13 de maio de 2016

O MAR DA HISTÓRIA

E então, que quereis?...
Maiakovski

Fiz ranger as folhas de jornal

abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

de cada fronteira distante

subiu um cheiro de pólvora

perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

nada de novo há

no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,

é certo,

mas também por que razão

haveríamos de ficar tristes?

O mar da história

é agitado.

As ameaças

e as guerras

havemos de atravessá-las,

rompê-las ao meio,

cortando-as

como uma quilha corta

as ondas.
(1927

... 

5 de maio de 2016

UMA OUTRA LUTA



A Marcha da Maconha vai acontecer no Rio de Janeiro no próximo sábado, dia 7 de maio, iniciando o movimento que tem se expandido a cada ano, com mais e mais cidades organizadas pela legalização. Mais uma vez, de novo, sempre, até que a sociedade entenda esse clamor de uma luta dentro de outra maior, em que se busca sempre a liberdade. É uma luta feroz porque diz respeito a direitos individuais e intereses particulares. E a gente sabe quem pode mais.

Não só no Rio de Janeiro ela acontecerá, a exemplo de outros anos porque o consumo está aumentando e não tem - não adianta - nada que o faça parar. Por que? Porque as pessoas querem.
E quando elas querem elas vão buscar.

A sociedade, no entanto, não entende que não se trata de liberar a esbórnia; de ceder aos caprichos de uma juventude drogadita. Isso é ilusão. De todos esses anos de luta o que temos:

1. A MACONHA NÃO FAZ MAL
2. A POLÍTICA CONTRA AS DROGAS FRACASSOU.
3. TODOS OS DIAS MORREM PESSOAS POR CONTA DA REPRESSÃO.

E no futuro, como será? Como diremos aos netos que se matava por causa de uma erva que era boa de fumar?
Como diremos que a guerra às drogas era apenas o pretexto para a perseguição dos pobres? Como diremos que a repressão é necessária para a indústria das armas? Como diremos que as cadeias eram as novas senzalas, perfeitamente legalizadas? Fomos assim, um dia, e não soubemos avaliar a tempo as possibilidades de uma  riqueza imensa, sem precisar perfurar?
Escrevo no passado na esperança de que um dia seja possível analisar a questão com realismo; que tanto as drogas como as pessoas possam sair da marginalidade em que vivem, já que atualmente todas as economias buscaram (e encontrram) soluções para uma coisa simples que se tornou problema justamente por causa da proibição.
A maconha existe até no nosso corpo. Não podemos negá-la.*
Este ano será um marco para a Marcha da Maconha. Um ano difícil, em que se vislumbra uma ameaça às idéias progressistas, que vinham caminhando a passo lento.
Mas os defensores da legalização estarão lá, de todas as idades, apoiando o movimento que cresceu com o tempo. Agora não é só da galera da zona sul, como se dizia. Agora chegam os jovens da periferia, das favelas, por pura afinidade, de contentamento por estarem juntos, e de serem cada vez mais, lutando contra o preconceito e a opressão.



*Um das constatações mais incríveis do sistema endocanabinóide é que parece ser conservado na coluna vertebral, e está presente na estrutura dos receptores e na sua função, também em invertebrados, o que implica, portanto, a sua participação em funções vitais em quase todos organismo






1 de maio de 2016

A PALAVRA COMO ARMA



Assisti, ontem, na TV Brasil, a entrevista de um detentor do Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Perez Esquivel.
Tendo vivido até hoje na defesa dos direitos humanos, Esquivel deu uma lição de história e resistência. Trata-se disse ele, de um golpe, mas de um golpe brando, sem os aparatos dos já concretizados pelo uso da força. A estratégia agora é outra. E não há dúvida de que chegará ao seu objetivo, pois para isso foi planejado e financiado.

Estarrecida ainda com a vergonhosa votação na Câmara dos Deputados, que nos revelou o que há de pior entre nós, entre demagogia e hipocrisia, em nome da nossa ainda débil democracia, agora apunhalada, eu me pergunto, como milhões, o que será de agora em diante.
O que virá agora? Não sabemos. O que sabemos é que uma sombra paira sobre o Brasil e é preciso afugentá-la e vislumbrar algum céu. Como será isso? Quem se ocupará disso?  E isso é gancho para um outro programa que assisti, no Canal Brasil, sobre a resistência política por meio de jornais. Um belo trabalho de pesquisa trouxe à tona as inúmeras publicações, que existiram desde antes da independência, que saíram em defesa dos direitos da população sempre oprimida e negligenciada. Muitos deles foram presos, tiveram suas redações quebradas, mas nunca desistiram. É na crise que se fortalecem os espíritos.

Não tivéssemos a internet, não tivéssemos os jornalistas que nos trazem o contraponto das verdades deformadas da mídia impressa, não teríamos um horizonte.
A importância da imprensa está justamente na possibilidade de assumir outra forma e seguir resistindo, seguir teimando, com tudo a declarar, nada a esconder, e principalmente não temendo.

As guerras mudam, as armas também. Mas a palavra sempre se oferece à coragem.

30 de abril de 2016

NOTÍCIAS DO BRASIL

Oi Joaquim, como estás? Fiquei dois meses sem internet, desde que mudei para um outro Brasil que não é o das grandes cidades.
Assisti meio de banda essa ação de desconstrução de um governo eleito, que está levando o País para um buraco de onde dificilmente sairá.
À revelia do clamor popular, das opiniões de juristas, autoridades, intelectuais e da mídia internacional, o Brasil sofre as conseqüências de um golpe do qual dificilmente sairemos. Partidos de direita, entidades empresariais, Tv Globo e (incrível!) a Suprema Corte do Judiciário estão combinadinhos para levar a efeito um golpe descarado, no qual estão incluídos um olho no pré-sal e o outro no reajuste salarial do Judiciário, como se aumentar salários neste momento de crise não fosse também um golpe no sempre combalido povo trabalhador. Mais que um golpe: traição.
Imagina que o Judiciário acertou esse aumento com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que por sua vez assegurou a votação favorável e teve os processos nos quais é réu, praticamente esquecidos.
A coisa está assim, o descaramento é total e não adianta a crítica, o pessoal da toga está tomado pela vaidade e encantado com uma visibilidade nunca dantes, protagonizando um capítulo extra nesse processo que visa apenas o poder e, claro, derrubar direitos nas lutas conquistadas pelo sempre combalido povo trabalhador.

