7 de dezembro de 2010
ELES NÃO PARAM AS LOIRAS
Peguei o bagulho e ainda rolou uma carona. Tudo firmeza.
Mas você não tem medo?
Tenho não, eles não param as loiras.
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6 de dezembro de 2010
A PAZ, NEM QUE SEJA A PONTAPÉS.
A gente anda para cá e para lá. O Brasil, vocês sabem, é grande. Quanta extensão de terra! Quanta plantação! É do tamanho do Brasil que vem essa vocação para o cultivo: arroz, café, erva-mate, laranja, milho, todos os chás invejados pelo mundo afora. Cada um faz bem para uma coisa. Nada não presta. Tudo é aproveitável. E já está aí. É só a água molhar. Como é grande o Brasil, e como é lindo! Alguém já viu uma plantação de café? Alguém já viu uma plantação de maconha? E de laranja? Culturas, apenas isso, culturas. Para quem gosta de café, maconha ou laranja. Só tem uma diferença: quem gosta de maconha se dá mal. É perseguido. É proibido.
A invasão no Complexo do Alemão já apreendeu 36 toneladas de maconha. (Pelo menos é o que nos contam). E aí essas 36 toneladas de dinheiro são queimadas nos fornos da CSN. Não é a primeira vez. Dessa vez já não tivemos Ministro pagando o mico, mas a coisa continua.
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, afirmou em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo” e à “RedeTV!” que vai sugerir à presidente eleita, Dilma Rousseff, uma discussão internacional sobre a legalização das drogas leves. Segundo Cabral, o tema tem que ser levado a fóruns internacionais.
“Sou a favor da discussão sobre a legalização, mas num plano internacional é que isso tem que se dar. Não adianta eu, governador de estado, levar esse tema. Isso tem que ser discutido na ONU (Organização das Nações Unidas), no G-20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo)”, disse Cabral.
Dessa maneira o Governador Sérgio Cabral se safa de tomar a frente e fazer o gol. Passa a bola e, para os abolicionistas, posa de simpatizante. Mas nos maconheiros - polícia. Só Deus sabe por que mais passarão os moradores das favelas com esse estado de guerra em que a polícia pode entrar quando quiser, olhar o que quiser, fazer o que quiser. Suspeitos antes do crime. Criminosos sem defesa. Na hora morta da noite, quem se levanta para acudir o vizinho? Alguém sabe o que é ouvir o torturado e não poder fazer nada para não dançar? As mulheres, principalmente as mulheres, sabem. No outro dia é que são elas. O choro, a humilhação dos mais fracos.
A novidade vem por conta do editorial do Globo que, se eu li direito, é, agora oficialmente, a favor da despenalização. Uma outra opinião é a do Coronel da PM, na reserva, Milton Corrêa da Costa, que acha que legalizar é um tiro pela culatra e pergunta: se a política de repressão não deu certo, qual é a garantia de que uma política de legalização dará? Ora, isso não sabemos e não saberemos sem arriscar, desde que esta experiência venha bastante discutida, bastante estudada, na intenção maior e constitucional de garantia (aí sim é preciso) dos direitos individuais. E é só não vir armada que já está bom. Ninguém quer mais guerra. O coronel também cita a Presidente Dilma Roussef ao ser indagada, tempos atrás, sobre a descriminalização das drogas: "Descriminalização de drogas é um tiro no pé. Num país com 50 milhões de jovens entre 15 e 19 anos é complicado."
Complicado? Pode ser. Mas o que fazer se esses jovens querem ter outras experiências, se não acreditam mais nas histórias que lhes contaram? Matá-los é menos descomplicado do que orientá-los?
Já o Sr. Carlos Werneck, que se diz empresário, escreve na coluna de opinião dizendo que o pontapé para a recuperação da confiança e admiração do carioca na política já começou. Entre lágrimas e fortes emoções acompanhei suas impressões sobre as meigas manifestações de moradores saudando a ação da polícia. Há outras experiências, mas sobre essas o senhor empresário não falou.
Também quero deixar aqui o meu bilhetinho às forças de ocupação: LEGALIZAR É LIBERTAR. Não existe liberdade monitorada. E os pais sabem disso muito bem.
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27 de novembro de 2010
A MAIORIA É BURRA
Assim começa o sábado no Rio de Janeiro, onde o sol não quer nem espiar.
