6 de junho de 2012

O ESPÍRITO DA COISA


Depois de participar da Marcha da Maconha em Recife e em seguida da de Juiz de Fora, que estavam na lista das 37 cidades organizadas para realizá-las, eis que volto para casa e sou surpreendida com a notícia que segue abaixo, e que nem todos leram. Pensei que era algo a ser comemorado, embora dois dias depois a coluna do Ancelmo, no Globo, tenha dito que não passa de jeito nenhum, por conta das bancadas católica, evangélica e da saúde. Não há entusiasmo que se mantenha.
Mas enfim, eis a notícia.  
A comissão de juristas que discute a reforma do Código Penal no Senado aprovou nesta segunda feira, dia 28 de maio incluir na lista de sugestões que será enviada ao Congresso a descriminalização do plantio, da compra e do porte de qualquer tipo de droga para uso próprio.
As propostas da comissão, consolidadas, devem ser encaminhadas até o final de junho. Apenas após votação nas duas Casas as sugestões viram lei.
Hoje, o consumo de drogas já não é crime, mas é muito raro que alguém faça isso sem também praticar uma das outras condutas criminalizadas: cultivar, comprar, portar ou manter a droga em depósito.
A autora da proposta, a defensora pública Juliana Belloque, afirmou que se baseou na tendência mundial de descriminalização do uso e na necessidade de diminuir o número de prisões equivocadas de usuários pelo crime de tráfico.
Ela citou reportagem publicada pela Folha que apontou um crescimento desproporcional do aprisionamento de acusados de tráfico desde 2006, quando entrou em vigor a atual lei de drogas: enquanto as taxas de presos por outros crimes cresceram entre 30% e 35%, o número de punidos por tráfico aumentou 110%. A alta se explica, de acordo com especialistas, pela confusão entre usuário e traficante.
A comissão aprovou uma exceção em que o uso de drogas será crime: quando ele ocorrer na presença de crianças ou adolescentes ou nas proximidades de escolas e outros locais com concentração de crianças e adolescentes.
Nesse caso, as penas seriam aquelas aplicadas atualmente ao uso comum: advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade e o comparecimento obrigatório a programa ou curso educativo.
Para diferenciar o usuário do traficante, os juristas estabeleceram a quantidade máxima de droga a ser encontrada com o acusado: o equivalente a cinco dias de uso. Como a quantidade média diária varia conforme a droga, o texto estabelece que serão utilizadas as definições da Anvisa.
A comissão também aprovou a diminuição da pena máxima para o preso por tráfico. Hoje são cinco a 15 anos de prisão e a proposta estabelece cinco a 10.
Dos nove juristas presentes de um total de 15 da comissão, apenas o relator, o procurador da República Luiz Carlos Gonçalves, votou contra a descriminalização.
Para ele, o fato de o usuário não ser punido acabará estimulando que ele seja considerado pela polícia e pela Justiça um traficante, o que aumentaria o encarceramento - exatamente o efeito contrário que a comissão pretende atingir.


A Cannabis Sativa é uma planta
Com a força divina e natural!
Quem conhece o valor do seu astral
Diz que ela, na terra, é quase santa.
Todo dia meu corpo se levanta.
Faz um pouco de tudo que é preciso,
Bota um grau de saber no meu juízo
Que é pra ver se a matéria se orienta
Do contrário a cabeça não agüenta
A belota é quem faz o improviso.


(Luiz Homero, na epígrafe do Cordel de Greg Marinho - Manifesto pela pela Descriminalização e Legalização da Maconha)

