11 de setembro de 2012

O ESTADO PELO CRIME

Cada um de nós tem manias. Eu tenho várias. Uma delas é ler classificados. Quando estou em outra cidade, por exemplo, a leitura de classificados me mostra mais ou menos o mapa da cidade e a distribuição de renda.
Também vejo propaganda eleitoral na televisão. Ao menos no início. Não porque nos informe de alguma coisa - tudo é mentira na tv, mas por causa das sensações que nos desperta. Riso muitas vezes, perplexidade, ira, revolta, outra vez o riso.
Lula apóia Eduardo Paes, como já apoiou Sérgio Cabral. "Veja a diferença entre o Rio há 30 anos e o de hoje". Que coisa! Nem ele nem Eduardo Paes sabem como era o Rio há 30 anos. Como comparar? Confesso, meus amigos: como dói!
Fernando Henrique recomenda Otávio Leite como se dissesse: não temos mesmo outra merda. Vamos com essa mesmo. Mas Fernando Henrique, lembrando Millor,"é um idiota. É o Sarney em barroco. Ele não diz coisa com coisa".
Otávio Leite promete duas professoras em cada sala de aula, mas não lhe passou pela cabeça dividir a classe em duas e confiar cada uma a uma só professora. Lula, com ar compungido, apóia Eduardo Paes com outra cara. Na época ele era O Cara, e Sérgio Cabral , na  visão dele mesmo, também era. Ambos rumo à Copa, uma fonte interminável de dinheiro (Lembrai Havelange e Ricardo Teixeira) mas antes (e rápido) a "pacificação" para o prefeito agora candidato posar de bom moço, como Sérgio Cabral fazia com os velhinhos, e o caso da Clínica Santa Genoveva foi um dos maiores exemplos.
Marcelo Freixo é, sem dúvida, o melhor candidato. Não há outra escolha se o braço gangrenado do Estado, a polícia, não buscar tratamento. Como se sabe, não há cura. O mais perto disso é não deixar que se espalhe, e é aí que Marcelo Freixo é importante, porque Eduardo Paes já fez sua opção pela guerra, ao contrário do que muitos pensam. Não há motivo para que a população pobre, além de ser pobre, seja também humilhada e engrosse, incrivelmente, a relação das mães que perderam seus filhos, dos filhos que perderam seus pais em confronto com a polícia sem que houvesse confronto ou testemunhas. "A injusta agressão", as deslavadas mentiras coletivas na comparação com as imagens. Todo o tempo o crime. Afastados para "investigações" os policiais criminosos saem das ruas e vão para a administração. Ora, também há crime na administração.

Chico Buarque e Wagner Moura apoiam Marcelo Freixo
Dudu Nobre e Diogo Nogueira apoiam (mas parece que foram pagos) Eduardo Paes. De qualquer forma, já se vê a diferença.
Há quem divulgue a farra das Olimpíadas. Mas esquecem a dos 500 anos. Governar é assim.
Não posso dizer que daqui a pouco, se eleito, Marcelo Freixo também não beneficiará sua turma. Por que não? Quem acha que isso é impossível não conhece a natureza humana.  
Paes, se tem a máquina, tem também a responsabilidade de apresentar uma boa cidade para viver. Mas o que vemos é cosmético. Asfalto ali e aqui, asfalto, asfalto ruim, porque logo estão de novo os buracos, calor, transporte insuportável, pessoas que morrem no tal BRT, policiais virados bandidos, milícias, matadores. Acho que os polícias ficam tramando planos enquanto incham suas barrigas. Sofrem todos do mesmo mal. Aliás, como é que se formam as barrigas dos policiais? Acaso será tomando cerveja? Ou depois que se formam não fazem mais exercícios? Não sabemos. Talvez só precisem exercitar o dedo e puxar o gatilho. E isso, está cada vez mais fácil.

