser uma vergonha chegar aos 93 anos e afinal ver revelado o fato de que passou a vida mentindo para milhões. Mandando e desmandando como um rei. Aliás, pediu até à Fifa para que a neta "ocupasse o seu lugar".

Caem, cedo ou tardíssimo, como é o caso, os exploradores de ilusões.


Não houve, durante todo esse tempo, um outro João. Um João que se levantasse, mesmo que apenas com a voz.

Não nasceu nenhum outro João Saldanha.


Obs: A postagem ia sem foto, que eu não sou louca de botar aqui Havelange e Saldanha. Preferi buscar Afonsinho, seja lá onde esteja, para enfeitar o plantel dos bons.


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4 de dezembro de 2011

SÓCRATES













Hoje morreu Sócrates.
Não o filósofo, tampouco o meu gato.

Sócrates foi o único jogador a me fazer interessar por futebol.
Era a graça, a elegância, as pernas de um galgo,
(no tempo em que podíamos ver
as pernas dos jogadores).

No campo, era a beleza em movimento
Quando falava – pensamento.
Foi-se tão cedo, o Doutor Sócrates
e leva consigo um par de pernas magistral.
Podia ter sido um filósofo
E era um gato.




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6 de novembro de 2011

A GRÉCIA PARA OS GREGOS

Viva Melina!

por: Vera Maria Lopes



Pensando em dívida, não posso deixar de dizer que não entendo por que a Grécia não manda a conta para todos os museus (Londres, NY, Paris, Berlim...) que expõem aquelas estátuas de nariz quebrado, pau de fora e sem braços, ânforas, vasos, colunas jônicas !
E os direitos autorais das tragédias, e o esporte olímpico, as táticas militares e religiosas? E a cidade de Maratona por que não cobra royalt sobre o uso do nome a cada competição que se realiza em cada canto do planeta?
Ah e tem as fórmulas de Pitágoras, Arquimedes e as tábuas de logarítimos. Já pensou o que seria da engenharia e da arquitetura sem as fórmulas mágico-lógicas que os gregos nos deixaram?
E o arroz à grega?
Já pensou se eles resolvem apresentar as contas dos direitos autorais e royalties? Acho que Merckel, Sarkozy e Obama, no ajuste geral, teriam que passar mais algum para os gregos.
Acho que esta sugestão merece ser publicada no "Integrada e Marginal." Afinal a crise financeira da Grécia é uma preocupação global e esta é a modesta colaboração de uma endividada de carteirinha.





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31 de outubro de 2011

DRUMMOND TODOS OS DIAS







Não importa que há anos eu observe com tristeza a importação da festa do dia das bruxas para dentro das escolas brasileiras. Não importa que queiram dar a um dia, o dia de aniversário de Drummond, o nome de Dia D, o que na verdade significa o dia da invasão da Normandia. Talvez tenham esquecido, não sei. Talvez não ensinem mais isso nas escolas, ou ninguém mais veja filmes de guerra.


No dia do aniversário de Drummond, eu pensava. Que vergonha! É assim que querem ser primeiro mundistas?


O que importa mesmo é que nesse dia o melhor a fazer é buscar, na memória, nos livros ou na internet, a maravilha que Drummond nos deixou, em que pese alguns acharem que tem muita coisa ruim. Não importa nada. Só que do melhor que fez, fez grande e isso deveria isentá-lo de críticas daqueles que, infelizmente, não acharam o seu melhor.




Outro abuso do pessoal sem noção é trazer a sua (assim mesmo, sua, e não a imagem dele) imagem para o programa do PCdoB. Primeiro, que a sigla do PCdoB não é a verdadeira. Segundo que Drummond passou apenas pelo Partido. Passou meteoricamente.
O que não passa é a poesia.
Não importa que hoje já seja novembro e seu primeiro dia será também de buscá-la, a poesia de Drummond, e ler todos os dias, ler na madrugada, como reza. A poesia da humanidade. A ela pertencem todos os dias.



MÃOS DADAS



Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.





