11 de novembro de 2010

MOVIMENTO LITERÁRIO: UMA PROMESSA?

Tenho observado uma grande movimentação em torno da literatura nos últimos tempos. Há vários eventos literários acontecendo quase ao mesmo tempo, o que faz supor uma nova onda para a literatura.


Queixam-se os poetas de que a poesia não tem público, e de fato quem freqüenta com mais assiduidade os eventos verifica que o público é sempre de poetas, e dependendo dos lugares, os mesmos.


Por isso resolvi criar o blog do panorama da palavra, que não substitui o jornal, mas que pretende oferecer, num tom de reportagem, informações sobre semelhanças, diferenças, participações e organização dos encontros literários.


Claro que os livros merecerão lugar, bem como os poetas e poemas, além dos acontecimentos. Assim poderei responder com mais agilidade àqueles que buscam divulgação do seu trabalho ou do alheio que mereça.

Mas para isso conto com você, caro leitor, que já me acompanha neste blog. Não poderei estar em todos os lugares e não quero que minha opinião (somente ela), sirva para informar o que é, quem é, como é, onde e quando.

Assim como o blog, também eu estou sempre em processo.


Combinados assim, veja lá: http://www.panoramadapalavra.blogspot.com/
e me ajude na empreitada que, sabemos, não é fácil.

Esta postagem é madrinha do blog que nasce, e para dar-lhe força chamo um poeta imbatível:

Fernando Pessoa.


Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
...

3 de novembro de 2010

O OUTRO LADO DO DIA



Pronto. Acabou-se a disputa. Dilma Roussef venceu e foram inaugurados novos mortos no feriado de Finados.
A experiência não me permite mais grandes arroubos em se tratando de política, embora eu ainda sinta o gosto efêmero das vitórias. As decepções sempre caminham juntas.
Vi algumas entrevistas, e percebi que a capa da candidata foi afrouxada. Digamos que foi retirado o espartilho. Está menos tensa, e encara com segurança os novos dias. O equilíbrio emocional a ser mantido numa campanha é tarefa difícil. Ainda mais num jogo tão pesado. E mais a televisão com suas exigências
Dilma, digam o que disserem, é uma mulher admirável. Não domina a oratória, como Marina, mas mesmo assim ela se saiu bem, ninguém precisa ser bom em tudo.
Nunca se distanciou dos objetivos a que se propôs ainda na juventude e aprendeu na luta por uma ideologia um caminho a seguir. Foi secretária de dois partidos diferentes no Rio Grande do Sul. Convidada por Alceu Collares, do PDT, para o secretariado do município e depois do governo do Estado, permaneceu com Olívio Dutra, do PT. A competência fica evidente aí, quando duas cabeças diferentes em partidos diferentes, reconhecem numa terceira pessoa condições de tê-la no governo na certeza da honestidade e do respeito ao serviço público. Yeda Crusius não tinha sido inventada.
Depois, já em Brasília, disseram que ela era mão de ferro, que o baixo clero (o que estará armando nesse momento?) a odiava porque ela não recebia ninguém. Tinha suas razões.
Foi o ex-marido, o ex-deputado Carlos Araújo, a testemunha mais marcante que falou sobre ela. Disse que em casa não havia soco na mesa. Como ser delicada com os canalhas?
Não há nada que a desabone, no público ou no privado. As alianças fazem parte da política, e também do mundo dos negócios. Não sejamos inocentes.
Dilma é de Minas, passou por São Paulo, aprendeu no Rio Grande do Sul? Nada disso importa muito. Importa que é competente, é mulher e agora é Presidente. Uma brasileira. Um quadro, para falar no jargão, que cresceu na militância por uma ideologia.
Isso, meus amigos, não é para qualquer um, ou uma. O dedo do destino não aponta para a classe operária. Aponta para Lula. Não aponta para um negro, mas para Barack Obama. E nem para a mulher brasileira. Escolhe Dilma.
O que será daqui para a frente? Alguma coisa vai mudar? Tudo muda todos os dias.
Será para melhor? O que é o melhor? São 190 milhões de respostas. Quem poderá escutá-las?...
...

28 de outubro de 2010

FERREIRA GULLAR - ELEIÇÕES POESIA E DROGAS

Todo o mundo já deve ter lido a entrevista de Ferreira Gullar abrindo seu voto para Serra e a inevitável repercussão.

