30 de abril de 2016

NOTÍCIAS DO BRASIL

Oi Joaquim, como estás? Fiquei dois meses sem internet, desde que mudei para um outro Brasil que não é o das grandes cidades.
Assisti meio de banda essa ação de desconstrução de um governo eleito, que está levando o País para um buraco de onde dificilmente sairá.
À revelia do clamor popular, das opiniões de juristas, autoridades, intelectuais e da mídia internacional, o Brasil sofre as conseqüências de um golpe do qual dificilmente sairemos. Partidos de direita, entidades empresariais, Tv Globo e (incrível!) a Suprema Corte do Judiciário estão combinadinhos para levar a efeito um golpe descarado, no qual estão incluídos um olho no pré-sal e o outro no reajuste salarial do Judiciário, como se aumentar salários neste momento de crise não fosse também um golpe no sempre combalido povo trabalhador. Mais que um golpe: traição.
Imagina que o Judiciário acertou esse aumento com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que por sua vez assegurou a votação favorável e teve os processos nos quais é réu, praticamente esquecidos.
A coisa está assim, o descaramento é total e não adianta a crítica, o pessoal da toga está tomado pela vaidade e encantado com uma visibilidade nunca dantes, protagonizando um capítulo extra nesse processo que visa apenas o poder e, claro, derrubar direitos nas lutas conquistadas pelo sempre combalido povo trabalhador.

O dinheiro está correndo solto e eles fazem qualquer coisa para chegar ao objetivo, inclusive contratar uma advogada absolutamente desequilibrada que apresentou o pedido de impeachment.
A votação do impeachmant no Senado foi deplorável. Primeiro, o susto; depois um grande abatimento em todos aqueles que esperavam alguma mudança de rumo no processo.
A gente saber que está tão mal representada dá um aperto, uma vergonha, um espanto que vai se infliltrando em nosso espírito e contaminha até atividades e relações.
Ainda não tivemos prisões em geral nem queima de livros, mas estamos caminhando para as práticas fascistas a cada dia sem que possamos nem imaginar o que vem pela frente. Tu sabes que os fascistas sempre precisam de alguém para perseguir.
Nem sei o que mais possa te dizer, além dessa tristeza de saber que depois de uma ditadura longa, eis que se aproxima outra, com o inevitável e histórico retorno ao obscurantismo e ao medo.

Circulam muito por aqui as as condições oferecidas por Portugal para brasileiros que queiram se mudar para lá. Acho que a população vai aumentar bem.

Espero que tudo esteja bem contigo: a saúde e o teu espírito combativo. E que me mandes notícias do livro. Afinal, as páginas são, às vezes, nosso único campo de luta e liberdade.
Abatida, mas não vencida, te abraço
tua amiga certa
Helena

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10 de fevereiro de 2016

A QUEM SUSPIRAR?

Dia de sol. Piscina. Pais, filhos, parentes em geral e avulsos.
Chega a família típica: casal e dois filhos. Atrás, a babá.
Ocupam logo uma mesa.
Vão para a piscina, menos a babá.
A tarde passa.
O calor é grave, a água já deixou de ser cristalina.


Saída da escola: a empregada está esperando a menina, que lhe entrega a mochila quando se encontram.
Tomam o caminho da casa. Vão a pé.
A casa deve ser perto. A mochila com rodinhas pula no calçamento.
A mulher, que é manca, vai devagar. Deve ter uns 50 mal vividos. A menina segue à frente, como numa pintura de Debret.

Dia de praia, sol glorioso.
A praia é um espaço democrático, dizem todos.
Nem tanto. Ao primeiro olhar já vi duas babás sem biquíni.
Duas babás sem direito ao mar.


Eu disse que as babás eram negras?
Nem precisava.

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9 de fevereiro de 2016

TAPA NAS COSTAS


Aqui, genial e imperdível, Daniel Santos.