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24 de agosto de 2012

AMOR ARMADO

Vinha do Rio para Niterói ontem à noite quando fui parada por uma blitz da Lei Seca.
Foi a primeira vez que fui parada numa blitz.
Vá lá. Quase nunca bebo e também ontem não tinha bebido. Um policial enfiou sua barriga na janela do meu carro e me pediu documentos. Entreguei. Em seguida me perguntou se concordava em fazer o teste do bafômetro e eu, que não quero espichar meu contato com polícia nenhuma e conheço as consequencias legais, só tive que engolir. Fui até a tenda, ele me mostrou o bico descartável e eu soprei naquela merda com todo o ar que era possível, a ver se me livrava da raiva que estava sentindo, da humilhação mesmo de ser parada por um babaca a partir de uma política que acha que a maioria é culpada e que todo cidadão deve se submeter à autoridade, mesmo que ela seja grossa e mal encarada.
As pessoas a quem contei o fato acham que tudo bem, que é assim mesmo, que é preciso impedir que motoristas bêbados andem por aí matando pessoas. Acontece que a grande maioria da população não sai bêbada por aí matando pessoas. A minoria é que bebe e, quando mata, não há o que a impeça. Está visto que a polícia só chega depois do morto.
O motorista atento sabe quando o motorista do outro carro está bêbado, falando no celular ou até dormindo, como acontece com frequencia. Ora, se qualquer motorista é capaz de perceber isso, por que a polícia, que é treinada, não pode? Nesse caso, a "autoridade" quando me mandou parar, depois de ver meus documentos em dia poderia ter percebido que eu não tinha bebido, e que ele bem podia me dispensar do teste, uma vez que sou (também é uma política pública) uma idosa que tem, por lei, algumas prioridades. Ao contrário, a "autoridade policial" não quer nem saber. Sabe que estou na sua mão. Sabe que se eu me negar a fazer o teste vou me incomodar mais do que fazendo. E então lá estou eu, prestando contas dos  atos que não cometi a um policial mal encarado. Se me nego: desacato.
Mas quando a polícia inferniza a vida da população causando engarrafamentos por conta de reivindicações salariais, também nenhum motorista sai do carro para dizer que é desacato infernizar a vida de quem eles devem proteger.
Aí está. Vivemos um estado policial em que a repressão é o melhor remédio. Punição, punição e punição. 
Por mais que Eduardo Paes ame o Rio, e o diga quase chorando na propaganda eleitoral, não acredito em amor armado.


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15 de agosto de 2012

CAUSÍDICOS E CAUDILHOS

O título partiu de um ato falho do Ministro Joaquim Barbosa. Ia dizer causídico, falou caudilho, logo ajeitou. É explicável. Afinal, a Justiça sempre obedeceu ao poder da hora. 
A douta Justiça é tão complicada no Brasil que a Globo resolveu colocar um tradutor dando o resumo da ópera que se descortina nas telas a propósito do Mensalão. É tão difícil o linguajar de alguns ministros, e tantas as leis a que se reportam que não é possível a uma pessoa comum nem saber se estão votando contra ou a favor. 
Hoje levou-se um bom tempo para decidir se o Tribunal escrevia à OAB fazendo queixa das ofensas feitas ao Ministro Joaquim Barbosa por três advogados, ou não. Desliguei antes. Pouco me importa o pleito infantil do Ministro e nem sei se era hora de levantar a questão.
Além disso, considerando a palavra dos senhores causídicos, todos os acusados são inocentes. Talvez o procurador geral da República seja enviado a um hospício, visto que inventou tudo isso. 
Eu, você, o cara da banca, o mecânico e o porteiro soubemos que não foi pouco o dinheiro usado por Fernando Henrique para que passasse a emenda da reeleição. Naquela época não aconteceu nada. Ninguém se indispôs com o Poder. Os que aceitaram receber receberam e tudo continuou porque como vocês sabem, a boca é boa. E a Veja era cega.
Desta vez houve uma denúncia, e num país dito democrático, refém da imprensa marrom, é sempre bom investigar. E então armou-se o circo. 
Palco, meus amigos. A Justiça também é feita de vaidade e ilusão. Vaidade, a deles, porque são inalcançáveis e usam para isso o que há de mais difícil: o próprio idioma, mas aquele que foi feito só para os que freqüentam (sim, com trema) as altas cortes. Ilusão, a nossa, que ainda que tenhamos visto quase tudo, às vezes acreditamos.
Enquanto isso, nas ruas, movimentos de categorias diversas vingam-se do Governo infernizando a vida dos outros. Que outros? Nós, impotentes ante causídicos ou caudilhos.
Para melhorar, nos acenam com quê? Eleições!
Não bastasse, vejo que a Sra. Presidente da Petrobras, Maria da Graça Foster, aceita fazer a campanha para o Criança Esperança. Ainda que de capital aberto, o Governo é o acionista majoritário da Petrobras. E a Petrobras é uma das empresas que  financiam o projeto da Rede Globo - oposicionista conhecida do Governo. Vá entender. 


