17 de novembro de 2009

MANUEL ANTONIO DE ALMEIDA - 178 ANOS


Do jeito que inventei de homenagear meus santos, não vai haver um santo dia em que não tenha que escrever. Que maravilha que tenhamos a festejar tantos e tão grandes escritores. Lembro do encanto que me trouxe a leitura das Memórias de um Sargento de Milícias. A realidade urbana, e pobre, acontecendo nos livros. E o estilo. Sempre gostei de estilo. Manuel Antonio de Almeida foi uma revelação. E ainda hoje é um prazer.
Portanto, graças à Internet, compartilho com vocês essa prosa pra lá de boa. Só um pouquinho né, porque bom mesmo é livro.

Memórias de um Sargento de Milícias.
I ORIGEM, NASCIMENTO E BATISMO

Era no tempo do rei. Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo -- O canto dos meirinhos -- ; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo. Daí sua influência moral. Mas tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivava de suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no seu trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos, nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado. Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição. Era terrível quando, ao voltar uma esquina ou ao sair de manhã de sua casa, o cidadão esbarrava com uma daquelas solenes figuras que, desdobrando junto dele uma folha de papel, começava a lê-la em tom confidencial! Por mais que se fizesse não havia remédio em tais circunstâncias senão deixar escapar dos lábios o terrível -- Dou-me por citado. -- Ninguém sabe que significação fatalíssima e cruel tinham estas poucas palavras! eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da Relação, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem em um sem-número de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escrivão, o juiz, inexoráveis Carontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não um óbolo, porém todo o conteúdo de suas algibeiras, e até a última parcela de sua paciência, Mas voltemos à esquina. Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época veria sentado em assentos baixos, então usados, de couro, e que se denominavam -- cadeiras de campanha -- um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era lícito conversar: na vida dos fidalgos, nas notícias do Reino e nas astúcias policiais do Vidigal. Entre os termos que formavam essa equação meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo-Pataca. Chamavam assim a uma rotunda e gordíssima personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos que viviam nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleirão e pachorrento; com sua vagareza atrasava o negócio das partes; não o procuravam; e por isso jamais saía da esquina; passava ali os dias sentado na sua cadeira, com as pernas estendidas e o queixo apoiado sobre uma grossa bengala, que depois dos cinqüenta era a sua infalível companhia. Do hábito que tinha de queixar-se a todo o instante de que só pagassem por sua citação a módica quantia de 320 réis, lhe viera o apelido que juntavam ao seu nome. Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos. Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os dois morar juntos: e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história. Chegou o dia de batizar-se o rapaz: foi madrinha a parteira; sobre o padrinho houve suas dúvidas: o Leonardo queria que fosse o Sr. juiz; porém teve de ceder a instâncias da Maria e da comadre, que queriam que fosse o barbeiro de defronte, que afinal foi adotado. Já se sabe que houve nesse dia função: os convidados do dono da casa, que eram todos dalém-mar, cantavam ao desafio, segundo seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra, dançavam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que é, como se sabe, o instrumento favorito da gente do ofício. A princípio o Leonardo quis que a festa tivesse ares aristocráticos, e propôs que se dançasse o minuete da corte. Foi aceita a idéia, ainda que houvesse dificuldade em encontrarem-se pares. Afinal levantaram-se uma gorda e baixa matrona, mulher de um convidado; uma companheira desta, cuja figura era a mais completa antítese da sua; um colega do Leonardo, miudinho, pequenino, e com fumaças de gaiato, e o sacristão da Sé, sujeito alto, magro e com pretensões de elegante. O compadre foi quem tocou o minuete na rabeca; e o afilhadinho, deitado no colo da Maria, acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio. Isto fez com que o compadre perdesse muitas vezes o compasso, e fosse obrigado a recomeçar outras tantas. Depois do minuete foi desaparecendo a cerimônia, e a brincadeira aferventou, como se dizia naquele tempo. Chegaram uns rapazes de viola e machete: o Leonardo, instado pelas senhoras, decidiu-se a romper a parte lírica do divertimento. Sentou-se num tamborete, em um lugar isolado da sala, e tomou uma viola. Fazia um belo efeito cômico vê-lo, em trajes do oficio, de casaca, calção e espadim, acompanhando com um monótono zum-zum nas cordas do instrumento o garganteado de uma modinha pátria. Foi nas saudades da terra natal que ele achou inspiração para o seu canto, e isto era natural a um bom português, que o era ele. A modinha era assim: Quando estava em minha terra, Acompanhado ou sozinho, Cantava de noite e de dia Ao pé dum copo de vinho! Foi executada com atenção e aplaudida com entusiasmo; somente quem não pareceu dar-lhe todo o apreço foi o pequeno, que obsequiou o pai como obsequiara ao padrinho, marcando-lhe o compasso a guinchos e esperneios. À Maria avermelharam-se-lhe os olhos, e suspirou. O canto do Leonardo foi o derradeiro toque de rebate para esquentar-se a brincadeira, foi o adeus às cerimônias. Tudo daí em diante foi burburinho, que depressa passou à gritaria, e ainda mais depressa à algazarra, e não foi ainda mais adiante porque de vez em quando viam-se passar através das rótulas da porta e janelas umas certas figuras que denunciavam que o Vidigal andava perto. A festa acabou tarde; a madrinha foi a última que saiu, deitando a bênção ao afilhado e pondo-lhe no cimeiro um raminho de arruda.