As marchas aconteceram antes disso, e tanto a de Recife como a de Juiz de Fora careceram principalmente de divulgação a partir do problema de sempre: falta de dinheiro. Mesmo assim, os organizadores se desdobram e a coisa acaba acontecendo. O jornal diz que havia duas mil pessoas. 
Em Recife, não entendi porque ela foi organizada para se realizar no centro, num domingo de sol, quando todo o mundo vai à praia. Evidentemente, não tinha ninguém a quem convencer, convidar, informar. Todo o mundo que foi já sabia que queria e porque queria a legalização.
"A marcha da maconha (conforme o Jornal do Commercio) reuniu a juventude pernambucana em defesa da legalização e descriminalização do uso da droga". De fato, quase a totalidade dos participantes eram jovens, e os adultos continuam a pensar que isso é coisa de jovens. Fumam em suas casas, mas não abraçam a causa. Ainda não entenderam que se trata de uma luta por direitos individuais, contra a repressão e a corrupção. Ou então foram tomados por um mal que se alastra: o desânimo. Os jovens são presa mais fácil da polícia, passam por cada uma que ninguém imagina, e muitas vezes são presos por quase nada.

Em Juiz de Fora aconteceu algo estranho: A concentração, no Parque Halfeld, marcada para as 11h, saiu bem mais tarde. Demorou a juntar gente. Várias pessoas falaram a respeito, e houve até quem levasse o recado de um professor de Direito (que não foi) a favor da legalização. A estranheza ficou por conta da união entre maconheiros e vadias - acreditando-se que unindo-se os grupos a manifestação alcançaria maior repercussão. Não sei se para o bem ou para o mal, uma vez que os usuários lutam para se livrar do estigma da vadiagem. Enfim, conceitos. Lá estavam as moças vadias pedindo respeito e segurança à polícia. Pelo menos nisso há coincidência.
Quando finalmente saiu, a marcha reunia grande número de pessoas, não sei se chegavam a mil, mas estava bastante animada. Depois de dois quarteiros, se desvaneceu como num sonho. O sonho da legalização. Mas para que servem as utopias? Para caminhar. E seria bom que se mudasse o nome de Marcha para Caminhada. A marcha traz o espírito da guerra, enquanto a caminhada pressupõe paz e fraternidade. 



p.s. falando nisso, é bom informar que a polícia se portou muito bem. e até onde sei, só no Rio é que mostrou a sua verdadeira cara.






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5 de junho de 2012

BRASIL X ALEMANHA

O título é só chamariz, nessa época de síndrome da Copa. Mas não é de todo enganoso.
A ultima postagem foi no dia 6 de maio. Muitas coisas aconteceram e não registrei. Acho que é porque tudo se atropela e eu já não acompanho mais. São tantas coisas que não organizo o pensamento. Mas registrar é preciso. Daqui a pouco a coisa vai.
Hoje em dia faço poucas coisas que mesmo assim para mim são muitas. Sou mulher, moro sozinha e - oh, o terrível agravante: velha. Vivo em perigo absoluto.
Mas não parei de pensar.
Por exemplo: Ronaldinho lá se foi para o Atlético deixando o Flamengo de boca aberta. Está programado para ser vendido, mas lutando até o fim pelos seus tostões. O irmão vende, ele vai. A prática não é nova. Já se fosse o Tostão, era outra coisa.  Pobre Ronaldinho! O que mais ele aprendeu? O resto é pagode.

Mais uma: Reunião do Comitê Olímpico no Sofitel, em Copacabana - alta cúpula. Arthur Nuzmann (cadeira cativa) Márcio Fortes, ministro (de passagem) Regis Fichter (em ascensão). E o prefeito? Satisfeito. Até o Beltrame está satisfeito. Vá entender! O esporte nos salvará.

Thor, o herói, também merece registro: Olhem bem para ele e verão: é oco. Pobre Eike, nem todo o dinheiro do mundo é capaz de preencher o rapazinho.

Propaganda eleitoral: Zito diz que no tempo em que pertenceu a outro partido foi tratado com todo o respeito. Agora está feliz no PP, junto com a Presidenta Dilma.
Alegrem-se brasileiros! Zito - o terror da baixada, está feliz. Outro que está feliz é o Francisco Dornelles.  Morreu? Como assim? Aquilo não morre. Aquilo é ruim de morrer.
As Universidades estão em greve. Uma menina foi estuprada dentro da escola.
Eu vi o Brasil na tevê.

Agora, há outras coisas, como Ulla Hahn, poeta alemã em versão de João Barrento para o português de  Portugal, que  me chegou pelas boas mãos do poeta e editor Joaquím Antonio Emídio.
E é o que vale.