O dinheiro está correndo solto e eles fazem qualquer coisa para chegar ao objetivo, inclusive contratar uma advogada absolutamente desequilibrada que apresentou o pedido de impeachment.
A votação do impeachmant no Senado foi deplorável. Primeiro, o susto; depois um grande abatimento em todos aqueles que esperavam alguma mudança de rumo no processo.
A gente saber que está tão mal representada dá um aperto, uma vergonha, um espanto que vai se infliltrando em nosso espírito e contaminha até atividades e relações.
Ainda não tivemos prisões em geral nem queima de livros, mas estamos caminhando para as práticas fascistas a cada dia sem que possamos nem imaginar o que vem pela frente. Tu sabes que os fascistas sempre precisam de alguém para perseguir.
Nem sei o que mais possa te dizer, além dessa tristeza de saber que depois de uma ditadura longa, eis que se aproxima outra, com o inevitável e histórico retorno ao obscurantismo e ao medo.

Circulam muito por aqui as as condições oferecidas por Portugal para brasileiros que queiram se mudar para lá. Acho que a população vai aumentar bem.

Espero que tudo esteja bem contigo: a saúde e o teu espírito combativo. E que me mandes notícias do livro. Afinal, as páginas são, às vezes, nosso único campo de luta e liberdade.
Abatida, mas não vencida, te abraço
tua amiga certa
Helena

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10 de fevereiro de 2016

A QUEM SUSPIRAR?

Dia de sol. Piscina. Pais, filhos, parentes em geral e avulsos.
Chega a família típica: casal e dois filhos. Atrás, a babá.
Ocupam logo uma mesa.
Vão para a piscina, menos a babá.
A tarde passa.
O calor é grave, a água já deixou de ser cristalina.


Saída da escola: a empregada está esperando a menina, que lhe entrega a mochila quando se encontram.
Tomam o caminho da casa. Vão a pé.
A casa deve ser perto. A mochila com rodinhas pula no calçamento.
A mulher, que é manca, vai devagar. Deve ter uns 50 mal vividos. A menina segue à frente, como numa pintura de Debret.

Dia de praia, sol glorioso.
A praia é um espaço democrático, dizem todos.
Nem tanto. Ao primeiro olhar já vi duas babás sem biquíni.
Duas babás sem direito ao mar.


Eu disse que as babás eram negras?
Nem precisava.

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9 de fevereiro de 2016

TAPA NAS COSTAS


Aqui, genial e imperdível, Daniel Santos.

TAPA NAS COSTAS

Fechou os registros de água e de gás, desligou a chave da luz e regou a begônia pela última vez, impessoal, burocrático, sem manifestar desejos nem simples vontades. Não queria mais. Mais nada. Nunca mais.
Depois, desceu dois lances de escada, deu “bom dia” ao porteiro e atravessou a avenida por entre automóveis sem atentar à própria segurança, porque àquela altura nem a vida valia mais a pena. E era Carnaval.
Foi, assim, andando na direção do mar, em busca da diluição definitiva, já sem consciência de si, mas, a meio do caminho, ao dobrar uma esquina, a mão de alguém golpeou-lhe as costas num repelão imperativo.
De um susto, recobrou os sentidos e tentou escapulir dos foliões que, num bloco frenético, o empurravam para adiante e adiante. Em vão. Depois, sacudiram-no, abraçaram-no, deram-lhe de beber ... Ah, que farra!
Pulou muito pelas ruas e caiu, enfim, exausto no banco da praça, o entusiasmo da vida latejando nas têmporas. Entrou no mar só para tirar o suor e voltou a casa sem pressa. Tinha agora todo o tempo deste mundo.


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25 de janeiro de 2016

ETTORE SCOLA

ETTORE SCOLA
(1931-2016)




2016 não é bem um ano novo, é uma continuação do que já vinha acontecendo. A mudança aconteceu só no calendário. Muitas mortes irremediáveis, muitas promessas que não se cumpriram, muitas decisões que novamente adiamos.
Tudo isso, no entanto, é pouco e pequeno, quando penso na carreira do cineasta Ettore Scola. 

Eu, que ainda tenho locadora perto (uma raridade!) passei o fim de semana vendo Concorrência desleal, La noite des Varennes e Um dia muito especial. Todos eles têm pontos em comum: Roma, a gente pobre de Roma, os valores éticos, a história, o fascismo, o amor e, já naquele tempo, a solidão (a tortura física e moral ) dos homossexuais e das mulheres. Em todos, a compaixão. 
É impressionante ver como os filmes daquele tempo, tão baratos, tornaram-se eternos, enquanto outros, para os quais são necessários muitos milhões de dólares, passam como um cometa que foi visto mas ninguém lembra.

Os cineastas dos anos 50 e 60 eram intelectuais, pensavam o mundo, e tinham que fazer filmes com cuidado, sem provocar as iras do fascismo. Os de hoje, não sei. Perseguem o sucesso. Mas qual sucesso? O de mídia?

Sucesso é fazer filmes que até hoje são novos e nos emocionam a ponto de nos tornarem jovens também.
Addio, nunca, Ettore Scola. 

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