.

15 de novembro de 2009

JORGE DE LIMA


clique para ouvir Tarde oculta no tempo



Poesia, vocês sabem, é a minha religião. Hoje, portanto, deveria ser feriado nacional.
Feriado nacional pelo nascimento de Jorge de Lima, alto destaque de frente da poesia brasileira. E fosse assim, seríamos um país de feriados porque graças à fé dos poetas eles não param de se multiplicar. Se são grandes como Castro Alves, ou obscuros como eu, não importa. Todos cultuamos nossas devoções. Para qualquer coisa, estão ali, à mão, quando precisamos. É só esticar o braço, dar uma rodadinha com a cadeira, quem sabe, e eles chegam para organizar nosso pensamento, expressar o nosso sentimento, acender nosso espírito tão desejoso de luzes. Tudo isso com o domínio absoluto da letra.
Amém, amemos, amem Jorge de Lima os velhos amantes, encantem-se os novos leitores com a alta Graça do Poeta. E decretemos: hoje é feriado nacional.





ADEUS POESIA


Senhor Jesus, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro.
Senhor Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia.
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.
Quero leveza no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.
Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.
Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam - me dai Vossa mão.



Poema do nadador

A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, o que restará de ti, nadador?
Nada, nadador.


Mulher proletária


Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.
Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.




O grande desastre aéreo de ontem

Para Cândido Portinari


Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.




13 de novembro de 2009

ALDYR GARCIA SCHLEE - Os limites do impossível



Este é Aldyr Garcia Schlee, escritor nascido em Jaguarão com um pé no Uruguai e residente no Capão do Leão. Mas eu sou do tempo em que o Capão do Leão pertencia a Pelotas e foi lá que tive a sorte de ser sua aluna e tocada pela paixão que o move, que é a paixão pela literatura.

De sua obra tão premiada muito já foi dito e vocês podem encontrar tudo no Google inclusive o texto que escreveu por ocasião da morte de Mario Benedetti, que me fez, como sempre, chorar. Assim como chorei com o prefácio que fez para o meu "pedaço de mim", como chorei tantas vezes lendo os Contos de Sempre, O Dia em que o Papa foi a Melo, Uma terra só. Contos de futebol, Linha divisória.
Que sei eu? Para mim é um escritor raro. E enorme. Sabe-se que está tudo lá: pesquisa, história, política, experiências, tudo cenário para a verdade com que constrói os personagens, que somos eu e você, e mais um sentimento fraterno que tem pelas vidas miúdas, pela capacidade de revelar como o sentimento iguala as pessoas e as transforma em heróis de histórias sem grandeza, mas absolutamente emocionadas e emocionantes. Talvez seja essa emoção, essa capacidade de não se deixar invadir pelo desencanto da maturidade que o faz transformar em criaturas de verdade aquelas que nunca se viram assim.

Não vejo a hora de ler Os limites do impossível. Estou louca para sentir a emoção que é única, que vem do encontro da arte com a nossa própria humanidade, despertada por quem conhece a fundo uma coisa e outra.
Estou louca para chorar e rir sabendo que ele está lá, no Capão do Leão, fazendo planos, contando histórias, com a Marlene, com os filhos, com a neta, que é Helena, com a memória de todas as coisas que vivemos e sonhamos, no Pelotense, na Gazeta, e que são como se fossem hoje, de rir e chorar.

Os limites do impossível - contos gardelianos
A fabulosa e triste história do nascimento de Carlos Gardel em Tacuarembó, Uruguai.

© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Edições ARdoTEmpo

Aldyr Garcia Schlee é um dos escritores mais importantes do Rio Grande do Sul e do Brasil. Romancista e contista de fôlego, várias vezes premiado, escreve em português e em espanhol, mora bem ao ao sul do País, em local bastante próximo à fronteira com o Uruguai (Capão do Leão) e transformou tudo isso (vivência, cenários originais e diversidade cultural) em rica matéria-prima para sua literatura. É o designer criador do mítico uniforme da seleção brasileira de futebol (1953).

.

10 de novembro de 2009

AUGUSTO DOS ANJOS - 12 de novembro




Apagão, temporal e Shimon Peres. Pior impossível, mas as autoridades riem com Madonna e o petróleo. Queixam-se os aposentados com razão, a população está a descoberto e a polícia dá medo. Tempos de Deus me livre. Quem está lendo está vivo, e isso já é alguma coisa.
Brindemos, pois, mesmo assim, com Augusto dos Anjos, um chorão daqueles. E fiquemos no Choro (o ritmo) que esse é bom, e é nosso.
E aliás, uma dica: aos domingos, 8 da matina, Henrique Cazes apresenta O CHORO É NOSSO, na MPBfm, 90.3. Não tem pra mais ninguém. É bom demais. Seleção variada, qualidade garantida e comentários de Henrique Cazes, que sabe tudo e também faz história na nossa música. É como se a gente estivesse numa roda de chorões.


A Esperança


A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a Crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da Morte a me bradar; descansa!


A louca

A Dias Paredes


Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
- O segredo d’um peito torturado -

E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.
.

4 de novembro de 2009

A CORJA DA UNIBAN


ÀS VEZES ACONTECEM COISAS QUE JÁ PENSAMOS ENTERRADAS. Ilusão! O assédio sofrido pela estudante da Uniban por causa de uma mini-saia (assim mesmo, do jeito que sempre foi) é coisa inimaginável. Tão inimaginável quando revoltante. Quer dizer que os rapazes não conseguem se conter?
Imaginem vocês se as mulheres não conseguissem se conter a cada peito nu, a cada par de pernas encantadoramente masculinas que passeiam por esses trópicos. O que seria?
Mas enquanto eu pensava no quê escrever, alguém o fez antes de mim, e melhor.
Fiquem, portanto, com Daniel Santos, que prova: os idiotas machistas podem ser muitos, mas não se sobrepõem a nenhum homem que saiba, de fato, o que é uma mulher.

A corja da Uniban

* Por Daniel Santos

Há homens que, diante de uma bela mulher, lhe dirigem galanteios. Outros, no entanto, se enfurecem sem poder de abordagem, pois se sentem (e se sabem) insuficientes para o que mais desejam: tê-la em seus braços.

Uns se apressam a confortá-la, se fraqueja, e podem, ao menos por minutos, segurar-lhe a mão. Outros, sem capacidade de estender a mão a qualquer e raivosos da própria impotência, aproveitam para execrá-la.

Diante de uma bela mulher, há homens que perdem o poder de comando, assustam-se com a súbita sujeição e se enfurecem, sem entender aqueles que se abandonam preguiçosos ao toque acetinado das mãos dela.

Muitos acreditam que a sedução consiste em ostentar bíceps: endurecem nos braços a ereção que não se empertiga entre as pernas. Mas muitos se sentem plenamente viris apenas por abrir portas a essa mulher.

Há homens que abrem portas no murro, mas, felizmente, tantos outros já entenderam que, muitas vezes, basta um jeitinho adequado de intrometer a chave e forçar de leve, bem devagar. Só isso. É o suficiente.

29 de outubro de 2009

CECÍLIA MEIRELLES - 7 DE NOVEMBRO




Nem alegre nem triste, levantou uma polêmica que nem Caetano garantiria. Sou poeta, disse. E quem haverá de se levantar contra Cecília?

7 de novembro é a data do seu aniversário - eternamente.



Tu tens um medo


Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.






(...)

DRUMMOND PARA SEMPRE






Quando Drummond vivia entre nós eu vivia apreensiva com sua morte. Como poderia viver sem o poeta? Poderei suportar o sentimento do mundo? Chegava a chorar só de pensar.
Em agosto de 1987 fazia um frio insólito em Porto Alegre. A estufa ligada tempo integral, a friagem penetrando por baixo da porta, o vento cortante na rua. Eu fazia tricô e assistia televisão. Assim estava quando soube: morreu.
Não resistiu sobreviver à filha, sua única filha. Para quê? A obra feita, os amores vividos, as decepções escritas na pedra.