Um jeito


Em silêncio
te vestiste
em silêncio uma vez mais
ternamente mentiste

Em silêncio
fechaste o portão
em silêncio a-
jeitaste o coração.









Homeopatia

cobriste-me de nudez o
corpo nu quando tive frio
envolveste-me em
frieza quando fiquei cansada
serviste-te do meu sono
Saciaste a minha fome
com fome  mataste com
sede a minha sede.
Quando o telefone toca
e ninguém diz nada
és tu do outro lado.

Fogo de alegria

Vinde todos é Páscoa sim
então tudo o que está podre
Saltam altas as faíscas
hereges insolentes anjos de luz

Saltério e harpa despertai
por nós atravessamos o fogo cada um
com a sua provisão de mortes

Vamos atiçar o cântico de louvor
enquanto vivermos estamos
condenados ao fogo ao
Juízo Final: todos os dias.
Agora.

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6 de maio de 2012

O OUTRO DIA

Ontem foi a Marcha da Maconha em Ipanema, desta vez começando no Arpoador, programada para ir até a rua Maria Quitéria. E isso num ritmo, vocês sabem, lentíssimo, não só pela natureza da coisa mas porque a polícia insistia em manter livre a pista da esquerda para que os carros não passassem, como de fato não estavam passando. Para impor-se, apenas, vocês sabem como é.
Estranhei que desta vez a moçada tenha fumado na Marcha. Não fumar é a orientação, uma vez que a permissão é em decorrência do direito de expressão, mas fumar configura o ato ilícito. Estarei errada?
Por outro lado, como é que você vai reivindicar sem o objeto do desejo em pauta? Daí o conflito.
E foi assim que
Ato I - Acordei hoje com a alma alegre, vi os jovens tão bonitos lutando por um direito que é tão deles como falar ou ouvir. Defesa do plantio e do uso. Integração - que o homem não está separado da natureza. Tudo pode ser prazer e troca.
Voltava para casa depois, pensando em como seria bom ficar na praia, sob aquela lua imensa, que até piscava o olho, como em velhos tempos ou em velhos sonhos, nem sei mais.

Ato II  - ligo o computador e vejo no Youtube Renato Cinco falando sobre o que se seguiu depois que fui embora. Quando a Marcha caminhava ainda pela Vieira Souto, uma viatura da polícia de choque entra na contramão e segue, atravessando a marcha, até o carro de som, onde começa a fazer provocações. Não sei que provocações foram essas. O Cinco não falou.
Ato contínuo, dão tiros com balas de borracha e jogam bombas de gás lacrimogêneo e com isso conseguem dispersar o público. Sobem na viatura e vão embora.

Imprensa, pouco. Ontem era também o Viradão Carioca - uma série de eventos que o governo banca com a intenção de alegrar a população penallzada. A Globo cobriu o dia todo.

De modo que a polícia deve ter achado que a fumaça, que subia aos céus e brincava com a lua sob fundo azul-marinho deve ter sido uma provocação. Foi lá, com as armas do terror, e acabou com esse negócio de maconheiro protegido pela lei. Se a repressão é boa para a favela, deve ser boa também para esses subversivos. Já temos experiência disso.
A orientação é sempre a de não fumar. Mas desta vez, sei lá, saiu do controle. Já são anos de espera para uma coisa sobre a qual ninguém - absolutamente ninguém - pode decidir por cada um.

A foto é reveladora.

http://www.youtube.com/watch?v=sDFyAib_4Us&feature=youtu.be
http://www.youtube.com/watch?v=ek109dl5FKw
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5 de maio de 2012