28 de outubro de 2011

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA





Houve um tempo em que as mulheres não votavam. Houve um tempo em que o samba era reprimido, assim como os terreiros de candomblé. Houve um tempo em que a a cocaína e outras drogas circulavam livremente pelos salões do Brasil, quando a elite copiava os hábitos europeus e falava francês. Usavam-na os ricos e as putas e movimentavam os casarões da rua Alice. A prostituição era proibida.
Houve um tempo em que o divórcio era proibido. Houve um tempo em que o amor homossexual era proibido.
Houve um tempo em que a bebida foi proibida e depois novamente permitida. Houve um tempo em que todo o mundo fumava, nos aviões, nos trens, em casa, no cinema.
Tudo passou. Sempre chega o tempo em que as coisas mudam, as necessidades se impõem, os interesses variam. A lei, sempre atrasada, chega lentíssima. Agora mesmo ouço dizer que os herdeiros do trono britânico já podem casar com católicos. Que bobagem! Mas até isso mudou.
A únca coisa que não muda é a polícia.
Vejamos o caso da USP: A Reitoria e a polícia fazem um acordo para manter a segurança no estacionamento do campus, onde já aconteceu um assassinato, estupros, espancamentos, assaltos e furtos em geral. Combinado isso, a polícia resolve prender três pessoas que estavam fumando maconha, no que se pode identificar uma ação conhecida popularmente como "mostrar serviço".
Por que motivo não ficam quietos e seguem observando a ver se não aparece algum ladrão, assassino ou estuprador? Quem é que não sabe que em todos os campus do Brasil os estudantes fumam maconha? Toda a faculdade, todo o parque toda a praia tem o seu fumódromo. Que palhaçada é essa? Vão prender quantos, para enfiar onde? No maravilhoso sistema carcerário brasileiro? Para uma temporada de recuperação? Para integrar o usuário na sociedade? Desculpem, mas às vezes ainda me irrito. Que bobagem!
Tudo passa.

E outra: é pela força que se dirimem os conflitos na USP? A Universidade não é um lugar para a formação das idéias? E elas precisam ser todas iguais? Então não sei para que servem. Melhor abrir uma fábrica de robôs.


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27 de outubro de 2011

ORLANDO SILVA, O PRIMEIRO






O Orlando Silva que conheci foi "o cantor das multidões", que minha mãe ouvia no rádio e cantava. Eu achava meio empolado, mas gostava. O que era engraçado é que ela imitava os excessos.




Quando apareceu o outro Orlando Silva, na cabeça do Ministério dos Esportes (coisa que eu também acho um excesso) olhei praquela cara que nunca tinha visto antes e pensei: legal! É negro, é baiano - cumpram-se as cotas.
Depois fui sabendo uma coisa e outra, mas a mais enfática é, ao que parece, o fato de que o Ministro não pratica nenhum esporte, assim como Ricardo Teixeira. Agora entra Aldo Rebelo. Mais fraquito, impossível, mas está sempre no banco para tapar o buraco dos titulares. Um soldado do partido, como se diz.


O que importa dizer é que justamente neste escândalo, formatado como todos os outros ou melhor, tenha ficado mais explícito o jogo político da direita e seus meios de comunicação. O policial federal acusou mas não mostrou nada. E quando ia mostrar, afinal, ao saber que o Ministro se demitira, desistiu de mostrar as ditas provas. Agora o ex-ministro Orlando Silva sabe que o fato de ser negro só faz com que, na hora da saída, ele seja tripudiado mais do que os brancos, como fez Antonio Carlos Magalhães, o Neto, a mais perfeita encarnação de um dos maiores quadrilheiros que o Brasil já teve. Como diria Milton Santos, "Tente ser negro e pegar um táxi em Nova Iorque".

E o que é um Orlando Silva (o segundo) perto de Antonio Carlos Magalhães? Faz lembrar a pergunta de Brecht: "O que é um assalto a banco perto da fundação de um banco?"
É a mesma coisa. Foi-se Orlando Silva ( o segundo, porque o primeiro ficará) mas e o resto? Aqueles em quem ninguém fala e fica isso por isso? Ninguém se lembra do Sarney na hora do Basta?
Sarney é o nosso Berlusconi. Ninguém quer mas ninguém tira.

O Ministro Orlando Silva vai cumprindo o seu inferno. Resta cantar " Aos pés da Santa Cruz / você se ajoelhou / e em nome de Jesus/ um grande amor você jurou / jurou mas não cumpriu / fingiu e me enganou...


Assim é o poder.


