24 de junho de 2016

JESUEL MIRANDA - 80 ANOS

A velocidade dos acontecimentos que levaram o Brasil a essa enrascada política em que o golpe  se firma dia a dia, apesar das más escolhas e de decisões ainda piores, do pretenso presidente e sua gang, não nos dá tempo para quase nada. É sempre uma nuvem cinza e fria que paira sobre nossas cabeças como ameaças conspiradas enquanto dormimos.
Não obstante, vivemos a vida, amamos os amigos e a natureza e lutamos contra a corrente. Alguns correm mais. E há mais tempo.  É o caso de Jesuel Miranda, uma criatura que se destaca no universo das nossas afinidades porque é, de fato, um destaque. Foi, literalmente, destaque de Escola de Samba, desses que entram sozinhos porque o seu desempenho é notável e único, e para ele abre-se o espaço e a admiração. Destacou-se na pintura, na confecção de doces, no calor com que se oferece, sábio e bem humorado, tendo enfrentado como um herói da resistência a difícil vida do negro que se destaca.

O que importa, no entanto, e quero registrar aqui, como se fosse o meu diário de ocorrências especiais é a festa de aniversário com que o amigo Zezé Cunha reuniu os amigos de Jesuel.
Hoje é normal chegar aos 80. Mas o que aconteceu naquela noite é que todos estávamos velhos e Jesuel ressurgiu como há 20 anos, deixando-nos perplexos a pensar que a felicidade, que poucas vezes percebemos, havia se instalado ali, naquela festa, e rejuvenescido o aniversariante para que nós, e não ele, ganhássemos um presente, que era ele, inteiro, bonito, ágil, disponível com a mesma atenção e sorrisos para todos. Um estado de graça.
E não sou eu quem digo, apenas. Apenas relatado o que muitos sentiram e manifestaram.


Registro também as palavras que lhe dediquei na noite de 18 de junho, e das quais alguns convidados pediram cópia, juntamente com o poema.

"Fui convidada pelo organizador dessa festa, Zezé Cunha, para saudar o aniversariante, Jesuel Miranda, na comemoração dos seus 80 anos.
Aceitei, é claro. Com alegria e honra. Afinal, assinei também a apresentação no convite da primeira exposição individual de Jesuel, há mais de 40 anos, nesse  mesmo Hotel Manta em que nos encontramos agora. 
Mas depois tive receio. E agora? Como ser porta-voz de todas as pessoas que estãoaqui, da família, dos amigos, novos e antigos?
Como dizer a ele que mais do que celebrá-lo estamos celebrando a nós mesmos, porque o conhecemos, em algum momento da nossa caminhada?
Cada um tem uma visão particular de Jesuel, cada um de nós tem algo a dizer sobre ele; um episódio a lembrar, uma história de que foi testemunha. Mas algumas características, imagino, são reconhecidas por todos. Por isso penso que posso afirmar que:

Jesuel Miranda é um artista: da pintura, da dança, dos sabores da mesa;

que cresceu enfrentando toda a sorte de dificuldades impostas pelos preconceitos, antes mais do que hoje, mas ainda, numa luta sem fim;
que a tudo isso resistiu e resiste, e mesmo assim divertiu-se, diverte-se, e segue alimentando-se da arte.
As histórias que me contou foram motivo de alguns contos que escrevi. Também de um poema que nasceu depois de uma tarde de conversas, entre bolos e chás, quando ríamos das pequenas desgraças que nos afligem e que são sempre substituídas por outras.

O tempo passou. Éramos outros? Ainda somos nós.
Dos incômodos do tempo nos consolamos. Aceitar é preciso. Seguir, cair, levantar. Seguir o sonho acreditando nas pernas.

Por tudo isso,o querido, expresso aqui todo esse carinho multipliciado pelo da tua família, dos amigos presentes ou não que vivem em ti.