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6 de julho de 2012

A MACONHA SAI DO ARMÁRIO

La marihuana sale del armario

Bem que eu poderia indicar apenas o link para leitura da matéria, mas preferi postá-la inteira, como saiu no jornal, porque me agrada ter na defesa das minhas próprias idéias o nome, um grande nome da literatura mundial. Um prêmio Nobel.
Algumas pessoas se perguntam porque o Brasil ainda não recebeu um prêmio Nobel. Eu não tenho dúvida de que junto com a valor da obra literária, a posição política do candidato é muito importante para vencer.
No Brasil, principalmente nos últimos tempos, não temos ninguém da espécie que se sobressaia. Aqui, só a política partidária, a de pior espécie, é que vinga. A política maiúscula já ninguém conhece. Por isso quando recebo uma notícia dessas fico muito feliz. É como se recebesse um texto escrito por mim mesma, vendo que a minha voz se levanta, na  companhia de Vargas Llosa e de José Mujica, - este sim um guerrilheiro que não esqueceu seu passado e não se faz de cego para os problemas reais.
Poco a poco, la batalla por la legalización de las drogas va abriéndose camino y haciendo retroceder a quienes, contra la evidencia misma de los hechos, creen que la represión de la producción y el consumo es la mejor manera de combatir el uso de estupefacientes y las cataclísmicas consecuencias que tiene el narcotráfico en la vida de las naciones.
Hay que aplaudir la valerosa decisión del gobierno de Uruguay y de su presidente, José Mujica, de proponer al Parlamento una ley legalizando el cultivo y la venta de cannabis. De ser aprobada –lo que parece seguro pues el Frente Amplio tiene mayoría en ambas cámaras y, además, hay diputados y senadores de los partidos de oposición, Blanco y Colorado, que aprueban la medida–, ésta infligirá un duro revés a las mafias que, de un tiempo a esta parte, utilizan a ese país no sólo como  mercado de la droga sino como una plataforma para exportarla a Europa y Asia. Esta ley forma parte de una serie de disposiciones encaminadas a combatir la “inseguridad ciudadana”, agravada de un tiempo a esta parte en Uruguay, al igual que en toda América Latina, por la criminalidad asociada al narcotráfico.
“Alguien tiene que ser el primero”, declaró el presidente Mujica a O’Globo, de Brasil. “Alguien  tiene que empezar en América del Sur. Porque estamos perdiendo la batalla contra las drogas y el crimen en el continente”. Y el ministro de Defensa de Uruguay, Eleuterio Fernández Huidobro, señaló, como razón central de este paso audaz, que “la prohibición de ciertas drogas le está generando al país más problemas que la droga misma”. No se puede decir de manera más lúcida y concisa una verdad de la que tenemos pruebas todos los días, en el mundo entero, con las noticias de los asesinatos, secuestros, torturas, atentados terroristas, guerras gansteriles, que están sembrando de cadáveres inocentes las ciudades del mundo, y el deterioro sistemático de las instituciones democráticas de los países, cada día más numerosos, donde los poderosos cárteles de la droga corrompen funcionarios, jueces, policías, periodistas y a veces deciden los resultados de las justas electorales. La prohibición de la droga sólo ha servido para convertir al narcotráfico en un poder económico y criminal vertiginoso que ha multiplicado la inseguridad y la violencia y que podría muy pronto llenar el Tercer Mundo de narcoestados.
Según las primeras informaciones, este proyecto de ley pondrá en manos del Estado uruguayo el control de la calidad, cantidad y precio de la marihuana y los compradores deberán registrarse y tener cumplidos 18 años de edad. Cada comprador podrá adquirir un máximo de 40 porros al mes y los impuestos que graven la venta se emplearán en tratamientos de rehabilitación y de prevención y en la creación de un centro de control de calidad del producto. En un comentario a la iniciativa uruguaya que leo en Time Magazine, por lo demás muy favorable a la medida, se recuerda el mal administrador que suele ser el sector público, y con buen juicio se deplora que  no  se deje en libertad al sector privado de llevar a cabo esta tarea, eso sí, bajo una estricta regulación.
En ese mismo ensayo se examina lo ocurrido en Portugal, donde desde hace una decena de años se legalizó de manera parcial la marihuana sin que ello haya traído consigo el aumento del consumo de drogas más fuertes, que es lo que suelen alegar que ocurrirá los que se oponen de manera irreductible a la legalización de las llamadas drogas blandas. Time Magazine recuerda además que, según las últimas encuestas, un 50% de los ciudadanos de Estados Unidos se declaran a favor de la legalización del cannabis. Extraordinaria evolución cuando uno recuerda la tempestad de críticas, y hasta de injurias, que recibió hace algunas décadas Milton Friedman cuando defendió la legalización de las drogas y predijo el absoluto fracaso de la política de represión en las que los gobiernos de Estados Unidos han gastado ya muchos billones de dólares.