Foram as crônicas de Carlos Drummond de Andrade que traduziram, para mim, o ânimo daqueles que nasceram em erro geográfico. Cidadãos auto-exilados de suas cidades, aqui está a cidade do Rio de Janeiro. Aqui não sereis mais responsáveis pelo cavalo que foge ou pelo côro de viúvas pranteando.

Drummond transferiu o hábito de sofrer que tanto o divertia para o Rio de Janeiro e da tribuna do Jornal do Brasil pedia socorro para a cidade que via ruir, para a Terra inteira. Ele vinha de Itabira, sabia do que estava falando. E a Vale também sabia o que estava fazendo.

Foi-se o homem, mas não se foi o medo. Estamos 90% de ferro nas almas.
Bem fizeste, poeta, bem fizeste ao pedir

... a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira
a paz do cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho
a paz
da
paz.


Há muitas coisas que não gostarias, nem merecias ver. Principalmente, talvez, a tua estátua em Copacabana. Tu que eras calado, homem sem confidências, agora nem te retrais aos afagos dos desconhecidos nem podes resistir aos maltratos dos vândalos de sempre. Será isso a glória? pensa a estátua de Chopin na Praia Vermelha. Mas o coração não pensa mais.

Teu aniversário, poeta, 31 de outubro. Sei que muita gente não se lembrará porque o Halloween, como sabes, sempre ajuda a te desbancar. Assim está o mundo. Com a globalização, os anjos tortos nem estão mais saindo da sombra. Mas pelo menos sabemos que existem.
Agora que és eterno, deixo, em teu nome, para os que te amam, um consôlo. (O acento em consôlo é para não estranhares).






Consôlo na praia



Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo
Não tentaste qualquer viagem
Não possui casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.












26 de outubro de 2009

GRACILIANO RAMOS e a Justiça



Dia 27 de outubro, dia em que nasceu Graciliano Ramos.

Não vejo nada melhor do que isso para escrever.

Os tempos andam maus. As pessoas têm sido capazes de atos, contra si e contra os outros, que nos deixam perplexas. A violência tem muitas caras, a autoridade tem muitas máscaras. A famosa opinião pública opina, mas as soluções não vêm de lado nenhum.

A injustiça que Graciliano Ramos conheceu tão cedo não mudou muito, de lá para cá, enquanto a chamada justiça existe no papel, e quando chega (confundida com punição) chega tarde. Nunca é capaz de poupar a vítima da tragédia, do medo ou do desespero.
A justiça não existe.
Por isso fiquem com o conto, que é sempre novo, sempre terrível, sempre um exemplo da violência de que o ser humano é capaz e da força, de que também é capaz, de sobreviver aos ataques das feras em que, quando menos se espera, transforma-se o seu semelhante, sem que justiça alguma possa impedir.

Um cinturão


Graciliano Ramos

As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio à minha mãe. O culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se à minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.

Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé de turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.

Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.
Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.

O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.

Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal.
Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos – e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás dos caixões, livre do martírio.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai.Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote.A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.

Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero.

O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.

Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos.Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.
Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.

17 de outubro de 2009

GUERRA NO RIO



No dia em que a ONG Viva Rio dá conta de que é precário o controle sobre armas apreendidas pela polícia no Brasil, conforme levantamento apresentado à Subcomissão Especial deArmas e Munições, na Câmara dos Deputados, acontece no Rio de Janeiro mais uma batalha de uma guerra perversa.

Doze mortos, doze pessoas, doze cariocas se foram hoje, mais dois estão em estado grave. Um helicóptero foi derrubado. E isso que a "inteligência" sabia da invasão anunciada. Sabia? E teve tantas baixas? Imaginem quando for apanhada de surpresa.

Além disso, que armas são essas que derrubam helicópteros? No entanto, fica sem resposta a pergunta: a guerra ao tráfico é para cumprir a lei que criminaliza o uso de drogas ou para alimentar a venda de armas? Eis a pergunta que ninguém responde publicamente.
Quanto ao helicóptero, destaque na imprensa internacional, tudo bem: o Ministro Tarso Genro já avisou que devolve o brinquedo ao Governador. Mas e as vidas, quem as devolve aos pais, aos filhos, às mulheres? Em nome de quê a teimosia de levar avante uma guerra perdida? Por que não tentar outra solução?
O Secretário de Segurança diz: "a população não precisa se preocupar. Trata-se apenas de uma microrregião". Como se não fossemos um povo só, correndo os mesmos riscos, sofrendo do mesmo medo. O Morro dos Macacos fica em Vila Isabel. Microrregião?
Infelizmente, aí estão os pobres na linha de frente da guerra. São muitos, podem morrer à vontade. Polícia ou bandido, não importa. A ordem precisa ser garantida. Por falta de coragem de adotar novas soluções.
Triste para o Rio, vergonhoso para os brasileiros saber que as autoridades que os governam insistem numa política nefasta em que a Nação é a única vencida.