TAPA NAS COSTAS

Fechou os registros de água e de gás, desligou a chave da luz e regou a begônia pela última vez, impessoal, burocrático, sem manifestar desejos nem simples vontades. Não queria mais. Mais nada. Nunca mais.
Depois, desceu dois lances de escada, deu “bom dia” ao porteiro e atravessou a avenida por entre automóveis sem atentar à própria segurança, porque àquela altura nem a vida valia mais a pena. E era Carnaval.
Foi, assim, andando na direção do mar, em busca da diluição definitiva, já sem consciência de si, mas, a meio do caminho, ao dobrar uma esquina, a mão de alguém golpeou-lhe as costas num repelão imperativo.
De um susto, recobrou os sentidos e tentou escapulir dos foliões que, num bloco frenético, o empurravam para adiante e adiante. Em vão. Depois, sacudiram-no, abraçaram-no, deram-lhe de beber ... Ah, que farra!
Pulou muito pelas ruas e caiu, enfim, exausto no banco da praça, o entusiasmo da vida latejando nas têmporas. Entrou no mar só para tirar o suor e voltou a casa sem pressa. Tinha agora todo o tempo deste mundo.


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25 de janeiro de 2016

ETTORE SCOLA

ETTORE SCOLA
(1931-2016)




2016 não é bem um ano novo, é uma continuação do que já vinha acontecendo. A mudança aconteceu só no calendário. Muitas mortes irremediáveis, muitas promessas que não se cumpriram, muitas decisões que novamente adiamos.
Tudo isso, no entanto, é pouco e pequeno, quando penso na carreira do cineasta Ettore Scola. 

Eu, que ainda tenho locadora perto (uma raridade!) passei o fim de semana vendo Concorrência desleal, La noite des Varennes e Um dia muito especial. Todos eles têm pontos em comum: Roma, a gente pobre de Roma, os valores éticos, a história, o fascismo, o amor e, já naquele tempo, a solidão (a tortura física e moral ) dos homossexuais e das mulheres. Em todos, a compaixão. 
É impressionante ver como os filmes daquele tempo, tão baratos, tornaram-se eternos, enquanto outros, para os quais são necessários muitos milhões de dólares, passam como um cometa que foi visto mas ninguém lembra.

Os cineastas dos anos 50 e 60 eram intelectuais, pensavam o mundo, e tinham que fazer filmes com cuidado, sem provocar as iras do fascismo. Os de hoje, não sei. Perseguem o sucesso. Mas qual sucesso? O de mídia?

Sucesso é fazer filmes que até hoje são novos e nos emocionam a ponto de nos tornarem jovens também.
Addio, nunca, Ettore Scola. 

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22 de novembro de 2015

O CRIME FOI EM MINAS


Visões 


O poeta escreve por sua terra,
Itabira, Rio de Janeiro, União dos Palmares
Cajueiro.
Escreve quase sempre triste, quase sempre certo
de que a sorte reservou-lhe apenas
a visão e as chamas do futuro que prevê.
Sabe que seu tempo é outro
por isso escreve por si e pelos homens
Mas quem são os homens?
O vizinho, o homem da banca de jornais, o entregador de água?
Terão sido eles que secaram os rios
e não destruíram os detritos?
A moça à janela não sonha
As grades são grossas
Os tiros apavoram a moça
A lua (a lua, senhores!) foi explodida.
Em vão sofreu o poeta e o mundo segue
obsceno e mudo.
Os homens indiferentes cogitam sobre museus
do mar
do mato
do ar.


O poema não é novo. De 2009, eu acho. Mas lembrei dele e resolvi deixar aqui para marcar um dos acontecimentos mais terríveis dos últimos tempos, no Brasil. Um fato terrível demais para que eu possa agora buscar as palavras certas. Meu corpo já velho e um coração abatido talvez acolham bem a viagem para o fim, mas não aguentam o assassinato de um rio.

Minha barragem (aquela que a gente vai criando com o tempo, aceitando, engolindo, distanciando-se, sabendo-se que os desastres se repetem ciclicamente) também transbordou. O que há agora é um caudal de lágrimas que estiveram retidas, controladas, apaziguadas às vezes, mas que estavam ali, prontas para a maior tristeza dos últimos tempos: um desastre ambiental sem volta, um rio sem futuro, uma população entregue ao medo, vítima do drama terrível que é ser abarcada por uma lama viscosa e fétida, sem que ninguém a anunciasse.