EDUCAÇÃO & POLÍCIA

Hoje, sábado, é a Marcha da Maconha, que neste ano acontecerá em 37 cidades do Brasil.
As causas difíceis são mais lentas. Porque a sociedade é desigual e padece de falta de informações. A imprensa, por sua vez, não tem liberdade. Tem que seguir a voz do dono.
Lembram da Lei do divórcio? Nelson Carneiro batalhou por mais de 25 anos por ela. E parece tão antiga. Quanta coisa aconteceu desde então!
Mas o preconceito grassa ainda em outras áreas, principalmente as lucrativas.
Sinto muita pena de quem é contra a legalização.
Acho que é uma falta de compaixão não querer que os outros sejam felizes.
Vou, mas vou triste. Vejo mais notícias sobre a invasão? ocupação? das escolas pela polícia, sob o pretexto de coibir a violência.
É terrível que as escolas precisem de polícia. Não será porque os maus exemplos foram tantos, por parte de governos em geral, que as pessoas foram se decepcionando com tudo, deixando de acreditar? Não foi por causa de atos burocráticos dissociados da educação que os professores foram perdendo prestígio e respeito na sociedade? Não foi porque a televisão e a propaganda e as novelas e os programas cômicos foram ficando cada vez mais permissivos? Não foi porque os pais não tinham mais o que ensinar e passaram o encargo para os professores? Confirmado o fracasso do modelo, a solução, então, é a polícia? Polícia nas escolas, nas universidades, nas estradas, nas favelas?
Cada vez mais polícia?
Isso é um estado de direito?
Estamos mesmo muito mal. Só estamos bem em número de usuários do Facebook, atrás somente da Índia. E eu lhes pergunto (por favor, salvem-me): qual é a glória disso?
Lamento constatar que o Brasil embestou. E emburrou. Ninguém consegue conter a enxurrada. E nessa hora você vai fazer o quê? Engolir o Viradão com Luan Santana? Comprar na Eletro com Ivete? Ter um salário livre no Santander com Lília Cabral? Ou prefere um Jorge Vercillo bem geladinho?
Você merece, já dizia o Gonzaguinha.


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1 de maio de 2012

1º DE MAIO, TRABALHADOR


"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas poulares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos, e suas pretensões de governá-los.
Quem duvida disso não conhece a natureza humana."
Mikhail Bakunin
(1814-1876)
É impossível que ainda se creia no voto como um instrumento de mudança. O dia do trabalho, no meu tempo, era quase sempre de luta. Depois de tantos anos de humilhações, o que ganha o trabalhador? Show de música sertaneja, pelo Brasil afora. É nisso que nos transformamos e nos transformaram os sindicatos capachos, como se dizia na época.
Portanto, nada mais pertinente que a citação de Bakunin, para que acabemos com essa palhaçada de comemorações. Os exploradores sempre precisam dos explorados. Por isso é bom mantê-los distraídos. Dê-lhes música sertaneja para que se esqueçam que amanhã estarão na obra, sob o sol duro, limpando as casas, sob ordens, cozinhando e olhando as crianças, de um lado bandido, de outro ladrão, equilibrando-se nos trens, arriscando-se nos ônibus, nas barcas, no metrô. Aquele trabalhador que não tem nada de seu, casa, louça ou comida. Aquele que não se cansa de construir o país, mesmo que tenha que destruir-se, e ao País, porque o movimento quer, e o movimento é forte: chama-se capitalismo, e não permitirá jamais que o pão seja para todos.
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22 de abril de 2012

ÁLVARO MENDES (1938-2012)

                            

"como eu fui, simplificado."

 

Não sei se era verdade que Álvaro Mendes não se reconhecia poeta. A vaidade, que se confunde às vezes com o  pudor, atinge regiões tão remotas que passamos a vida a pensar que não existe. Recebeu, ainda jovem, o conselho de desistir da poesia (os levianos pareceres acadêmicos). Isso talvez o tenha levado a hesitar tanto pela publicação do seu livro Íris breve pela 7Letras em 1999, quando o autor tinha  57 anos.


A publicação tardia talvez se deva também a uma extrema exigência, ao cortar, excluir, substituir obsessivamente até o resultado desejado - o que é quase impossível para os perfeccionistas.

Ao ler pela primeira vez os poemas do livro confesso que não alcancei aquelas paisagens lunares e a linguagem demasiado erudita. Mas ele também não gostava de ser chamado erudito. "Erudito era Augusto Meyer", dizia.  Fiquei impressionada foi com a novidade, a pureza da pedra.

