12 de setembro de 2015

A CAMINHO DO FIM

Já não compareço ao blog com a assiduidade de antes, movida a espantos. Já não vejo muito sentido. Tantas pessoas escrevem, mais e melhor do que eu. Tantas vezes os assuntos que me interessam são comentados, analisados, replicados e compartilhados. Não precisam de mim.
Além disso, confesso: sou uma perdedora. Perdi o bonde e a esperança.
Sou contra a maioridade penal: perdi.
Sou contra o armamento geral: perdi.
Sou contra desmatamento: perdi.
Sou contra frases feitas: perco diariamente.
Sou contra a reforma ortográfica: perdi, embora ainda resista.
Sou a favor dos índios, dos sem-terra e dos sem-teto. Venho perdendo.
Sou a favor da legalização das drogas. E antes que os senhores ministros decidam, já sei que perdi.
E ainda venho acumulando perdas quando digo que a polícia é o principal agente da violência, e não da segurança.

Concluo portanto que este não é o meu tempo, que este não é o mundo que esperei transformar, assim como vocês, e só o que consegui foi assistir a quanto ele piorou. Só consegui, afinal, mudar a mim mesma - tarefa ainda não terminada.
Tudo que está acontecendo os livros nos revelaram. Todas as loucuras, os crimes, as retaliações não se repetiriam. Acreditamos na boa vontade dos homens que trabalhariam para que a terra desse seus frutos para todos.
Pois esses terríveis acontecimentos que envergonham a história se reeditam. E piores, porque estão sendo vividos agora, sofridos agora,
O futuro, afinal, chegou.
E como sempre, não estávamos preparados.


PS. A foto também é de algo que perdemos: os rios limpos.


12 de julho de 2015

BICICLETAS - O APITO DA VEZ


A coisa está assim: prioridade para os pedestres é o que dizem as placas, mas as obras, os buracos, as inquietações amedrontam os pedestres e não constrangem os ciclistas da Rua das Laranjeiras, onde a prefeitura executa uma obra para tirar uma via daquela rua já apertada (dois pra lá dois pra cá) via de passagem para a zona sul e para o centro, ainda mais parada nos horários de entrada e saída dos colégios.
Os motoristas de carros (que nos últimos anos pilotam pequenos caminhões), assim como os fumantes, são os perseguidos da vez. Tiraram-lhe as vagas e as ruas para transitar e não se tem onde ir se não houver estacionamento pago. Muito bem pago.
Mas quem mandou comprar? Quem facilitou? Quem permite a propaganda?
Quem deu desconto? Quem? Quem? Quem?
De repente, a cidade é invadida pelas bicicletas do Itaú. Quatro, às vezes cinco vagas são exterminadas para dar lugar ao... estacionamento do Itaú.
É moderno? É a tendência? É ecologicamente correto? Não acredito em nada, mas aceito. Os carros enferrujarão nas garagens com velhas coisas inúteis. Os gatos morarão neles. Ali ficarão também as cadeirinhas que nos obrigaram a ter, mesmo que a criança não fique confortável, nem segura, a cabeça balançando para os dois lados e o material seja muito quente. Já não temos o kit socorro. Não precisou, por demais escandaloso.
Ficarão por aí os comprovantes do IPVA, as multas em lugares nunca dantes, os pardais escondidos, os pedágios escancarados, os conselhos de confiar na sinalização. Os contratos.
Pátria e liberdade - coisa mais antiga.
Sei o que vocês estão pensando. Que tanta coisa acontecendo e eu... Bom, acontece que isto também está acontecendo. E é mais uma mostra da manipulação de que somos vítimas, aos ventos dos negócios.
Eu, francamente, não andaria numa bicicleta do Itaú. Nem que me pagassem, como se dizia há muito tempo e agora não se diz mais.
E tem mais: com essa valorização do "ciclismo", os ditos estão cheios de razão. Conquistaram seus direitos e seus espaços. A mídia os apóia, a indústria das bicicletas vai muito bem. Daí vem o ego. Só que dessa vez vem de bicicleta.
E os motoristas?  Aos leões.
Como sempre, continuamos a trocar direitos por apitos enquanto vamos morrendo, seja em que tipo de transporte for. Já se morre no ônibus, no trem, nos carros, no metrô, embaixo das marquises, de um edifício que, cansado, cai, de uma ponte e até andando de bicicleta.
Há alguma escolha?