Dediquei-me ler os comentários sobre a entrevista em vários blogs que a publicaram e acho que o povo está sendo muito severo com o poeta.

Os adjetivos usados são os piores - aqueles que a gente usa quando quer desmoralizar o desafeto. Velho é o mais usado, querendo dizer com isso que deve estar gagá, ou acometido de alguma doença que lhe altere o raciocínio, embora ele esteja, como diz, aos 80 anos, gozando da mais perfeita saúde, e recebendo prêmios.

Não se trata aqui de defendê-lo porque é poeta. Trata-se de compreender que uma pessoa muda de posição e tem direito de mudar. Equivoca-se com o que quer se equivocar. E até se destempera, se lhe dá na telha.

Penso que Gullar e sua poesia foram importantes para o Brasil num determinado contexto histórico. Passado isso, Gullar teve que cuidar da vida, e seguiu em frente. Foi ganhando espaço até chegar a um momento em que foi considerado o mais importante poeta vivo do Brasil - o que seu passado de luta muito ajudou. Mas foi considerado por quem? Nunca se sabe. Pela mídia? Pelo universo de leitores de poesia?
E então, o que aconteceu? Mudou de turma. Ficou livre para ser (sempre foi) amigo de Sarney (deve ter sido Sarney quem lhe disse que no nordeste não existem pobres, conforme está na entrevista), e é colunista da Folha. (Algumas idéias expressas na entrevista parecem vir de editoriais). Não é por nada que Jabor é lembrado junto, quando se trata de dar exemplo de quem mudou de idéia.

Mario Vargas Llosa acabou de ganhar o Nobel e não vi ninguém se insurgindo contra o fato porque ele seja de direita, seja lá o que isso for, mas chamemos de direita o reacionarismo, a rejeição ao novo, o medo dos avanços. Talvez porque Vargas Llosa seja, mundialmente, considerado um escritor enorme. Não sei se Gullar é tão grande como poeta.

Além de votar no Serra, Gullar é contra a legalização das drogas. Tem seus motivos, mas são motivos particulares, e considero no mínimo egoísta querer impedir que uma multidão de usuários deixe de ser perseguida pela polícia porque em algum momento ele mesmo, ou qualquer pessoa com a mesma opinião, precisou lidar com problemas decorrentes. É o mesmo caso de alguns psicólogos e afins que são contra as drogas porque recebem em seus consultórios muitos dependentes. Ora, o universo dos consultórios é mínimo em relação ao número de usuários. E é melhor frequentar consultórios do que cadeias, não é mesmo? Até mesmo para os psicólogos.

Dito isso, considero que a ofensa não é a melhor política para o período que antecede as eleições; que Gullar, se não é nosso maior poeta vivo, ao menos está vivo e é uma voz dissonante. A maioria dos poetas e intelectuais está fora do debate. No máximo, assina listas. E afinal, sempre fui contra o pensamento único.

Quanto a mim, votarei por minha tia, que morreu querendo votar em Dilma. Farei isso por ela porque nela, sim, eu acreditava. Votarei na mulher que Dilma é, com seu passado de militante e sua coragem de enfrentar tantas forças num universo de homens - coisa difícil.

Espero, no entanto, que reveja muitas posições em relação às quais se atrapalhou durante a campanha, imagino que em virtude das abomináveis alianças. De resto, é esperar.
E rezar.



Crente
eu também sou.
A poesia é minha religião.
O sol, meu deus.
A maconha, minha hóstia.
O silêncio, minha igreja.
E meu corpo,
altar para o milagre cotidiano

Dúvidas eu só tenho
sobre quem não duvida

...

21 de outubro de 2010

MÉXICO MACONHA E TOUPEIRAS


O que pensarão os nossos pósteros ao verem uma foto como essa? Poderão compreender que o México, que em 2010 ainda tinha 23 milhões de habitantes em estado de fome crônica, queimasse 134 toneladas de uma planta que valia, por baixo, o equivalente a 560 milhões de reais?

Isso me lembra Fahrenheit 451, o filme de Truffaut baseado no romance de Ray Bradbury em que opiniões próprias eram proibidas e para isso queimavam-se os livros - tudo controlado pela televisão. Mas as pessoas resistem ao decorar livros inteiros.
Houve outros momentos de controle de leitura (e idéias) ao longo da história. Sempre há alguém querendo impor o pensamento único.

