2 de janeiro de 2014

CORAGEM, O MELHOR JÁ PASSOU!

                                              Helvio Lima


A frase é de um filme do genial Ettore Scola, La Terrazza, que se passa numa festa onde circulam intelectuais italianos, gente de cinema e jornalismo. O elenco tem Vittorio Gasmann, Jean Louis Trintignant, Marcello Mastroianni, UgoTognazzi e Stefana Sandrelli. Nada mau, não é? O cinismo e o conformismo marcam o ritmo das situações que ligam os personagens. 

O título desta postagem tem a ver, naturalmente, com a passagem do ano. Há muito tempo passo pela mudança de ano, até que um dia ela começou a passar por mim. Hoje já nem sei se nos encontramos, tão rápido é o tempo, tão lenta a passagem. Sei que é no cinema que me encontro, dentro dos filmes que revejo e que me levam a outras épocas, a outras pessoas, e é assim que vou compreendendo, sobrevivendo, vivendo a arte. Devo isso principalmente aos filmes que tinham o que dizer, e que ficaram para sempre na história do cinema, ao contrário de outros, caríssimos, que não duram uma temporada.



A brasileira membro do Greenpeace,  por quem certamente pediram todos aqueles que não aceitam a intolerância e o autoritarismo, voltou dizendo que é contra o pré-sal, e eu achei bom, é claro, porque é uma voz em sintonia, mas depois disse que ia agora defender as orcas. Nada tenho contra as orcas, mas talvez o Greenpeace não impedisse a extinção dos dinossauros e outros que vieram depois, na evolução natural das espécies.


"Nossa" Ana Paula esqueceu-se dos "nossos" índios, que estão a perigo e também em extinção. Nossos antepassados, os índios, os guardiães da terra quando chegaram os descobridores, leia-se invasores, que os massacraram  e massacram até hoje, tomando-lhes a terra fértil, invadindo as reservas, ensinando-lhes o que há de pior, até que sejam totalmente extintos e as terras possam, afinal, ser desmatadas em paz e transformadas em dinheiro para os madeireiros e seus bandos. 
Se o Greenpeace dirigisse os olhos para os nossos índios, que não são baleias nem tartarugas, mas gente, gente nossa, seria um grande feito. O Estado brasileiro comete um crime infame sem que haja uma decisão de fato. É infame. Invadidos, roubados, terras confiscadas, incêndios, ataques, violência, os índios nunca foram vistos como gente. A história da preservação da terra e da cultura indígena é puro cinismo. Vão matando aos poucos até que caibam todos numa oca. 
Mas os ativistas preferem as orcas. Enquanto isso, destrói-se um manancial de conhecimento, arte e cultura.

Não agradeci ainda aos caros amigos que se manifestaram por ocasião da morte de Sócrates, o gato. Fiquei grata e percebi que o ser humano mais se compadece com a morte de um animal, mesmo desconhecido, do que com outras questões de que tratamos, como política, polícia e poesia, porque esse fato traz a lembrança de cada um o convívio e a perda do seu próprio animal, a lealdade com que contava e a dedicação desinteressada, coisas raras em seres humanos, hoje.  

Não tenho projetos para 2014. Pretendo realizar alguns que não cumpri em 2013, como a leitura de livro inédito de Alexandre Guarnieri, Corpo de festim; do Mafuá do Maluco, de Agilberto Calaça, e d´O homem dos patos, de Diana de Hollanda.


Li as Histórias para lembrar dormindo, de Bráulio Tavares e A Estranha morte do Dr. Antena, de Mário de Sá-Carneiro. Também o livro vencedor do prêmio Portugal Telecom, O Sonâmbulo amador, de José Luiz Passos, de que gosteibastante. E senti muita, muita falta de José Saramago, minha leitura certa de final de ano, encerrada em 2010. Posso reler, é claro, mas não eram só os livros, era a presença dele no mundo que me consolava.


Quanto à legalização da maconha pelo Estado do Colorado, em terras norte-americanas, não chega a me entusiasmar. Se o preço for tão caro como prometem, não irá ajudar em relação ao fim do tráfico. Será, mais uma vez, apenas uma saída (ou entrada) para o lucro, sem preocupações sociais, lugar comum do capitalismo. O que não se sabe é porque foi uma comissão dos EUA ao Uruguai logo depois que o projeto da legalização foi aprovado pelo parlamento. Terá sido para aprender ou para assustar?