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20 de outubro de 2011

CASA DAS MÁQUINAS - UMA INVENÇÃO











Caros amigos, dei-lhes folga no mês de outubro. Terá sido porque não aconteceu nada? Aconteceu muita coisa, mas como são as coisas de sempre, me abstive de comentá-las. O mundo vai ficando muito repetitivo, e segue no caminho da mediocridade - é possível? Venho, no entanto, com uma novidade formidável. Trata-se do livro de estréia de Alexandre Guarnieri, CASA DAS MÁQUINAS, que a Editora da Palavra revela aos leitores que querem, antes de tudo, acreditar que sim, o novo é possível, embora cada vez mais raro.


Anos atrás, quando li pela primeira vez a poesia de Alexandre Guarnieri fiquei impressionada. Talvez não tenha nem entendido, de pronto. Mas me valeu a intuição. Por algum motivo que nem eu sabia, tinha certeza de que estava diante de uma coisa nova, bem construída e, além de tudo, (fui ver depois) absolutamente poética, profunda, bela e terrível.

Não é leitura para quem pensa que conhece tudo. Há que seguir. Vai aqui a instrução do autor, contida na contracapa:
tome o livro ao alcance do olhar, ( a leit- / ura é o combustível), tome-o pois, à mão,/ o tal dispositivo, livro ( é no bunker de/ neurónios o mistério, à senha ), que ninguém sabe, ainda, ao certo, ao torque/ da chave na ignição , se ligará ou não


O livro de Guarnieri impressiona não só pelo conteúdo, mas também porque o objeto livro é também uma criação do autor. Não só a Casa produz poesia como cada engrenagem foi observada, detalhadamente azeitada para que tivéssemos a chance de ver a máquina, várias máquinas, cada compartimento de cada uma delas, em pleno funcionamento. A organização, seleção, as imagens, o projeto gráfico - tudo é obra do poeta. E ainda traz às páginas temas, palavras e procedimentos que poucos ousam utilizar, dando-lhes nova face, despertando-lhes novo sentido.


Outros já fizeram? Tudo o que fazemos é feito do que os outros já fizeram, se formos inteligentes o bastante para captar o que nos salva ou o que apenas nos serve. Guarnieri soube fazer, e não sou eu, uma diletante, que garanto. Poetas e conhecedores indiscutíveis, Marcus Fabiano Gonçalves, autor do texto da orelha e Mauro Gama, poeta e crítico, autor do posfácio, me dão razão.
Eis o que escreve Marcus Fabiano Gonçalves:

Das esferas celestes ao computador, de Ptolomeu ao robô, o homem pensa o mundo como máquina. Mas como pode a máquina, que é morta, servir de metáfora da vida? Parte dessa resposta está no livro de Guarnieri: pertencendo ao domínio do movimento, a máquina empenha-se em aproveitar a energia, tal como o corpo humano. Recém as mão do hominídeo deixavam o solo e já estavam dadas as condições para a aparição da ferramente e da linguagem: o gesto, a ostensão, a figura rupestre, ímpetos de comunicação da técnica e das coisas, dos sentimentos e das sensações. De fora o homem se inventava um dentro e não tardaria para que o artesanato forjasse arranjos cada vez mais complexos, capazes de moldar a matéria em sistemas de partes combinadas pelo acúmulo de sucessivas conquistas da inteligência e sensibilidade.
A máquina subrodinou o mundo à transformaçao pelo homem, que, mudando o seu entorno, mudou também a si mesmo. Da lança à alavanca, do utensílio ao aparelho, as idéias de causa e finalidade aperfeiçoam-se na noção de funcionamento, esta espécie de vida das máquinas que, à diferença do homem, nascem na eureka e morrem no ferro velho desde sempre sabendo do seu para quê.
Há nos poemas de Guarnieri uma insólita capacidade de maravilhamento com essa argúcia dos engenhos, mesmo quando não possamos compreendê-los completamente. Há um fascínio perscrutante, uma atenção agudíssima vislumbrando por entre parafernálias a eclosão daquele instante em que a mão, a mente e a circunstância juntas inventaram ou descobriram a ferramenta.
(...) Hoje, entretanto, as máquinas colossais também se tornaram mais que minúsculas: nanométricas, moleculares. A química e a física são as novas engenharias dessas máquinas mínimas. Aparentemente sólidas e tão suavemente tácteis elas doravante em nada lembram a pesada empunhadura do machado de sílex.
Do botão à tecla e desta ao ícone digital (e logo à voz, ao olho e quiçá ao pensamento) nossas bugigangas de efêmera elegância envelhecem tão rapidamente que suas carcaças obsoletas soterram a memória da graxa dos motores e do carvão que tisnava o rosto dos mineiros no alvorecer da Revolução Industrial. Tudo isso parece já pertencer a um passado remoto e longínquo. Todavia, apenas parece. Enquanto o homem tiver corpo, a máquina não morre nem se torna virtual. Ela somente se oculta, prolonga-se em próteses, protege-se em caixas e carenagens, aloja-se em compartimentos no ventre da urbe ou circula subterrânea por suas artérias tubulares. Ela enfim sobrevive na Casa das Máquinas, recinto de acesso restrito ao qual somos agora convidados por esse formidável livro de Guarnieri. Em poemas de sofisticado alcance rítmico e imagético, ele revela parte desse enigma das máquinas a nossos espíritos tão precariamente fascinados por mecanismos e automatizações, signos maiores da própria inconsciência nossa da cada dia. Afinal, é do paradoxos de uma robusta e delicada maquinaria da linguagem que Guarnieri nos fala. E como ela é blindada por um invólucro viscoso contra as investidas de decifração pela reflexividade, só mesmo à poesia ela porderia entreabrir-se assim, majestosa e circunspecta.