13 de outubro de 2009

OUTRA CABEÇA


Há dez dias da última postagem, muita coisa aconteceu, e principalmente, aquela que me moveu durante este tempo: o lançamento do livro O Silêncio das Xícaras. Agora está. Passou. O livro existe e existirá. Não foram poucos os esforços para que fosse bem apresentado, e ainda com os vídeos, que foram feitos justamente no período que antecedeu ao lançamento, ou seja, no mês de setembro. Também o jornal panorama da palavra, em sua 68º edição, já está circulando e comemorando 10 anos.
Agradeço a todos aqueles que estiveram presentes, apesar da chuva da noite, prestigiaram o trabalho, alegraram o evento e dessa maneira estimulam quem se dedica à literatura sem contar com patrocínios, sem hesitar sobre o que se deve fazer da vida porque sabe que o melhor é a arte.
Agradeço também aos que estiveram junto, todo o tempo, com a mesma intenção. A participação de Anna Heller, Ana Paula Braz, Caroline Loback e Sylvia Heller (atriz convidada) foram fundamentais para a criação do vídeo que acompanhou a obra escrita. Tudo funcionou bem, o astral estava ótimo e a chuva afinal não impediu que todo um trabalho fosse literalmente por água abaixo.Dez dias, dez anos, o que é o tempo? Só consigo guardá-lo a partir de coisas realizadas.

Enquanto isso, a lua sofreu uma explosão, Obama ganhou o Nobel da Paz, os gays reclamam as promessas nos EUA e os de Duque de Caxias têm a sua passeada proibida pelo prefeito. As olimpíadas (ufa!) afinal serão no Rio, e não sabemos como esconder desde já os mendigos que proliferam nas calçadas. Talvez as autoridades possam escondê-los nos buracos das principais vias ditas asfaltadas, ou afogá-los no piscinão de Ramos, assim como um dia serviu o Guandu.
E nós? Façamos a nossa parte. Hoje é o lançamento do livro de Victor Colonna, Cabeça, Tronco e Versos, que tive o prazer de editar. O livro está bonito, com capa de Gabriel Voser, e a livraria Baratos da Ribeiro certamente receberá muitas pessoas que mesmo não fazendo parte do círculo de amizades do autor querem saber que poesia é essa que até Antônio Cícero abraçou ao publicar em seu blog.
Quanto a mim, que gosto de ler os novos, já sei há muito tempo que é boa.


1 de outubro de 2009

O POETA E A PRAXE



Dia 9 de outubro, sexta-feira próxima, será o lançamento do meu livro de contos O Silêncio das Xícaras. Ponto.