Ora, combater as drogas equivale a combater opiniões próprias. Afinal, é preciso sempre perseguir e, se possível, matar alguém, para que as armas tenham alguma utilidade. E como nesse negócio meteram-se os pobres, melhor ainda. Já se faz uma limpeza étnica. Fora ou dentro dos porões.
Do ponto de vista ambiental, nem se fala. O crime é ainda maior. Os governos cavam a terra, querem minérios (a Vale que o diga), cavam o mar, querem petróleo (A Petrobras não tem limites) e agora o pré-sal. Mudam o curso das águas, gastam horrores com os equipamentos e a operacionalização (bem menos com os salários). Cavam para buscar minério (aí estão os mineiros chilenos para cujo salvamento deve ter sido gasto mais do que anos de salário). E mesmo com esse custo astronômico, com a destruição brutal do corpo da Terra, que os exploradores explodem, trituram, destroem, corrompem, ainda assim acham que é melhor combater as drogas. E chamam de droga uma plantinha que precisa de sol e água.
Mas governos não podem decepcionar as fábricas de armas. Os lobbies são fortíssimos. Dona Taurus e Dona Rossi não podem parar. Os cursos estão aí. Sempre tem um coronel aloprado para dar os treinamentos. Fora isso tem o exército, a polícia e os bandidos de plantão. Tudo plantado pelo sistema, que o Capitão Nascimento demorou a reconhecer.
Assim são os homens-toupeiras. Quase cegos, preferem se meter nos buracos. Rejeitam, prendem e queimam o que a Terra dá, naturalmente. Mas cavam brutalmente as suas entranhas. Um dia acharão o coração. E ele explodirá em mil pedaços na mão dos torturadores.
Talvez aí o mundo seja outro.
Comecemos com a manchete de um mundo novo:
"Tratado internacional decide a paz mundial e fecha as portas de todas as fábricas de armas".
Pensam que estou viajando? Não mesmo.
No dia 2 de novembro, na Califórnia, será votada em plebiscito a Proposição 19 para decidir sobre a legalização da maconha.
E os Estados Unidos, vocês sabem, sempre foram um ótimo exemplo para os nossos governos.
...

19 de outubro de 2010

RAZÃO E OBSCURANTISMO

Esta é uma entrevista que não posso deixar de divulgar porque é tão simples, tão singela, tão evidente do que é o moralismo vigente (no jornalismo!!!) que parece até que não é verdade tudo por que passam, e passarão, os povos submetidos a políticas arbitrárias e ditatoriais que pretendem decidir sobre a vontade inalienável de cada cidadão.
A entrevistada é a Professora Gilberta Acselrad, Coordenadora do Núcleo de Estudos sobre drogas, Aids e direitos humanos da UFRJ.
A entrevistadora(céus!) é essa senhora que vocês conhecem -- Leilane Neubarth.



http://www.youtube.com/watch?v=J53SNRZgowU


...

11 de outubro de 2010

CAPITÃO NASCIMENTO E PIPOCAS


O Capitão Nascimento vem agora como tenente-coronel. Nem quero imaginar as coisas por que passou até chegar até aqui. Ainda não vi o filme, mas lembro de um jovem equivocado, como se pode ser equivocado na juventude. Um iludido, com laivos visionários. E tão ardorosamente destemido.

Wagner Moura faz o personagem. Um embate cruel de criaturas, umas pela sobrevivência no crime, outras pelo equívoco. O Estado mantém pretos e brancos pobres em campos opostos a partir da escolha de submeter ou ser submetido. Na busca pela sobrevivência, a polícia acaba sendo a primeira opção. Salário pouco, mas certo, pra que a miséria não bata à porta. E ainda tem as despesas com celular, etc.

Sempre penso que às vezes o policial encontra um primo, o vizinho, o filho da Dona Didi, o amigo das quebradas. E mata o mano por uma razão que nem é dele.

Espero que os santos todos da Bahia mais a força dos terreiros ajudem aquele fio da terra que venceu nos Rio de Janero. Não é um herói de guerra de verdade. Mas alguma coisa é de verdade?
Vou ver o filme também pelo José Padilha. Um cara bom de filme e de mídia, uma promessa.