... E Mauro Gama:
(...) Guarnieri percorreu todas as trilhas de seus antecessores e informou sua compulsão expressiva com a tradição que o precedeu: com a tradição, esclarecemos, naquele sentido histórico e dinâmico em que Eliot insistiu e pelo qual sugeriu "a concepção da poesia como um todo vivo de toda a poesia já escrita". (...) Guarnieri trabalha sua linguagem com uma consciência integrada não propriamente de suas qualidades e resultados "literários", mas físicos e fisionômicos, indissociáveis do desenvolvimento interno e concreto, gráfico, de sua escrita.


Ao encerrar sua primeira coletânea, o poeta instala o leitor entre paredes a um tempo gráficas, fonológicas e semânticas sem saída, sem horizonte além do que, inquietantemente, pode estar sendo gerado na seção terrificante de "A ânima da máquina": sua esperença centrífuga é o desastre final, ou a energia libertadora? Há algo de esmagador e apocalíptico em seu "Blecaute". A propósito, não esqueçamos o Brecht capaz de nos ensinar, que " de um rio que tudo arrasta/ se diz que é violento,/ mas ninguém diz violentas/ as margens que o comprimentem". É como no texto de Guarnieri: ali se consubstancia, na recriação de um universao verbal, a maior violência dos nossos dias: a da perda de qualquer sentido das atividades humanas emocionalmente dissociadas e em condições de crescente confinamento.

Eis aí:

Casa das Máquinas terá lançamento no dia 08de novembro, no Centro Cultural Justiça Federal,às 18 horasAv.Rio Branco, 241 - Sala de Leitura da Biblioteca - 2º andar.
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25 de setembro de 2011

MACONHA PARA A SAÚDE






Há alguém fumando maconha no Rock in Rio? Os seguranças pegam-nos pelo pescoço, dão-lhes uns tapas, levam para a delegacia, aceitam qualquer prenda ou o cidadão é convidado a apagar o cigarro? O que é que vocês acham? Entre 300 milhões de usuários de drogas no mundo ninguém está, neste momento, acendendo um cigarro de maconha no meio de tudo?
Não me chama atenção o rock in ruínas. Há muito tempo o rock é um mito a derrubar. Pois derrubaram. Cláudia Leite e Ivete Sangalo e por aí, incluindo sertanejos e padres, já mostraram. Faltou Luan Santana. Drogas legalizadas, que fazem um mal horrível e que os jovens, e não só eles, são incentivados a consumir, sem saber que a ditadura dos dias de hoje é o consumismo. Fora isso, má informação (ou má intenção?) porque Martinho da Vila, Sandra de Sá e Bebel Gilberto nunca foram roqueiros na vida.
O jornal O Globo mais uma vez (lenta e gradualmente) traz a sua opinião de "vanguarda" em editorial, seguindo a idéia do exmo.sr.ex.presidente.e.agora.comandante da Comissão Global de Política sobre Drogas, Fernando Henrique Cardoso (aquele!) o que equivale a dizer que defender a descriminalização da maconha é também uma política do jornal.
E eu? Como é que eu fico? É ele o meu comandante, agora? Tomou a minha bandeira? E O Globo é meu porta-voz? Meu Deus! Estou enlouquecendo, me ajudem.
Li muitas vezes o texto. Reparei, por exemplo, que foi abordado o aumento do consumo global de drogas, os bilhões que gera e que nem a Coca-Cola iguala, o caso mexicano, o da Colômbia, do Afeganistão, de El Salvador mas não fala, em nenhum momento, na questão das armas. Estranho, não? Também não fala na extinção dos pobres entre 18 e 25 anos, nem nos milhares que se espremem nas cadeias.
E tem mais: de repente, uma frase solta, assim, como quem pousa, quase no fim do texto "Se é fato que muitas pessoas caem na armadilha das drogas é justo dar-lhes também o direito de sair". Fiquei pensando no que isso podia significar. Armadilha? Justo? Dar-lhes o direito? Que é isso, afinal?
"Cada vez é mais evidente o fracasso da guerra às drogas declarada há cerca de 40 anos pelo presidente Nixon", diz o editorial. Ora, Nixon caiu, mas a guerra continuou. Não seria o caso de interromper por aí?

