15 de junho de 2018

IMPUNIDADE CEM




Quatro meses de intervenção federal das forças armadas no Rio de Janeiro
Três meses do assassinato de Marielle Franco.
As forças federais foram chamadas para combater o que não tem combate. Mas vieram para o mis-em-scène, enquanto Marielle morreu de verdade. 
A polícia investiga. E quando vai investigar esbarra nos privilégios – sabe que daí não pode passar. 
O Gen. Braga Netto sabia que veio para lutar contra uma guerra sem sentido. Mas entrou dizendo que ia fazer e acontec
er. Não fez nada, a não ser barulho e provocar medo nas comunidades. Das “intervenções” pegava 3 fuzis, 15 trouxinhas, e na oportunidade, três ou quatro jovens negros, para dar um saldo “positivo”. As estatísticas sobre o crime só marcam diminuição por falta de combustível.
O Estado militar é assim: resolve que vai fazer a guerra e não importa como, nem contra quem. Há que cumprir ordens. Mesmo que as ordens sejam de um narcisista desequilibrado feito Temer. Mesmo que este desequilibrado, reconhecidamente um usurpador, seja protegido por um judiciário vergonhosamente comprometido com o golpe. Mesmo que o povo odeie o ditador, mesmo que agora, somente agora, a população tenha se dado conta (terá?) do quanto ela é racista e indiferente aos problemas mais prementes da sociedade, mesmo assim o Estado se mantém cego e surdo frente às urgências que precisam ser regulamentadas para dar, elas sim, apoio real e humanitário às vítimas, que são, em qualquer análise, parte da nossa população.
A legalização das drogas torna-se cada vez mais urgente. Não é assunto de segunda linha, não é para passar batida (porque há coisas mais importantes), não é do ramo do entretenimento. A legalização das drogas é a única esperança de menos mortes, menos guerra, menos corrupção na polícia, menos chances para os traficantes, menos penitenciárias – escolas do crime.
A legalização das drogas no Brasil é o primeiro passo para a paz na cidade, no País e o mundo. Há muito mais o que fazer do que invervir (também) na vida privada das pessoas, cidadãs como quaisquer outras.
E Marielle Franco? Marielle Franco ficará como uma brasileira sacrificada pelas máfias que pululam em legislativos que são mais um covil de bandidos do que um lugar de representação.
Ficará como uma morta que também era nossa, e não soubemos defender.
Infelizmente, a nossa cultura, hoje, é de ataque.

31 de maio de 2018

SOCORRO, URUGUAY!


SOCORRO, URUGUAY





SOCORRO, URUGUAY


Para quem não sabe, há muitos anos um uruguaio mantém uma barraca na praia de Ipanema.
Hoje, ao chegar à praia, vi tremular, não muito longe, a azul e branca.
Me deu um aperto no peito, engoli em seco, mas os olhos teimaram em chorar e eu me entreguei. Sol a pino, mar azul, e eu ali chorando porque a gente não é como eles, e nunca será.
Tive vontade de andar até lá e cumprimentar o uruguaio. Talvez num aperto de mão viesse uma centelha que acordasse o Brasil.
Depois pensei: Não. Não vou lá revelar nossa vergonha. Não vou lá reconhecer que o Brasil está de joelhos enquanto o vizinho faz tremular, na nossa praia, orgulhosa, a bandeira celeste da democracia.

Vi na praia, solitária, a bandeira do Uruguay.
Sol fraco. Pouca gente. E ali estava ela a tremular
Era um dia brabo para o Brasil, Um dia comum, de vergonha.
Pensei em andar até lá e cumprimentar o uruguaio. Talvez no aperto de mão viesse uma centelha que acordasse o Brasil. Mas aí bateu a vergonha. Reconhecer que o Brasil, o país do futuro, a pátria nossa tão gentil, a patriazinha de que falava Vinicius está de joelhos, enquanto eles, pequenos, modestos, resistentes, unidos, levantaram o país onde agora tudo é melhor.
Pensava essas coisas enquanto observava, a chorar, na nossa praia vencida, a bandeira celeste da democracia.