Está faceiro, eu vi numa entrevista. E bem merece. Um filme é antes de tudo uma obra de arte, e vocês sabem que um dos elementos essenciais para quem ama o cinema é que ele seja visto em silêncio. (Ah, se me ouvissem os pipocantes de cinema).
As pipocas (sacos enormes!) - um desrespeito aos trabalhadores do cinema, de todos os níveis, além do desrespeito ao vizinho, que pagou a mesma coisa.
Buñuel filmou uma cena em que os convidados saem da sala de jantar, onde estão sentados em vasos sanitários, em volta da mesa, e vão comer, privadamente, num cubículo onde a comida chega sem que se tenha contato com ninguém. Coisa de surrealista. Deu outra. Ninguém pode mais ficar hora e meia sem encher a pança.
Meu amigo, por favor: então um batalhão de gente faz um filme para você, espectador, mobiliza um sem número de equipamentos e trabalhadores, de diretores a carregadores de balde, e você, cidadão, você, um cara inteligente que sabe tudo sobre a invasão cultural que os do norte perpetraram contra nós - você! - come pipocas sobre o Capitão Nascimento? Francamente, assim você desmoraliza a nossa Polícia.


...

9 de outubro de 2010

ABORTO HOMOSSEXUALISMO DROGAS

É assunto demais para uma simples postagem? Não mesmo, é tudo a mesma coisa. Tudo tem a ver com a liberdade individual, aquilo que a pessoa pode escolher ser ou fazer sem que ninguém tenha nada a ver com isso.

Há um filme francês em cartaz "Le refuge" em que a personagem, viciada em heroína, descobre que está grávida. O médico lhe diz que ela pode escolher entre ter ou não ter o bebê, mas que receberá os cuidados necessários, seja qual for a sua escolha. E é assim que deve ser. À mulher cabe decidir se quer ou não o filho. E aos médicos cabe acatar a decisão. Quanto ao governo, só tem que dotar o sistema de saúde de modo a atender a todos. O resto é conversa. Como já se viu, não é mais possível ignorar o número de mulheres que morrem por falta de cuidados médicos quando querem interromper a gravidez.

Melhor que não o fizessem, que nem pensassem em fazê-lo, mas se elas consideram que não podem criar os filhos ou não se consideram aptas para serem mães, não há lei que as faça desistir de interromper a gravidez. Morrem por isso. Nem se dão conta, mas morrem pela defesa de uma liberdade individual com a qual já nasceram e ninguém - ninguém - tem o direito de usurpar. É uma morte miúda, solitária, que acontece em quartinhos escuros, em clínicas infectas onde se esvaem com sangue quantas esperanças.

A mesma coisa acontece com os usuários de drogas. Quanto maior a repressão, mais aumenta o número de pessoas que usam drogas e não querem deixar de usar. O governo, ao invés de organizar o comércio, patrocina a guerra.
Evidente que sempre há os que se dão mal, como no caso dos abortos. Mas esses casos devem ser tratados da mesma maneira. A saúde de cada pessoa deve ser defendida, e não os pretensos valores morais, os interesses imorais e os julgamentos religiosos. Se o padre ou o pastor acham que a mulher deve ter o filho que não quer, eles que cuidem. (embora isso talvez represente um risco maior para a criança).
Será que a falta de cuidados com o aborto tem a ver com a repressão às drogas? Afinal, as mortes maternas são quase sempre entre pobres. Também os presos (e mortos) em virtude do combate às drogas são na grande maioria pobres. Será paranóia? Mas é muita coincidência não é?

E o homossexualismo? O homossexualismo também é uma escolha indvidual, a despeito do que digam católicos ferrenhos ou evangélicos fanáticos. A falsa moral fez com que vivessem muito tempo escondidos e condenados, mas resistiram, lutaram, muitos morreram. Agora estão livres, pelo menos nas grandes cidades, embora exista um homofóbico em cada esquina. Mas esses não se atrevem como se atreviam antes. Os homossexuais são bem sucedidos, fazem paradas alegres, as famílias levam as crianças, o ramo hoteleiro exulta. Houve avanços. O problema é que as lutas específicas não ajudam as outras. E como dizia Simone de Beauvoir (é sempre bom lembrar), Querer-se livre é também querer livres os outros.
...