Isso requer respiração. Ter um filho é assumir um filho, como escrever um livro é assumir uma estética. O lançamento é a maneira costumeira de dizer: aqui está. Escrevi. Quero que gostem dele. O resto é ilusão, isto é, marketing - droga lícita. Ele sempre lança uma desconfiança sobre qualquer produto.
O livro está pronto desde agosto, e o período de espera desta vez foi aproveitado de forma mais criativa, neutralizando a ansiedade que quase sempre antecede ao dia, preenchido por alguns lapsos, atrasos e algumas surpresas. Também serve para que os mais chegados leiam o livro e dêem suas impressões. Quando são boas, isso também tranqüiliza.
Mas tratemos do lançamento: o melhor de agora foi criar durante o período pré-lançamento, ou seja, participar dos vídeos relativos a seis contos do livro. Cinco mulheres emprestam a voz para realizar um projeto que crescia junto com o próprio livro, uma vez que vários deles levam a imagens rápidas, fluxos, sinapses. Dirigindo tudo, Anna Heller, suave e aguerrida.
Juntamente, estará pronto o panorama da palavra, em sua 68º edição, no ano de comemoração do jornal, chama jamais apagada, na rede a partir de 2005, quando parou de circular impresso. Há uma história contada ali. A história de um jornal, que é um vício para quem gosta de fazer. Estarão lá Augusto Sérgio Bastos, Daniel Santos, Nilzanira Reyes, João Borges, Luiza Viana, Paula Padilha, Gabriel Voser. Todos, em algum momento, fizeram parte do conselho editorial ou estiveram muito próximos. Para a nova fase, está junto também Agilberto Calaça.
Quero informar a proposta (palavra contemporânea) para o lançamento, já que se trata de um evento e acontecerá no cinema, o Cine Santa Teresa - na bendita cidade do Rio de Janeiro, que amanhã correrá o risco de ser escolhida para um evento (outro) esportivo de altíssimas e incalculáveis proporções. (sim, estou fugindo, já vi)
O cinema tem sessões às 19h e às 21h. A partir das 19h o povo que foi para o cinema já estará na sala. De lá não sairá até o término da sessão. Quem chegar depois das 19h vai me encontrar lá para os autógrafos, embora eu acredite que o melhor do autor é o que ele dá no livro, e não o que dá no autógrafo. Falávamos de praxe? eis aí mais uma.
Estarei lá para festejar o filho, hoje robusto, uma vez que está pronto desde agosto. Desejo que as pessoas se reencontrem, conversem, comprem o livro, peguem o seu jornal, que será distribuído gratuitamente, como sempre foi, e aguardem a novidade, que será a exibição dos vídeos às 21h. Ora, essa exibição leva no máximo 10 minutos, uma vez que os contos são pequenos e as leituras correspondem. Feito isso, logo após, a idéia é a de que os poetas presentes, no ato e no jornal, usem a mesma expressão que os contos e os vídeos revelam, recitando seus próprios poemas. Isso significa que é um evento quatro em um, porque trata de livro, jornal, vídeo e poesia falada ao vivo. Melhor impossível.

Outra coisa: quem chegar com um exemplar de baseado em quê? pagará pelo livro 20 reais. Quem comprar o livro O silêncio das xícaras pagará 30 reais e levará um exemplar do baseado em quê?
Você pode dizer - isso é marketing. Respondo que estratégia não precisa ser só de mercado.
Espero que os convites tenham chegado direitinho, a despeito da greve dos correios, e que os amigos cheguem para o abraço; que os amigos de Maceió, Salvador, Porto Alegre, Pelotas, Recife, Luxemburgo, Dublin e Ponta Negra estejam ligados na data. Para que sigamos todos, na trilha dos poetas, para o alto e de mãos dadas.








27 de setembro de 2009

LILA RIPOLL

Já sabemos que os poetas mortos ressuscitam vez ou outra por causa dos poetas que não os deixam morrer de todo. Sempre haverá o poeta que se lembra de um outro que não é divulgado, como a maioria, mas que num momento impreciso crescerá aos ouvidos e aos olhos dos que o descobrem ou que o relembram. Assim é a arte: desdobra-se infinitamente a contemplar todos aqueles que a procuram e até os que não.
Tudo isso para lembrar a poesia de Lila Ripoll, que chegou pela voz de um amigo, que por sua vez a tinha recebido de outro.
Perpassando tudo, a poesia dessa gaúcha de Quaraí nascida em 1905, e que hoje dá nome a um concurso instituído pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.
Além de poeta, militante política.
"Lila foi para Porto Alegre ainda jovem, e se formou no Conservatório de Música. Nos anos 30, após o assassinato de Waldemar Ripoll, seu irmão de criação, iniciou uma militância política que jamais abandonaria. Mais tarde dirigiu o Departamenteo Cultural do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto alegre e candidatou-se a deputada pelo Partido Comunista. Presidiu a seção regional da UBE e organizou em Porto Alegre o 4º Congresso Brasileirio de Escitores. Em 1951 recebe o prêmio Pablo Nerudo da Paz. Quando do golpe militar de 1964 foi presa e libertada pouco tempo depois em função do câncer que a vitimaria. Morre em fevereiro de 1967, deixando uma obra pequena e quase desconhecida. Desde então, não tem mais seus livros editados."
Este é o texto da orelha da antologia Ilha difícil, publicada em 1987 pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do sul, de onde retiro os poemas que seguem.

Retrato

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!

Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.

A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma idéia muito viva
e os sérios pensamentos: - o meu mal!...

O corpo bem magrinho e pequenino.
- Sete palmos de altura, com certeza. -
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!

E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado. Está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê....
E a tudo vive alheio, indiferente!...

Meu retrato. Eis aí: bem igualzinho;
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.

E sabe desde quando estou descrente!...