Assim seguimos nós prisioneiros das nossas escolhas. A maioria acha que Sérgio Cabral é o melhor para governar o Rio? Lula apoiou Sérgio Cabral. É a maioria, certo?
Pois essa guerra não tem fim. A maioria apóia. A maioria não sabe o que faz. A maioria se queixa dos impostos mas não se importa que eles sirvam para matar e prender. A maioria não sabe a quem serve o tráfico.
Nelson Rodrigues disse um dia que "A unanimidade é burra". E estava certíssimo. Que me permita avançar dizendo que a maioria também é burra quando pensa que só há uma solução para tudo. Justamente por isso é burra.
Há outras, mas a maioria ignora porque não foi educada para pensar com a própria cabeça. Fica gravando as mensagens massacrantes ou subliminares do poder constituído. Aprende só um pouquinho.
Há outras soluções, mas nem se fala nelas. As autoridades militares, os "consultores de segurança", os estrategistas na arte de matar discutem com aquele ar de quem sabe tudo. Mas as crianças estão sendo revistadas. Jamais serão crianças de verdade. O olhar amoroso, o alimento, a possibilidade de descobrir o mundo em suas inesgotáveis atrações. Piscinas para a população pobre, mas o pobre não pode entrar. Quer jogar tênis? Tênis é esporte de burguês, vai jogar uma pelada, otário.
Hoje é sábado, amanhã é domingo. Vinicius nem imaginava.
26 de novembro de 2010
A QUEM INTERESSA A GUERRA?
Os arrastões freqüentes em vários pontos da cidade já surgiam como resultado da política de "pacificação" das favelas cariocas, onde os pobres vivem acuados, entregues à lei do mais forte, seja polícia ou bandido.
Seria uma ingenuidade pensar que depois de perder mercado os traficantes não fossem buscar outras fontes. Aliás, se não fosse contra a lei isso tudo seria chamado de "empreendedorismo".
A televisão, o governo, grande parte da população apóia as ações belicistas e mostrou isso nas urnas, mas eu sigo pensando que ante a impossibilidade de impedir o avanço das drogas (a todo instante uma droga é inventada) a única solução pacífica é legalizá-las, e não fazê-lo, se não é burrice, é puro interesse pelo dinheiro (que não é pouco), que sustenta a corrupção.
A legalização seria o verdadeiro golpe no reinado do tráfico. É claro que não impediria o crime, mas certamente a lei serviria para organizar o mercado, captar recursos e investir em educação, que é o de que mais precisamos.
A operação de guerra montada pelas polícias do Rio e as forças armadas desencadeada no dia 25 e considerada um SUCESSO REPRESSIVO, não impediu, no entanto, que cinco veículos fossem incendiados durante a noite e não impedirá que o monstro criado com migalhas por uma sociedade racista e desigual tenha crescido, em força e raiva, e agora jogue seus tentáculos sobre a cidade que o ignorou. Tudo era previsível, e até demorou.
Durante toda a cobertura sobre os episódios assustadores que a cidade enfrenta não se ouviu uma única voz (sim, elas existem e são muitas) falando sobre a possibilidade de um novo modelo de política relativa às drogas. Parece que a guerra também dá barato. Tudo é feito como se confronto, repressão, prisão e morte fossem as únicas soluções para a segurança.
E vocês sabem que a gente colhe o que semeia. Querem guerra, aí está. Quanto estará custando? E quanto valem as vidas já perdidas?
PS. Ao recomendar que a população da Vila Cruzeiro se protegesse nos momentos da ação da polícia o jornalista da Globo disse que as pessoas não ficassem nas janelas e fossem para os corredores das casas.
Corredor, meu filho? Nunca subiu uma favela e não sabe em que espaço habitam os pobres.
Talvez seja isso que assegure uma política equivocada. Tratam do que não conhecem. E quando conhecem, é só teoria.
16 de novembro de 2010
A INCONSCIÊNCIA BRANCA
Há movimentos que emergem vagarosamente, reconheço, mas poucos, muito poucos em relação à infame escravidão.
Fiquei contente, por exemplo, com o curta que assisti num festival no cine Odeon, o IV Encontro de Cinema Negro Brasil África e Caribe. Um dos participantes, Carlos Maia, frequentou uma oficina de poesia que fiz uma ocasião, no morro do Cantagalo. Dos oito que se inscreveram, só ele ficou. E fez um trabalho muito bom, sabe Deus com que sacrifício. Mas é um que se preserva. E os outros?