O Estado prefere abrir mão desse absurdo de dinheiro para poupar-nos a saúde? Que bonzinho! Mas o Estado não precisa de dinheiro para a saúde? Quem sabe? Imposto direto sobre comercialização, venda e consumo. Quer fonte melhor?
Acho que a idéia não é má, afinal, há dois editoriais na edição do globo de 25 de setembro. Um se refere à CPMF; outro, à descriminalização da maconha. Editoriais não são escritos por acaso, vocês sabem.
E agora? Mas até hoje se dizia que a maconha era ruim para a saúde?
Quer dizer que agora não é mais? É a mesma coisa que o açúcar, o café, o chocolate?
Ah, bom.
Então dá para pensar em caixas de cigarros vendidos na banca com fotos dos âncoras de O Globo dizendo, sorridentes: Maconha não faz mais mal à saúde.




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12 de setembro de 2011

OLHA O BICHO QUE DEU

Leio no jornal que o Governador Sérgio Cabral acha que o jogo do bicho, se aberto e legalizado, poderia ser uma fonte de financiamento importante para muita coisa. Ora, que eu saiba, o jogo do bicho é aberto (o cidadão pode apostar em qualquer esquina), e legalizado. Já vi policiais e guardas fazendo a sua fezinha. E nunca vi ninguém preso por exercer o seu direito ao azar.
Os apanhadores de jogo do bicho, pessoas aceitas pela sociedade, trabalham na calçada, democraticamente, às vezes sentados em cadeiras cedidas pelo comércio local. Não há programas para recuperação e reabilitação de pessoas viciadas em jogo do bicho.
Há os jogadores contumazes e os eventuais. Todo o brasileiro já jogou no bicho um dia. Se não jogou, pensou em jogar. Sem culpa.

Finalmente, fonte de financiamento sempre foi, para políticos e escolas de samba em geral, que tudo é carnaval.
Está tudo tão acertado no jogo do bicho que sobre ele não há desavenças. Não existe tiroteio que tenha como fonte o jogo do bicho. Os banqueiros do bicho são mais limpinhos, dá para conversar com eles numa boa. Têm avião e mansão. Gente fina. Recebem super bem e às vezes rola um pó puríssimo, como há muito não se via. Não tem baixaria, baile funk, essas coisas. Às vezes tem até canja de sambista.

Ninguém conhece o valor do mensalão do bicho. Já em relação às drogas já se sabe que a patente é determinante para estabelecer o valor. E os envelopes já vêm com o nome dos destinatários. Nada de banco. O dinheiro sai direto do cofre da empresa para os funcionários (no caso, terceirizados).
Você pode pensar que são os antigos policiais, a rebarba da corrupção, que ainda não foi treinada em moldes mais modernos para a integração com a comunidade que está fazendo essas barbaridades. Nada disso, amigos, os policiais afastados são recrutas. A idéia (diz o jornal) era justamente impedir a contaminação dos agentes com esquemas de corrupção. Foram formados pelo Centro de Aperfeiçoamento de Praças (Cefap), que é, ao que tudo indica, uma ótima formação. O recruta já sai sabendo o que os antigos levaram anos para organizar. Talvez pudesse haver um critério para aumento por antiguidade, por exemplo. Há que estudar.

Claro que a pacificação é possível! O jogo do bicho, por exemplo, está totalmente pacificado.