Ivan Junqueira, autor do prefácio de Íris breve afirma com propriedade:

"Duas coisas chamam de pronto a atenção na leitura de Íris breve, livro com que tardiamente se estréia o poeta Álvaro Mendes, que de estreante só tem mesmo a pudicícia de se haver mantido quase inédito até os 57 anos: seu lirismo seco e austero, de cunho não raro reflexivo, e sua intensa fermentação experimental - ou mesmo subversiva - no que toca à trama vocabular e à estrutura sintática (...) O experimentalismo a que se consagra Álvaro Mendes é absolutamente pessoal e, mais do que isso, solitário, o que faz dele um epígono e um prógono de si próprio. "

Jornalista de profissão, do tempo em que havia jornais de verdade - Álvaro Mendes aposentou-se, e talvez tenha aposentado a prática do texto perfeito na imprensa.

Deixou inéditos dois livros: um de poemas, Sardônica, e Alvarozes - uma prosa espessa equivalente ao Ulysses de Joyce. Podem pensar que exagero, mas sigo a intuição. O século é XXI, o país é o Brasil. Qual é a esperança? Quem publicará obra de tal porte de um autor desconhecido? Ou então, quem sabe, agora morto, resolvam descobri-lo? Não seria raro.
Deixo-os com essas lâminas, estilhas, centelhas de um poeta que viveu para a poesia, amante e estudioso de Valéry, Pessoa, Augusto Meyer, Camilo Pessanha, Rosalia de Castro, Eugenio Montale. Em que banco de dados ficarão depositados os conhecimentos e a sensibilidade do artista? 

poemas


poemas são fermentações
falhas de fornicação
tenebrosas associações
- devoradoras de
palavras.

são
altas fábricas de prata
forjas de cal
rubros!
violentos sais verbais.

cães
de guerra em ação
de guarda

são
ações
açores de guerra em terra
aviões de caça
falcões de palavras
descamisadas  em vôo-
-cego em guerra
de morcego.

poemas são
fabricações violentas
de olho em greve morcegam
infravermelho-ávido
têm olho grave
e são rei.

contudo não trabalham
demarcam
golfos vermelhos
teias de hera em letras
das pernas às pedras
com patas de tiralinhas.

(...)

poemas são
fagulhas sinistras
coices brutos no cio
pavios.

poemas cantam
de nada.




nom sabeis concual prazer m´entrego à idéia que preçede a criaçom.

levanto cedo, logo m´esfrego, entre la lampe et le soleil

carece choisir a linguagem adequada         nem pouco nem excessivo

la mesure    le point de jour.

nã sabedes quã labor dá um pícolo anúncio fulgurante in página

cual jóia:

la mesure

le point du jour

 

 

espingarda punho de seda gotas de chumbo facetadas

sacrifício ao deus trovão.

depois... nenhum clarim

                                        tambor / tambor



sinais

incapaz de escolher, paralisado
os sinais me comovem.
em fileira cerrada me prometem
                                                   o mundo
o mundo mudo
- lábios, seios, olhos, um fragmento
de música        detritos, sonhos, ossos
oblíquos cintilando junto ao mar.
os sinais me exsperam: asas-
-pupilas no meu quarto.
o espaço que não tive eles povoam
de sombra resumida mas solícita
misturando secura e pesadelo:
calendário em vez do tempo
os dias sem distância
uma paisagem uma rocha um grito
filtrados pela mesma gelosia 



...

