12 de março de 2010

ALIMENTAÇÃO BÁSICA

Essa é boa, agora os leitores reclamam. Poucas postagens? Como assim?
Desculpem se me descuido. Não, nunca esqueço. Apenas outras coisas me chamam a atenção a ponto da perplexidade se instalar.
Pé de maconha algemado em operação policial (a foto rolou geral e a galera morreu de rir), a mulher que causou um acidente no trânsito enquanto se depilava, o Governador chorando as perdas (e secando com o lenço) as chamadas na mídia (favoráveis) à legalização das drogas, enquanto as autoridades e a lei (sempre atrasadas frente às necessidades do dia) comandam as mortes numa guerra sem fim.
O proibicionismo não deu certo. Tentemos outra coisa. Simples assim.
Um dia nossos pósteros saberão que isso acontecia no século XXI e passaremos por otários, como sempre acontece. Filmes serão feitos e todos se perguntarão: mas por que razão proibiam?
Outros tempos, outros enfoques, outros interesses econômicos.
Tudo isso dilui o que importa e que é, vocês sabem, a


ALIMENTAÇÃO BÁSICA

I

acordei com um sopro
que pensei poema

era tão claro, tão definitivo
nunca poderia esquecê-lo

não o escrevi de pronto
escovar os dentes cuidar do gato
ouvir as notícias

quando vi já não estava
foi-se em forma e sentido

e me deixou deserta
eu, que tanto peço água




II

quando chega num cochicho, sopro (ou era sonho?) é preciso largar tudo, esquecer os dentes, o gato, as notícias e sair desabalada, mostrar-lhe que é o primeiro, que para ele estão voltados todos os sentidos, falhos ainda, é verdade, os olhos mal abertos, as pernas toscas, onde está a caneta, ligo ou não o computador, o risco da curiosidade do dia, não deixar que nada distraia a memória calcinada, o helicóptero que voa baixo ou o vizinho que liga o motor do carro. é preciso abstrair tudo o que existe e o que ainda não, o que se interpõe ou dilui até que ele se mostre inteiro, absoluto, supremo – e de sopro se transforme em poema, e a graça se instale em quem lhe serviu de instrumento

.

4 comentários:

  1. Adorei o Alimentação Básica (I e II).
    É a própria vida em poesia.
    Ou melhor, é poesia saltando dos olhos,
    da pele, da vida.
    Isso é para poucos. Raros privilegiados.
    E eu que gosto tanto dos poetas!
    Lena Brasil

    ResponderExcluir
  2. Helena, um grande beijo!
    Não imaginas como me emocionei com a Alimentação Básica...
    Jorge

    ResponderExcluir
  3. a verdade nua e crua

    ResponderExcluir