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29 de agosto de 2011

POESIA ESSENCIAL




Caros amigos



Não comentarei aqui o triste acidente ocorrido em Santa Teresa. (Alguém tem dúvida de que essa é uma maneira de acabar com os bondes?) nem a declaração de um chefe de polícia de que "A Milícia mata mais que o tráfico"; a morte por atropelamento causada pelo ex-responsável pelo projeto da Lei Seca ou a cassação da carteira da Diretora do Detran. O que hoje é notícia, amanhã é estatística, principalmente em relação às mortes. Foram-se as pessoas. O governo lamenta, mas dá três dias de luto pela morte de um funcionário da Rede Globo.


Eu não sei bem o que isso significa, e talvez não alcance jamais.


É que sozinha, no meu retiro, às vezes quero comentar os acontecimentos. Mania de ser gregário que ainda subsiste. Mas os acontecimentos de agora são também os não acontecimentos, tipo: "A notícia de última hora é para informar que o terceiro filho do ditador NÃO foi preso". Ou "A vitória ainda NÃO foi alcançada. Coisas assim, do avesso.
Melhor é manter distância e partir para o que é alto, para o que nos estimula e encanta. Falo aqui do volume da Série Essencial editada pela Academia Brasileira de Letras sobre o poeta Raimundo Correia, de autoria do poeta e ensaísta Augusto Sérgio Bastos.


A melancolia, que acompanhou Raimundo Correia durante toda a vida, mais a doença e o desgosto causado pelos invejosos ante às suas qualidades de versejador se dissipam durante a leitura do texto que lhe dedicou Augusto Sérgio Bastos, também um poeta essencial. A voz que ouvimos é a de quem compreende, de quem fala com tanta naturalidade e conhecimento sobre a vida, profissão e poesia de RC que bem poderia ter sido um contemporâneo, um amigo, uma testemunha daqueles tempos.


Raimundo Correia todo o mundo conhece, ou quase todo o mundo que gosta de poesia, mas Augusto Sérgio Bastos não é devidamente conhecido e eu, que gosto de homenagear os vivos, quero informar também que ele é um grande contador de histórias. E estará no próximo dia 5 de setembro falando sobre Raimundo Correia, não só sobre o que está no livro, mas também contando casos interessantes da vida do poeta. No Pen Club, às 18 horas, na Praia do Flamengo 172- 11º andar. É para não perder. Como disse o próprio Augusto em seu poema



Cotidiano



Há que se vender jornais:
isso o jornaleiro faz.
Há que se controlar o trânsito:
isso o guarda na esquina faz.
Há que se varrer as ruas:
isso o gari agora faz.

Há que se tirar o pó das palavras:
isso só o poeta faz.







Deixo-lhes, portanto, um dos mais famosos poemas de Raimundo Correia e, naturalmente, um do poeta Augusto Sérgio Bastos.


Mal Secreto .
Raimundo Correia




Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Cruzes
Augusto Sérgio Bastos


Cruzes são braços magros
Braços que nunca se fecham
Braços que nunca se tocam

Vigiam do alto do morro
Acolhem na torre da igreja
Espantam no milharal

Alguns carregam às costas
A outros servem de culto
Que a elas pedem socorro

Com esses vão para o túmulo.




Obs: Não resisto dizer que reparei, na capa, tratar-se de uma edição impressa pela imprensa oficial. Pensei logo que a imprensa oficial seria a do Estado do Rio de Janeiro. Não mesmo. É a do governo de São Paulo que faz imprimir a coleção. Alguma surpresa nisso? ...

12 de agosto de 2011

DETALHES DE UM CRIME

A polícia afasta a hipótese de um crime passional no caso de assassinato da juíza Patrícia Acioli.
A juíza não tinha escolta policial.
- Os pedidos de escolta, disse o ex-presidente do Tribunal de Justiça, Luis Sveiter, são analisados pela diretoria de segurança do TJ. Na minha gestão, não houve nenhum pedido de escolta para a juíza. O que me consta é que ela preferia a segurança do próprio marido, que era policial militar. Como assim, preferia?
Um marido servindo de escolta? As notícias mostram: o amante de hoje é o matador de amanhã. A justiça não tem autonomia para decidir a quem deve proteger?
Um juiz, e mais ainda uma juíza tem noção do que o crime prepara enquanto ela manda bandidos para a cadeia? O marido, policial militar, não temia que ela sofresse algum tipo de atentado? Quanta calma nessa família! Quanta confiança na lei!
O fato é que a juíza chegou em casa na madrugada, numa região deserta, sem a companhia do marido, que em princípio seria a sua escolta.
Onde estava ele? E quem sabia a que horas ela chegaria?
E se os bandidos já estavam esperando, conforme disse um porteiro que observou a movimentação, por que não tomou providências?
Fico pensando no que leva uma juíza a casar com um policial.
Quem mexe em facções, nunca sabe o que irá encontrar.
A polícia está ocupadíssima. Depois do menino morto pela polícia, do seqüestro do ônibus e da matéria abordando o governo como quadrilha, vamos ver o que nos espera.
Já a juíza, não espera mais nada.
Se é essa a segurança para os juízes, imaginem o que pode esperar o povo miúdo que labuta nas ruas para garantir a sobrevivência do dia seguinte.