VIDA DE ARTISTA


não importa que eu não faça amor como antigamente
não importa que eu já não seduza
mas é bom que vez por outra alguém se encante
com quem sou

não tenho conta das vezes em que fui rainha
 no real palco das ruas
e se hoje o carnaval
vejo na TV
ainda há muito espaço para alegoria
que crio entre telas pincéis
e potes de ambrosia

os moços bonitos vejo de binóculo
para que não se intimidem
moços bonitos e feios
que eu sempre fui cristão

Vou à missa e canto minha sorte
Fome – eu sempre tenho -  de arte
Não gosto de polícia
Não gosto de bandido


Sofri o que era meu.
Agora
só entrego meu corpo
à glória

E vou terminando porque esse encontro dos nossos, na nossa terra, na nossa idade, véio, não é coisa recomendável. Recomendável é rir e aproveitar a vida que se oferece e fortalece nos abraços.

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8 de junho de 2016

PROVENIENTES DO AZUL



A vida muitas vezes deixa de ser surpreendente para ser apenas assustadora. Mas as maldades, as más intenções, as conspirações ficam em suspenso ante ao que é, de fato, surpresa. E deliciosa surpresa.
Frente a ela tudo fica em suspenso, e depois, transformação e encantamento.
Isso é para realçar e louvar o livro provenientes do azul, de Regina Pouchain, a quem encontrei numa livraria depois de muito tempo, com grande alegria.

Para quem não sabe, Regina Pouchain, além de ser poetisa e uma bela mulher, também é companheira de Vladimir Dias-Pino, nome importante no panorama das artes, cuja obra se encontra atualmente em exposição no Museu de Arte do Rio de Janeiro. Digamos que o casal seria mais ou menos como Saramago e Pilar, o amor constante e leal, com a diferença de que Regina Pouchain tem obra própria.

Foi nesse momento de encontro que ela me presenteou com um exemplar de provenientes do azul,  livro de poemas, fotos e aforismos, de que cito alguns

o devir é uma impressão
               que deixa rugas

a memória nos provê de translúcidos fotogramas

a terra é a flor incandescente
                        que cega o sol

o homem, um hiato entre duas cores:
nascimento e morte

viver hoje: uma avenida que tangencia
                            os perigos da cratera

um poeta desdobra enigmas e morre de perguntas 

o pânico é a loucura que escapa

o desequilíbrio é a nossa obra irresistível.


Aí está uma amostra do que provém do azul, perpassa e pousa na nossa sensibilidade. 


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25 de maio de 2016

STF - SUSPEITO TRIBUNAL FEDERAL


Delação premiada. Que triste figura jurídica! Eu sempre conheci por traição. No entanto, agora atingiu outro sentido. Uma "interpretação da lei" desses tempos de mentira.
Como é que se pode acreditar em quem entrega um parceiro, seja de que atividade for? Roubos, negócios, negociatas, segredos íntimos... Quem entrega é traidor e pronto. Não há motivo para que lhe seja dado crédito, a não ser que "interesse". É uma tática policial, quando não conseguem encontrar um culpado, arranjam alguém para "confessar".
Na delação premiada o delator é duas vezes covarde porque dedura e o faz em troca de um favor, o que faz dele um corrompido.
E quem oferece vantagem a um suspeito (preso ou não) por dedurar alguém é o quê?
Um corruptor, é claro.
E é assim que, dizem, vão acabar com a corrupção.

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O LADO BOM




Agora também caiu a minha ficha. Não recebo mais nada a favor do golpe. Somos, afinal, todos da mesma ideologia.
Somos todos harmonia.
Os equivocados foram se retirando devagar, postando foto de cachorrinho, voando para NY ou São João del Rey. Não acreditaram que a luta ia continuar. Não sabem de fato o que é luta popular, coisa que já os secundaristas sabem tão bem.
A solidariedade anônima das ruas na luta por causas comuns é que forja a cidadania, no encontro com o outro, na vivência das vitórias miúdas e das pesadas derrotas. Na chuva, no vento ou na vontade máxima de um simples café. Na alegria de um sanduíche amassado.
O ânimo do povo se agiganta, levanta bandeiras e sustenta faixas
em defesa do próprio poder. Assim é que se faz uma Nação.