El Gobierno del Uruguay, al atreverse a legalizar la marihuana, hace suyos muchos de los argumentos y estudios que viene difundiendo la Comisión Latinoamericana de Drogas y Democracia, que encabezan los ex presidentes Fernando Henrique Cardoso de Brasil, César Gaviria de Colombia y Ernesto Zedillo de México, y de la que yo mismo formo parte con otras dieciocho personas, de distintas profesiones y quehaceres, de la región. Recibida al principio con reticencias y preocupación, y a veces duras críticas, esta Comisión ha ido ganando audiencia y respetabilidad por la seriedad de sus trabajos, en los que han participado siempre especialistas destacados, por su espíritu dialogante y la clara vocación democrática que la inspira.
El problema de la droga ya no sólo concierne a la salud pública, al descarrío de tantos niños y jóvenes a que muchas veces conduce, y ni siquiera a los terribles índices del aumento de la criminalidad que provoca, sino a la misma supervivencia de la democracia. La política represiva no ha restringido el consumo en país alguno, pues en todos, desarrollados o subdesarrollados, ha seguido creciendo de manera paulatina, y sí ha tenido en cambio la perversa consecuencia de encarecer cada vez más los precios de las drogas. Esto ha transformado a los cárteles que controlan su producción y comercialización en verdaderos imperios económicos, armados hasta los dientes con las armas más modernas y mortíferas, con recursos que les permiten infiltrarse en todos los rodajes del Estado y  una capacidad de intimidación y corrupción prácticamente ilimitada.
Lo ocurrido en México es sumamente instructivo. El Presidente Calderón, consciente del enorme riesgo para el funcionamiento de las instituciones que representaba el narcotráfico, decidió combatirlo de manera frontal, incorporando al Ejército a esta lucha. Los 50 mil muertos que esta guerra lleva ya en su haber no parece haber hecho mayor mella en las actividades criminales de los mafiosos, ni haber disminuido para nada el consumo de drogas blandas o duras en la sociedad mexicana, y sí, en cambio, ha desatado una creciente desesperanza y decepción hacia el gobierno, al que se reprocha incluso, con dureza, “haber declarado una guerra que no se podía ganar”. ¡Fantástica conclusión! ¿Había , pues, que bajar los brazos, rendirse, mirar para otro lado, y dejar que los pistoleros y traficantes de la droga se fueran apoderando poco a poco de todas las instituciones de México, que pasaran a ser ellos los verdaderos gobernantes de ese país?
Evidentemente, ésa no podía ser la solución. ¿Cuál entonces? La que, con gran mérito, está emprendiendo el gobierno uruguayo. Cambiar de táctica, pues la puramente represiva no sirve y es contraproducente, ya que beneficia a la mafia, a la que enriquece y confiere más poder. En las actuales circunstancias, la primera prioridad no es poner fin a la producción y al consumo de drogas, sino acabar con la criminalidad que depende íntimamente de estas actividades. Y para ello no hay otro camino que la legalización.
Desde luego que legalizar las drogas implica riesgos. Deben ser tomados en cuenta y combatidos. Por ello, quienes defendemos la legalización siempre subrayamos que esta medida debe ir acompañada de un esfuerzo paralelo para informar, rehabilitar y prevenir el consumo de estupefacientes perjudiciales para la salud. Se ha hecho en el caso del tabaco y con bastante éxito, en el mundo entero. El consumo de cigarrillos ha disminuido y hoy día quedan pocos lugares donde los ciudadanos no sepan los riesgos a los que se exponen fumando. Si quieren correrlos, sabiendo muy bien lo que hacen, ¿no es su derecho hacerlo? Yo creo que sí y que no está entre las funciones del Estado impedir a un ciudadano que goza de sus facultades llenarse los pulmones de nicotina si le da su real gana.
Siempre he tenido una gran simpatía por el Uruguay, desde el año 1966, en que fui a Montevideo por primera vez y descubrí que América Latina no era sólo una tierra de gorilas y terroristas, de revolucionarios y fanáticos, de explotadores y explotados, que podía ser también tierra de tolerancia, coexistencia, democracia, cultura y libertad. Es verdad que Uruguay pasó a vivir luego la atroz experiencia de una dictadura militar. Pero la vieja tradición democrática le ha permitido recuperarse más pronto que otros países y hoy, quién lo hubiera dicho, bajo un gobierno de un Frente Amplio que parecía tan radical, y un presidente de 77 años que fue guerrillero, es otra vez un modelo de legalidad, libertad, progreso y creatividad, un ejemplo que los demás países latinoamericanos deberían seguir.

