13 de julho de 2010

COM QUANTOS TAXISTAS SE FAZ UM BRUNO?

Os mais delicados dirão que não é bem assim, que há taxistas normais. Tudo bem. Mas sei também que os próprios taxistas concordam com o fato de que seus coleguinhas (e são muitos) há muito tempo abusam do que é possível abusar, que é exatamente o regulamento de trânsito e a paciência dos usuários.
Por que? Porque não há nada que os impeça. Nem ética nem polícia. Nem segurança nem respeito ao outro. O que tenho visto (e vocês terão certamente outros exemplos) é a falta de educação generalizada e uma petulância que não aconteceria se o passageiro não fosse, muitas vezes, tomado pelo medo. Pensamos: se ele está fazendo isso e eu reclamar, ele é capaz de fazer pior. E então calamos. E aí ele faz pior porque calamos. Assim é desde que o mundo é mundo.
Para quem não sabe, na semana passada um grupo de taxistas espancou um colega que pretendeu pegar uma passageira no aeroporto do Galeão. Pretendeu, porque seus colegas o ameaçaram, perseguiram-no e deram-lhe uma surra que o deixou desacordado. Os guardas (o vídeo mostrava) olhavam para o corpo do taxista e hesitavam em tomar ou não alguma atitude. Mas sempre há alguém que vê o que se faz pretensamente escondido.
Por que isso acontece? Porque a polícia não coíbe os abusos, dos quais ela mesma leva a taça.
Ora, se um taxista, que não ganha lá muito bem, pode acordar um irracional dentro de si, isso significa que o monstrinho está lá, e dorme. Mas de vez em quando acorda e distribui um tabefes, no mínimo uns palavrões, sem que nada se faça contra ele.
Agora vejam o caso do goleiro. Pobre, sem educação, sem ninguém que o instrua em relação a valores morais, e pelo visto sem a menor preocupação de instruir-se porque afinal milhões de pessoas nessas condições não resultam nisso. Deu no que deu.

Sabemos que não é só ele que se diverte espancando mulheres. Quando se diz festas, das quais muitos deles participam, trata-se no mínimo de um grupo de pessoas(?).

E o pacto de amizade eterna com seu amiguinho? Isso diz alguma coisa para vocês? Para mim diz muito. Por que um homem odeia tanto as mulheres?

Homens para quem mulher só serve para meter e espancar, capazes de matar e desossar, capazes de "pensar" em matar também a criança - esses homens não são gente. São a deformação do que foram as gentes, são aqueles monstros de que já falava o próprio Fernandinho Beira Mar, criados pelo sistema explorador, que se interessa de tirar dele a única coisa que tem para dar, que é jogar futebol.
O dinheiro lhes dá um nó na cabeça, perdem a consciência, não sabem quem são, e de repente tornam-se onipotentes.
Os jogadores são aqueles guerreiros que entravam na arena para matar ou morrer. E mesmo matando olhavam para os cartolas da época e viam que, entediados, o polegar dos poderosos virava para baixo, sem apelação.
Os taxistas por enquanto estão torcendo nas arquibancadas. Mas tudo indica que gostariam muito de estar na arena. E alguns talvez queiram se tornar goleiros.
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8 de julho de 2010

ESCOLHAS QUE NÃO DEPENDEM DA FIFA

Enfim, foi-se a Copa. Tudo passa.
Tratemos de outros assuntos: a Polícia Rodoviária Federal apreende 21,5 toneladas de maconha, marca record no Brasil - noticia o jornal O Globo neste 8 de maio.
O leitor pode parar para fazer as contas do que isso significa em termos econômicos para um país em desenvolvimento, acredite ou não que a maconha possa fazer algum mal ou que alguém vai deixar de usar drogas em geral porque alguns acham que não devam, e proíbam. Mas o que eu penso ou o que você pensa passa ao largo da realidade.
Os mais informados (não os que comentam notícias d´O Globo, por favor) podem pensar: mas por que tudo isso? E todos sabemos: as grandes decisões andam ao lado das melhores comissões.
De qualquer forma, toda causa precisa de clamor popular, e eu, que sou povo, clamo desse lado: LEGALIZE!
Meu candidato, portanto, não pode ser ninguém menos do que Renato Cinco, que conheço há alguns anos e tem mantido firme a bandeira que é também a minha. Conheci-o por meio de um filme feito por ocasião do I Forum Social de Porto Alegre (ainda uma esperança) e senti firmeza no seu discurso. É um homem de coragem, e isso, posso dizer, não é pouca coisa. E também: Renato Cinco não tem vice, o que nos dá um certo alívio, frente aos vices da atualidade, e com certeza não amealhou os milhões declarados de tantos dos nossos candidatos.
Para quem não conhece, apresento meu candidato:


Renato Cinco 5055



Deputado Federal nº 1
http://www.renatocinco.com.br/


LEGALIZAÇÃO DA MACONHA JÁ!

Após quatro décadas de “guerra às drogas”, todo o dinheiro gasto, a prisão de dezenas de milhões de pessoas no mundo todo, as inúmeras mortes causadas por disputas entre quadrilhas de traficantes ou pela repressão a elas, é preciso reconhecer que a proibição das drogas fracassou completamente, no mundo inteiro. Os seus resultados são a expansão da população carcerária, o incremento da violência dentro e fora das prisões e a disseminação da corrupção. As drogas proibidas estão mais potentes, mais baratas e mais acessíveis, e o tráfico está mais rico do que nunca.

Os objetivos declarados da “guerra às drogas” – a redução da criminalidade, do abuso de drogas e da dependência química, do uso de drogas pela juventude – nada disso foi atingido. Pelo contrário, a situação só piorou, no Brasil e no mundo. O cenário atual é o de uma política absolutamente falida, que só faz cobrar um preço cada vez maior em vidas humanas e recursos públicos. Os mortos e encarcerados, na sua quase totalidade são jovens, negros e pobres. Os campos de batalha são as favelas e as periferias dos grandes centros urbanos. Nada disso é coincidência, a “guerra às drogas” é na verdade uma guerra aos pobres, uma insanidade autoritária que precisa acabar o quanto antes.
Para salvar vidas e reduzir drasticamente a violência em nossa sociedade, para parar de jogar no lixo o dinheiro dos contribuintes, é preciso acabar com a proibição das drogas. Um sistema legal de controle da produção, inclusive do cultivo para consumo próprio, e da distribuição dessas substâncias seria de longe muito mais efetivo e ético do que o desgastado e corrompido mecanismo repressivo de hoje. A legalização das chamadas “drogas ilícitas”, especialmente da maconha, é uma imposição da vida real, que derrotou impiedosamente o moralismo proibicionista. Em defesa da vida, da liberdade e da paz.


Festa do Cinco

Balaio Cultural Rua dos Inválidos 204, Lapa

Sábado, 16 de julho, 23h

Inteira R$10 - Meia R$5 - Lista Amiga R$20


Renato Cinco ficou conhecido do público pela sua militância na Marcha da Maconha, mas a sua trajetória começou muito antes.

Renato Athayde Silva nasceu em 1974 no Rio de Janeiro. É graduado em Ciências Sociais pela UFRJ, trabalha no Gabinete do Vereador Eliomar Coelho e é responsável pelas relações do Gabinete com os movimentos sociais.

Militou no movimento estudantil secundarista e participou ativamente das lutas estudantis da sua época: contra os aumentos de mensalidades das particulares, por passe livre nos ônibus, por meia-entrada nos cinemas, contra o sucateamento das escolas públicas.

Foi vice-presidente da Associação de Moradores e Amigos da Praça Saens Peña.

Na UFRJ, foi coordenador do DCE Mário Prata e do Centro Acadêmico de Ciências Sociais, representante dos estudantes no Conselho Universitário (CONSUNI) e uma das lideranças do movimento pela democracia e pela autonomia universitária contra a nomeação pelo governo FHC do candidato menos votado para reitor da UFRJ em 1998.