19 de maio de 2018

MARCHA DE SAMPA - 10 ANOS DE LUTA

No sábado, 26, é o dia da Marcha da Maconha de São Paulo, fechando maio. São 10 anos daquela que é hoje a maior Marcha do Brasil. 
Um sonho assumido conscientemente é assim: cresce e se espalha como fumaça. E não importa se é ilegal. Importa se é justo. E a liberdade individual é algo justo, a ser protegida pelo Estado.
Mas o que faz o Estado? 
Por isso faz-se necessária a legalização das drogas. Quem não quer a paz?
A paz não é proibicionista nem armada. A paz é fraternal e compassiva.
Algumas pessoas não querem nem ouvir falar nisso, mas fatalmente, e cada vez mais, a proibição das drogas atua no dia-a-dia da cidade e no recrudescimento da violência, de que tanto se queixam.
Sei que muita a gente é contra, por isso e por aquilo, mas se trata de um preconceito tão grande quanto o racial ou de falta de "nobreza de sangue", aproveitando o casamento quase real. Quem quiser de fato saber sobre o assunto sabe onde buscar.
De qualquer forma, sejam contra ou a favor, isso em nada me afasta da causa. A causa é alguma coisa que se põe à frente, como estrada a seguir, aprovada por corpo, mente e espírito. 

Não contarei agora o que devo à maconha, na saúde e na doença, nos bons e melhores momentos, no entendimento do outro e na realidade da marginalização, da vida em dois mundos. Preparo, isso sim, um livro com as crônicas que escrevi desde o início do blog www.integradaemarginal.blogspot.com.br, em 2009, defendendo a legalização, abominando a repressão, as mortes e as prisões desenfreadas. Imagino que de tudo que escrevi, cerca de 300 textos, 20% é sobre isso. 
Este livro marcará meus 50 anos de usuária.

Era maio de 1969, e o Rio de Janeiro era outro. A polícia estava focada em matar subversivos da ditadura. Ignorava outros tipos de subversão.
Aqueles mortos ainda existem, e a eles se juntaram outros, e os fantasmas de uns e outros. Mas sempre há a juventude, que vibra com palavras de ordem pela liberdade, com humor satírico e criatividade. Os jovens estão apoiados por seus camaradas. Comungam das mesmas idéias. E lutam juntos. É a força do coletivo que os impele para a frente. Outros virão. 
São Paulo prepara os 10 anos.
Eu, aos 71, preparo os 50.
Todos ao vão do Masp, no sábado, pelo fim da fracassada guerra às drogas.



4 de maio de 2018

AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA






AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA 

MARCHA DA MACONHA 2018

Já não sei há quantos anos escrevo pela legalização das drogas. Não só da maconha, mas de todas, em situação de igualdade com as lícitas. Já nem sei há quantos anos espero isso, e pensei que morreria sem ver, principalmente agora, quando estamos vivendo um tempo de retrocesso e obscurantismo.
Mas não. O movimento da sociedade é muito mais rápido que o da lei. A lei demora. A Justiça mais ainda. E enquanto isso vão acontecendo coisas, como a aceitação da maconha como fonte de economia de muitos países, a aceitação de que ela é também um remédio, a aceitação de que ela é uma companhia e de que promove a fraternidade entre pessoas e povos. Há um tácito entendimento entre os que seguem a seita da paz.
Então, por que a guerra?
A guerra é porque somos atrasados e subservientes. E não nos importamos de espalhar a morte e o medo pela cidade.
Morrem traficantes. Morrem policiais. Morrem crianças. (Leio, horrorizada, sobre o projeto de blindagem das escolas municipais) Afinal, guerra é para matar e morrer. Por que seguir com essa política fraticida?

Foi Galeano quem disse, se me lembro, respondendo a uma pergunta sobre para que serviam as utopias: "As utopias servem para caminhar".
Caminhemos, pois, de mãos dadas, para acabar de uma vez por todas com esse flagelo que é a tal "guerra às drogas", na qual só existem vencidos.

8 de abril de 2018

O DIA 7 DE ABRIL DE 2018

São Bernardo do Campo, SP.