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13 de junho de 2015

QUANTO VALE OU É POR QUILO?

"O homem morre sem ainda saber quem é.
A morte coletiva apodera-se da morte de cada um."


Murilo Mendes



Ontem o Secretário de Segurança comemorou o aumento da pena para matadores de policiais. Que eles (os bandidos) se convençam de que não vale a pena matar policiais.
Estranha tática de convencimento, que dá peso diferente à morte de iguais. 

A lei recém aprovada, festejada pelas forças de segurança, não significa nada, no entanto, para os criminosos atuais, que matam sem motivo, impulsionados por históricos estarrecedores, pelas drogas ou pela frequência às melhores universidades do país - as penitenciárias.
E também não significa nada para os policiais. É consolo saber que o autor da sua morte pegará, daqui para a frente, uma pena maior? Estará morto e enterrado e nem aí para o castigo do assassino.
Além disso, há uma contrapartida na medida. Simbolicamente, a lei diz ao policial que ele vale mais do que outra pessoa. A atitude agressiva de abordagem com certeza dará um salto. Afinal, o policial é agora ainda mais poderoso. E o bandido mais raivoso. Mais mortes vêm por aí.
  
Uma questão que me intriga é: o que leva alguém a decidir que será policial? Exemplos na família, desejo de estabilidade no serviço público, cabecinha deformada pela televisão, maus-tratos na infância, sede de justiça ou de vingança? Não se sabe. O que se sabe é que aqueles homens e mulheres oferecem suas vidas em troca de um salário morto.
Todos tiveram mãe, isso também é certo. E pai, irmãos e vizinhos. Alguns não tiveram nada disso.
Mas sempre aparece uma avó, uma tia, e o garoto vinga.
Normalmente oriundos das zonas de pobreza, os policiais se oferecem para fazer parte do braço armado do Estado. Para isso recebem treinamento que os transformam em matadores. E frios.
Já atuando na corporação, percebem os meandros do mal em que se meteram em que a humilhação dos treinamentos vai se transformando num ódio concreto, denso, que mais tarde vai explodir nas favelas, no mesmo lugar de onde vieram. E por aí vão se desencantando, endurecendo e se um dia houve ternura, ela some totalmente no convívio com a presunção, a farda, o revólver.
Agora, então, que o policial morto vale mais do que o de qualquer um.... 
Talvez uma outra tática fosse possível: ao detectar os crimes cometidos por policiais a cúpula da segurança deveria simplesmente expulsá-los, e não transferi-los para áreas administrativas e depois inocentá-los para que cometam outros crimes.
Que garantia tem um favelado ao testemunhar contra um policial? Garantia nenhuma, e se não morrer por um tiro distraído vai pegar o primeiro ônibus pra Pasargada.
A única certeza é que diariamente ficamos sabendo dos desmandos da polícia por omissão, despreparo ou crueldade. Não importam as provas ou as evidências, o policial é sempre absolvido no final. 
A guerra às drogas fortalece a idéia do Estado repressor. Que tal dar prioridade às unidades que, em tese, são destinadas a encarcerar menores, e transformá-las em verdadeiros centros de reabilitação?

Mas ninguém quer tentar nada de novo. Todo o mundo quer conservar o que tem a todo o custo. Não estão preocupados nem com o bandido nem com a polícia e morrer é coisa que acontece com todo o mundo
Se a moda pega, daqui a pouco teremos outras leis protegendo diferenças. Quanto vale um doutor, um estudante ou um catador de lixo? 
Acautele-se. Os dias não prometem bons ventos. É por isso que deixo aqui o poema de Murilo Mendes, do qual sempre me lembro quando vejo avançar a força da ignorância. 