Parece que estou sempre prestes a explodir a cada vez, e cada vez é sempre. Não consigo atinar com outra coisa que não seja a lama invadindo tudo, matando, destruindo, inutilizando para sempre um Rio Doce inteirinho que corria lá pelas bandas das Minas Gerais.
Há minas e minas. Para extração de minérios, para explodir pessoas na guerra. Mas outra Minas, maior que tudo, é feita de gente, de terra e de rios, que infelizmente não existem para o lucro - síntese da exploração desenfreada e irresponsável.

O terrível acontecimento ainda sofreu o agravante do descaso dos responsáveis, da omissão da Justiça, da falta de determinação de quem podia tomar a decisão que mostrasse ao País que sim, o governo existe para nos extorquir, mas quando precisamos ele está lá. Não estava. Não esteve. Não estará. 
O crime foi em Minas. 
Perdão, Carlos.

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6 de novembro de 2015

A CEGUEIRA

Quem lembra do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago? Trata de fenômeno transitório em que as pessoas passam a ficar cegas sem razão aparente, mas por temor do sistema frente à epidemia de origem desconhecida, são postas em quarentena em situações que se agravam na medida em que mais e mais pessoas vão ficando cegas.
Pois eu acho que está acontecendo coisa parecida com a polícia do Rio. Algo está acontecendo para que a polícia passe a não identificar, às vezes de muito perto, alguns objetos como furadeira, macaco hidráulico, peças para carro, agora até um skate e principalmente, pessoas.  Na dúvida, já que não enxergam bem, os pulícia, como se diz no vulgo, atiram e matam. Será sempre legítima defesa, isso já se sabe, de onde se conclui que uma pessoa de qualquer sexo, (cresce a população carcerária feminina) é sempre um inimigo para a polícia. Um inimigo que precisa ser exterminado todos os dias, doa a quem doer.
Antigamente a polícia só atirava em pobres e agora, - vejam só - acabou essa desigualdade. Que exemplo está dando essa valorosa corporação! Idade, raça, credo, sexo - nada disso pesa na hora de tomar uma decisão que é sempre a mesma: exterminar.

Há uma outra hipótese para tanta ineficiência, uma hipótese vigorosa de que esses movimentos abruptos que tanto assustam os policiais a ponto de fazê-los perder o controle são reflexos do medo, do medo terrível do ódio que despertam, da dor que causam, da consciência oprimida por terríveis ordens, mais letais que as armas.

Quem quer paz não faz a guerra.

4 de novembro de 2015

OS FINADOS

OS FINADOS
Antes, antigamente, em outros tempos que nem sei quais são a pessoa morria só uma vez. Hoje, se a morte é violenta, ela não morre uma, mas repetidas vezes. Morre incansavelmente na tela da tv, na famigerada reconstituição do crime, enquanto o inquérito demora (outros casos virão e esqueceremos o mais atual) e ainda quando os delegados, (o Secretário sumiu) por meio de uma linguagem rebuscada e escandalosamente parcial, informa com a maior desfaçatez que um menino de 10 anos foi morto pela polícia a menos de cinco metros de distância e que isso foi um "erro de execução", isto é, o policial pensou em fazer uma coisa e fez outra. Estou falando do delegado Rivaldo Barbosa, que se especializou em desculpar todas as ações policiais extremas sem nenhuma compaixão. Sem nem pedir desculpas, o que aliás é um comportamento desconhecido do braço armado do Estado.
O policial foi encaminhado para tratamento psicológico.
A família fica sem o filho e vemos crescer a lista daqueles que, por serem pobres, estão na linha de frente da chamada "guerra às drogas", que já nasceu perdida. Os governos, no entanto, teimam em agir em seu nome, e isso significa milhares de jovens (incluindo aí as crianças) morrendo diariamente por conta de nada.
As drogas, sabemos, são apenas pretextos para outros interesses. Há pobres demais no Rio.
Não esqueçamos, no entanto, que a polícia segue ordens. Extrapola, quase sempre, por conta da má formação profissional. E quando isso acontece o Estado a protege.
Democracia, igualdade, inclusão - histórias que inventam para nos acalmar.
Não está dando certo. Todos nós sabemos que o Estado é o nosso algoz, e direta ou indiretamente morreremos por suas ordens.

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