Vim ao mundo em agosto

Sou triste de nascença e sem remédio.
vim ao mundo no triste mês de agosto.
o mês fatal das chuvas e do tédio,
e nasci quando o sol estava posto.
Vim ao mundo chorando ...(o meu presságio!)
Um vento mau marcava na vidraça
o plangente compasso de um adágio
anunciando agoirento uma desgraça.

Sou triste. É irremediável este mal.
e eu não quero curar minha tristeza.
Só ela para mim tem sido leal.
Na minha via-sacra da incerteza.

Sou triste de nascença. É mal sem cura.
A vida não desfez meu nascimento.
Sou a menina triste e sem ventura,
que em agosto nasceu, com chuva e vento.

Aviso

Um pássaro bateu as asas na janela,
por engano.

Os vidros estavam invisíveis
sob a luz.

Ah! não te enganes também
com minha alma!

24 de setembro de 2009

CASA COR - uma tendência


O assunto está ficando quente, e a cada vez dia mais pessoas discutem a questão da legalização das drogas. Tudo pode acontecer. Um dia acabou a guerra do Vietnã, aconteceu Woodstock, foi derrubado o Muro de Berlim. Quem garante que de uma hora para outra os homens não recuperem a coragem?

Le Monde diplomatique Brasil traz na edição de setembro nove páginas essenciais para a leitura e esclarecimento do público em geral, não apenas para adeptos e simpatizantes, porque relata, sob vários enfoques, a situação e os motivos por que até hoje as drogas não estão legalizadas. Tudo serve para desfazer o preconceito.

John Grieve, especialista da Unidade de Inteligência Criminal da Scotland Yard; Tiago Rodrigues, professor credenciado do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos da UFF; Marco Mari, cientista social, membro dos Coletivos Marcha da Maconha e D.A.R; Caco Barcellos, entrevistado por Maíra Kubík Mano; Luciana Boiteaux, professora de Direito Penal e coordendora do Grupo de Pesquisas de Política de Drogas e Direitos Humanos da FND/UFRJ e Victor Palomo, psiquiatra, formam o rol de pessoas que abordam o assunto da legalização a partir de suas áreas de atuação.

Reproduzo um trecho: "O mercado de drogas é comandado pela demanda e milhões de pessoas demandam drogas atualmente ilegais. Se a produção, suprimento e uso de algumas drogas são criminalizados, cria-se um vazio que é preenchido pelo crime organizado" (John Grieve)

ou um título:

"Aumenta o consumo. O proibicionismo falhou"

Vejam portanto que tenho muitos parceiros na propagação desta idéia. E de peso. Nada de maconheirinho chinelo de quem as classes dominantes fazem pouco. Tudo gente boa, ocupando cargos importantes na sociedade.
Por isso aproveito para coisas mais amenas, como a decoração, por exemplo, e sugiro a nova tendência para o verão que se avizinha, apesar do mau tempo de agora. E isso vale para tudo.

18 de setembro de 2009

LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS - AINDA


Os brancos pobres são negros suspeitos
Os negros pobres são negros culpados
(Ângelo Alfonsin)


Como vocês sabem, este assunto não tem fim, e como agora recebo muito material (me tornei fiel depositária) é justo voltar ao assunto, não muito, para não cansá-lo, caro leitor, mas para defender um direito individual e buscar a garantia de vida das pessoas que moram em locais de risco, ou seja, em toda a cidade do Rio de Janeiro. De maio para cá, quantas pessoas já morreram, senhoras autoridades? Tudo isso porque as plantinhas crescem. Inacreditável!
A volta também se justifica pela simpática resenha escrita por Leonardo Cazes para o meu baseado em quê?, publicado no blog sobre drogas d´O Globo, agora um parceiro. O endereço é http://oglobo.globo.com/blogs/sobredrogas, para quem se interessar.
E já que me refiro a ela, vale trazer à tona o primeiro comentário espontâneo sobre o livro, publicado em maio, por ocasião da Marcha da Maconha.


baseado em quê?
O fininho que satisfaz.