Há cadeias repletas, imundas, indignas, ocupada principalmente por negros. A chocante campanha institucional para o Censo (alguém viu?); novos quilombos na Bahia (novos!), construídos para que os negros se protejam da polícia (negra).
Soube, e mostro a ação da polícia numa tentativa de remoção na Vila Taboinha, na zona oeste do Rio, na tarde do dia 09 de novembro de 2010. Uma ação cruel e desnecessária, engendrada pelo "choque de ordem" do governo.
http://www.youtube.com/watch?v=R3T9c0fNBP0
Agora, finalmente, descobre-se que o Brasil sofre do maior dos preconceitos, que é o de acreditar que não tem preconceito. Somos preconceituosos, sim. E muito mais do que pensávamos. E pior: estamos nos tornando ainda mais. A raiva está aumentando, as pessoas estão mais agressivas, o medo faz com que tenhamos reações que humilham os nossos diferentes. Os arrastões diários, as explosões que se sucedem aqui e ali, entre crianças ou adolescentes, nas brigas de trânsito, na vida doméstica. Onde quer que se apresente um motivo, por mínimo que seja, ou mesmo sem motivo algum, alguém pode agir de maneira brutal, como nunca pensamos que seria possível.
Relutei em falar no fato que mais me impressionou nos últimos tempos: a cabeça de um homem jogada no meio de uma rua movimentada de Madureira. A cabeça de um homem!
Já não esperamos a invasão dos bárbaros, como no livro de Cotzee. Eles já chegaram, estão em todas a parte e crescem ante o nosso medo. Se bobear, seremos as próximas vítimas, ou quem sabe faremos parte deles. A extrema violência é o resultado da extrema violência. Já sabíamos no que ia dar. Apenas aguardávamos.
Pela consciência sem cor, deixo aqui um poema de 2001. O que mais posso fazer?
pena
122 anos de abolição e não estamos muito longe das práticas anteriores os negros carregam nossas cadeiras recolhem nosso lixo varrem nossa sujeira trazem mate mate-limão coca light se queremos trazem também a preta ou a branca se queremos se preferimos matar seguir matando eles nos trazem as armas e fazem o serviço sujo e se por acaso alguma coisa não der certo se por azar ou se Deus não permitir escapar do flagrante do inquérito do esquema eles vão mais uma vez pelo crime cometido por nós cumprir a pena 122 anos.
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11 de novembro de 2010
MOVIMENTO LITERÁRIO: UMA PROMESSA?
e me ajude na empreitada que, sabemos, não é fácil.
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
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3 de novembro de 2010
O OUTRO LADO DO DIA

A experiência não me permite mais grandes arroubos em se tratando de política, embora eu ainda sinta o gosto efêmero das vitórias. As decepções sempre caminham juntas.
Dilma, digam o que disserem, é uma mulher admirável. Não domina a oratória, como Marina, mas mesmo assim ela se saiu bem, ninguém precisa ser bom em tudo.
Nunca se distanciou dos objetivos a que se propôs ainda na juventude e aprendeu na luta por uma ideologia um caminho a seguir. Foi secretária de dois partidos diferentes no Rio Grande do Sul. Convidada por Alceu Collares, do PDT, para o secretariado do município e depois do governo do Estado, permaneceu com Olívio Dutra, do PT. A competência fica evidente aí, quando duas cabeças diferentes em partidos diferentes, reconhecem numa terceira pessoa condições de tê-la no governo na certeza da honestidade e do respeito ao serviço público. Yeda Crusius não tinha sido inventada.
Foi o ex-marido, o ex-deputado Carlos Araújo, a testemunha mais marcante que falou sobre ela. Disse que em casa não havia soco na mesa. Como ser delicada com os canalhas?
Não há nada que a desabone, no público ou no privado. As alianças fazem parte da política, e também do mundo dos negócios. Não sejamos inocentes.
Isso, meus amigos, não é para qualquer um, ou uma. O dedo do destino não aponta para a classe operária. Aponta para Lula. Não aponta para um negro, mas para Barack Obama. E nem para a mulher brasileira. Escolhe Dilma.
O que será daqui para a frente? Alguma coisa vai mudar? Tudo muda todos os dias.