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21 de maio de 2016

MULHER - Lenilde Freitas

Enquanto guincham as hienas, em algum lugar há uma voz resistente e sábia, de mulher, como esta que se ergue, de Lenilde Freitas, que nos representa.


 













Mulher 
Lenilde Freitas


Escolheram-me rainha
e com doçura de fada
puseram em minha cabeça
uma coroa   — enferrujada.
Depois, sentaram-me num trono
de dor. Daquela dor não dosada
— mas tudo quase com amor
e com doçura de fada.
Deram-me também um cetro
não dado — só emprestado;
vestiram-me então de preto.
E ao julgarem que me convinha —
deixaram-me  — ali  — sozinha —
rainha e soberana
de um mundo despovoado.
 

CANTO De ARRIBAÇÃO

Caros amigos,

Calma, o pior está sempre por acontecer. Mas não o tempo inteiro.
Também chega a vez do melhor, e o melhor aconteceu.
Estou falando de CANTO DE ARRIBAÇÃO, o livro de poemas de Rosa Ramos, nascida Rosane, poeta de primeira grandeza que a Editora da Palavra tem a honra de trazer a público.
O convite não pode ser formal, não deve ser formal porque o livro resulta de uma reunião de afetos e admirações entre poetas em reconhecimento do raro talento de Rosa Ramos, tantas vezes festejado. E isso não pode ser dito assim, como se fosse apenas um dever de ofício.
Somos todos contentes: a Autora - nossa unanimidade, Alexandre Guarnieri, que selecionou os poemas e criou a capa; Roberto Dutra Jr., que escreveu o texto da orelha, Igor Fagundes, que prefaciou; Clara Lúcia França, que diagramou, Vagner Esteves, que fez imprimir, Lena Brasil, Valéria Pereira e Luiza Viana, que estiveram junto.
A poesia de Rosa Ramos, que já circula na rede, acabou-se de imprimir, como dizem as gráficas.
Que grande acontecimento! O livro, essa moldura, saiu bonito como na criação, abre-alas do que há de maior e absoluto - a grande Poesia, que nos compreende, surpreende, desperta e excita.
Com o fascínio do milagre, temos na mão esse canto que ouviremos, privilegiados, enquanto viramos as páginas, maravilhados na direção do alto, voando ainda, depois, muito depois que tiver partido o último pássaro.




CANTO DE ARRIBAÇÃO

Rosa Ramos

Dia 13 de junho de 2016.
Restaurante Lamas
das 19h30min. às 22h. 
Rua Marques de Abrantes 18
Flamengo - RJ


15 de maio de 2016

DITADURAS

DITADURAS

A ditadura implantada em 1964 era linha dura, com soldados, armas, prisões, arbítrio, perseguições, tortura, morte e impunidade.

A nova ditadura é diferente. (Talvez porque ainda nova, em sendo velha)
Vem chegando com palavras bonitas, "pelo bem do País", buscando a "pacificação", mas o que traz é a destruição, o desmonte, o medo. O canetaço voltou ágil e seguro, com saudade da opressão. Os atores são conhecidos de velhas montagens. Todas elas fracassadas.

Acabou-se a fraca democracia. As leis, de tão usadas, prostituíram-se inexoravelmente. Qualquer um pode mudá-las ou "interpretá-las" a seu modo. Aqueles sisudos senhores da máxima corte de justiça entregaram-se às hienas. Como não identificar (e juntar-se) à própria espécie?

Os direitos de mulheres, negros, índios, GLTs, pobres e outras "minorias" são os primeiras a cair. Mas todos eles têm família, parentes e amigos. Cairão junto? Quem irá amparar quem?

Sem justiça, sem governo e sem alento, resta-nos a vergonha de saber que o mundo inteiro, perplexo, não sabe se ri ou chora por nós.
Eis que começa um outro ciclo. Não é novo. Apenas outro. De novo mesmo, não temos nada. Seguimos com o velho sonho de um mundo melhor, absolutamente possível.

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