10 de fevereiro de 2016

A QUEM SUSPIRAR?

Dia de sol. Piscina. Pais, filhos, parentes em geral e avulsos.
Chega a família típica: casal e dois filhos. Atrás, a babá.
Ocupam logo uma mesa.
Vão para a piscina, menos a babá.
A tarde passa.
O calor é grave, a água já deixou de ser cristalina.


Saída da escola: a empregada está esperando a menina, que lhe entrega a mochila quando se encontram.
Tomam o caminho da casa. Vão a pé.
A casa deve ser perto. A mochila com rodinhas pula no calçamento.
A mulher, que é manca, vai devagar. Deve ter uns 50 mal vividos. A menina segue à frente, como numa pintura de Debret.

Dia de praia, sol glorioso.
A praia é um espaço democrático, dizem todos.
Nem tanto. Ao primeiro olhar já vi duas babás sem biquíni.
Duas babás sem direito ao mar.


Eu disse que as babás eram negras?
Nem precisava.

...

5 comentários:

  1. Ai, Helena! Chega a dar moleza ler isso. É tão triste...

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  2. Pensei que a humanidade jamais teria acesso à minha obra-prima, mas ei-la afinal publicada no seu prestigioso blogspot. Grato. Mas surpresa mesmo foi a leitura da tal crítica impiedosa das madames que terceirizam os filhos às babás, principalmente em público, para afetarem importância. Parabéns! Pensam que são da Globo, imagine! Conheço quem faz isso internacionalmente, todo ano, quando a horda (ela, marido, três filhos e a criada) parte em recreio à Disney. Ela vai adiante e, atrás, a mucama humílima, cabisbaixa, como se expiasse a maior das felonias. Sim, tens razão, um quadro de Debret. E com essa pompa consumista desembarcam nos States, onde os louros nativos intrigam-se: que diabo de crise é esta, a do Brasil, hein?

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  3. O comentário acima é de Daniel Santos.

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  4. Quando as crianças ficam adultas contratam ex-babás para acompanhantes dos seus velhos. Então se estabelece a lei do retorno.
    Que merda.

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  5. Oi, Helena, chegando por aqui. E gostando muito, muito.
    Apesar do tema ser insustentável, difícil mesmo de abordar, você o faz com maestria. Sem dar logo de início a informação que estabelece a desigualdade e a vergonha de quem (ainda!) submete seres humanos a um tratamento de extrema violência, na contramão da história. Enquanto você escreve, pintando as cenas, vamos compondo junto contigo e contigo, lá no final, aliviados, concordamos (os que são contra, afinal) que é um ato absurdo (para dizer o mínimo).
    Enfim, por aqui, pra ficar.
    Beijinhos

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