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1 de julho de 2012

CRIME SEM CASTIGO

Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um lamento de guitarra, alguns retratos e uma velha espada.

(Jorge Luis Borges)

Durante anos a gente ouviu falar que o crime organizado era o tráfico. Depois soube-se que só poderia ser tão organizado com a ajuda da polícia. Mas a polícia cansa de ganhar pouco, e vai atuar na milícia, que é mais organizada. Como o tráfico, tem regras próprias e mais eficazes. Mas com o tempo vimos que o crime, aquele que não é passível de prisão ou de castigo, vem mesmo de cima; de uma justiça cega, não porque seja imparcial, mas porque prefere não ver.A recente quebra dos vidros no prédio do STF pelo impacto de um avião caça é no mínimo uma metáfora. Ou um aviso, não sei. Quem sabe uma  piada. 
Agora a Força Aérea vai pagar o prejuízo. Melhor seria se ao invés do exibicionismo levassem de volta a pobre africana que sobrou da Rio + 20.
Ninguém se feriu, diz a repórter. Feridos mesmo são só alguns milhões de brasileiros, que não cometeram crime nenhum e vivem sob permanente castigo. Inoperância, indiferença, descaso.Mas o Rio é lindo, foi considerado patrimônio cultural da humanidade - declara a Unesco. E todos os brasileiros estão de parabéns. O que fazemos com isso, não sei. Perguntem aos desabrigados de Teresópolis. Talvez eles tenham alguma coisa a dizer. Quanto a mim, a única coisa que me vem à cabeça é esse sentimento que Vinicius traduziu genialmente.

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Pátria minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes."

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20 de junho de 2012

ECA !