E outra: a juíza estaria numa lista de 12 marcados para morrer. O crime será desvendado antes ou depois da morte dos próximos? O nome sai no sorteio da Caixa Federal?


Tudo o que era impossível agora é previsivel.




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6 de agosto de 2011

DEFESAS EM BAIXA

Depois de dois meses, sendo que o último praticamente incomunicável, transportada agora para Piratininga, região oceânica de Niteroi, (de quem o governo solapou a dignidade, depois da fusão do Estado do Rio de Janeiro e Guanabara), eis que apareço, ainda confusa frente aos meios de comunicação, depois de tanto tempo de convívio com o simples.

Abro um parêntese para justificar a expressão "solapou a dignidade" que se usava muito nos discursos do passado e que era considerado de grande efeito porque ninguém sabia o que era "solapou" e poucos sabiam o que era "dignidade". Mas o palanque, os correligionários, o talento para o assombro funcionavam que era uma beleza.

Volto à pauta:

Demorei a ter televisão, mas foi o que veio primeiro. Até esse momento eu e Sócrates, o gato que me acompanha, vivemos uma vida absolutamente frugal, distante de aparelhos ruídos e conflitos. Uma sensação de quase não pertencer ao planeta. Luas auroras estrelas surpreendentes, pendurar o tapete, quarar o guardanapo, molhar as plantas, colher os côcos que caem como um dia caíram as nozes e noutros tempos floriram os maracujás. Telhados e chão, terra. Mas também pedras, espinhos, insetos. E naturalmente, esperar os técnicos das operadoras. Que não vinham.

Enquanto isso, livros que esperavam a vez. E eu por eles. Chovia, e entre um chá e outro, numa casa de piso frio, eu aguardava por tempos melhores.

E então veio o sol.

Muitas coisas aconteceram nesse tempo, para mim e para vocês. Alguém nasceu alguém casou alguém separou alguém morreu. As prisões estão cheias e o bandido diz: Nós aprendemos com a polícia. Aprendemos as táticas e eles ainda nos trazem a munição. Como é que eu vou sair daqui para comprar armas? Alguém tem que trazer. A guerra se intensifica. Há sempre uma guerra de extermínio divulgada de forma a que "a justiça se faça". Essa é a nossa guerra. Em outros países elas têm outra forma, mas nunca cessam.


Durante um mês não tive telefone nem estive conectada. Estava mais próxima do caminho das formigas do que dos conflitos mundiais. Querem soluções pacíficas? Aprendam com as formigas. Mas eis que me surpreendo com a publicação dos princípios editoriais das Organizações Globo. Terão alguma coisa a ver com a fase infeliz do Governador Sérgio Cabral, que também necessita de um código de ética por escrito? Será um tempo de desculpas?

Do nada, sem ninguém esperar ou exigir, as Organizações Globo divulgam os seus princípios editoriais, que deixam perplexos aqueles que, como eu, consideram que se trata de uma organização criminosa responsável pela divulgação de programas que deterioraram a educação, a cultura e o comportamento dos brasileiros, em que pese ter levado a cabo projetos de "recuperação" de crianças e áreas carentes.

Pelo que sei, as Organizações Globo sempre estiveram ao lado do poder, e o poder sempre se interessou em mascarar a educação, fingindo que faz sem fazer. Fazem parte da burrificação Xuxa, Trapalhões e, mais modernamente, BBBs.


Será que preparam uma defesa já pensando em que um dia a casa cai, como ensaia cair, por exemplo, (e antes da Copa), o castelo do Governador? Mistério. Alguma coisa há que não me contaram.
E falando em defesa, mais uma que caiu: a de Nelson Jobim. Deve ser mesmo uma fase astral propícia a quedas.




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