Preparemo-nos, pois. 2014 vem aí com Carnaval, Copa e eleições. Não vai ser fácil. Coragem, brava gente, o melhor já passou. Enfrentemos o que virá. E aproveitemos todos os momentos que pudermos perceber de sossego, criatividade e alegria. Sim, eles existem, mas atenção: em um segundo já se foram, um gesto os afasta, um vôo os espanta.
De resto, não sejamos ingênuos. Não existe paz armada. Nem justiça que tarda. Nem democracia racista. Há muito para caminhar. Fiquemos juntos. E sigamos com o sonho, sem o qual também não existem razões para viver.


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29 de dezembro de 2013

UM ADEUS

O mês de dezembro sempre é pautado por mortes. E lágrimas inevitáveis. 
Ontem mesmo, 28, foi-se Sócrates. Como o filósofo, não veio para agradar. Manteve distância de tudo quanto não lhe interessava (que era quase tudo) e era econômico nos carinhos. Muitas vezes me arranhou e o faria mais se eu não descobrisse, em seu olhar fixo e profundo, a iminência do avanço. Eu o punia com a expulsão da cama e mais uns dois ou três dias de medo (meu).
Quando ele chegou, criei uma falsa expectativa de que pudesse ser como Hamlet, um outro gato que tive e que, esse sim, me amava. Mas Sócrates era de outra estirpe. E no fundo, era um pouco como eu, que amo sem gritar.
Verdade que era omisso, o meu bicho. Escondeu-se em situações de risco, e só aparecia muito depois, na maré baixa. Mas esteve comigo em momentos de comunicação zero com o mundo, em que passamos dias distraindo-nos um com o outro até o sol sumir. Ou na cama, esperando que a chuva desse trégua e pudéssemos buscar algum sinal de vida.
No mais, era a rotina. Olhávamo-nos, ele me pedia. Qualquer coisa, nada, às vezes. A minha atenção exclusiva, com certeza. E eu atendia ou não. Era muito ousado, esse Sócrates que povoou meus dias. Era lindo e o azul dos seus olhos está agora espalhado em todo o céu que o recebe, num paraíso de gatinhos, com muita água e comida, e sombra, e carinho no pescoço, revirando-se no espaço, as patas para cima, rolando, brincando entre nuvens. Bebendo água na mão de Deus.

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18 de dezembro de 2013

CORJA



Daniel Santos 



Saiu pela porta da cozinha de bermuda e chinelão, sem dizer aonde ia. Bateu o portão com o mau-humor de sempre, ainda mais que a salsicha do almoço lhe dava azias, e imiscuiu-se na turba a caminho do estádio.

Sem perceber, muniu-se de uma ripa encontrada junto ao meio-fio e golpeava com estardalhaço a grade de ferro das casas e a porta de aço das lojas, enquanto emitia grunhidos, talvez, de um arcaico idioma da fúria.

A musculatura das costas tensionou-se até vergá-lo um pouco para a frente, os punhos enrijeceram-se como os de um pugilista na véspera da revanche e ele prosseguiu sempre pisando de calcanhar como um militar.

Pouco antes de entrar no estádio, urinou junto a um poste como um vira-latas, sem se intimidar com a multidão à volta, e quase atirou fora a ripa. Mas, não. Resolveu guardá-la consigo. Vai que seu time perdesse...

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RAPIDINHAS DE TV E OUTRAS INSEGURANÇAS

*  Primeiro dão à polícia aqueles patinetes ridículos. Com aquilo o policial não pode perseguir ninguém. Se o ladrão, em Ipanema (onde há polícia), assaltar uma pessoa e sair correndo, é claro que aquele brinquedo não vai pular o canteiro. Em dois toques, perdeu. Para que patinetes? Os policiais estão muito gordos, precisam fazer exercícios. Por que todo o mundo precisa fazer exercício e os policiais não? Apertar o gatilho é exercício?

Agora a polícia se emboneca para o Natal. 
No Rio Grande do Sul os policiais rodoviários já estão usando os equipamentos que filmam a abordagem. Talvez isso prejudique os bebuns de plantão, talvez iniba a falta de preparo da polícia nessas abordagens, já que afinal é ela quem executa e esconde o corpo dos escolhidos. Dizem os técnicos que é bom porque os policiais ficam mais altos. Grande coisa! O policial precisa elevar-se por sua atitude, e não por ficar um palmo acima do cidadão para amedrontá-lo. 