OS POBRES

Chegam nus, chegam famintos
À grade dos nossos olhos.
Expulsos da tempestade de fogo
Chegam de qualquer parte do mundo,
Ancoram na nossa inércia.

Precisam de olhos novos, de outras mãos
Precisam de arados e sapatos,
De lanternas e bandas de música,
Da visão da licorne
E da comunidade com Jesus.

Os pobres nus e famintos
Nós os fizemos assim.

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5 de junho de 2015

PRÉMIOS E COMENTÁRIOS

PRÊMIOS E COMENTÁRIOS
Adília Lopes - poetisa portuguesa 
(in Caras Baratas - antologia, 
Relógio D´ Água Editores - Lisboa, 2004)








A avó Zé e a tia Paulina
deram-me os parabéns
e disseram
agora já é uma senhora!
a Maria dise
parabéns por quê?
é uma porcaria!
quanto a comentários
a poesia e a menarca
são parecidas

Em 72 recebi
o prêmio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta 
para eu cair
e ter de comprar pensos rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral

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27 de maio de 2015

Ahã! Quando acabar o maluco sou eu (Raul Seixas)

Passei ontem na Praça XV e não pude deixar de ver (nem o meu nariz de cheirar) uma dessas coisas horríveis que a Prefeitura houve por bem instalar na cidade como se fossem banheiros e que chamou, desgraçadamente, de UFA, ou Unidade de Fornecimento de Alívio. A sigla pode ter sido considerada um achado para publicitários, mas é, a meu ver, um deboche. Como é que uma pessoa pode se aliviar numa "unidade" em que ela fica praticamente exposta enquanto faz as suas necessidades? Líquidas, naturalmente, que correm pela rua (porque não funcionam como deveria funcionar) e, sob o céu a pino, trazem aos logradouros o cheiro do Rio imperial, que não é muito diferente do cheiro da Av. Brasil há 100 anos, e assim há de piorar. Cheiro de uma cidade que apodrece.
Quando falo que o instrumento/aparelho/banheiro é ruim para todos, falo principalmente nas mulheres porque se uma mulher quiser fazer xixi terá que baixar as calcinhas. Ao baixá-las, elas ficam aparecendo porque há um grande vão entre o aparelho sanitário(?) e o chão. Vai daí...
Não se sabe até hoje quem foi que inventou as tais ufas, mas deve ser um imbecil total. E mais imbecil ainda é a prefeitura que não se envergonha de dar(?) à população há tanto tempo sem banheiro a alternativa de continuar pedindo para usar os banheiros de bares e restaurantes que teimam em informar que "o uso dos banheiros é só para clientes". Às vezes, pobres clientes, também eles não têm direito a banheiros limpos.
Depois de uma colossal e cara campanha para que as pessoas não façam xixi nas ruas, principalmente no carnaval; da  instalação dos também degradantes banheiros químicos; das multas para quem faz e, finalmente da adoção das unidades degradantes e nojentas denominadas UFA, já vi que a prefeitura não tem idéia sobre a solução a buscar.
Proponho, portanto, a contratação de um arquiteto de verdade, de um engenheiro, de um designer ou dos três juntos para que pensem o banheiro público como um lugar em que a pessoa, já premida pela necessidade, sinta-se acolhida com privacidade e higiene. Se não for exigir muito, que o projeto leve em conta a paisagem e não a degrade também, como acontece com as lixeiras e containers de todo o tipo.
Parece fácil. Mas não é. Para a prefeitura, pelo menos, tem sido bem difícil. Talvez porque os motivos que levam o poder público a pensar em banheiros não sejam exatamente aqueles para os quais eles se destinam.
Sugestão: quem sabe a AMBEV, responsável pela grande maioria do xixi do carioca resolva entrar nessa e se responsabilizar pela instalação de banheiros públicos?
Recado: banheiros não são utilidades de temporada, sr. prefeito. Chova ou faça sol, com ou sem festa, todo o mundo precisa de banheiros.
Conclusão: talvez indireta, gentil e decisivamente o prefeito esteja apenas nos dizendo:
Vão à merda.