Pois a minha impressão dessa Rio + 20 é a mesma da Eco-92. Nada. Só conversa. Tanto é que das decisões tomadas naquela época menos de 0,1 aconteceu. Quem afirma é um diretor do Greenpace. Enfim, ninguém tem interesse em mudar nada. Já ficou tudo para 2014, 2020 e até mais, se lá chegarmos.
Arma-se o show para que a maioria acredite. 
Diminuir a emissão de gases. Mas isso é impossível com a fabricação de carros. Mas não podemos deixar de fabricar carros. Ah, bom, então não se fala mais nisso.
Enquanto os chefes discutem e negociam, dormindo em luxuosos hotéis e com trânsito liberado, o povo arrisca a vida todos os dias no transporte público, nas portas dos hospitais, nos guichês dos tomadores.
Talvez fosse melhor - se os participantes das comitivas tivessem realmente interesse - que chegassem no aeroporto e brigassem pela tarifa séria nos táxis, depois entrassem no ônibus, no metrô ou nas barcas para ver como é o transporte. Não se deixassem levar para os programinhas modernos, tais como visitações a favelas bonitinhas e “apaziguadas” pela repressão. Favelas – a representação máxima da injusta e interminável má distribuição de renda.
Talvez se o estrangeiro visse tudo isso, não voltaria tão contente por ter feito apenas tentativas e turismo. O resultado foi zero, mas o preço, os cariocas fatalmente pagarão. 
Se eu chegasse numa cidade e visse o aparato bélico voltado contra os cidadãos eu também temeria pela minha segurança. Se eu soubesse o que falta de esgoto, de água, de segurança nas zonas pobres da cidade, que crescem sem parar, e visse o tamanho dos lixões, eu saberia que estava, de fato, num país subdesenvolvido.
E que não será o futebol, o pagode ou a tecnologia que nos tirará dessa condição. 

PS. Emergiu, de tudo isso, um grupo de cientistas que diz que o homem não é o predador. Que essas mudanças climáticas acontecem ciclicamente. Só faltava essa. Agora mesmo é que neguinho vai sujar geral.
Despeço-me, nesse inverno anunciado e que graças a Deus nunca se cumpre no Rio de Janeiro, com uma imagem da Bahia, que ninguém é de ferro, e com esses 

Três poemetos sustentáveis


De tudo o que se polui atualmente
a mentira
fica pra semente


Praia deserta
os piratas no entanto estão ali – eu sei
querem só petróleo
e agem dentro da lei


A Petrobras perfura
A Vale explode e fura
A Monsanto – desventura
A Maconha cura

......


6 de junho de 2012

NAS ALTURAS


Trazia ainda o silêncio do mar esmeralda, a praia deserta e as noites de onde despencavam estrelas. Abri os olhos. Estava no céu. Quisera estar, enquanto olhava da janela do avião as nuvenzinhas brincando como ovelhas novas. Mas daí a pouco não estavam mais. Era o chão, o aeroporto, as malas, e logo os carros em sua confusa ordenação. Vinham nítidos na memória da alma os brilhos lunares e o grito das caturritas. Era novamente eu, carregando o tempo nos ombros, o peso dos acontecimentos, a certeza de que nada houvera de novo, de espantoso. Mas não. Sempre há uma promessa. Dessa vez tinha um nome absoluto: Contos completos, de Sérgio Faraco, autor gaúcho, tradutor de Idea Vilariño e que me reportou a outro, João Simões Lopes Neto, registrando a vida e a linguagem da gente miúda do Rio Grande, do gaúcho sem nome, que morria sem que se soubesse a causa, de tiro ou de febre, sempre escravo do latifúndio, das oligarquias e da lei, como os pobres de Saramago em Levantado do chão ou os negros de Paulo Lins em Desde que o samba é samba.

O que posso dizer é que lá em cima, longe dos pagos que irmanavam Rio Grande e a banda oriental pude sentir de novo a maravilha de ser tomada pela emoção do texto impecável, do tema sagrado, da grandeza que é a vida de cada um e que o artista pode reinventar e transformar em verdade. Chorava, no avião, primeiro lágrimas rasas, mas depois deixei que saltassem e me abandonei o que pude, o que necessitava, cheia de compaixão e amor pelo que um dia fomos e se chamava humanidade.


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