E não bastasse o notório caso de Amarildo, outras pessoas seguem sendo baleadas e mortas sem chegar à delegacia ou ao hospital. Tudo é resolvido dentro do carro mesmo, ou logo ali, onde certamente as câmeras estarão desligadas. 

*  A apresentadora do jornal da Globo classificou de "inacreditável" o fato de terem roubado a imagem do Menino Jesus do presépio montado em Madureira. Que bobagem.
O pior foi eu ter encontrado uma imagem do Menino Jesus no lixo da Igreja Santa Terezinha, ao lado do Rio Sul.  Quem roubou a imagem do presépio de Madureira quis tê-la, em princípio. Quem jogou fora a imagem da igreja não quis. Quem joga uma imagem do Menino Jesus no entulho? O sacristão? Os carolas? Sei não. Eu, que não sou católica nem dada a imagens de santos, guardei o menino.Vá que Santa Teresinha precise. 

* O mundo inteiro se movimentou para as homenagens a Mandela. Os políticos tiraram fotos e cochicharam, divertiram-se enquanto cumpriam os ritos. Enfim, fizeram o que sempre fazem quando morre alguém que mantiveram preso, humilharam e não defenderam: compareceram em peso e fizeram suas exaltações.
No Brasil, a Globo celebrou a vida do líder e sua atitude pacificadora, mas o apartheid é cada vez maior. As prefeituras retiram dos prédios públicos as pessoas que os invadiram por não terem onde morar. Ou cortam a luz, como fizeram há pouco em São Paulo. Ou criam novos quilombos, como acontece em Salvador, para se protegerem da polícia. Ou enxotam os índios, como fizeram ontem e desde a primeira invasão,que chamam descobrimento.
Mandela, e outros antes dele (poucos) ensinaram a lição, mas o Brasil é aquele estudante relapso que não quer saber de nada e pensa que é eterno. 

* Ontem os índios foram expulsos do protesto que faziam em frente ao Museu do Índio. Ontem a tv mostrou os acampamentos que se formaram no centro de São Paulo por pessoas despejadas pela Prefeitura. A Prefeitura diz que vai dar lugar para morar, mas corta a luz de onde eles já estão morando. Os prédios públicos desativados poderiam abrigar toda a  população de rua.

* A Casa Daros, recuperada, deveria ser um colégio público.

* Há algum tempo os professores passaram a levar alunos aos museus. Depois eles voltam para os seus lares e encaram a realidade. Ouvem funk ou pagode, jamais vão ao cinema ou ao teatro. Se perdem nas redes sociais ou nos becos anti-sociais. Ganham se não morrerem de tiro. 
Os delegados estão otimistas. 
Até o próximo capítulo da novela onde, afinal, conclui-se que toda a trama foi feita para vingar a pessoa errada. Se vingança já é baixaria, imagina o erro de pessoa.
Muito educativa, a tv.     

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12 de dezembro de 2013

LA MARIHUANA ES LEGAL

La marihuana es legal por los votos de los 16 senadores del Frente Amplio 




Oí, Helena.
Finalmente ocurrió. Costó muchísimo trabajo, muchísimo.
Cada cambio, cada paso hacia la libertad demanda enorme esfuerzo.
Abrazo
MM

E foi assim que fiquei sabendo, por informação de um querido amigo, de um daqueles fatos que mudam o mundo. 
Outra vez Uruguay!
A governá-lo, um lutador, desde sempre idealista. A acreditar, um povo que lê e pensa a pátria com liberdade para todos.  
Pepe Mujica entra para a história em vida. E que história! E que vida! 
A legalização, a produção, o controle da venda da maconha, os limites, o plantio caseiro. Tudo isso foi estudado não do ponto de vista dos armadores, mas dos pacificadores. A repressão jamais será instrumento para a paz. 
Nem se fale nas pressões que sofreu dos interessados na guerra às drogas, já tão conhecidos. E o triste papel dos fanáticos que acham que podem deter a história. Mujica venceu, é isso. Porque chegou a hora, assim como chegou a sua hora de ser eleito Presidente.
Ficou claro que se trata de uma experiência em que o país buscará outra forma de diminuir os conflitos que causam tantas mortes pelo mundo, e que só tende a aumentar, com o ódio e a intolerância. A idéia é experimentar outra coisa. E é o que fará. Porque está atento ao que acontece no mundo, que também é o seu redor. Porque não carrega vaidade ou pompa, porque seu desejo é humanizar a vida daqueles que permanecem compañeros - o povo inteiro.