Essa é uma das mil coisas que me fazem pensar em Raul.
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26 de maio de 2015

MACONHA ESQUECIDA

O título é estranho, reconheço, e a notícia não é nova, mas vale a pena registrar.

Não tem ninguém "esquecendo" maconha assim, no más. Alguém pode fingir que esqueceu ou mesmo abandonar a carga, quando é caso extremo. Mas esquecer...? Nem muito doidão. 

A história é doida também, mas simples. Em 2010 a Receita Federal apreendeu um veículo que foi doado à prefeitura de Santa Vitória do Palmar, RS, que por sua vez utilizou-o para transporte escolar.
Cinco anos depois, quando o veículo (um ônibus) foi para a oficina descobriu-se que havia 137 quilos da erva escondida num tanque falso de gasolina. 

O que pensar disso? Muita coisa:
1. que o veículo não foi devidamente examinado pela Receita. Foi apreendido apenas porque era roubado. 
2. que o veículo não foi vistoriado antes de servir para o transporte escolar.
3. que durante cinco anos TAMBÉM não foi vistoriado.
4. que é mais estranho ainda que ninguém tenha visto um tanque recheado, como mostra a foto.
5. que prejuízo!  
6. quando o caso vem à tona, as autoridades constituídas acabam fazendo a "iniciação" das crianças com a maconha, uma vez que a divulgação do fato levou-as a saber que durante 5 anos sentaram-se sobre os quilos. Quem diria? 
E agora, depois de iniciadas serão indiciadas?  

7. Alguém tem algo a acrescentar?

Essa piada vem se somar a uma lista de aberrações que acontecem na terrinha, como aquela da polícia algemando pés de maconha. É por essas e por outras que não resolvemos um problema tão sério, mas que já poderia há muito tempo ter encontrado uma solução, não fosse a ignorância, a submissão, o fanatismo e a falta de visão da maioria (da imensa maioria) dos políticos.

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24 de maio de 2015

O INFERNO

Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivada na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo. 
(Marcola - líder do PCC - entrevista concedida ao jornal O Globo em março de 2014)

Pois aí está. O pessoal da Lagoa, que há alguns anos pendurava faixas com "Basta", não se organizou suficientemente. Não acreditou suficientemente que estava alimentando o monstro. E agora está preocupado com a fome insaciável e cruel dos ladrões de bicicletas que os esfaqueiam e matam.
É horrível? É. 
Mas é horrível que aconteça em qualquer lugar. 
O Rio de Janeiro não é mais a cidade partida. É uma cidade estilhaçada. Agora não importa se são ricos ou pobres, a violência apoderou-se  de todos os espaços.   
Isso, já sabemos, é fruto da desigualdade social. Essa desigualdade social passa por falta de moradia, educação, oportunidade e respeito. Também por conta da indiferença com que os ricos olham os pobres em tragédias que parecem ficcionais e que aparecem, de relance, em suas grandes telas de tv. Agora (que susto!) esses bandidos mirins invadiram o território dos ricos. Daí a perplexidade. Os bandidos mirins já não são só figurantes na tv. Eles são protagonistas da vida alheia. Da morte alheia.
O que eu digo é tão antigo, tão repetido que às vezes também me parece banal.
Há poucas chances de diminuir essa discriminação que nos acompanha desde a escravidão e que não terminou com a abolição. Somos um país misturado governado por brancos cujo braço armado, a polícia, tem especial preferência por negros (para bater, prender e matar) sem que sequer reconheçam  a própria cor e a sua condição de discriminados: por serem pobres, por serem negros e por serem polícia.
Sim, a culpa não é toda da polícia. Não há uma política de Estado que se dedique a esse grande problema social. Não há ninguém que queira resolver nada. Todos estão confortáveis em seus lugares reservados.
E repetindo Marcola: Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi cheentrate!" - Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.