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12 de abril de 2012

MACONHA & DESENVOLVIMENTO


De todas as mentiras, talvez a do desenvolvimento sustentável seja a pior. Todos os dias perdemos para os poderosos a terra, as árvores, o céu - tudo o que precisamos para viver. E temos que calar. Ou melhor, podemos até falar, mas quem nos ouve?
Os que me lêem mais amiúde devem ter notado que estou quieta em relação ao tema liberação da maconha, pelo motivo que todos também já sabem: não há, por parte dos governos em geral, interesse em acabar com o tráfico, simplesmente porque o o que é proibido dá mais dinheiro. Cachoeira que o diga.
Além de dar dinheiro, as "ações armadas" da polícia "pacificam" as "comunidades" e, de quebra, ajudam a matar uma meia dúzia de pobres que não têm nem nome. Trata-se, talvez, de uma experiência para a contenção demográfica.
Alguém aí sabe os nomes dos que morrem em investidas da polícia em comunidades?
Agora, se for um engenheiro, médico, qualquer profissional liberal e até polícia, aí tem nome, aí é gente.
Tanta hipocrisia me cansa. Parece que sempre escrevo a mesma coisa. Não sei se as palavras estão gastas ou se eu é que me gastei.

Afinal, se as próprias autoridades reconhecem que a repressão fracassou, por que não experimentar outra? Só um imbecil não aceitaria arriscar, só alguém muito sério poderia tentar. Experimentar, apenas, ter boa vontade, olhar para a frente com a certeza de que é muito pouco trancafiar jovens pobres porque em algum momento carregaram um baseado de lá para cá, coisa que milhares de pessoas fazem todos os dias em todo o mundo.
O assunto ressurge por conta de duas notícias de jornal. A primeira é a de que na sexta-feira, em lugar incerto, reunem-se pela primeira vez no Brasil os policiais, militares, juízes e desembargadores que vão compor a "Agentes da lei contra a proibição". Ufa! Já não é sem tempo.
E a segunda, ainda melhor e mais pitoresca, é que a população do pequeno vilarejo de Rasquera, na Catalunha, o mais endividado da Espanha,decidiu num referendum, com 56% dos votos, pelo plantio da maconha como parte de um plano para pagar a dívida de 1,3 milhões de euros e criar cerca de 40 postos de trabalho.
O destino da erva são os 5 mil membros da Associação de consumidores de Maconha de Barcelona, (ai como dói o nosso atraso) que reúne pessoas que fazem uso da planta. A associação financiará o projeto durante dois anos.
Bom, aí estão duas notícias alvissareiras.
De qualquer forma, a Marcha está aí (é dia 5 de maio) e sempre é bom lembrar (é preciso lembrar) que o que dizem é que vivemos numa democracia. Uma democracia em que somos achacados pelos impostos, pela polícia e pelas empresas em geral. Uma democracia em que vemos o dinheiro sumir sem que reapareça em forma de nada, a não ser em pessoa, digamos, escondido em malas, meias, cuecas ou contas dos eleitos que sustentamos religiosamente, mesmo que não tenhamos liberdade nem para fumar um baseado.
Não sabemos bem onde tudo isso nos levará, com o Brasil tendo um potencial gigantesco de enriquecimento natural, preferir cavar o o fundo do mar, depredando e poluindo em nome da "riqueza nacional".
Não me conformo que o Brasil, esse país colossal, com terra para todos, não possa ser aproveitado para o cultivo de uma planta que poderia suprir toda a demanda interna e ainda ser exportado. Eu prefiro sonhar com campos verdes do que ver com pavor as plataformas poluidoras que infestam tudo o que há de belo na natureza.
É preciso coragem, convenhamos. A Presidente Dilma teve coragem uma vez, quando assumiu a luta por um ideal. Naquele tempo os inimigos eram os ditos subversivos. Ela era um deles. Agora os subversivos são os maconheiros. É sobre eles que cai a pata do Estado. Alguém sempre tem que pagar. E alguém tem que pagar as armas.
Alguém sempre tem que ser o inimigo da vez, para que não pare jamais a repressão e suas armas assustadoras.
É preciso não esquecer as lições do passado. Naquele tempo talvez a Presidente Dilma tivesse pressa de mudar os rumos do golpe. A coisa não deu certo. Mas o tempo passou. Hoje ela é Presidente. Mas isso não quer dizer que agora deu certo. Está em suas mãos fazer com que dê certo uma outra revolução - a de que outro mundo só é possível se houver liberdade para todos.
O Brasil quer estar à frente? É um dos mais ricos? Pois então que seja, antes de tudo, o mais corajoso na luta contra o preconceito e a repressão.
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