Em 2004, Cinco ajudou a organizar o PSOL e iniciou sua militância pela legalização das drogas. Em 2006 foi candidato a deputado estadual.


BASTA DE GUERRA AOS POBRES!

27 de junho de 2010

SARAMAGO NA ILHA - ALCIDES BUSS


Como escrever a todos que me respondem, por meio de comentários ou não? Fico tocada pela graça, muitas vezes lisonjeada. E até hoje só recebi uma resposta nervosa, de alguém que não quer nem ouvir falar em drogas. Pois muito bem. Existe até mesmo o direito de não querer ouvir, mas ignorar será uma posição inteligente? É preciso ouvir sobre tudo, ler, esmiuçar, e só então firmar uma opinião.
Mas ainda acho que o assunto drogas não se sobrepõe aqui a outros. Alguns hão de dizer: poesia é mais importante. Mas poesia é liberdade. E como consagrá-la escanteando alguns temas? Acho difícil.
De qualquer forma, não estou hoje para polêmica. Prefiro presentá-los com o poema de Alcides Buss, poeta catarinense leitor deste blog e de quem sou leitora. Assim são as coisas e assim se movimenta a comunidade poética.
Frente à poesia, nada mais a dizer. Fiquem com ele:

SARAMAGO NA ILHA

Alcides Buss

18 de agosto de 1999.
Sentamo-nos juntos, à beira-mar,
celebrando a arte da palavra.

Ali estavam escritores,
sonhadores incuráveis, e em fotografias revelaram-se felizes.

Falei dos mortos que protestam
em Antares, de Veríssimo.
Em silêncio, ele ouviu.

Falou dos vivos que se calam.
Em respeito, silenciei.

Então versamos sobre as ilhas.
A dele – foi dizendo – não tinha nada
da verde exuberância desta aqui.

A nossa – disse eu – tem agora
um pouco da distante Lanzarote,
um tanto das Canárias.

Brindamos à mútua nostalgia.
Formávamos, sós, o arquipélago
onde o mar é o verbo
que dia-a-dia nos redime
dos imensos vazios do existir.

www.alcidesbuss.com

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24 de junho de 2010

CONFLITO

a imagem traz homens casando com meninas.
elas trajam vestido de noiva e parecem caricaturas
de noiva como conhecemos. pequenas mulheres
entregues ao sacrifício.

nós, ocidentais cristãos
não toleramos diferenças
matamos índios, negros, judeus ou afegãos,
sem distinção de sexo ou idade

e queremos justiça para todos.