Sim, é preciso esperar. É preciso resistir e desejar esperando. E preciso esperar e ser muitas vezes vencido, e indignar-se, e novamente tentar os degraus e as quedas até que chega o dia de uma enorme, indescritível, beatífica sensação, sentimento, graça talvez demais talvez quem sabe eu não mereça nem suporte mas sim. 
Escrevo sem inveja, não me dou a fundamentalismos. A alegria não tem pátria. Ela é um sentimento, um clamor, um clímax. A alegria que vem de uma vitória. Não a vitória da competição feroz, mas dos argumentos e dos exemplos. É doce e amigável essa vitória. É uma vitória de milhões  É azul e branco. Tem um sol nas mãos. 
E se eleva para o verde.
Um dia, espero, será verde e amarela. 

6 de dezembro de 2013

MANDELA E O MUNDO

Pelo tempo que existo, é natural que tenha hoje guardados em mim mais mortos do que vivos. E dos ídolos, foi-se agora o penúltimo. Nelson Mandela, última representação da esperança de paz e de entendimento entre os homens. 
É possível que muitos tenham o mesmo desejo ou crença, mas não um como Mandela, que veio com papel definido, como nascem os grandes. Chegam com a força de espírito que tudo suporta e consola, e ainda oferece à causa 27 anos da própria existência. 
Ainda ontem, quando soube de sua morte, quando ouvi na televisão as palavras de conciliação que a mídia editou, também ouvi os gritos em Soweto, perseguidos pelas armas e ódio brancos. 
Mandela, no entanto existia. Preso, incomunicável, era também um silêncio de coragem. E essa coragem lhe era retribuída pela resistência do povo segregado. Há tempos ele vinha sendo o líder na busca da liberdade. Já havia mostrado que sua luta era um destino assinalado.

A trajetória se assemelha à de Gandhi, no que se refere à busca do entendimento. Os inimigos - os mesmos. Sempre os brancos, com sua sede de dominação e superioridade. 

Há pouco tempo os índios tentaram entrar no Palácio em Brasília e foram rechaçados. Por que esse descaso com os índios? Significa dizer com a natureza, com a ciência, com a saúde, com a cultura. Os índios hoje são tão poucos que tudo se resolveria a contento se alguém quisesse corrigir o erro, alguém que pensasse sinceramente no bem desses brasileiros que, afinal, já estavam aqui quando Cabral chegou. Foi a primeira mentira inventada para a nossa história. Quem pode descobrir o que já está povoado? 

Cada país vive as suas mentiras. A nossa é dizer que o País não é racista, mesmo tendo à frente a crueldade com os índios e as estatísticas do sistema prisional quanto à escandalosa maioria negra.

O que não temos mesmo é alguém que se faça ídolo, tão grande e justo que não pairem jamais dúvidas sobre seus objetivos. Alguém que honre a própria história e a história do mundo. 
Não temos.
O que temos é muitas montanhas a escalar. 

1 de dezembro de 2013

DOS BLACK BLOCS À BLACK FRIDAY



O que foi que aconteceu com as manifestações? As reivindicações foram atendidas? Houve uma combinação tácita entre todos os queixosos pra deixar pra lá? E toda aquela esperança represada que nos tirou do marasmo? E o grande índice de aprovação da população aos protestos? E o medo dos políticos?
Terei sonhado com o que aconteceu? Para onde foi o grito das ruas? Aceitaram a incompetência? Teremos um pouco mais de paciência? Adotamos a black Friday, mais uma indigência consumista importada dos EUA, o país em que o FBI trucidou os Black Panthers. - 
Que tendência para o pior!
Tudo cansa e enoja. O que é real é mau. O mal é certo e logo vem.

Deixo-lhes por isso, nesse domingo negro em que o Rio parece Macondo, a primeira peça do poema "Três peças dispépticas", de Paulo Henriques Britto, do livro As formas do nada.
Acho que combina.

I

É aqui mesmo, sim.
Você era esperado.
E por falar nisso,
chegou atrasado.

Não peça desculpas:
não adianta nada.
O atraso será 
contabilizado.

Não há a menor dúvida;
é este o endereço.
Mas fique sabendo:
tudo aqui tem preço.

Não esteja à vontade.
A casa não é sua.
E se não gostar,
por ali é a rua.

Já vai? É melhor
sair pelos fundos.
A sua partida
será esquecida
em cinco segundos.


...