Não resisti. Não resisti àquele bolo na garganta, à angústia que me oprimia e, nos últimos dias, me punha a chorar a qualquer hora. Não um choro copioso, mas lágrimas que vinham, de repente, sem pedir licença.
E ontem, quando vi, estava recrutando os amigos Lena Brasil e Victor Colonna para irmos a São Bernardo. Não era mais possível ficar em frente ao computador, numa outra trincheira, é verdade, mas não numa em que eu não me entregasse, não entregasse meu corpo à causa. E a causa foi a prisão arbitrária de Lula, dentro do quadro de arbitrariedades que se pode esperar de um sistema que, com o impeachment de Dilma, fez a sua escolha.
E foi então que corremos a São Bernardo com o ânimo renovado, o coração apaziguado pela certeza de estar fazendo o que era certo, a partir da nossa consciência, e que era pouco, mas era o que podíamos dar.
Tinha menos gente do que eu pensava, é verdade, mas teria menos ainda se não tivéssemos ido, os três, ratificando nossas convicções na defesa do homem que pela primeira vez nos acenou com um Brasil menos desigual.
O magnífico discurso de Lula ouvimos muito mal. Helicópteros da PF e da Globo, parados no ar, abafavam a sua voz. Mas do que podíamos ouvir, e do que podíamos ver subia uma emoção coletiva, e essa energia não é pouca nem é rasa.
Lula saudou a presença dos jovens, mas o que eu mais vi foi uma geração mais velha, militantes antigos e fiéis que viveram o Brasil antes e depois de Lula, e sabem das conquistas duramente conquistadas. Os jovens a que se referia eram Manuela D´Ávila e Guilherme Boulos, as lideranças emergentes, e presentes ali.
Depois de declarar que se entregaria, findo o ato, voltamos para o Rio. (precisávamos voltar) e viemos acompanhando os desdobramentos.
A luta não acabara, a luta não acabará jamais. E é preciso que nos aproximemos cada vez mais das ações de resistência.
Temos um legado a defender. Este legado é uma idéia de justiça e igualdade social. .
Ontem foi dia 7 de abril, aniversário do meu filho Gabriel.
E tenho certeza de que olhamos para o mesmo céu.

...

FLORISVALDO MATTOS E A POESIA ETERNA



Estou pensando tudo o que pensam as pessoas que são contra o Golpe. 
Mas não quero pensar. Prefiro postar este poema do poeta baiano Florisvaldo Mattos, que nesta semana completa 86 anos e que copiei do poesia.net, elaborado pelo incansável poeta Carlos Machado.

A EDIÇÃO MATUTINA
À memória de Glauber Rocha,
artista, amigo e companheiro de jornal
Nada sei além do que me contam
os hebdomadários perseguidos
os diários desaparecidos
os livros burocraticamente censurados
os discursos jamais pronunciados
Muito
de dor enclausurada
de raiva contida
de memória desesperada
Muito
de petrificado esterco
de martírio indevassado
fel de carcomida flor
Como em toda experiência humana
como em toda verdade proclamada
há a marca indelével do sofrimento
nas páginas enfurecidas
(...)
Nada sei além do que me contam
furiosas páginas dos diários mudos
Morreu o Chefe de Reportagem
E ficamos todos tristes
A penumbra da noite avança pelo amanhecer
A neblina é densa e os automóveis
entram em choque de faróis apagados
Queremos uma pauta
um roteiro qualquer
Não o que leve ao esclarecimento
de todas as culpas
Não buscamos desvendar o impossível
Queremos uma pauta
um caminho (por exemplo)
Oue comece pelos itens das lojas de brinquedos
prossiga com a listagem para as horas de lazer
Oue enumere os chopes de todos os botequins
Oue reproduza todas as gargalhadas do perímetro urbano
Oue forneça o mais seguro boletim meteorológico
Oue informe o que se passa nos cinemas
Oue esconda os dejetos lançados sobre os monumentos
Oue estimule o Ba-Vi das ilusões primeiras
Oue abra os corações aos ritos do candomblé
Oue dê verso às canções dos trios-elétricos
Oue vista a mortalha dos foliões de todos os dias
Oue prepare o espírito de todos para o Carnaval
E assim seguindo apenas
o curso luminoso
de cada signo morto
perfurando o arenoso
das páginas desertas
bobinas de horror
manchas de tinta fresca
chumbo e insone rastro
chorarei então
por entre os escombros
da edição matutina.

POBRES MUHERES SUBMISSAS

Estou ouvindo o voto de Rosa Weber e pensando no que a oprime. Sua voz é de empáfia e denota perfeito controle. Ela se orgulha de seu lugar no Olimpo do funcionalismo público. No entanto, de tanto aprender foi ficando ainda mais prolixa do q seus pares. Estou aqui há bons minutos e ñ entendi porra nenhuma.
Fico me perguntando por que ñ dá logo esse voto e se cala. Será porque seus colegas tbm fazem votos extensos? Ah, o que fazem as mulheres para pertencerem a um meio quase exclusivo de homens. É duro. É assim.