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18 de junho de 2010

LUTO EM VERMELHO


A amiga me liga pela manhã para me contar. Foi assim que eu soube, por telefone, como se recebe a notícia da morte de um parente. Estamos viúvas, ela disse, e chorava. Mas eu sou forte, ainda consegui dizer à doutora que não tomo remédios, não tenho deficiência física e a pressão é boa. E daí, o que importava isso? José Saramago estava morto, e eu pensava primeiro no mundo, depois em Pilar del Rio, porque a ela sim foi dada a sorte de ter se tornado a amada do escritor. Foi para ela que ele escreveu a mais linda dedicatória que já vi: "A Pilar, como se dissesse água". E será ela, certamente, quem mais sentirá a falta dele.
Temos os livros, e a eles voltaremos quantas vezes quisermos. Ela não. Não mais a convivência em Lanzarote, não lerá os originais em primeira mão, não trocará com ele as carícias possíveis, não recolherá os silêncios em que trabalhava.
Para nós foi-se o grande escritor, um humanista que se teimava comunista, o anti-clerical por natureza (e acho que se divertia com isso). Um homem de talento, mas de igual coragem, que se aprendeu e se fez homem em condições difíceis, sem nunca esquecer. Mas para ela foi-se não só o grande escritor, o homo politicus que apontava os vícios neoliberais, o desvario belicista, a intolerância, foi-se o homem que amava, deixando mudos os espaços do entendimento, a casa, a sala, a cama, a intimidade. Escrevo isso porque uma das coisas que mais me chamava atenção na obra de Saramago era sua consideração pelas mulheres, pelo sentimento feminino que tão bem apreendeu, pela importância que reconhecia e conferia à mulher. Daí porque imagino com que delicadeza devia tratar sua Pilar.
Depois pensei em mim, na minha própria tristeza, na certeza de saber que perdi aquele que era meu deleite, fonte de compreensão, orgulho da espécie, que eu sempre achei que o artista deve ter um papel político, deve dizer o que pensa, deve assumir o que sente. Ele era assim. E quem mais? Me diga por favor que eu quero saber.
Em casa, não pude fazer mais nada que pensar, pensar em que talvez o poema de Idea Vilariño postado há dois dias, Pobre Mundo, tenha vindo ao encontro desse acontecimento tão temido, tão indesejado e tão previsível. Que ao morrer o escritor, o poeta, o incansável lutador, nossa voz ficou ainda mais fraca porque era ele, com sua coragem e lucidez, que nos abria os olhos para os equívocos dos caminhos obscuros que aceitamos percorrer.
E então fui à cozinha, e chorando sobre pimentões vermelhos e berinjelas pensei no luto vermelho daqueles que não podiam nem chorar, que precisavam se esconder para prosseguir, calar a respiração a bem de se manterem vivos, retrair-se para avançar, e sempre engolir o choro. Agora podemos chorar alto, falar palavrão, reacender as dúvidas. Mas porque aprendemos (ou ainda não?) a lição de Saramago: "Já estamos a viver neste planeta como sobreviventes. A cada dia que amanhece temos que fazer o possível para sobreviver. E devemos fazê-lo como insurgentes sistemáticos". Talvez assim descubramos, cada um de nós, o segredo da ilha desconhecida.
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16 de junho de 2010

SOBRE O URUGUAI


Idea Vilariño ( 1920-2009)


Ouço pela janela que a seleção do Uruguai goleou a da África do Sul. Fiquei pensando no barulho que os uruguaios estarão fazendo por lá, atravessando o frio de prata, berrando anos de pobreza, enlouquecendo ainda pelos gritos sob tortura que jamais se calaram e cujos reflexos há pouco elegeram Mujica.

Que vá essa alegria ao Uruguai, ele precisa e merece. É resistente, é duro, de ferro. E o olhar no horizonte, tanto e tanto, às vezes quer vulcões, montanhas, mares de verdade.

Por mim, de futebol só gosto de ver filmes sobrfe. O que é o resto, para mim, não interessa. Me interessa contar-lhes que andei por lá e de repente me olhava da estante do Museo Torres Garcia a Poesia Completa de Idea Vilariño. E essa poesia sim, é algo de que um país deve orgulhar-se (e se orgulha), porque lá se lê. Por isso trago Idea, e falo assim, Idea, como se sempre a tivesse conhecido, como se a tivesse visto caminhando pela casa, morrendo tantas vezes de amor fracassado, escrevendo, os olhos tristes, vagando, escutando a escada, em diária e constante despedida.

POBRE MUNDO

(Trad. de Sérgio Faraco)


Vão desfazê-lo
vai voar em pedaços
no fim rebentará como uma bolha
ou explodirá glorioso
como um paiol de pólvora
ou mais simplesmente
será apagado
como se uma esponja molhada
apagasse seu lugar no espaço.
Talvez não o consigam
talvez venham a limpá-lo.
E perderá a vida como a uma cabeleira
e ficará girando
como uma esfera lisa,
estéril e mortal
ou menos belamente
andará pelos céus
apodrecendo lentamente
como uma chaga só
como um morto.
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CADA TARDE

Cada tarde que finda
formosamente morre
e cada um
cada um?
admira a formosura e sabe
sabe?
que é mais uma que morre
mais uma que se acaba
mais uma que se perde
mais uma que é nunca
mais uma
menos uma.
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ESSA ESTRELA

Essa estrela o que quer.
Ancorou na minha janela
quase à altura dos meus olhos
e ali está pulsando
ou fazendo sinais
ou sei lá
olhando
deixando que a veja
enorme como um punho
um punhado de luz
sobre a sombra suave dos pinheiros.
Olho-a com rancor.
Estou aqui a ler
um formoso ensaio
sobre a Alegoria
e essa estrela respirando
ofegando em minha janela
me instala de repente
na noite terrível do espaço
do espaço o abismo o infinito
como se queira
e me despoja e me deixa
errando às cegas
errando não
ah não
arrastada
numa veloz imóvel pura
respiração de gelo.
Arrastada levada
sobre esta chispa cálida
e suja e desvairada
que silva no escuro
lançada como um jet
para o nada para o nada.
E eu pobre de mim
lendo Alegoria.