Caminhando na praia de Ipanema me atraiu a moça sentada na areia. Não me era estranha, finco o olhar e reconheço a itabirana Gisele Bragança. Tirei a moça da praia e juntas, tricotando notícias da Cidadezinha, vimos passar a Marcha da Maconha.
Na passeata, umas 300 pessoas. Entre poucos bichos-grilos predominou a rapaziada pequeno-burguesa. Eles são jovens e poetizam no asfalto da zona sul palavras de ordem: “ei, ei, polícia, maconha é uma delícia!/Não tenha vergonha de mostrar a sua cara na marcha da maconha!/Liberdade pra plantar”. No palanque desmoralizaram o movimento quando repetiram o fim religioso da Erva. Palha! Velhas práticas. Palha!
Fumar maconha não podia, afinal, a polícia também estava lá. Uns, de óculos escuros e cara fechada; outros, clarinhos, uniformizados de branco, bermuda e camiseta, não usavam óculos e sorriam.
A Marcha do Rio — pô! maconheiro não marcha, caminha, passeia —, teve a presença do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. A fala do ministro, além dos indispensáveis dados estatísticos, fez apenas revelar nomes e cargos do staff do Governo Lula, defensores de novas políticas públicas pra Erva. Mais nada, tudo a repetição da descriminalização, como é de interesse do tirano pós-moderno, o Mercado.
O grande barato do movimento ficou por conta da contribuição definitiva da escritora Helena Ortiz, com a publicação do livrinho baseado em quê? 46 páginas feitas rapidinho pra serem lançadas na Marcha da Diamba. E, em não sabendo no que ia dar, sem dar bandeira, foi o que ficou de consistente do movimento carioca.
O livro da Ortiz é um tapetinho de retalhos construído a partir de imeios entre duas escritoras e queridas amigas, Rita e Helena. Costurado com recortes de jornais e depoimento de maconheiro véio, chegou no Posto 9 um livro despretensioso, intimista e corretíssimo na abordagem da relação homem-maconha.
Começa assim: Rita, a observadora de formigas quer passar a limpo sua vida clandestina. Seu desejo é ardente manifesto de liberdade. Politizada pela comuna do formigueiro, quer aproveitar a marolinha democrática e oferecer seus segredos de estimação à nobre causa.
Rita quer celebrar a vida, relembrar e narrar experiência vivida a partir de 1969 até 2009, delimitou o tempo histórico entre dois séculos e 40 anos de maconheira. Maconheira, Rita não aceita a designação neoliberal de Usuária, ela é maconheira. Isto
posto, convidou pro banquete a amiga Helena. Poeta sem urgência, Rita quer que a Helena, talentosa na prosa, se ocupe de sua memória. Nesta data-limite o livro sustenta a narrativa em defesa da liberação geral e imediata da Erva.
Baseado em quê? é o maior barato! Quer saber mais escreva para
baseadoemque@gmail.com
Ei meninas, eu também sou tupiniquim, maconheira como vocês!


Cristina Silveira, do Rio, no dia 10 de maio de 2009.

15 de setembro de 2009

NOTÍCIAS


7 de fevereiro de 1915
10 de setembro de 2009



Todos os dias, quando acordamos do sono - morte provisória a que nos entregamos sem medo - pensamos: viver o dia de hoje.
Não estamos doentes (pelo menos até agora não sabemos de nada). O tempo passa célere. Já retornamos para casa. O cérebro trabalhou - quanto! As pequenas apreensões, as quedas livres.

Estamos vivos, é isso.
As notícias que chegam pelo telefone, pela internet, pela televisão vão sendo armazenadas em menor ou maior escala de cuidados.
Mas quando a morte - a verdadeira, nos abarca, quando morre uma pessoa muito próxima: pai, mãe, filho - não importam as guerras, os negócios, a fome no mundo, o tédio fashion, as mortes por petróleo. não só estamos junto ao próximo. Somos o próximo.
E então passamos pelos trâmites de praxe. Quem inventou a praxe?
Enterramos nosso morto. e voltamos para a nossa vida. O mundo segue sem especiarias. Aguardamos a nossa vez, disfarçadamente.

Tudo isso é para contar que minha mãe foi encontrar com o seu amado. É o que penso e espero, assim como espero que minha filha, grande (e eu pequena) me espere do outro lado. Voltaremos? Existirá ainda este mundo? Serei sua filha? Quem me escolherá para pai? Serei mãe de meu marido?
Riam, os que quiserem, da minha crença. Ela me traz alento e basta.
Geni Ortiz. Um nome curto, um nome que se resolve fácil. Ortiz o do marido, Adriano, que amou sobre tudo e sobre Deus. Um bonito marido, de fato. E corajoso. Não aceitou assinar ficha no PC porque não iria dedicar integralmente sua vida ao partido com cinco mulheres em casa. Lutou em 30 e depois outras lutas. Dedicaram-se, os dois, toda uma vida. Ela havia se formado na Escola Normal, mas abdicou do trabalho fora. Abdicou? Sabe-se lá o que conversam os casais.
Registro aqui a sua foto de moça, e a de meu pai, quando são mais bonitos os sonhos, e o amor esplende.