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14 de junho de 2010

LÉLIA COELHO FROTA


( 1938-2010)


Morreu Lélia Coelho Frota. Quem conhece? Que jornal publicou o fato à altura da importância? Quantos críticos se debruçaram sobre a obra da escritora? Qual editoria realizou um tour de force para mostrar e registrar o valor e a abrangência de seu trabalho?
Eis a cultura nacional, o País onde os donos da cultura não estão interessados naquilo que forja a nacionalidade, que é justamente o conhecimento de um povo por si mesmo, o que Lélia fez durante toda a sua vida.
Os suplementos estão cheios de nomes norte-americanos que somos obrigados a engolir, traduções ridículas, perda de tempo, gasto de papel, livros que se vão sem que ninguém aproveite, com exceção das empresas que exploram o mercado da literatura.
Vá ao Google e saiba pelo menos quem foi Lélia Coelho Frota no cenário intelectual do País e até mesmo como representante do Brasil no exterior. Conheça o trabalho de pesquisadora no campo da arte popular, o seu papel à frente de importantes instituições culturais do País. Que foi poetisa premiada, amiga querida, trabalhadora incansável.
E a imprensa nos informa o quê sobre Lélia Coelho Frota?
Nada. É tempo de Copa, a paixão nacional, e nada mais existe. No entanto a paixão acaba. Mas a obra da artista não. Ela foi além do que pôde com todas as barreiras que à mulher são impostas. Esteve à frente e acima em inúmeros projetos e realizações. Construiu o que muitos não fizeram nem farão com igual talento e ética. Com igual sentimento. Para ela, Astrid Cabral escreveu o poema que segue. Os demais selecionei para vocês, são os poemas portugueses publicados no livro Menino deitado em alfa porque ler a poesia é uma forma de homenagear a autora, de mantê-la viva até quando não possamos mais. E passemos também.


Presentes de Lélia
Astrid Cabral

Uma rosa perpétua
a saudar o primogênito.

Campainha verde azinhavre
lembrança da Espanha.

Desenho de Milton Dacosta
embelezando minha sala.

Camafeu relíquia da Itália
para compor um anel.

Madona de Minas
talhada em madeira.

Caderno para anotar versos
em mimo pelo Natal.

O Divino Espírito Santo
artesanato de Paraty.

Livros, textos, conversas
telefonemas, mensagens
convites, encontros, festas.

E além calendário e espaço
a fonte constante do afeto
o doce calor do abraço
seu amor sempre presente.


Princípio
Lélia Coelho Frota


A morta abriu o dia radioso
com a cortina da sua despedida.
Partiu no meio os cabelos vagarosos
escorrendo ainda de lembranças,
vestiu o vestido precioso
e saiu à procura, sôfrega,
de outras tantas,
verdadeiras vidas.




Litoral (poemas portugueses)

Estávamos um diante do outro
como um só espelho de ouro.
Entre nós corria o rio rubro
e era tempo de despedida.

Portugal, Espanha ou as cícladas
é tempo, mas de frutas cítricas
para ter nas mãos a colhida,

ácida, consentida, súplice vida.

Liberdade

Passo pelo fio
de pérolas do Rossio:
não quero comprar flores,
quero ver o rio.




Uma dor


O vento soprava árvores da esquerda
Ao fundo, o menino tocava o violão preso no ombro,
como um pequeno navio adernado.
Uma dor
no mundo
rachava tudo fino e longe,
cinema mudo.

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